Ramsay e os Graus Superiores – uma visão diferente

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Todo estudante da Maçonaria Europeia, principalmente se estiver interessado no desenvolvimento dos graus superiores e da Cavalaria na Maçonaria, encontrará o nome de Andrew Michael Ramsay. Esta figura enigmática ainda ganha atenção e sua suposta influência foi, por exemplo, um dos principais temas para workshops e trabalhos na Segunda Conferência Mundial sobre Fraternidade, Maçonaria e História em Paris, em maio de 2017. Ramsay merece a posição que historiadores lhe reservaram como uma peça-chave no desenvolvimento dos rituais Maçônicos. No entanto, sou da opinião de que os pedaços disponíveis sobre Ramsay, e o que se sabe sobre seu trabalho, bem como a época em que ele viveu, pode ser organizado para formar uma visão alternativa, que mostra que sua influência hoje é considerada um tanto exagerada.

Quem foi Ramsay?

Este não é o lugar para uma visão completa da vida de Ramsay, mas para os interessados, biografias detalhadas estão disponíveis em outros lugares[1]. No entanto, alguns eventos devem ser mencionados: Ramsay era filho de um ministro episcopal em Edimburgo e foi provavelmente nascido em Abbotshall, em Fife, em meados de junho de 1693. Completou sua educação na Universidade de Edimburgo em 1707 e foi empregado como tutor em uma família nobre em 1708. Posições semelhantes também devem ter sido o seu sustento mais tarde.

Por volta de 1710, ele deixou a Escócia, para a França, e poucos meses após sua chegada, se converteu à fé católica devido à influência do arcebispo Fénelon. Ramsay voltou para Escócia em 1715 para se juntar ao exército jacobita, foi capturado após a Batalha de Preston em novembro do mesmo ano, mas escapou e fugiu de volta para a França[2].

Em 1716, chegou a Paris, onde residiria até sua morte em 1743. De 1717 a 1722 trabalhou novamente como tutor. Seu empregador em Paris era um dos conselheiros mais próximos do regente francês, e há motivos para supor que esse relação foi fundamental para que fosse nomeado Cavaleiro em 20 de maio de 1723 da L’ordem de Saint- Lazare de Jérusalem, pelo qual adquiriu o direito de usar o título de “Chevalier” (Cavaleiro)[3].

Ramsay, no entanto, aspirava glórias maiores. Em Paris, ele fez contato com a alta cúpula jacobita, e em várias ocasiões expressou sua lealdade ao exilado James Edward Stuart (James III) como o legítimo rei da Grã-Bretanha[4].

Não está claro se Ramsay ainda era um defensor da causa Stuart, ou se ele apenas achou oportuno explorar as circunstâncias. No entanto, James Edward parece ter adquirido grande estima sobre ele. Quatro dias depois de ser Cavaleiro na França, ele recebeu a confirmação do pretendente de que era de família escocesa nobre e, em em 1724, foi chamado à corte dos Stuarts em Roma como professor do filho de James Edwards, Charles Edward, que tinha cerca de quatro anos de idade. No entanto, foi uma empreitada malsucedida, e Ramsay retornou a Paris em poucos meses. Continuou, no entanto, a manter contato com a comunidade jacobita e em 1735 James Edward o elevou a Barão Escocês. Ramsay também foi autorizado a passar seus últimos anos em Saint-Germain-en-Laye, o palácio dos Stuarts perto de Paris.

O Maçom Ramsay

Em 1727, Ramsay publicou com sucesso o romance Les Voyages de Cyrus. Em meados de 1729, viajou para a Inglaterra em conexão com a publicação da tradução de seu livro e ficou no país por cerca de um ano. Durante seu tempo na Inglaterra, foi nomeado Doutor em Direito em Oxford e eleito Membro da Royal Society. Em março de 1730 foi iniciado na Maçonaria. Isso aconteceu no Horn Lodge. Talvez o Loja mais prestigiada de Londres, onde Desaguliers e outras figuras-chave dentro da Royal Society eram membros[5].

Depois que Ramsay retornou a Paris de sua estadia na Inglaterra, há apenas informações indiretas sobre suas atividades como maçom. Em uma carta datada de 02 de agosto de 1737, Ramsay afirma que havia servido como orateur (Orador) durante várias iniciações maçônicas em Paris, e um de seus contemporâneos confirma que Ramsay era conhecido por fazer discursos em tais “Iniciações”. Acredita-se que o conteúdo de um manuscrito com o título 1736 Discours de M Le Cher de Ramsay prononce a la Loge de St Jean le 26 Xbre (Discursos do Cavalheiro Ramsay, pronunciados na Loja de São João, em 26 de Dezembro), preservados na biblioteca da pequena cidade francesa de Epernay, é esse discurso apresentado por Ramsay para novos irmãos. Supõe-se ainda que o discurso tenha sido usado repetidamente (pelo menos em oito ocasiões), mas pouco ou nada se sabe sobre quando e onde isso aconteceu, exceto em 26 de dezembro de 1736, como especificado no cabeçalho do documento[6].

No entanto, um documento semelhante está localizado na Bibliothèque municipale de Toulouse (Biblioteca Municipal de Toulouse), intitulado discours prononce à la réception des Francs-Macon (discurso sobre a recepção dos Franco-Maçons), por M. de Ramsay, grand orateur de l’orders (Grande Orador da Ordem). Este manuscrito (e versões posteriores impressas) segue o mesmo esboço como o documento de Epernay, mas a versão de Toulouse é cerca de 20% mais longa. Além disso, algumas partes são expandidas enquanto outras são reduzidas. A versão do texto também é conhecida em dois outros manuscritos, bem como em pelo menos quatro edições impressas no período de 1738 a 1743[7].

Como esse texto mais longo foi o mais distribuído, é razoável sugerir que foi a última de duas versões que foram produzidos e que a versão mais longa se baseia na primeira, mais curta. Cyril Batham acredita que esta segunda versão foi feita porque Ramsay foi convidado a falar em uma reunião na Grande Loja Parisiense em 21 de março do mesmo ano[8]. Apoio essa visão de que que Ramsay reformulou seu texto durante os primeiros meses de 1737, e existem argumentos que dão apoio a isso e que listo abaixo, mas também demonstrarei que as razões poderiam ter sido outras, além de uma reunião na Grande Loja.

A Maçonaria encontra oposição

Durante a última metade de 1736, a consciência pública sobre a Maçonaria começou a aumentar em Paris. Vários relatos descrevem a oposição do rei Luís XV a esse novo movimento, que atraiu vários jovens da nobreza muito ansiosos, e que mantinha reuniões em segredo de forma organizada (e, portanto, de conteúdo incontrolável). A pressão das autoridades estava aumentando, e o cardeal Fleury, ministro-chefe do rei, e Hérault, Lieutenant General de Police (tenente-general de Polícia), em Paris, começaram a procurar contramedidas. A campanha anti-maçônica parece ter começado com Hérault publicando o texto Reception d’un frey-Macon (A recepção de um franco-maçom), que supunha ser a revelação de um ritual maçônico, e tinha a intenção expressa de ridicularizar o Ordem[9]. Em 17 de Março de 1737 passou a ser considerado uma ofensa criminal oferecer instalações aos maçons e, em maio, maçons foram enviados para a prisão, embora muitos membros franceses estivessem protegidos de processos por sua alta posição social. Enquanto a polícia conduzia ataques contra Lojas, o conhecido Coustos-Villeroy Lodge, recebeu visitantes não convidados durante o verão de 1737 e, em setembro do mesmo ano, um dono de estalagem foi multado por hospedar uma Loja. Somente após a morte do cardeal Fleury, em 1743, essas condições melhoraram[10].

Ramsay entra em ação

Com essa situação em mente, pode ser plausível que Ramsay tenha editado seu discurso em uma tentativa de afastar a oposição que ele entendia estar sendo criada. Ramsay enviou sua nova versão ao cardeal Fleury apenas três dias após a proibição da atividade Maçônica entrar em vigor, e isso pode apoiar tal teoria. O mesmo pode ser dito para as mudanças no conteúdo do discurso: enquanto a primeira versão pode ser descrita como uma representação imaginativa da história maçônica, complementada pela iluminação filosófica e ênfase nas qualidades que eram esperadas dos maçons, a versão revisada parece ter outro propósito. Neste texto em particular, Ramsay é mais focado em apresentar os maçons como cidadãos leais dentro da comunidade, e que eles estavam trabalhando para melhorar os costumes e promover a virtude e a ciência[11]. Segundo Ramsay, um maçom, era obrigado a:

[…] Proteger seus irmãos por sua autoridade, iluminar por suas luzes, edificá-lo pelas vossas virtudes, ajudá-lo em suas necessidades; sacrificar todo ressentimento pessoal e procurar tudo o que possa contribuir para a paz, concórdia e união na sociedade.[12]

Esta segunda versão também tem um caráter claramente mais cristão do que a primeira, e as passagens frequentemente citadas que ligam a Maçonaria aos cruzados medievais podem ser vistas como um instrumento usado por Ramsay para corroborar que o ofício não estava apenas de acordo com cristianismo ortodoxo, mas também de acordo com a Santa Igreja Católica Romana. Ele abordou o tema cruzado na primeira versão, mas em seu retrabalho Ramsay expande o tema de uma maneira que pode dar ao leitor a impressão de que a Maçonaria contemporânea se via como herdeira desses antigos guerreiros em serviço da Igreja[13].

A maneira pela qual Ramsay conclui sua segunda versão também é significativa:

[…] A Arte Real está agora repassando para a França, sob o reinado daquele mais amável dos reis, cuja humanidade anima todas as suas virtudes e sob o ministério de um Mentor que realizou tudo o que poderia ser imaginado como fabuloso.[14]

Esse texto pode muito bem ser percebido como um chamado ao Rei para se juntar aos maçons e se tornar seu líder, bem como um convite semelhante a Fleury, que foi denominado como o “Mentor” no texto. Mais tarde, no mesmo ano, Ramsay revelou qual era o objetivo que ele realmente pretendia alcançar:

Se o cardeal tivesse durado mais um mês, eu teria o “mérito” de discursar para o rei da França, como chefe da confraria e ter iniciado Sua Majestade em nossos mistérios sagrados.[15]

Se esse discurso fosse proferido em uma assembleia da Grande Loja ou não, traria poucas mudanças. O objetivo principal era alcançar o rei com uma mensagem. Quando Ramsay envia o seu manuscrito para Fleury em 20 de março de 1737, ele está se referindo a uma informação planejada, pretexto para garantir uma resposta rápida, como ele pede ao Cardeal, para adaptar o texto como ele deseja e, assim, apoiar o trabalho de Ramsay na organização. Em sua carta a Fleury, Ramsay não mostra nenhuma consciência das restrições que haviam afetado a Maçonaria três dias antes, mas pode-se suspeitar que ele foi informado e isso o instigou a entrar em contato com o cardeal.

A resposta de Fleury não sobreviveu, mas dificilmente pode ter sido positiva. Ramsay agiu rápido para limitar o dano e, apenas dois dias após sua primeira carta, ele escreveu novamente para o Cardeal, afirmando que acabara de tomar consciência do ressentimento das autoridades contra a Maçonaria e pediu conselhos sobre como se comportar de acordo e, além disso, se ele ainda estava autorizado a participar de reuniões maçônicas. A resposta sucinta de Fleury é famosa: “Le roi ne le veut pas” (não é o desejo do rei). A conclusão das palavras do Cardeal devem ter sido óbvias, e Ramsay provavelmente se manteve no anonimato  no que diz respeito às suas atividades maçônicas nos anos seguintes.

Se a reunião na grande loja onde Ramsay deveria fazer seu “discurso” realmente foi planejada, ela deve ter sido adiada de 21 para 24 de março. Dada a difícil situação, parece que a reunião foi cancelada e não há vestígios de reuniões na Grande Loja naquele ano. Assim, o discurso revisado provavelmente nunca foi realizado[16]. Ao contrário do que foi assumido até agora, Ramsay não renunciou à Maçonaria após este episódio. Em conversa com dois alemães que visitam Paris em março de 1741, Ramsay se apresentou como o Grand Chancelier (Grande Chanceler) Maçônico da França e falou com entusiasmo sobre a Maçonaria[17].

A influência de Ramsay e seus discursos

Já foi discutido neste artigo que a segunda versão, a revisada, do discurso de Ramsay não foi concebida como um discurso a ser feito na Grande Loja, mas que foi criado apenas para convencer o Rei e seu ministro de que o movimento maçônico era benéfico para a sociedade e retratou os maçons como fiéis adeptos da Igreja e da Coroa. Depois que essa tentativa foi inútil, Ramsay e a Ordem Francesa esperaram discretamente alguns anos de repressão. No entanto, muitas vezes se afirma que o texto de Ramsay teve ótima – alguns diriam crucial – importância no desenvolvimento dos graus superiores da Maçonaria e das lendas cavalheirescas. Com base nas evidências históricas disponíveis, e não na lenda maçônica, é necessário desafiar algumas das verdades estabelecidas em relação a este tópico. A intenção não é a depreciação geral de Ramsay e a influência de seus textos.

No entanto, removendo mitos, pesquisas desatualizadas e conclusões infundadas, podemos obter uma imagem mais clara do que poderia ter sido sua contribuição, em vez de apenas redistribuir uma lenda. A seguir, quatro questões diferentes serão discutidas.

  • As lendas óbvias: Ramsay estava, em um estágio inicial, associado à invenção de novos graus maçônicos. Isso não deve surpreender, pois as versões impressas de seu discurso foram algumas das poucas fontes disponíveis para os primeiros estudiosos, e é compreensível que eles escolheram colocar suas teorias nos poucos nomes e documentos conhecidos. Já em 1802, Fessler afirmou que Ramsay introduziu outros graus em Londres em 1728, e isso foi repetido por Thory em 1815. Isso foi refutado mais tarde, no mesmo século, por Schiffman e Gould como alegações infundadas, mas a chama ainda existe[18]. Ramsay também foi associado à criação do Arco Real e do Rite Ancien de Bouillon (Rito Antigo de Bouillon), afirmações que da mesma maneira foram convincentemente rejeitadas[19]. Reivindicações não documentadas como esta, no entanto, ao longo dos séculos, estabeleceram uma forte conexão mítica entre Ramsay e a Maçonaria dos altos graus que se pode suspeitar que serviram de base subconsciente para pesquisadores mais recentes;
  • Os primeiros graus superiores – novas ideias: Até recentemente, a visão predominante entre estudiosos era que o conceito de graus superiores foi concebido na França na década de 1740. Nesse cenário, o discurso de Ramsay era como uma faísca que acendia o movimento écossais (Escocês), mas essa cadeia de eventos foi recentemente desafiada por novos fatos. As fontes disponíveis agora indicam que o primeiro grau superior foi trabalhado em Londres pelo menos já em 1733, e que esse grau (Mestre Escocês) foi introduzido em Berlim em 1742. Não antes do final de 1743 que se tem menção desse grau em documentos franceses, e então é claramente considerado como um ponto recém-formado[20]. Assim, se o berço do primeiro grau superior estava em outros lugares fora da França, as possíveis influências iniciais de fontes francesas como os discursos de Ramsay não são tão óbvias quanto antes;
  • O desenvolvimento de novos graus: Quando a ideia de graus além dos Graus Simbólicos acabou sendo introduzida na França, esse país tornou-se um ponto central para o desenvolvimento de novos rituais. Homens que se propuseram a desenvolver novo material ritualístico poderiam ter ouvido o discurso de Ramsay em uma ou mais ocasiões antes de 1737. O discurso também poderia ter sido realizado algumas vezes durante os anos seguintes, apesar de Ramsay provavelmente ter aparecido menos em público com suas conexões maçônicas neste período. Em teoria, ele poderia ter influenciado formadores de graus dessa maneira, mas se Ramsay veio a servir de inspiração para novos graus, é mais provável que isso tenha sido transmitido através das versões impressas dos discursos. A primeira versão de seu discurso parece ter sido impressa pela primeira vez em 1738 e conhecemos reimpressões e outras edições nos anos seguintes[21]. No que diz respeito ao conteúdo dos primeiros graus superiores, que tratavam principalmente do período imediato após a morte do Mestre Construtor, nenhuma das duas versões oferece tanto material quanto influência. A menção a Zerubbabel (Zorobabel) e “o misterioso livro de Salomão”[22] parece ser a parte mais relevante para novos graus, mas depois encontramos apenas os primeiros graus conhecidos no final da década de 1740 como, por exemplo, o grau Knight of the East (Cavaleiro do Oriente)[23].

A segunda versão do discurso de Ramsay foi impresso pela primeira vez em 1742. As principais contribuições inspiradoras nesta versão são, obviamente, as referências a “Nossos ancestrais, os cruzados”[24], a suposta união com os Cavaleiros de São João, como as primeiras Lojas foram criados por nobres que retornavam da Cruzada, e em especial como a Escócia era considerada como a conservadora na preservação das tradições[25]. Isso aponta para os graus cavalheirescos e tenho que admitir que a palestra encontrada no grau de Chevalier Elu (Cavaleiro Eleito), descoberta em Quimper e datado de 1750, mostra alguns paralelos com a segunda versão do discurso de Ramsay[26]. Um estudo mais detalhado dos primeiros rituais manuscritos pode revelar outras ligações mais detalhadas de Ramsay, mas em um nível meramente superficial.

  • Poucas ideias originais: O último fator a ser considerado ao discutir a questão do potencial de influência de Ramsay nos graus maçônicos é que uma quantidade considerável de seus textos consiste em plágios. Alain Bernheim analisou isso com mais detalhes e mostrou várias fontes de Ramsay que, por direito próprio, poderiam ter lhe inspirado[27]. Pode-se argumentar que Ramsay foi influente na montagem de material de diferentes fontes e, posteriormente, colocá-lo em um contexto maçônico, mas novamente, é preciso considerar que uma das fontes que ele mais utiliza é o Livro das Constituições de Anderson de 1723 que deve ter sido de conhecimento de grande parte da audiência de Ramsay.

Vale ressaltar também que John Coustos, depois de passar um tempo na prisão a partir de outubro 1742, deu o seguinte testemunho à Inquisição em Lisboa em março de 1743:

… quando ocorreu a destruição do famoso templo de Salomão, foi encontrado abaixo da Primeira Pedra uma tábua de bronze sobre a qual estava gravada [uma familiar Palavra bíblica que significava] ‘Deus’, dando assim a entender que esse Tecido e o Templo foi instituído e erigido em nome do dito Deus a quem era dedicado, esse mesmo Senhor, o começo e o fim de uma obra tão magnífica, e, como no Evangelho de São João, são encontradas as mesmas palavras e doutrinas que elas, por esse motivo, faça o Juramento naquele lugar.[28]

Esta lenda é certamente da história da igreja por Philostorgius (Filostórgio), e Coustos provavelmente está apenas explicando por que os maçons fazem seus juramentos no evangelho de São João. Bernheim, no entanto, mostrou que Filostórgio é uma das fontes de Ramsay (embora através de Claude Flery). O testemunho de Coustos, portanto, nos fornece o que possivelmente é uma tradição maçônica independente baseada nas mesmas fontes que Ramsay usava. O que parece ser inspiração de Ramsay em graus recém-formados pode, portanto, confiar em outras fontes também.

Epílogo

O objetivo deste ensaio não é uma tentativa de provar que Ramsay e sua obra maçônica foi insignificante ou sem influência. No entanto, acho peculiar que Ramsay regularmente recebe um lugar tão importante no desenvolvimento dos graus superiores, sem se raciocinar ou fornecer argumentos. Isso é notável mesmo em trabalhos acadêmicos, e parece que a importância de Ramsay é considerada um axioma. A posição de Ramsay como parte essencial da história da Maçonaria pode ser merecida, mas considerando novos conhecimentos e pesquisa, não podemos mais ver isso como tão evidente, e até que novas fontes sejam descobertas, o significado de Ramsay deve, na melhor das hipóteses, ser considerado indeterminável.

Autor:  Leif Endre Grutle
Tradução: Rodrigo Menezes

Publicado originalmente na  The Plumbline Volume 24, No. 2 (verão de 2017). – Revisado em março de 2018 e fevereiro de 2019.

Fonte: Ritos e Rtuais

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Notas

[1] – Ver, por exemplo, CN Batham, ‘Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, Ars Quatuor Coronatorum 81 (1968) e L. Kahler, “Andrew Michael Ramsay e seu Manifesto Maçônico”, Heredom 1 (1992).

[2] – C. Powell, ‘Novas evidências sobre o início da vida do cavaleiro Andrew Michael Ramsay’, Ars Quatuor Coronatorum 131 (2018).

[3] – Ordo Militaris e Hospitalis Sancti Lazari Hierosolymitani foi uma das ordens cavalheirescas fundadas durante as Cruzadas, tendo como principal tarefa cuidar dos leprosos. A Ordem tinha poucos recursos e estava prestes a ser dissolvida após a derrota final dos cruzados na Terra Santa em 1291. O rei Filipe da França ofereceu proteção à Ordem em 1308, ironicamente, apenas um ano depois que ele iniciou a perseguição aos Cavaleiros Templários. A ordem de Lázaro era, portanto, na época de Ramsay, uma ordem real da França, que também gozava de autorização apostólica do papa.

[4] – A. Bernheim, Alain, ‘Ramsay e seus discursos revisados’, Acta Macionica 14 (2004). Este artigo foi mais tarde expandido e publicado como livro em francês: A. Bernheim, Ramsay et ses deux discours (Paris: Edições Télètes, 2011).

[5] – Os membros proeminentes da Loja fizeram com que suas atividades fossem divulgadas na imprensa, e é um aviso de jornal que nos fornece os detalhes da iniciação de Ramsay. Batham, ‘Chevalier Ramsay. Uma nova visão ‘, 285 e RLD Cooper, The Rosslyn Hoax? (Hersham: Lewis Masonic, 2006), 39-43. A Loja se reunia originalmente na estalagem Rummer and Grapes em Channel Row, Westminster, e foi uma das quatro que uniram forças para formar a primeira Grande Loja em Londres. O Loja ainda é o número quatro na lista da Grande Loja Unida da Inglaterra e agora é chamado Royal Somerset House e Inverness Lodge . C. N. Batham, ‘A Grande Loja da Inglaterra (1717) e suas Lojas Fundadoras’, Ars Quatuor Coronatorum 103 (1991), 30-32, cfr. R. Berman, Schism. A Batalha que Forjou a Maçonaria (Brighton: Sussex Academic, 2013), 124-125.

[6] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, 291-292 e Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 17-23.

[7] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 20-22, e G. Lamoine, ‘Oração do Chevalier de Ramsay, 1736-37: Maçonaria na França ‘, Ars Quatuor Coronatorum 114 (2002), 233.

[8] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, 288.

[9] – AJB Milborne, ‘As primeiras exposições continentais e sua relação com os Textos Ingleses Contemporâneos’, Ars Quatuor Coronatorum 78 (1965), cfr. H. Carr, Harry (org.). As primeiras exposições francesas (Londres: 1971), 1-8.

[10] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, 305, W. McLeod,’ John Coustos: suas lojas e seu Livro ‘, Ars Quatuor Coronatorum 92 (1979), 116, J. Mandleberg, Rose Croix Essays (Hersham: Lewis Maçônico, 2004), 26.

[11] – Lamoine, ‘A Oração do Cavalheiro Ramsay, 1736-37: Maçonaria na França’, 234-235.

[12] – Lamoine, ‘A Oração do Cavalheiro Ramsay, 1736-37: Maçonaria na França’, 231

[13] – As duas versões podem ser encontradas dispostas paralelamente no francês original em Bernheim, Ramsay et ses deux discursos , 67-91. Para tradução para o inglês, consulte Batham, ‘Chevalier Ramsay. Uma Nova Visão’, 298-304 (reimpresso em Heredom 1 , 49-59). Veja Lamoine, ‘A Oração do Chevalier de Ramsay, 1736-37: Early Alvenaria na França ‘para uma tradução anotada.

[14] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 304.

[15] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 291. É concebível, no entanto, que a iniciativa de Ramsay teve o efeito oposto, e o conteúdo do documento enviado à Fleury pode ter influenciado o processo que terminou com a bula do papa contra a Maçonaria em 1738. A. Piatigorsky, Quem tem medo dos maçons? (Londres: The Harvill Press, 1997), 116.

[16] – A. Bernheim, ‘Letter to the Editor’ (Carta ao Editor), Heredom 5 (1996), 9-10.

[17] – R. Markner, Conversas de Anton von Geusau com Ramsay: Um Exame de seu Diário Original (Documento apresentado na Conferência Mundial sobre Fraternidade, Maçonaria e História , Bibliothèque Nationale, Paris, 27 de maio de 2017). Publicado como R. Markner, ‘Les conversations entre Anton von Geusau et Ramsay: Recherches sur l’original of son journal of voyage ‘, Renaissance Traditionnelle N o 189 (2018), 54-61.

[18] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 33-35.

[19] – WJ Hughan, Origem do Rito Inglês da Maçonaria (Leichester: Lodge of Research, No. 2429, 3a ed. JT Thorp, 1925), 80-82, e BE Jones, o Livro do Maçom do Arco Real  (Londres: George G. Harrap & Company Ltd, 1965), 41-43.

[20] – A. Bernheim, ‘Early’ High ‘ou Écossais Graus Originam-se na França?’, Heredom 5 (1996), 96-102. O manuscrito Kloss XXV-334, afirma que o grau Écossais Anglais (Escocês Inglês) ou Parfait maître Anglais (Perfeito Mestre Inglês) era pouco conhecido na França antes de 1740, e foi introduzido pelos maçons ingleses. Este é provavelmente o mesmo grau mencionado em 1743. Veja: L. Trebuchet, De l’Écosse à léscossisme. Tomo 2 – Volume 2 (Marselha: Ubik edições; 2015), 223-225. Recentemente, mostrei que é altamente improvável que o sueco Carl Fredrik Scheffer poderia ter sido iniciado em graus superiores em Paris em 1737, embora essa seja uma afirmação frequentemente repetida. LE Grutle, «Frimureriske høygrader – myter og fakta», Acta Masonica Scandinavica 17 (2014), 296-297.

[21] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 42-44.

[22] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 302.

[23] – Trebuchet, De l’Ecosse à léscossisme. Tomo 2 – Volume 2 , 371ss.

[24] –  Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 299.

[25] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 303

[26] – A. Bernheim, ‘A Figura do Cavaleiro Kadosch na na França e em Charleston’, Heredom 6 (1997), 164-165. Veja também: P. Mollier, ‘Maçonaria e Templarismo’, Handbook of Freemasonry (Leiden: Brill, 2014), 88-89.

[27] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours (Ramsay e seus discursos), 23-32.

[28] – Jones, O Livro do Maçom do Arco Real, 43-44

Quem foi André Michel de Ramsay?

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“André Michel de Ramsay, escocês de Ayr, plebeu com fumaças de aristocracia, aportou na França depois de alijado da Maçonaria de sua pátria, por insistir em criar graus cavalheirescos. Na França, satisfez a sua ânsia de nobreza, ao ser recebido como cavaleiro da Ordem de São Lázaro (Chévalier de Saint Lazare). E tão agradecido ficou que produziu em 1737, um discurso onde pretendia aristocratizar a Maçonaria, ligando-a aos nobres das Cruzadas, o que é pura lenda. Ele foi proibido de pronunciar o discurso, por ordem do cardeal Fleury (Andre Hercule de Fleury), ministro de Luis XV e dono do poder da época na França, como ocorreu com outros cardeais (Richelieu, Mazzarino): mas o texto acabou sendo publicado no ano seguinte e influenciaria as tentativas posteriores de criação de Altos Graus. Para alguns autores, o discurso foi de tendência a uma profunda reforma institucional na Maçonaria, o ponto de partida para a adoção do sistema dos Altos Graus, além de ser uma verdadeira carta a um código geral de pensamento. Outros discordam não lhe reconhecendo nenhuma influência importante, e não vendo nele mais do que um apelo a lendas, uma paixão pelos títulos nobiliárquicos e uma pretensa origem dos franco-maçons nos cruzados.” (Trecho do artigo “O Primeiro Supremo Conselho do Mundo” de autoria do Irmão José Castellani)

Introdução

Lendas e invencionices sobre o passado da Maçonaria, ainda que, em grande parte vêm sendo desmitificadas pelos pesquisadores seriamente comprometidos com a verdade, ainda atraem incautos, e que, indiretamente se encarregam de propagá-las. O fato é que muitas das invenções circulam na Internet, e sendo assim, o perigo de se multiplicarem é muito maior que outro meio qualquer, por fatores que agora não vêm ao caso.

Quando se fala sobre o Templo de Salomão e sobre os Templários na sua relação com a Maçonaria, e aqui estes assuntos são tomados como exemplos aleatórios, (embora existam aqueles que encontrem conexões), já que há outros, parece que abundam teorias, e algumas das mais fantasiosas possíveis. A verdade é que não é nem um pouco fácil “separar o joio do trigo”, separar o que é lenda, o que é invenção, o que é enxerto ou o que é “achismo”, como dizia o Irmão Castellani, e ficar com a história, pois, mesmo entre Maçons há aqueles que não simpatizam muito com a última opção. Há uma relutância, quem sabe até um descaso, há um desdém por parte de alguns, para lidar com fatos, com verdades históricas. Pode residir aí a simples falta do gostar de estudar, pode ser que determinadas versões sejam mais bonitas, mais interessantes… Ou ainda, há aqueles que preferem o “sempre foi assim”, e os que um dia ouviram algo do tipo “as origens da Maçonaria se perdem nas brumas do passado”, aceitando isso como o que há de melhor.

É de L. P. Hartley a seguinte citação: “O passado é uma terra estrangeira”. É de Voltaire a frase: “Todo o nosso passado nada mais é que ficção aceita.”

Alguns personagens também estão expostos ao mesmo processo: os seus erros são minimizados, as suas qualidades exaltadas ao extremo, o que daria no mesmo dizer que, em essência, parte da sua vida é ficção aceita também.

Não sei se estou me fazendo entender, mas com o intuito de ilustrar da melhor forma possível para o leitor o que seria a minha linha de raciocínio, recorro a uma história interessante, que faz parte do livro “Os Judeus e as Palavras”, de Amóz Oz e Fania Oz-Salzberger, e que acredito, possa por si só, trazer este entendimento pretendido e fundamental para o que virá depois. Eis o trecho:

“Desnecessário dizer que não podemos saber – especialmente em relação aos tempos antigos – quem foi ‘figura histórica’ e quem foi mito. Não podemos saber quem ‘realmente’ fez ou escreveu o que se alega que tenha feito ou escrito. Temos curiosidade a respeito, mas não importa realmente. Verdade histórica não é verdade arqueológica, disse Ahad Há’am. A história pode transportar uma verdade genuína por meio de figuras ficcionais, alegorias e mitos. E um talmudista do século IV disse que o Jó bíblico nunca existiu, que foi uma fábula. Outros sábios argumentaram contra ele, mas a teoria do Jó ficcional foi devidamente incluída no Talmude. Por que não foi varrida da lousa como blasfema ou indigna? Porque – ou assim gostaríamos de pensar – o Talmude antecipava e aceitava o nosso ponto: fábulas podem contar uma verdade. Ficção não é um gracejo. Jó existiu, tenha ou não existido ‘de verdade’. Ele existe nas mentes de incontáveis leitores, que o discutiram e debateram sobre ele por milênios. Jó, como Macbeth e Ivan Karamazov, existe como verdade textual.” 

O personagem que escolhi para contar aqui a sua história, a partir de agora, chama-se Andrew Michael Ramsay, ou o “Cavaleiro de Ramsay”, como é considerado por muitos, personagem um tanto quanto polêmico, principalmente no concernente às suas argumentações defendidas em seu famoso discurso. Alvo de severas críticas, o que não impede de que o achemos fascinante em alguns momentos da sua trajetória, algumas biografias o enaltecem, outras nem tanto, e além do mais, sem dúvida, ele imprimiu um novo rumo à Maçonaria. Pelas palavras de Lantoine, ao descrevê-lo, já podemos ter uma noção: “o mais nebuloso ou o mais iluminado preceptor… que se possa imaginar.” (Girardi, pág. 528, 2008)

Comentários

Para a feitura do presente trabalho, vários fragmentos da biografia de Ramsay irão sendo expostos concomitantemente, pois, são produtos da lavra de diversos autores, assim como suas opiniões, sejam elas com as tendências prós ou contras, para que o leitor possa pesar e sopesar. Eu vou contar com a bondade dos Irmãos que me leem, para que independente do fato de ser simpático a uma ou outra corrente, até o final, pelo menos, leiam com total imparcialidade as opiniões dos autores citados. Leiam como quem absorveu integralmente as lições contidas no texto brilhante de Amós Oz, leiam com a paciência de Jó, tenha esse personagem bíblico, existido ou não, e depois sim, tirem suas conclusões sobre o Cavaleiro de Ramsay.

Ramsay: uma biografia

Escolhi a biografia de Ramsay que está inserida no “Dicionário Maçônico”, do Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo, pois, ela reúne três pontos fundamentais para o entendimento melhor do biografado, assim como, no que concerne as suas afirmações mais impactantes, todas presentes nesta biografia, e o que nem todas as biografias do mesmo conseguem reunir: a sua teoria sobre as origens da maçonaria (os cruzados e a afinidade com os Antigos Mistérios), a introdução da lenda do 3º Grau e a introdução dos Altos Graus. Como já foi aventado, tudo o que tem se atribuído a Ramsay, por incrível que pareça, é motivo de polêmica para uns, mas, de pleno aceite para outros. Também, não me sentiria muito à vontade sem transcrevê-la do citado clássico, na íntegra, portanto, vamos ao verbete e ao seu texto: (As partes do trecho que estão assinaladas em negrito, além de julgá-las fundamentais às finalidades deste trabalho, irão facilitar também para quando se julgue necessário a introdução de um comentário, ou opiniões de outros autores, estas serão intercaladas entre um item e outro, o que é o mesmo que dizer ao final de cada trecho onde houver as partes em negrito, além de que, isso vai concentrar o máximo de cada assunto.) Desnecessário dizer que o Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo já faz uma biografia comentada, o que auxilia bastante.

RAMSAY, Miguel André (1686-1743). 1º – Cavaleiro baronete na Escócia e Cavaleiro de São Lázaro na França. Nascido em Ayr, perto de Kilwinning (Escócia), parece não ter tido ligação com a antiga Loja desse nome. Foi convertido em 1709 ao catolicismo pelo arcebispo Fenélon, com quem conviveu até a morte deste, em 1715, e de quem escreveu uma biografia. Tornou-se tutor do duque de Château-Thierry e depois do príncipe de Tirenne, e mais tarde (1724), preceptor dos dois filhos do rei Jacques III, pretendente ao trono da Inglaterra. Foi sem dúvida um homem erudito, profundo conhecedor da história antiga e moderna, doutor pela Universidade de Oxford e membro da Sociedade Real de Londres, como muito outros maçons proeminentes da época. 

Comentários e notas complementares

Da biografia “Andrew Michael Ramsay (Chevalier Ramsay)”, publicada no JB NEWS, na coluna “Maçons Célebres”, pelo Irmão Paulo Roberto Pinto, é possível retirarmos informações mais detalhadas sobre com quem Ramsay mantinha contatos na época:

1º – “Pode-se dizer que a carreira de Ramsay foi um tanto tumultuada e até curiosa: filho de um padeiro, com pai calvinista e mãe anglicana, escocês de origem, e que a monarquia francesa enobreceu. Essa sua origem foi esclarecida num panfleto intitulado ‘La Ramsayade’, atribuído ao filósofo Voltaire, entretanto, não reconhecido por ele. Enfim, o que o enobreceu foi o título de Cavaleiro de São Lázaro (Chevalier Du Saint Lazare), que lhe foi outorgado pelo Regente da França. Apesar disso tudo, Ramsay ingressaria, posteriormente, na Royal Society de Londres, assim como, na Universidade de Oxford, o que demonstra que apesar de católico stuartista, ele mantinha ligações com o anglicanismo inglês.

Viveu a maior parte da sua vida adulta na França, como jacobita exilado. Estudou teologia nas Universidades de Glasgow e Edimburgo, tendo se graduado em 1707. Em 1708, foi viver em Londres, tendo-se relacionado com Isaac Newton, Jean (ou John) Desaguliers e David Hume. Em 1710, estudou sob a orientação do filósofo místico François Fénelon, tendo, por influência deste, se convertido ao catolicismo.” 

Podemos deduzir que, embora sendo de origem simples, alcançou uma posição invejável depois. Com certeza, pelo fato das suas origens humildes, isso nunca foi lhe perdoado por seus detratores. Também, considerando a época em que viveu, a boa formação que conquistou, a sua posição como membro da Royal Society, o seu ingresso na Maçonaria, etc., foi um homem verdadeiramente esclarecido.

2º – Parece nunca haver tomado interesse pela Maçonaria, embora, em 1737, houvesse escrito ao cardeal Fleury, primeiro-ministro da França, pedindo proteção para os franco-maçons, alegando que seus ideais eram bastante elevados e utilíssimos para a religião, a literatura e o país. Mas o discurso por ele proferido em 1717 na Grande Loja Provincial da Inglaterra em Paris, de que era Grão–Chanceler e Orador, exerceu profunda influência sobre a Maçonaria francesa. Foi um discurso toleravelmente bom, porém nada contendo de muito extraordinário.

3º – Proclamou que o ideal da Maçonaria era a Fraternidade Universal dos homens cultos, um Império Espiritual que transformaria o mundo. Referiu-se aos três graus, a que denomina Aprendizes, Irmãos Companheiros ou Professos, Mestres ou Irmãos Perfeitos, títulos que talvez correspondam a uma diferença na corrente da tradição. Neles se requer, respectivamente, a prática das virtudes morais, virtudes heroicas e virtudes cristãs.

4º – Declarou que a Maçonaria fora fundada em remota antiguidade e restaurada na Terra Santa, ao tempo das Cruzadas. Que ela tem afinidades com os antigos Mistérios, especialmente com os de Ceres em Elêusis, Ísis no Egito e outros. Que os Cruzados adotaram uma série de ‘antigos sinais e palavras simbólicos, extraídos da fonte da religião’, com o intuito de distinguir os Cruzados dos sarracenos, e eram guardados sob estritos juramentos de sigilo. Que da íntima união entre os Maçons Cruzados e os Cavaleiros de S. João de Jerusalém resultou serem os Graus Azuis a Maçonaria de S. João. Que, em seu regresso, os Cruzados trouxeram as Lojas maçônicas para a Europa, e dali foram introduzidas na Escócia, onde ‘Jaques, Lorde Mordomo da Escócia, foi Grão-Mestre de uma Loja estabelecida em 1286 em Kilwinning, a oeste da Escócia, pouco depois da morte de seu rei, Alexandre III, e um ano antes da ascensão de João Baliol ao trono’. Que por toda a parte haviam sido gradativamente negligenciados nossos ritos e Lojas, os quais, todavia, tinham sido preservados em toda sua integridade entre os escoceses a quem os reis da França haviam confiado durante muitos séculos a guarda de suas reais pessoas. Que a ‘Grã-Bretanha se tornara a sede de nossa Ordem, a conservadora de nossas leis e a depositária de nossos segredos’.”

Comentários e notas complementares

Com relação aos antigos Mistérios, no “Grande Dicionário…” do Irmão Nicola Aslan, podemos ler na pág. 835 do mesmo que uma grande parte do Cerimonial das Iniciações maçônicas tem sua origem nos mistérios da antiguidade. No entanto, que esse Cerimonial maçônico foi moldado às circunstâncias e exigências da Modernidade.

É citado Ramsay no seu Discurso, quando disse:

Sim, Senhores, as famosas festas de Ceres em Elêusis, de Ísis no Egito, de Minerva em Atenas, de Urânia entre os Fenícios, e de Diana da Cítia, tinham relação com as nossas. Lá se celebravam mistérios, nos quais havia vestígios da antiga religião de Noé e dos Patriarcas.

O que a partir daí, teria feito com que os escritores passassem a reproduzir isso tudo, e o que Alec Mellor classificou como “enormidades”.

Com relação à suposta origem nos Cruzados, é importante que usemos de passagens do brilhante trabalho do Irmão Luiz Vitório Cichoski, intitulado “Origens da Maçonaria – Reflexões Históricas e Bibliográficas”:

“No texto de Ramsay, o mais antigo a propor este vínculo há, pelo menos, três menções aos Cruzados, a saber (ressaltados neste texto):

A – “Nossos antepassados, os Cruzados, juntando todas as facções da Cristandade na Terra Santa, quiseram reunir, numa só fraternidade, os súditos de todas as Nações. Quantas obrigações nós devemos a esses homens superiores… Como uma filosofia triste, selvagem e misantrópica, desvia os homens da virtude, nossos Ancestrais, os Cruzados…”

B – “Nossa Ordem, portanto, não deve ser considerada como uma renovação das Bacanais, mas como uma Ordem moral, baseada em toda antiguidade e renovada na Terra Santa, por nossos antepassados, os Cruzados…”

C – “Os Reis, os Príncipes e os Senhores, ao voltarem da Palestina, para seus Estados, ali fundaram diversas Lojas… Depois dos deploráveis reveses das Cruzadas… o grande príncipe Eduardo… declara-se Protetor de nossa Ordem, concilia os novos privilégios e, então, os membros dessa Confraria tomam o nome de Franco-maçons, a exemplo de seus antepassados.”

E prossegue o Irmão Luiz Vitório Cichoski, com o seguinte comentário:

“Todos sabemos que o Cavaleiro de Ramsay tinha por objetivo para esse seu discurso, apresentar uma origem nobre para a Franco-Maçonaria, origem essa que possibilitaria o ingresso da nobreza francesa no seio da Fraternidade Maçônica, então, não mais uma Corporação de Pedreiros, mas uma agremiação com o sangue aristocrático dos Cruzados! Novamente aqui não se faz referência aos elementos comprobatórios.”

5º – Finalmente, que muitos de nossos ritos e costumes contrários aos preconceitos dos Reformadores, foram mudados, disfarçados ou suprimidos, e assim muitos irmãos lhes esqueceram o espírito e lhes retiveram apenas a casca externa, porém, no futuro a Maçonaria seria restaurada em sua prístina glória.

Ainda, sobre as origens lá nas Cruzadas, escreveu o Irmão José Castellani:

“Nada tem, todavia, os nobres das Cruzadas a ver com as organizações profissionais de homens ligados à construção, pois elas só iriam começar a admitir nobres bem mais adiante, no início do século XVII, quando começavam a entrar em decadência. Os moldes mais definitivos da Maçonaria operativa iriam ser estabelecidos exatamente quando as Cruzadas já estavam em franco declínio. (…) E considere-se acima de tudo, que, entre as influências dos cruzados, na Europa, depois dos movimentos no Oriente, não está a arquitetura, mas, sim, o aperfeiçoamento comercial, industrial, agrícola, cultural e político.”

6º – Por sua cultura, posição social e prestígio maçônico, é apontado, e criticado como tendo sido o introdutor dos altos graus na Maçonaria, de parceria com os jesuítas, pois data de sua época a proliferação de novos sistemas e altos graus maçônicos na Europa, principalmente na França, durante a segunda metade do século XVIII. Mas seu maior trabalho conhecido, nesse sentido, foi o seu discurso de 1737, mais como um efeito do que como a causa da generalizada aspiração, na época, por uma maior ampliação dos graus, para possibilitar a harmonização e unificação das numerosas tradições e tendências maçônicas então reinantes. Só esta interpretação pode explicar a facilidade com que foram aceitas e concretizadas as suas ideias renovadoras. Mas é bem possível que nisso tenha também havido injunção e até cooperação dos jesuítas, segundo alguns tratadistas.

Comentários e notas complementares

O Irmão Carlos Dienstbach em seu artigo intitulado “A Importância dos Altos Graus no Rito Escocês Antigo e Aceito”, publicou o que segue:

“Maurice Colinon, autor da obra ‘A Igreja frente à Franco-Maçonaria’ escreveu que Ramsay foi o lançador da ideia dos altos Graus da Maçonaria e que em seus pronunciamentos sempre ligava os Graus aos velhos ideais de Cavalaria. Por isto é que temos em quase todos os Graus a palavra ‘Cavaleiro’ e a partir de 1754 com a criação do Capítulo de Clermont dá-se o início aos Altos Graus, para logo depois aparecerem os dos Cavaleiros dos Imperadores do Oriente e Ocidente e dos Soberanos Príncipes Maçons.”

O Irmão Frederico José Móttola em artigo da sua autoria, publicado na revista “O Prumo”, e intitulado “As Origens do Rito Escocês II” começa o mesmo citando a posição de José Castellani, sobre a introdução dos altos graus na Maçonaria por Ramsay:

André Michel Ramsay, como escreveu José Castellani, não foi o criador dos altos graus que deram origem ao Rito Escocês, mas foi seu famoso discurso, que não foi pronunciado, mas, sim, publicado em 1738, pregando uma reforma institucional na Maçonaria, o ponto de partida para a adoção do sistema de graus, posteriormente chamados de ‘filosóficos.”(grifo nosso)

Por outro lado, vejamos os comentários dos autores Frédéric Lenoir e Marie–France Etchegoin que escreveram em conjunto o livro “La Saga De Los Masones”, no trecho em que comentam os desdobramentos do Discurso de Ramsay no meio maçônico da época:

“Inspirados por Ramsay, los altos grados caballerescos (Caballero de Oriente, Caballero de Occidente, etc.) proliferan. Es uma época sedienta de títulos y blasones. “La masonería se moldea en una sociedad de orden, desigual, superficial. Pierde su simplicidad original.”

Ainda sobre o que está registrado no 6º item, quando é mencionada a ajuda dos jesuítas na introdução dos altos graus, o “Grande Dicionário Enciclopédico…” do Irmão Nicola Aslan traz a seguinte informação, à pág. 1144:

A fábula de os Graus Templários serem obra dos jesuítas, cujo servidor teria sido Ramsay, foi inventada no século XVIII pelo cavaleiro de Bonneville. Reeditada, no século XIX, por Thory, Bezuchet, Clavel, Laurie, Oliviers e Kloss, na França, Inglaterra e Alemanha, diz R. L Forestier (OFMR, p.199), foi destruída pelas investigações imparciais e documentadas de Gould e de Begemann. A obra de quase todos os escritores do século XIX, inclusive o Dicionário de Lorenzo Frau Abrines, é baseada na crença a essas fábulas, lendas e invencionices desmoralizadas pela crítica histórica moderna.” (grifo nosso)

7º – Também se tem atribuído a Ramsay a autoria da introdução da lenda do 3º grau na Maçonaria, e o consequente clamor por vingança, como rememoração da tragédia da decapitação de Carlos II, amigo dos Maçons, e consumação da vindita pelo restabelecimento de Carlos II no trono inglês. A primeira parte não é exata, pois os 3 graus simbólicos foram instituídos em 1648/9 pelo Rosa-Cruz Elias Ashmole. Tal assertiva só poderia ter sido concebida antes do século XIX, e por profanos incultos, pois então era muito restrito o âmbito cultural, mas não da segunda metade desse século em diante, quando se desenvolveu em grande escala o estudo comparativo da arqueologia, mitologia, mistérios, filosofias e religiões, de origem pré-histórica. Por esse estudo se evidencia que a lenda do 3º grau remonte aos Antigos Mistérios, em que se convencionava e revivia o sacrifício, morte e ressurreição gloriosa de Osíris no Egito, de Thammuz na Assíria, e de Adônis a Baco na Grécia. Se tem sido às vezes identificada com algum personagem histórico, o foi, ou por ignorância, ou mais comumente, para ocultar o seu verdadeiro sentido, que primitivamente só podia ser explicado oralmente, em criptas de Lojas e sob juramento de sigilo.”

Comentários e notas complementares

Sobre a lenda do 3º Grau, o Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo já tece comentários esclarecedores. De qualquer forma, acrescento a informação de Jules Boucher, em seu clássico “A Simbólica Maçônica”, que registrou o seguinte:

“A lenda de Hiram é semelhante as que se encontram nos mistérios da antiguidade e, sob esse ponto de vista, é de um interesse indiscutível. Pretende-se que essa lenda tenha sido ‘inventada’ em 1725 porque nenhum documento a menciona anteriormente sob a forma em que a conhecemos. Mas trata-se não de um símbolo mas, antes, de um rito, talvez adaptado, mas, sem dúvida alguma, iniciático.” 

Ramsay: opiniões de vários autoreis

Na “Enciclopédia Maçônica”, que é uma compilação do Irmão David Caparelli, temos:

“Ramsay, Miguel André – Um dos maçons mais ilustres e renomados por ter sido o primeiro que rompeu a tradicional unidade do primitivo simbolismo, criando o sistema maçônico dos Graus superiores. (…) Em 1728, tentou implantar em Londres a reforma maçônica, colocando os membros da Grande loja para que substituíssem os três Graus Simbólicos, únicos reconhecidos e que se praticavam naquela época, pelos três novos de seu sistema, intitulado Escocês, o Noviço e Cavaleiro do Templo. Mas a Grande Loja recusou aceitar a reforma, pelo que Ramsay se mudou para a França, onde obteve sucesso considerável, sendo seus Graus muito bem recebidos, como também outros que foram somados. (…) Apesar de tudo, este sistema não se propagou nem teve a verdadeira importância até alguns anos depois da morte de Ramsay. Ele escreveu grande número de trabalhos sobre questões históricas, filosóficas, políticas e literárias.”

Ainda no livro “La Saga De Los Masones”, de Frédéric Lenoir e Marie-France Etchgoin, encontrei exatamente o que queria encontrar, ou seja, a ideia de que os Maçons, além do próprio Ramsay, ficaram “encantados y halagados”, o que traduzindo significa dizer que ficaram contentíssimos, felizes, satisfeitos (encantados) e agradados, deliciados (halagados) com a atribuição de uma origem tão nobre. Vejamos, nas palavras dos autores:

“André Michel de Ramsay (llamado también de caballero de Ramsay). Ese escritor y filósofo de origen escocés, convertido en uno de los amigos de Fenelón, es uno de los teóricos más importantes de la masonería que está gestándose aún en el hexágono. En su célebre perorata (para los masones al menos!), relacionará la Fraternidad con las ordenes caballerescas y las cruzadas… Una descendencia puramente imaginaria pero que encanta a los hermanos, halagados al ver como les atribuyen tan dignos antepasados.”

Em sua coluna “Verbete da Semana” no JB NEWS, onde o Irmão João Ivo Girardi publica seus artigos com base nos verbetes da sua obra “Vade-Mécum Maçônico”, e intitulado “A Maçonaria e as Cruzadas”, destacamos um trecho em que ele compilou o seguinte sobre Ramsay:

“Em 1737, como Grande Orador da ordem, Ramsay escreveu e proferiu perante uma assembleia de maçons, a célebre peça de oratória na recepção a grande número de Irmãos na Grande Loja da França. Naquele dia Andrew Ramsay profere inflamado discurso fazendo uma ligação entre a Maçonaria e as Cruzadas. Sua fala é o fato que maior efeito teve nos eventos ligados à Ordem Maçônica. Sabe-se hoje que nada do que ele disse corresponde à realidade histórica, e o próprio Ramsay sabia que a Maçonaria nada tinha a ver com os Templários nem com as Cruzadas. Vaidoso ao extremo, não aceitava a verdadeira origem dos maçons construtores que eram humildes e analfabetos, então inventou essa balela das cruzadas e templários. Conseguiu por baixo do pano o título de Baronete, o mais baixo título de nobreza hereditário britânico. Tudo o que ele disse foi apenas um arroubo de oratória para cativar a assembleia presente e impressionar os recém iniciados. Desde então acreditando na farsa, os maçons de todo mundo passaram a aceitar a ligação templários, cruzadas e Maçonaria, esquecendo que maçom significa pedreiros antigos construtores de catedrais, não guerreiros, como os membros da Quarta Cruzada que assaltaram e pilharam Constantinopla, a capital da cristandade oriental, numa empreitada militar de vilania e traição cometida contra os próprios cristãos.”

Num outro trabalho publicado no JB NEWS, na coluna “Maçons Célebres” cujo título era “Andrew Michael Ramsay (Chevalier Ramsay)” de autoria do Irmão Paulo Roberto Pinto, há um trecho que diz:

“Sendo o grande entusiasta das ideias de Fénelon, ele trouxe o pensamento católico para a Maçonaria escocesa stuartista, inclusive através do seu célebre Discurso não pronunciado. Para Paul Naudon, o trabalho mais vultoso que Ramsay prestou à Maçonaria escocesa foi o de lhe haver atribuído, com o seu mais do que célebre ‘Discurso’ uma verdadeira missiva e um código geral de pensamento, coisa com que não concordam outros autores, que não lhe reconhecem influência tão importante, não observando, em seu Discurso mais do que um apelo a lendas, uma paixão pelos títulos nobiliárquicos e uma pretensa ancestralidade dos cruzados em relação aos Franco-Maçons. Em março de 1737, ele, Grande Orador e após, Grande Chanceler da Ordem, tentou pronunciar, perante uma assembleia de nobres, o seu célebre Discursos durante uma recessão da Ordem. Entretanto, mais uma interdição do cardeal Fleury impediu que isso acontecesse; não impedindo, contudo, que o referido texto fosse publicado em 1738. Não ter na época, podido pronunciar o referido Discurso, deve ter sido, na realidade, um dos maiores desgostos de sua vida, pois, feito Cavaleiro da Ordem de São Lázaro e no auge de sua felicidade de ser um nobre, não sabia como exprimir seu orgulho e gratidão. A causa dos Stuarts lhe deu oportunidade de fazer essa demonstração, de acordo com suas ideias aristocráticas, entretanto o referido cardeal acabou por tolher as suas pretensões.

Logo, Ramsay, do ponto de vista maçônico, foi, verdadeiramente, na afirmação de variados autores – como Chérel, por exemplo – uma mediocridade, que teve a sua hora de ação eficaz. Quando para outros, todavia, sua ação foi mais abrangente, até com a criação de Graus cavalheirescos, o que tem se confirmado ser puramente lendário.”

Sobre os documentos considerados como base do REAA

O Irmão Raimundo Rodrigues, no seu livro intitulado ”Cartilha do Rito Escocês” enumera vários documentos que são considerados os pilares do REAA, mas, tece algumas considerações sobre aceitar ou não o Discurso de Ramsay como um deles. Vejamos as argumentações do sábio Irmão Raimundo Rodrigues:

“Alguns autores colocam na relação dos documentos básicos do Rito Escocês Antigo e Aceito o discurso de André Miguel Ramsay, escrito em 1737 e publicado no ano seguinte. Por mais que desejemos aceitar tal ideia, não vemos naquele discurso, cujos temas versavam sobre a obrigação dos Maçons de serem amigos da humanidade, da moral, do sigilo, além do gosto das Belas Artes, nada que exerça alguma influência que possua força de regulamentação do Rito. Ao que sabemos, alguns autores argumentam que Ramsay teria, pelo menos, exercido influência na criação dos Altos Graus. Também, aí, não reside a força da verdade. Ramsay criou Três graus e os reuniu aos Três graus simbólicos já existentes, isto em 1728, na França, criando o chamado Grau de Ramsay que teve curta duração.”

Um esclarecimento necessário: Cruzados e não Templários

Importante nos remetermos ainda ao excelente trabalho do Irmão Paulo Roberto Pinto, quando ele esclarece o seguinte:

“Ramsay ligou a Maçonaria aos Cruzados, designadamente ingleses. Mas, ao contrário do que é correntemente afirmado, não é exato que tenha feito qualquer referência aos Templários. Este mito sobre um mito (grifo meu) nasceu de um erro de Mackey, que tal afirmou na entrada dedicada à ‘Origem Templária da Maçonaria’, na sua Enciclopédia da Maçonaria. Os grandes também se enganam, mas os erros dos grandes acabam por ser divulgados como verdades…”

Conclusão

Parece que o Cavaleiro Ramsey não precisou repetir uma mentira mil vezes para ela virar verdade, mas, outros se encarregaram de fazer isso.

Indiretamente, parece que deu uma sacudida muito grande no sistema, ou se quisermos um impulso, o que levou com o tempo a vários acontecimentos. O estopim foi mesmo o seu Discurso.

Pudemos acompanhar várias das opiniões sobre a sua pessoa, sobre o seu discurso, e sobre o que manifestou ou argumentou com relação às origens da Maçonaria. Todos os comentários, as considerações que os estudiosos teceram, distribuídas ao longo do trabalho levam a inferirmos em primeira instância que não existe até o momento, nenhum suporte verdadeiramente histórico para a sua teoria sobre a ligação Maçonaria-Cruzados.

O Irmão João Ivo Girardi em “A Chave Escocesa – 1ª Parte” no JB NEWS, nº 954, escreveu:

“O Discurso de Ramsay sobreviveu por séculos e vai permanecer na mente das pessoas por muitos anos, mas a história que contou existiu apenas em sua imaginação. Jamais foram encontradas quaisquer provas de uma ligação com os Cavaleiros Templários.”

Por outro lado é de concordarmos que o seu Discurso promoveu uma efervescência no que se refere à criação de graus, sendo que muitos deles tiveram curta duração, e que ao final das contas, o REAA acabou sim, ganhando um desdobramento no seu sistema de graus como resultado disso tudo.

Le Forestier disse: “Ramsay foi provavelmente o padrinho da Maçonaria escocesa; pode ser considerado como o pai espiritual dos Graus Superiores, embora não tenha ele próprio concebido nem proposto grau superior aos três graus simbólicos da Maçonaria Azul.”

Autor: José Ronaldo Viega Alves
Mestre Maçom – ARLS Saldanha Marinho, “A Fraterna”
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Consultas Bibliográficas:

Internet:

JB NEWS, nº 954, 14/04/2014 – “A Chave Escocesa – Uma Investigação sobre a Origem da Maçonaria – 1ª Parte” – Artigo do Irmão João Ivo Girardi.JB NEWS, nº 1013, 12/06/2013 – “Andrew Michael Ramsay (Chevalier Ramsay) – Artigo do Irmão Paulo Roberto Pinto

Revistas:

O PRUMO, nº 74, 1990 – “As Origens do Rito Escocês II” – Artigo do Irmão Frederico Renato Móttola O PRUMO, nº 135, Jan./Fev. de 2001 – “O Primeiro Supremo Conselho do Mundo” – Artigo de autoria do Irmão José Castellani O PRUMO, nº 201, Jan./Fev. de 2012 – “ORIGENS DA MAÇONARIA – Reflexões Históricas e Bibliográficas” – Artigo do Irmão Luiz Vitório Cichoski

Livros:

A TROLHA – COLETÂNEA 3 – “a Importância dos Altos Graus no Rito Escocês Antigo e Aceito” – Trabalho do Irmão Carlos Dienstbach – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1ª Edição – 1997 ASLAN, Nicola. “Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 3ª Edição – 2012 BOUCHER, Jules. “A Simbólica Maçônica” – Editora Pensamento CAPARELLI, David. “Enciclopédia Maçônica” – Madras Editora Ltda. – 2008 CASTELLANI, José. “Manias e Crendices Em Nome da Maçonaria”- Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1ª Edição – 2002 FIGUEIREDO, JOAQUIM Gervásio de. “Dicionário de Maçonaria” – Editora Pensamento. GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite” – Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. – 2ª Edição – 2008 LENOIR, Frédéric & ECHTEGOIN Marie-France. “La Saga de los Masones” – Ediciones B – 1ª Edición – 2010 – Barcelona – España OZ, Amós & OZ-SALZBERGER, Fania. “Os Judeus e as Palavras” – Editora Companhia das Letras 1ª Edição – 2015 RODRIGUES, Raimundo. “Cartilha do Rito Escocês” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. – 1ª Edição – 2010