Maçonaria e Política: uma visão crítica na pandemia

Maçonaria volta às sessões e abdica de alguns rituais | Covid-19 | PÚBLICO

A palavra “política” na sua origem nos remete à Grécia Antiga, à polis grega, quando fazer política tinha o sentido de participar da cidade, exercer a cidadania. Diz-se que eles inventaram a política por ela ser imprescindível na vida do ser humano, fazendo-o distinguir-se dos deuses e dos animais. Para Aristóteles (384-322 a.C), “o homem é um animal político”, estando, assim, destinado a viver em sociedade. Platão (427-347 a.C.) já afirmava que,

“Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.”

A capacidade de traduzir demandas da sociedade em meios aptos a converter a exigência em realidade pertence à Política. Governar é aumentar a confiança das pessoas e das empresas, alargar as esperanças e reduzir as incertezas. Entretanto, a percepção é que há uma simbiose entre política e corrupção. Mas, não é bem assim!

Tema polêmico por excelência, Política é o único mecanismo possível de solução pacífica de diferenças, compreendendo a busca de consensos. Os pontos mais complexos aí se circunscrevem. Política é inclusão social. O Papa Francisco diz que “a Política é a melhor forma da caridade, porque se empenha pelo bem comum”. A sua linguagem, a forma como a política dialoga com a sociedade, é um referencial da qualidade da democracia de um País.

A temática vem repercutindo em alguns oásis maçônicos, pois o trabalhar incessantemente pela felicidade do gênero humano enseja um caráter universal, tendo por isso cunho essencialmente político, por se impor como uma escola de civismo e de liberdade, onde se devem debater grandes assuntos de interesse do país. A realidade exponencial e disruptiva é o desafio.

Mas aí é que surge uma afirmação sobejamente decantada e que contrasta com sua missão. A Constituição de Anderson, de 1723, afirma que: “..deve-se evitar discussões sobre religião e política…”. Tal dispositivo vai de encontro ao conceito de liberdade que é um pilar da maçonaria moderna. As constituições dos países modernos e livres consideram como um direito inalienável do cidadão a liberdade de se manifestar e de debater os problemas políticos e sociais. Portanto, existe um dispositivo hierárquico atual e superior que abre os caminhos para uma efetiva participação, não obstante a disputa de narrativas.

Entende-se que as restrições quanto a debates sobre política e religião têm por cunho evitar-se apenas que a harmonia das Lojas não seja perturbada por discussões partidárias, contaminações ideológicas, proselitismo ou sectarismo que promovam o desentendimento e a desagregação. Assim, em decorrência das sucessivas crises políticas, a maçonaria não pode passar ao largo das questões de interesse do país. A realidade impõe-se, e ficar de fora, neste caso, é omitir-se, é ser cúmplice dos erros. Segundo o influente pregador Batista inglês. C. H. Spurgeon (1834-1892),

“Somente os tolos acreditam que politica e religião não se discute. Por isso os ladrões continuam no poder e os falsos profetas continuam a pregar.”

No contexto histórico vislumbra-se inegável a influência por vezes decisiva da ação política da maçonaria em vários acontecimentos de relevo. No caso brasileiro destacam-se os movimentos de rebeldia e de libertação que antecederam a Proclamação da República, e inúmeros outros conflitos e rebeliões, que contribuíram para o amadurecimento histórico do país, os quais contaram com a participação pioneira de várias Lojas e de membros expressivos da maçonaria, inspirados e movidos pelos princípios da Ordem.

Até um determinado período, a Maçonaria funcionou como veículo para expansão de ideias e organização de movimentos, atuando como um partido político camuflado. Em análise retrospectiva, a Maçonaria brasileira iniciou o século XX exercendo interferência política decisiva nos destinos do país, mas chegou ao final do período enfraquecida, gerando ilhas autossuficientes, em decorrência das cisões de 1927 e 1973, bem como do impacto das Revoluções de 1930 e de 1964, além de disputas intestinas de poder que são referências em sua estrutura administrativa. E com isso, esvaiu-se a medida de liberdade.

Apesar do conceito positivo junto àqueles que a conhecem, a Maçonaria ainda é desconhecida por grande parte da população brasileira. No cenário político nacional atualmente não tem nenhuma representatividade e não exerce qualquer sopro a exemplo da norte-americana ou da europeia, que mesmo assim vem decrescendo aceleradamente em número de obreiros. E vejam que capital intelectual e consciência de sua importância para liderar as transformações necessárias à promoção da justiça social é prédica recorrente entre suas colunas. O que falta é esse discurso repercutir no mundo profano.

A Maçonaria, como instituição, não pode continuar na velha toada de que não deve envolver-se diretamente em temas políticos e nas grandes decisões de interesse do Brasil, candidamente delegando aos maçons que o façam individualmente, pois um regramento de 1723, editado em outro momento histórico, impede ações mais decisivas em pleno século XXI. Somente caprichar na retórica e bradar que alguém tem que tomar uma providência é muito confortável. Esse comodismo e o obsequioso silêncio político da Maçonaria do Brasil precisam ser quebrados. Repetindo a questão de sempre: sabemos ou não dialogar?

O espírito da Constituição de Anderson vislumbrava a Maçonaria como uma organização de cunho muito mais abrangente, suprapartidário, abrigando todas as tendências. Mentes tacanhas distorceram tal entendimento e têm conseguido mantê-la acorrentada. É hora de a Maçonaria repensar sua atuação, decretar a sua independência e de agir com responsabilidade. Chega de discursos pomposos, manifestos bem comportados, fotos teatrais, homenagens, firulas, reverências e salamaleques com autoridades de plantão! No caso específico dos “irmãos” titulares de cargos no poder executivo, o mote deveria ser de pressioná-los para cumprir o juramento ou dar baixa na Ordem.

Como reiterado em trabalho anterior, já passou da hora de maçons e a Maçonaria, como um todo, assumirem o papel que já foi sua marca registrada no passado: revolucionária, decisiva, incomodativa, marginal em outros momentos. Defender que a maçonaria seja apenas uma escola de pensamento onde se cultive exclusivamente moral e ética e acalente o sonho de que seus princípios e valores sejam amplamente conhecidos e que forças do além inspirem os tomadores de decisão, sem se envolver diretamente, ficando na torcida para que a justiça e os bons costumes prevaleçam, é mais do mesmo. Educar os obreiros para que sejam pessoas do bem e apenas sonhar com um futuro melhor, pregando como os outros devem agir, é muito bacana, supimpa mesmo! Podemos chamar esse contexto de Maçonaria Contemplativa.

Se o apenas falar dentro da bolha não deu certo, algo está errado. Ou se for isso mesmo, a Maçonaria agiria melhor como um clube de serviços e cultivar a memória de um passado confortável pela frente e permanecer admirando-se no retrovisor da história, sonolenta, a lembrar do conto “Cidades Mortas”, onde Monteiro Lobato escreveu: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”. E nada é tão ruim que não possa piorar!

“Apesar de tudo”, o momento é de despertar e de assumir o protagonismo, sair na dianteira, declarar guerra e partir para cima dos poderes constituídos exigindo competência e transparência, abraçar pautas de interesse da sociedade, promover debates públicos, videoconferências abertas para não maçons, encaminhar e liderar propostas de soluções, criar pontes e ocupar espaços que permitam aos obreiros a reivindicarem, de forma organizada, com uma Maçonaria que poderíamos chamar de Executiva, as mudanças que todos exigem, pois a perda de contato com a realidade paralisa a consciência crítica. O dramaturgo e poeta Bertolt Brecht (1898-1956) certa vez escreveu: “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”.

O obstáculo maior sempre foi escapar das velhas ideias, das formas arraigadas de pensar, mas, em solo fértil boas sementes frutificam. Com a provocação e o impulso de novas gerações, em especial a Geração Z[1] ainda como uma voz que clama, a GLMMG vem de algum tempo construindo propostas, várias submetidas à Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil, visando a promover a coesão e a credibilidade da Ordem. Os Projetos “Gestão Maçônica” e “Cultura Cidadã”, constantes do Site da GLMMG atacam o cerne dessa questão. A propósito, lembrando um certo juramento, imaginamos que todos já os tenham lido e discutido em Loja.

Mas, um velho ditado popular adverte: “uma andorinha só não faz verão”. Aplausos e aplausos em Plenárias somente alimentam egos. Ao término dessas reuniões, como bons isentões, voltamos para nossas Lojas e a “Ordem do Dia” continua a ser o mais do mesmo, e nada de falar em temas palpitantes de interesse do país. As melhores intenções morrem nas palavras, em face de discursos emocionados, carregados de simbolismos e vazios de concretude.

Não obstante o sofrimento e custo social decorrente da pandemia do coronavírus, que superou os piores prognósticos realizados ainda no primeiro trimestre de 2020, navegamos nos últimos meses por mares turbulentos, com vários percalços e tropeços, que pegou a todos desprevenidos, com impactos na economia global, de vidas que se foram e o isolamento social (“fique em casa”), inédito nos tempos modernos, evocando sentimentos de perplexidade, inquietação, sensação de vulnerabilidade, de finitude e até de medo.

Tempo suspenso, portas trancadas, cortinas cerradas, famílias separadas, mortes transformadas em números, rituais de despedida não autorizados, sistema global econômico e de produção paralisados, além do conceito de liberdades individuais com leitura distorcida por autoridades confusas, conflitantes entre si e sem um norte. De outra sorte, água suja se limpando, poluição diminuindo e pássaros retornando aos locais de onde tinham desaparecido.

Nesse interim, boa parte das nossas Lojas encontrou o caminho das videoconferências para não interromper os estudos e a divulgação da cultura maçônica, procurando, ainda, manter os laços de fraternidade, mesmo que virtuais, porém com adesão ainda não avaliada de forma consistente, mas estimada em número inexpressivo em face da quantidade de maçons ativos, haja vista as mesmas carinhas a frequentar nossas telinhas, não obstante artilharia pesada de argumentos contrários a esse tipo de evento.

Não se pode descurar das sessões presenciais, quando possível, mas o papel complementar das reuniões virtuais é inquestionável. Vários temas estão sendo explorados, muitos conhecimentos compartilhados e ideias borbulhando, mas o da Política com “P” maiúsculo ainda encontra resistências. O mundo lá fora pegando fogo e a gente, por ora, apenas filosofando nas “lives maçônicas”!

A Maçonaria precisa ser protagonista e não apenas apoiadora ou um rebanho carneiril pastoreada por dirigentes políticos que sabidamente jogam mal, com raras exceções. Para isso, urge mudar sua forma de ação e trabalhar em um plano conjunto entre as Potências soberanas, com fôlego e determinação para ser uma influenciadora permanente, pela prática da moderna advocacy, sem se envolver no círculo vicioso da politicagem tradicional, que tem o hábito de dar voltas e parar no mesmo lugar, ensejando as mesmas contradições.

Agora que descobrimos um novo meio de reunir os maçons das várias Potências pela força das redes sociais e já estamos familiarizados com os recursos tecnológicos disponíveis, a novel missão seria a prática de um ativismo orquestrado, ombro a ombro, mesmo que virtual nesta fase, envolvendo a Ordem como instituição, seus Grão-Mestres na postura de estadistas e os maçons alinhados em torno de projetos amplamente discutidos e aprovados, distinguindo-se pelo exercício ético e competente de influenciar o comportamento e ações de outras pessoas, como “Agentes Cidadãos”, formando alianças do bem, não apenas com foco em resultados de curto prazo, mas de construir um país melhor para todos os brasileiros e uma saída para a atual crise que nos acorrenta.

A sociedade saberá reconhecer o empenho e certamente o exemplo da Maçonaria arrastará outros movimentos que anseiam por uma liderança competente e decisiva na Politica.

“Somente quem, frente a todas as dificuldades, pode dizer ‘Apesar de tudo! ’ tem a vocação para a política.” (Max Weber)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida e da Academia Mineira Maçônica de Letras.

Notas

[1] – Ver artigo “Maçonaria e Geração ‘Z’ Pós-pandemia”, em: https://opontodentrocirculo.com/2020/08/26/maconaria-e-geracao-z-pos-pandemia/

Screenshot_20200502-144642_2

Só foi possível fazermos essa postagem graças à colaboração de nossos leitores no APOIA.SE. Todo o conteúdo do blog é disponibilizado gratuitamente, e nosso objetivo é continuar oferecendo material de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E você também pode nos auxiliar nessa empreitada! Apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil. Para fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

De Deus ao Grande Arquiteto do Universo

Pierre Dupont, Portrait de Pierre François, huile sur toile, 76 x ...

Na abertura dos trabalhos na Grande Loja da França se fala “Á Glória do Grande Arquiteto do Universo”, e essa mesma invocação é repetida ao término dos trabalhos. Ao ouvir isso, os Irmãos consideram essa expressão como um fato original e raramente questionam a sua origem e significado profundo. Mas é necessário conhecer nossa História para saber de onde viemos. O presente artigo nos permitirá saber como chegamos a essa noção de Grande Arquiteto que é, pelo Rito Escocês Antigo e Aceito, a pedra angular do caminho iniciático. Vou tentar explicar como a Maçonaria iniciática passou de Deus ao Grande Arquiteto do Universo.

Desde o nascimento do Cristianismo até o fim do Idade Média, Deus está em toda parte e em tudo, e ai de quem contestasse este postulado. Na Maçonaria, até o século XVIII, os trabalhos se desenrolavam e seus juramentos eram realizados sobre a Bíblia, “na presença de Deus e de São João”. A invocação de Deus era vital na época porque, desde a Idade Média, a onipotência da Igreja Apostólica Romana governava não apenas a consciência, mas também todas as instituições, desde corporações menores até a realeza. Ela condenava à morte aqueles que não pensavam dessa forma. Desde o início da Maçonaria, a crença é, portanto, obrigatoriamente em Deus, Grande Geômetra (de acordo com a expressão de Pitágoras) que mede o universo com sua bússola, como mostrado por muitas iconografias do século XIV, e ainda permanece hoje na Maçonaria Anglo-Saxônica.

Em toda religião, a Palavra Divina tem uma virtude criativa. Assim, em Gênesis, seres e coisas adquirem sua existência no momento em que Deus as cria e dá nome a elas. Essa noção criacionista da Palavra ainda se encontra nas sociedades tradicionais, sendo uma condescendência primitiva, onde o recém-nascido só entra no estado de criatura após vários dias ou várias semanas, a partir do momento em que recebe um nome, resultado de um ato de fala. Dar um nome para um ser ou uma coisa é equivalente a um ato divino e fornece uma forma de poder para quem nomeia sobre aquele que é nomeado.

Então, dando um nome à divindade, o homem de alguma forma, garante poder sobre ela e a reduz para a dimensão humana. Os homens, com a cumplicidade de alguns religiosos, apreenderam a noção de Deus para dar-lhe não apenas um forma humana (isso é chamado de antropomorfismo), mas também sentimentos que o representam como um parente (um exemplo é o Deus Pai), um patriarca que pede para ser adorado, que se eleva a Juiz Supremo (veja o último julgamento) e que pune aqueles que pecam contra ele (ver Inferno e Purgatório). Deus é assim concebido à imagem do homem e é apenas um reflexo de sua personalidade. Aqueles que permanecem escravos de concepções imperfeitas e estreitas sobre o que é a Divindade, são suscetíveis a gerar fanatismo, fundamentalismo e perseguições, que são a negação da liberdade de consciência, como vemos com muita frequência em nossa sociedade atual.

Pela Maçonaria dos Antigos, à qual nós pertencemos, desde que a ideia permaneça única e homogênea nas Lojas e não difere da ideia de Deus do mundo profano, isto é, da Igreja Católica Romana, a ideia de um Deus Geômetra se tornou o início do renascimento do Grande Arquiteto do Universo (a primeira menção se deve a Philibert Delorme por volta de 1565, que o retirou de Platão), que não apresentou problemas aos irmãos: o Grande Arquiteto era Deus. Mas com o início do Iluminismo, se passa a  defender a ideia da religião natural e gradualmente abandonará a noção de espiritualidade, uma ideia que será adotada pela Maçonaria dos Modernos, como evidenciado pela primeira versão das Constituições de Anderson de 1723, cuja versão de 1738 e as versões a seguir, contém a crença em um Deus obrigatório. Enquanto isso, os Antigos (Escoceses, Irlandeses e Católicos do norte da Inglaterra) mantêm a crença em Deus, mas não a impondo como um dogma, ao contrário dos ingleses.

A questão de Deus na Maçonaria continuará na segunda metade do século XIX, mas o uso da palavra “Deus” se torna polêmico por certos Supremos Conselhos e certas Grandes Lojas. Existem várias razões para isso:

  • Campanhas anti-maçônicas em países católicos depois que o Papa perdeu muito de seu poder quanto ao Estado em 1870;
  • O renascimento de doutrinas ultramodernas favoráveis à Santa Sé;
  • A radicalização da doutrina católica (infalibilidade pontifical, proclamação da afirmação “fora da Igreja não há Salvação” que vai contra a liberdade de consciência);
  • E especialmente a atitude ultraconservadora da Igreja Católica que se manifesta contra a modernidade, liberdades individuais e coletivas, direitos humanos, democracia, sufrágio universal, ciência, filosofia.

Este fato foi debatido no Concílio dos Supremos Conselhos, reunidos em Lausanne de 6 a 22 de setembro 1875 para atualizar as Grandes Constituições de 1786, que regiam o Rito Escocês Antigo e Aceito, sobre a definição de Grande Arquiteto do Universo.

Para satisfazer todas as crenças e admitir todos os pontos de vista, os representantes dos doze Supremos Conselho presentes (dos vinte e três na época) usaram três expressões diferentes para definir o Grande Arquiteto do Universo, a saber:

  • No preâmbulo “a Maçonaria é uma instituição de fraternidade universal cuja origem volta ao berço da sociedade humana; ela tem como doutrina o reconhecimento de uma força superior que ela proclama existir sob o nome de Grande Arquiteto do Universo”;
  • Na Declaração de Princípios “A Maçonaria proclama, como proclama desde a sua origem, a existência de um princípio criador sob o nome Grande Arquiteto do Universo”;
  • Manifesto “Para elevar o homem à seus próprios olhos, para torná-lo digno de sua missão na Terra, a Maçonaria postula o princípio que o Criador Supremo deu ao homem também a liberdade mais preciosa, herança da humanidade inteira, que nenhum poder tem o direito de extinguir ou amortizar e que é a fonte dos sentimentos de honra e dignidade”. [1]

Três interpretações de Deus para satisfazer todos os maçons: Força superior endereçada aos agnósticos; Criador Supremo endereçado aos teístas; Princípio Criador para os deístas. Mas esse desejo de atender todas as sensibilidades religiosas é interpretado como uma recusa em se pronunciar e levará a rejeições dos teístas acusando os deístas de suavidade e, os agnósticos de ateísmo.

O Supremo Conselho da França e, depois dele, a Grande Loja da França, manterá a invocação de Grande Arquiteto do Universo definida, fora de todo o significado religioso, como Princípio Criador, abrindo o caminho para a Maçonaria não mais teísta, mas deísta, enraizada na tradição dos Antigos, respeitosos da liberdade de consciência e do direito de todos de exercê-lo em sua abordagem enquanto os Anglo-Saxões mantêm o reconhecimento de Deus e de sua mensagem revelada, assim como da imortalidade da alma, que o Grande Oriente da França suprime qualquer referência a Deus e o Grande Arquiteto e que a Bélgica, defendendo a imortalidade da alma, usa a expressão “Princípio Superior” que constitui uma aberração, porque implica que há um ou mais Princípios inferiores.

Durante o século XX, entre ciência e fé, a ideia de Deus está se tornando cada vez mais heterogênea com a perda de marcos metafísicos e a lógica do cientificismo. A noção de Deus está dividida entre dúvida e desconfiança da ciência e o surgimento de seitas que se tornam novas religiões, como a Cientologia ou Nascidos de Novo Cristãos (Born again Christians). Para nós, Maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito, o Grande Arquiteto do Universo está a salvo destas discussões porque representa um símbolo, e um símbolo é interpretável por cada um de acordo com a abertura de sua consciência.

Para o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Grande Arquiteto do Universo é o Princípio Criador. Etimologicamente, “princípio”, deriva do latim de principium, derivado de princeps, “que ocupa o primeiro lugar”. Significa “começo, origem dos tempos, causa original, fonte de todas as coisas”, então o adjetivo “criador” é supérfluo porque já está implícito no termo “princípio”. Pessoalmente, já anunciei várias vezes (e minha definição foi repetida no Journal de la Grande Loge de France), defendo a noção de princípio com P maiúsculo sem qualquer outro qualificador. Para mim este termo reconcilia todas as interpretações tomando uma dimensão transcendente aceitável por todos que procuram de boa-fé, sejam crentes ou incrédulo, mantendo uma religião venerando um Deus ou uma religião sem um Deus (como o budismo Ortodoxo).

Cristo em pé sobre o globo, cercado pelos quatro elementos (Lyon, Mathieu Huss, 1482)

Assim como Deus, o Princípio está sob o domínio do incognoscível, mas, diferentemente da religião, você não pode dar um nome sem cair em uma forma de profanação. É inefável que, sem nomear, a qualificação de Grande Arquiteto do Universo permite aos descendentes dos construtores que concebam uma entidade acessível à razão humana sem dar a ela poderes sobrenaturais que provavelmente favorecem a superstição. Se transpusermos essa qualificação de plano espiritual para o plano material, encontramos no Grande Arquiteto as noções da arquitetura de base, a saber: Ordem, Plano, Geometria, Harmonia, todas as noções que o homem pode integrar facilmente em seu sistema de pensamento.

Este princípio transcendente repousa não apenas na Palavra criativa, mas também na Luz (é necessário sabermos que a origem indo-europeia da palavra “Deus” denota a ideia de brilho). Esta trindade esotérica Princípio / Palavra / Luz, que não vai contra a interpretação religiosa da Trindade, baseada no tríptico Pai / Filho / Espírito Santo.

Nesse sentido, qual é a atitude da Igreja em relação a Maçonaria? Enquanto o Grande Arquiteto era Deus, nunca houve o menor problema. Mas a partir do momento em que os dois símbolos não coincidem mais a partir do século XVIII, as relações estragam e a atitude da Igreja se torna mais radical. Como os regimes totalitários político ou militares que a condenaram e ainda hoje a condenam, a Igreja Apostólica Católica Romana não foi deixada para trás em sua perseguição à Maçonaria. Para constar, mencionarei apenas os textos mais importantes publicados desde o nascimento da Maçonaria, na França e nos países subservientes a Roma:

  • A bula In eminenti apostolanus specula de 28 de abril 1738 do papa Clemente XII condenando os Francos-Maçons “que se reúnem na escuridão do segredo porque odeiam a luz”;
  • A bula Providas romanorum de Bento XIV de 16 de março de 1751, que confirma a penalidade de proibição e de excomunhão de 1738;
  • A carta apostólica Quo graviora de Leão XII de 13 de março de 1826, recordando a condenação da sociedade dos Franco-Maçons;
  • A cíclica Humanum genus de Leão XII de 20 de abril de 1884, confirmando a condenação da Franco-Maçonaria;
  • Mais perto de nós, a carta do Presidente da Congregação da Doutrina da Fé de 26 de novembro 1983, reafirmando a incompatibilidade entre a Igreja e Maçonaria; [2]
  • Deste último decorre a demissão em maio de 2013 do Pároco de Megève, infligido pelo bispo de Annecy o pedido do Vaticano de pertencer ao Grande Oriente da França, alegando que pertencer a Maçonaria e o serviço da Igreja Católica são incompatíveis.

Pessoalmente, considero que a condenação da Maçonaria pelo Vaticano aplica-se a Maçonaria sectária e anticlerical, mas nunca se referiu ao Rito Escocês Antigo e Aceito, porque nunca se opôs abertamente à religião, pelo contrário. Basta lembrar dessa passagem do manifesto do Concílio de Lausanne para se convencer disso:

“Para os homens para quem a religião é o consolo supremo, a Maçonaria [3] diz: cultive sua religião sem impedimentos, siga as inspirações de sua consciência; Maçonaria não é uma religião, ela não tem um culto …”.

Mais recentemente, outras Igrejas também tem se declarado hostis à Maçonaria, como a Igreja Anglicana cerca de vinte anos atrás, e as Seitas sectárias americanas como a Cientologia e os Nascidos de Novo Cristãos (Born again Christians), mas por diferentes razões: de fato, a Maçonaria Anglo-Saxônica, que é um quintal das Igrejas estabelecidas, é considerado um concorrente por Canterbury, uma vez que o número de fiéis caiu acentuadamente na prática do culto na Grã-Bretanha; por causa do importante lugar que ocupa nos Estados Unidos, representa um déficit para seitas de todos os tipos que passaram do declínio da espiritualidade para o benefício da religiosidade.

Após essa digressão no mundo da religião, vamos voltar ao nosso assunto.

O Princípio preexiste necessariamente a Palavra e para a Luz que são energias, isto é, forças. Até o espírito mais rebelde da metafísica é obrigado a observar que:

  • Por trás do princípio, existe a fonte, há energia,
  • Por trás da energia existe a lei, ou seja, um conjunto de regras,
  • Por trás da lei está o plano que permite o cimento de todas as coisas,
  • E que o plano apresenta o Arquiteto que o concebe.

E isso está em perfeita concordância com o conceito de Grande Arquiteto do Universo, ao mesmo tempo um símbolo menos redutivo e menos violador da consciência do que a interpretação de um Deus revelado, uma abordagem metafísica acessível a razão humana. Além disso, um símbolo é por definição interpretável e evolutivo de acordo com o conhecimento de cada um, seja cultural, religioso ou espiritual. Este símbolo tem, por outro lado, a vantagem de reconciliar religiões dogmáticas e religiões que não reconhecem a ideia de um Deus criador, tantos os crentes quanto os não crentes. Finalmente, este símbolo difere da ideia de Deus, pois ele representa um conceito, e nesse sentido ele não pode julgar nem Punir, muito menos ser adorado.

Assim, por reposicionamentos sucessivos na história da Maçonaria iniciática, o Grande Arquiteto do Universo foi gradualmente se destacando do conceito de Deus. O espaço assim criado entre Deus, proposto como o detentor da Verdade revelada, e o Grande Arquiteto do Universo, símbolo do Princípio, surgiu como um espaço de liberdade para as pressões por uma espiritualidade livre de todos os dogmas. Para o homem livre, elaborar sua própria ideia da Divindade se torna um dos desafios do século XXI.

No mesmo sentido dessa evolução do conceito da divindade, o lema dos Conselhos Supremos do Mundo, Deus meumque Juice (ou seja, o certo, para o Maçom Escocês, interpretar Deus de acordo com sua cultura e o grau de abertura do seu espírito), que combina harmoniosamente fé e razão e especifica o relacionamento reconhecido pelo Rito entre o Divino e o Homem, este último não sendo imposto, em sua qualidade de Maçom, de nenhuma outra maneira além da escolhida por sua consciência como um homem livre. E nessa afirmação do Grande Arquiteto do Universo, o Sistema Escocês respeita a liberdade de todos de pensarem ou não sobre a divindade. Após o Concílio de Lausanne, o Soberano Grande Comendador Crémieux declarou:

“Não damos forma ao Grande Arquiteto do Universo, deixamos cada indivíduo pensar o que quiser.”

Porque Deus é algo pessoal que não se compartilha. O Maçom Escocês não está esperando por uma resposta revelada, muito menos uma definição mundial. Aí reside a dificuldade da abordagem iniciática, mas descobrir toda a sua grandeza e procurar por seus mistérios nos permite alcançar harmonia e equilíbrio que garante a nossa plenitude como homens.

Atualmente, alguns cientistas de alto escalão têm uma visão da divindade muito próxima da nossa. Assim, o astrofísico Trinh Xuan Thuan, em Caos e Harmonia, publicado pela Fayard Editions, escreve:

“O universo é definido com extrema precisão. São necessários pouco mais de dez números (na verdade quinze números chamados “constantes físicas”) para descrevê-lo: o da força gravitacional, a velocidade da luz, aquela que dita o tamanho dos átomos, sua massa, a carga de elétrons, etc. No entanto, seria suficiente que um desses números fosse diferente para que o universo inteiro e, portanto, nós, não existíssemos. Uma relojoaria muito delicada porque, com mudanças de algumas casas decimais, nada acontece e o universo é estéril. O Big Bang tinha que ter alguma densidade. Estrelas produzem carbono. A Terra está a certa distância do sol. A atmosfera tinha uma boa composição. Tudo isso foi necessário para a vida aparecer. Milhares de outras combinações foram possíveis. Os físicos recriam [essa atmosfera] em laboratório, mas nenhum cria à vida. Essa competição de circunstâncias é extraordinária demais para que o acaso seja o único responsável.”

O autor usa a metáfora da relojoaria, como a definição de Voltaire de Grand Horloger (“É impossível para mim conceber ver um relógio sem relojoeiro”), mas especialmente detectamos a presença de um espírito acima de tudo, imaginação ou elucubração, como Nativos americanos que usam a frase “Great Manitou” (Grande Espírito) para designar Deus.

Em conclusão, o Franco-Maçom Escocês descobre que pertence a um conjunto universal unido governado pelo Princípio, símbolo da transcendência, sem o direcionamento a um Yahvé, um Deus, um Alá ou um Buda ou qualquer outro ídolo, conceitos que limitam aos preceitos de uma Igreja, com exclusão de todas as outras crenças. Através da iniciação, a fé se manifesta no nível de uma experiência interior independente de dogmas que restringem a liberdade de consciência.

Embora se recuse a lidar com questões da vida cotidiana (no nível religioso, político ou social) sem ignorá-la, o caminho escocês é um caminho exclusivamente iniciático em sua dimensão espiritual, que torna o maior grupo de Maçons do mundo.

Tradução: Rodrigo de Oliveira Menezes

Texto recebido por e-mail, sem o nome do autor, em Francês. Traduzido e publicado.

Fonte: Ritos & Rituais

Screenshot_20200502-144642_2

Só foi possível fazermos essa postagem graças à colaboração de nossos leitores no APOIA.SE. Todo o conteúdo do blog é disponibilizado gratuitamente, e nosso objetivo é continuar oferecendo material de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E você também pode nos auxiliar nessa empreitada! Apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil. Para fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Notas

[1] – Independente da interpretação do autor, vale a ressalva que a Proclamação de Princípios do Concílio de Lausanne foi o ponto principal de embate entre os Supremos Conselhos, fazendo com que muitas das determinações acolhidas pelos seus representantes não fosse aceita ou seguida por Escócia, Estados Unidos e demais países alinhados. Existe um artigo muito bem escrito no próprio site que narra todo esse desenrolar podendo ser acessado pelo link: https://ritoserituais.com.br/2018/09/19/o-concilio-dos-supremos-conselhos-do-rito-escoces-antigo-e-aceito-parte-1/

[2] – A íntegra desse texto já foi publicada no site através do link: http://ritoserituais.com.br/2019/06/25/macom-pode-comungar/

[3] – Naturalmente, esta é a Maçonaria do Rito Escocês Antigo e Aceito.

O caráter secreto das Ordens de Mistério

Henryk Siemiradzki : Phryne em Poseidonia, em Eleusis, 1889

Nas Ordens de Mistério da Antiguidade, sempre houve uma nítida separação entre o iniciado e o profano. Do iniciado exigiam-se severos votos de segredo. A publicação dos segredos, além de fazer os ensinamentos recaírem sobre ouvidos moucos, representava perigo para a sociedade iniciática, uma vez que, sendo um grupo pequeno e seleto e, muitas vezes, possível vítima de detração por parte da sociedade, expunha-a a perseguições políticas potencialmente fatais, como, por exemplo, aquela de que foi vítima a Escola de Crótona, fundada por Pitágoras.

A exigência do silêncio sobreviveu aos tempos. Começando nos Mistérios da Antiguidade, perpassou pelas corporações de pedreiros da Idade Média até as Ordens que, já existindo no fim da Renascença, ainda hoje subsistem. A tradição de manutenção do segredo quanto aos ensinamentos internos é, assim, bastante antiga.

Neste texto, ilustro com fragmentos de textos antigos quatro evidências documentais (todas as traduções dos originais são minhas). Os documentos são dois textos do Corpus Hermeticum, mais precisamente o Asclepius, de que só nos resta a versão latina, e o Poimandres, em sua versão grega original, ambos relacionados ao Hermetismo; o livro De Iside et Osiride, de Plutarco, sobre os Mistérios Isíacos; o Manuscriptus Regius, do século XIV, das corporações de pedreiros; finalmente, The Anderson’s Constitution, do século XVIII, primeiro documento oficial da Grande Loja Maçônica da Inglaterra. Evidentemente os documentos históricos, todos de domínio público, mencionam o caráter secreto das ordens iniciáticas, não os seus segredos. Como diz Mircea Eliade (vide ELIADE, Mircea: A History of Religious Ideas, 1:294), “os ritos dos Grandes Mistérios, os verdadeiros segredos das iniciações (teletai) e a iluminação (epopteia) nunca foram divulgados” [the rites of the Greater Mysteries (…) the true secrets of the teletai (initiation proper) and the epopteia (the culminating vision) have never been divulged]. Lembre-se de que os Mistérios dividiam-se em Mysteria Minora e Mysteria Maiora.

No tratado hermético Asclepius, um dos tratados do Corpus Hermeticum, de Hermes Trimegisto [vide SCOT, Walter (ed.): Hermetica: The Ancient Greek and Latin Writings Which Contain Religious or Philosophical Teachings Ascribed to Hermes Trimegistus. Shambhala. Boston, 1993], a personagem Asclepius pede a Trimegistus que permita chamar Amon, para que este possa ouvir, junto com Asclepius, os ensinamentos que Trimegistus iria passar. Trimegistus termina seu prólogo pedindo que Asclepius chame Amon e ninguém mais e que, após receber os ensinamentos, mantenha silêncio sobre eles:

“Além de Amon, chama ninguém mais, para que um discurso tão religioso sobre tantas coisas não seja violado pela intervenção e presença de muitos. Com efeito, é de uma mente irreligiosa publicar, pela consciência de muitos, um tratado pleníssimo de divindade em toda majestade.”

Acredita-se que o Asclepius, pelo menos sua parte inicial à qual faço referência, foi escrito por volta do ano 100 a.C., o que indica que seu conteúdo é ainda mais antigo. Escrito originalmente em grego, provavelmente por algum professor de Alexandria, resta-nos apenas a sua versão latina, recolhida por Marsilio Ficino no século XV.

É comum encontrar a ideia de que o termo religiosum, isto é, “religioso”, deriva do verbo religare, que significa “religar”, dando-se a entender uma suposta “religação” do Homem com a Divindade. Essa ideia é falsa. Na verdade, a associação de religiosum a religare foi feita por Lactâncio e especialmente por Santo Agostinho em sua obra Retractationes, I, 13, no século IV de nossa Era. Santo Agostinho, já adepto do dogma da queda de Adão do Paraíso, encontrou nessa associação uma excelente justificativa para a imposição do dogma da queda e do consequente retorno do Homem a Deus pela óbvia intermediação da Igreja. Etimologicamente, porém, religiosum significa “aquele que cumpre sua obrigação”. Que esse é o significado verdadeiro é comprovado por Cícero, no século I a.C. e, portanto, mais de 400 anos antes de Santo Agostinho, em sua obra De Natura Deorum, II, 72, na qual se afirma que religiosum deriva do verbo relegere, que significa “reler”. Com efeito:

“Todos aqueles, porém, que pertencessem ao culto divino diligentemente repetissem como se relessem, são ditos religiosos por reler, assim como elegantes por eleger, cuidadosos de cuidar, inteligentes de inteligir; por tudo isso, efetivamente, em todas essas palavras jaz o mesmo valor de ler que em religioso.”

“Religioso” é, então, “aquele que cumpre os atos do culto divino” e que, por assim dizer, “relê atentamente o ritual” [vide ABBAGNANO, Nicola (1982): Dicionário de Filosofia. Editora Mestre Jou, São Paulo, p. 814].

Portanto, quando Trimegistus diz que somente uma mente irreligiosa seria capaz de revelar ao público os segredos contidos em seu discurso, ele quer dizer que o verdadeiro iniciado, aquele que cumpre cuidadosamente seu dever ritualístico, jamais quebrará o voto de segredo. Sua explicação é que a mente profana é irreligiosa, ou seja, o profano é aquele que, não sendo um iniciado, não cumpre ritual algum e, por conseguinte, não está apto a compreender os ensinamentos herméticos.

Corpus Hermeticum possui outro tratado importante, o Poimandres [vide Scot (1993) supra], uma palavra grega que significa Pastor de Homens. No tratado, Asclepius, após mergulhar na reflexão profunda sobre as coisas divinas, tem uma visão na qual um ser gigante e luminoso, que se apresenta como Poimandres, lhe aparece e lhe transmite os ensinamentos herméticos. Já quase no final do tratado, no livro XIII (22b), Poimandres roga que Asclepius preserve silêncio sobre tudo que lhe foi transmitido acerca do renascimento, a quebra dessa promessa sendo vista como traição e geradora da desordem no mundo:

“Tendo aprendido isto de mim, promete o silêncio quanto à verdade, ó filho, e não revelar a qualquer outra criatura a instrução do renascimento, para que, desse modo, não sejamos considerados destruidores do universo.”

Traduzi παράδοσις (que no trecho está no acusativo singular) por “instrução” e não por “transmissão”. Isso porque o sentido é de transmissão oral ou escrita de uma doutrina ou de uma tradição religiosa [vide BAILLY, Anatole (2000): Dictionaire Grec-Français. Hachette, Paris, p. 1461]. Cri, assim, ser mais fiel ao sentido do texto e à doutrina da reencarnação professada pelos antigos hermetistas.

Plutarco, em seu tratado sobre os Mistérios de Ísis e Osíris (N.B.: clique AQUI para ler artigo sobre esse tema), mostra as similitudes entre os ritos de vários povos, argumentando que todos se referem a uma mesma Verdade universal. No final da seção 25, em particular, Plutarco compara o mito grego de Deméter ao mito egípcio de Osíris e Tífon (ou Seth) e mostra que têm o mesmo significado. Logo em seguida, ele menciona que o mesmo ocorre com todas as coisas que são vedadas aos olhos e ouvidos da multidão e que são veladas em ritos e cerimônias:

“Tanto as coisas que são encobertas pelos ritos místicos quanto as coisas que se preservam, pelos iniciados, não ditas e ocultas para a multidão têm uma explicação similar.”

Escrito por volta de 1390, o Manuscriptus Regius é a primeira versão do que se costumou designar as Old Charges, ou “Antigas Obrigações”. O Manuscriptus Regius é composto de quinze artigos. Nele existem ainda as chamadas constituições adicionais, compostas de quinze pontos ou dispositivos. Com relação à condição de se guardar segredo, é interessante reproduzir o terceiro ponto adicional (versos 275–286) do Manuscriptus Regius:

“Terceiro ponto: e com os aprendizes bem o saibas, ser o terceiro ponto o mais severo: A resolução de seu mestre ele mantenha e guarde e a de seus companheiros, por seu bom propósito; os segredos da câmara diga ele a homem nenhum nem qualquer coisa que na Logia façam; o que quer que ouças ou os vejas fazer, dize-os a homem nenhum aonde quer que vás; a resolução da assembleia e a da câmara, guarda bem, por magna honra, caso não queiras expor-te à reprovação e trazer à confraria grande vergonha.”

Constituição de Anderson (1723), no capítulo VI, que trata da conduta, aborda o tema do segredo particularmente no item 4º, que versa sobre a conduta que se deve observar diante daqueles que não pertencem à Ordem:

“4. Conduta em presença de estranhos não Maçons: Sereis cuidadosos em vossas palavras e obras, de modo que o mais perspicaz profano não seja capaz de descobrir ou de se aperceber do que não é próprio ser conhecido, e por vezes devereis mudar o rumo de uma conversação e administrá-la prudentemente, para a honra da venerável Fraternidade.”

Não foi, obviamente, minha intenção aqui escrever um ensaio completo e acadêmico sobre o caráter de secrecy das ordens de Mistério ao longo do tempo, mas apresentar algumas poucas, porém significativas, evidências literárias.

Autor: Rodrigo Peñaloza

Fonte: Medium

Screenshot_20200502-144642_2

Só foi possível fazermos essa postagem graças ao apoio de nossos colaboradores. Todo o conteúdo do blog é disponibilizado gratuitamente, e nos esforçamos para fazer de nossa página um ambiente agradável para os públicos interessados. O objetivo é continuar oferecendo conteúdo de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E agora você pode nos auxiliar nessa empreitada! Apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil. Para fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Uma abordagem ao percurso inicial da Maçonaria especulativa

Notícias Filhos do Arquiteto ✡: MAÇONARIA - OS 33 GRAUS DO RITO ...

Preâmbulo

As notas que vos apresento tiveram a sua gênese nas dúvidas que nos foram surgindo no que respeita quer à eventual “passagem de testemunho” da maçonaria operativa para a especulativa, quer aos reais motivos que terão estado por trás da constituição da Grande Loja de Londres em 1717, considerada como o marco fundacional da moderna maçonaria especulativa.

À medida que ia consultando diferente documentação, uma leitura mais atenta de alguns estudos e livros referidos na Bibliografia, foi importante para obter uma nova perspectiva de um dos capítulos mais interessantes da historiografia maçônica, alvo de diversas interpretações históricas de consistência variável, consoante os círculos maçônicos e os objetivos e tendências que perseguem.

Ficou mais claro para nós que a moderna maçonaria tem inequívocas raízes escocesas, que a partir do Norte influenciaram a Inglaterra e a Irlanda, sendo que os ingleses, através da criação da Grande Loja de Londres, vieram a recolher os louros da sua gênese. No entanto, a constituição da GLL traduziu também a intensa luta entre os blocos católico/stuartista e protestante/hanoveriano, que no fundo apoiavam duas concepções distintas da Maçonaria. As Lojas maçônicas foram utilizadas durante essa época para veículo dessa disputa, que se estendeu às terras francesas, iniciando a difusão da Maçonaria especulativa pelo continente europeu, com o exílio dos Stuarts.

Introdução

O fato de se questionar a eventual ausência de ligação direta entre a Maçonaria operativa e a especulativa, sendo uma “heresia” face às fontes tradicionais, não deixa de ser simultaneamente desafiador e estimulante. No entanto e independentemente da teoria seguida, restam poucas dúvidas de que a Maçonaria Especulativa se constituiu na Grã-Bretanha, no decurso do século XVII, em condições ainda incertas e historicamente muito pouco documentadas. No entanto quando procuramos evidências relativamente ao seu desenvolvimento, verificamos que são abundantes na Escócia e quase totalmente ausentes em Inglaterra.

Uma das primeiras abordagens diferenciadas das correntes tradicionalistas de grande parte dos historiadores ingleses do final do século XIX (Gould, Hughan e outros), é dada pelo trabalho de dois grandes historiadores ingleses da Maçonaria, Douglas Knoop (professor de Economia na Universidade de Sheffield e maçom) G. P. Jones (professor de História Econômica também em Sheffield, mas não maçom) nos finais dos anos trinta do século passado.

Contudo somente a partir de meados dos anos 70 começou a ser dada a devida atenção aos seus estudos e pesquisas. No prólogo da primeira edição da sua obra principal “The Genesis of Freemasonry”, salientam que:

“Embora tenha sido até agora habitual pensar a história da Maçonaria como uma questão totalmente à parte da história, justificando um tratamento especial, pensamos que se trata dum ramo da história social, do estudo de uma instituição social particular e das ideias que estruturam esta instituição, que se deve abordar e escrever exatamente da mesma forma que a história das outras instituições sociais.”

Esta abordagem tem vindo a ser seguida por alguns dos atuais historiadores e estudiosos maçônicos, como por exemplo R. Dachez e David Steveson, entre outros, que salientam que esta escolha incontornável está longe de ser unanimemente partilhada por numerosos autores que se “adaptam” às ocasiões da história maçônica, da mesma forma que a história de certas religiões e igrejas, tratada com objetividade, implica a contestação de alguns fiéis, que se recusam a olhar a sua história. Do mesmo modo, o que designa por “história laica da maçonaria” não alcança o espírito de todos os maçons, sendo um escolho que todo o historiador maçônico deverá estar consciente.

Esta corrente preconiza o caminho da aproximação “científica” (ou “autêntica”), segundo a qual uma teoria deve ser fundada a partir de fatos ou de documentos que a sustentem, por contraponto à aproximação “não autêntica” que se esforça por colocar a Maçonaria na tradição do Mistério, procurando, por um lado ligações entre os ensinamentos, as alegorias e o simbolismo e, por outro, as diversas tradições esotéricas (vide John Hamill – bibliotecário da Grande Loja Unida de Inglaterra, durante vários anos, na sua obra “The Craft. A history of English Freemasonry”).

Relativamente à gênese da maçonaria especulativa, a tese mais vulgarizada e partilhada quer pela esmagadora maioria da documentação maçônica, quer entre os Maçons, é a chamada teoria da “transição“, que preconiza a passagem gradual das Lojas operativas a especulativas, devido às transformações econômicas que levaram ao declínio das grandes construções, a partir dos finais do Renascimento.

Deste modo, indivíduos estranhos ao ofício, provenientes da nobreza ou com importantes cargos civis ou intelectuais de prestígio, movidos por interesses especulativos de base neo-platônica, alquimista ou Rosa-Cruz, teriam efetuado uma entrada progressiva nas lojas operativas em estado pré-moribundo, aproveitando as estruturas criadas e os rituais praticados, para desenvolverem os seus objetivos e tomarem o respectivo controle.

Quanto à constituição da Grande Loja de Londres, aprovada numa assembleia constituinte por 4 lojas existentes na cidade, em 24 de Junho (dia de S. João) de 1717, não terá sido provavelmente um ato criativo “espontâneo”, mas justificado por perspectivas politicas e sociais específicas, já que sempre nos pareceu de difícil sustentação histórica e social a teoria da espontaneidade, de per si.

As Lojas “antigas” da Escócia

Na sua obra principal The-Origins-of-Freemasonry-Scotland-s-Century-1590-1710, David Steveson, conclui que a contribuição medieval e renascentista, para a organização e história da Ordem, propiciou alguns dos ingredientes essenciais à formação da Maçonaria, mas o processo de combinação desses com outros ingredientes só ocorreu por volta de 1600 e teve lugar na Escócia .

É geralmente aceito pelos historiadores que os “Estatutos de Shaw”, no reino da Escócia, são o primeiro documento conhecido onde são lançadas as bases organizativas do sistema de Lojas da Maçonaria operativa, que veio posteriormente a servir de modelo à estrutura das Lojas especulativas.

Este documento resultou da reunião realizada em Edimburgo, em 28 dezembro de 1598, convocada e dirigida por William Shaw, Supervisor Geral dos Maçons e intendente das edificações do rei da Escócia, durante o reinado de James VI (James I da Inglaterra). Foi completado em 1599 por uma segunda série de regulamentos para dar solução à reivindicação da presença da Loja de Kilwinning. Estes estatutos consagravam a organização territorial das lojas por cidades e por regiões, impondo a eleição anual dos Oficiais.

São essencialmente regras práticas estabelecidas pelos mestres da corporação sediados em Edimburgo, tornadas mandatórias para todos os membros. Os dois primeiros artigos instruem e regulam a obediência, antecipando a iniciação maçônica, relativamente à qual não são dados detalhes, mencionando unicamente o juramento (“taking of the oath”) e a transmissão da “palavra de maçom” (“mason word”). O manuscrito conhecido como “Edinburgh Register House”, datado de 1695 explicita que o juramento é efetuado sobre a Bíblia e o candidato “jura por Deus”, S. João, o esquadro e o compasso.

Segundo P. Naudon, os estatutos de 1599, definem também a jurisdição da Loja e estabelecem as taxas mandatórias. O Mestre, aqui entendido como grau sobretudo honorífico, ou guardião (“Warden”) tem o poder de verificar as qualidades e aptidões dos companheiros, bem como a capacidade de expulsar os não cumpridores do juramento, podendo também nomear um secretário. Estes estatutos utilizam os termos, aprendiz ( “journey man” / mais tarde “entered apprentice”) e Companheiro (“Fellow-Craft”), o que prova a existência de pelo menos dois graus na Maçonaria operativa escocesa da época (século XVII).

A Maçonaria emergiu pois na Escócia no século XVII baseada em Lojas, organizações secretas ou semi-secretas/discretas de iniciados, combinando sociabilidade e fraternidade com segredos elaborados e esforçando-se genericamente em trabalhar para regular a entrada de artífices da pedra (“stonemasons“) e regulamentar as respectivas práticas de trabalho. Efetuavam rituais de iniciação e identificação descritos nos catecismos.

No decurso desse século XVII, alguns homens de níveis sociais distintos, começaram a ficar intrigados e simultaneamente curiosos com os segredos dos “stonemasons” e o reconhecimento de que a sua Ordem tinha um estatuto intelectual único, tendo alguns desses “outsiders” sido iniciados em lojas. Existem evidências de que certas personalidades próximas das correntes iluministas e Rosa-Cruzes da época, entre os quais Robert Moray, passaram e/ou debruçaram-se sobre estas organizações. A organização discreta/secreta e a existência de certos ritos despertaram-lhes interesse, mesmo que a sua passagem por elas, durante todo o século, tenha sido extremamente rara, esporádica ou efêmera.

Entre os fatos que evidenciam fortemente que tenha sido a Escócia preponderante no aparecimento da moderna Maçonaria, desde o final do século XVI e sobretudo no século XVII, apontam-se a existência dos registos mais antigos de:

  • utilização do termo “Loja” no sentido moderno do termo e evidência de que estas instituições existiam permanentemente;
  • Organização de lojas em âmbito nacional;
  • Registos oficiais e atas de reuniões efetivas;
  • Exemplos de “não-operativos” (“no working stonemasons”) que se juntaram às lojas;
  • referências à “palavra do Maçom” / “mason word“;
  • catecismos maçônicos expondo a “palavra do Maçom” e descrevendo iniciações maçônicas;
  • Evidências ligando o que era realizado pela loja com ideais éticos específicos, expostos pela utilização de símbolos;
  • Utilização de dois graus ou níveis na maçonaria;
  • Utilização dos termos “entered apprentice” e “fellow-craft” nesses graus;
  • Evidência da emergência dum terceiro grau (loja de Edimburgo), pela utilização de “masted’ como estatuto no mínimo diferente de “fellow-craft
  • Começo da percepção, por alguns, da maçonaria como “sinistra” ou “conspirativa”.

Ainda segundo Steveson, as reuniões nas Lojas ocorriam em média uma a duas vezes por ano, tendo a de Edimburgo, entre 1601 e 1710, reunido em média duas a três vezes por ano, o que representa um excelente registro, visto tratar-se duma importante loja urbana.

Percorrendo os registos do século XVII, imediatamente anteriores ao da criação da Grande Loja de Londres, Steveson e Naudon, comprovaram que a maçonaria escocesa possuía já um grau de organização e expansão nacional muito mais consistente do que acontecia em Inglaterra na mesma época.

Existe evidência de que em 1710 estavam ativas 25 lojas na Escócia, tendo mais algumas sido referenciadas ao longo do século, mas estando inativas ou extintas nessa data. Destas 25, 20 continuaram ativas e destas últimas, atualmente 80% ainda existem, o que constitui um registo assinalável.

Há contudo dois aspectos fundamentais, face à moderna maçonaria, que não existiam na Escócia no século XVII:

  • Não existia nenhuma autoridade central de supervisão, como uma Grande Loja (apesar de Schaw e alguns dos sucessores o tentarem criar esse figura, numa forma mais estatutária que efetiva), embora existisse uma rede de lojas
  • Inexistência de lojas compostas unicamente por não-operativos.

Em 20 de maio de 1641, alguns membros da loja de Edimburgo que estavam na época em Newcastle com o exército “conjurado” escocês (na guerra com a Inglaterra), admitiram como “maçom aceito” o honorável Robert Moray (juntamente com Alexander Hamilton, também general revoltoso), quartel-mestre geral do exército escocês, figura notável à época, considerado um dos “pais” da maçonaria especulativa e um dos grandes impulsionadores da Royal Society. Esta prática manteve-se ao longo do tempo, propiciando a formação de lojas nos regimentos escoceses e irlandeses. Mais tarde referiremos o seu importante papel no estabelecimento da moderna maçonaria no continente europeu, em especial na França.

A liberdade e independência das Lojas propiciaram a formação de algumas constituídas somente por membros não operativos. Segundo Naudon, por volta de 1670, mais de três quartos dos membros da Loja de Aberdeen não eram maçons profissionais. Os Estatutos de Shaw especificavam que estes membros estavam isentos da caixa de coleta, da marca, do banquete e do “pint” de vinho.

A dificuldade de generalizar o comportamento das Lojas, já que diferem consideravelmente em tamanho e composição, aplica-se também aos seus membros.

Os “não operativos ou “gentleman-masons” tinham como atrativo nas Lojas um ideal de amizade, uma mistura social informal (embora dentro duma instituição formal) e o banquete anual podendo adicionalmente compreender traços do antigo, do secreto, do misterioso e do ritualístico.

Parece ter sido esta a causa, mas podemos questionar o real motivo do aparecimento destas lojas pré- especulativas, sendo que está comprovado que a Escócia foi um dos países em que a maçonaria operativa mais persistiu de forma organizada, o que comprovadamente não aconteceu na Inglaterra.

É curiosa a análise do percurso de duas das figuras mais notáveis da época, relativamente às quais existem provas da sua iniciação, sem que no entanto existam dados continuados da sua presença em lojas. Quando Robert Moray, como referimos atrás, foi admitido na Loja Mary’s Chapel de Edimburgo, consta nos arquivos da Loja a seguinte minuta:

“Em Newcastle, a 20 de maio 1641. Neste dia, um certo número de mestres e outros estando regularmente reunidos, admitem o muito distinto Robert Moray, Mestre General de Quartel do exército da Escócia, o que foi aprovado por todos os mestres maçons da loja de Edimburgo que colocaram as suas assinaturas ou as suas marcas”.

Quanto a Elias Ashmole (antigo capitão da artilharia real e fervoroso stuartista), foi iniciado cinco anos depois de Moray, em Warrington (também a norte da Inglaterra), numa loja com mais características de se tratar de uma loja escocesa deslocalizada do que uma loja inglesa. Verifica-se pois que duas das principais figuras precursoras da nova maçonaria eram ambos fervorosos partidários dos Stuarts. Poderá isto ter algum significado? Provavelmente terá.

Steveson mostrou inequivocamente que esta organização profundamente inovadora, era estritamente específica da Escócia, sem que nenhum sistema idêntico tenha existido anteriormente. Como refere Dachez, contrariamente às versões clássicas, o aspecto mais importante deste trabalho foi evidenciar que a característica da “aceitação”, expressão tipicamente inglesa, utilizada para justificar a penetração dos especulativos nos operativos, jamais foi utilizada na Escócia durante o século XVII.

A partir deste trabalho, por consulta dos registos disponíveis das lojas, é possível identificar e estudar os 139 membros não operativos recebidos nas Lojas escocesas entre 1637 e 1717. É no mínimo curioso observar que o pastor Anderson, escocês, filho do secretário da Loja escocesa de Aberdeen, ignora por completo estes escoceses não-operativos. Será que o motivo principal terá sido o de constituírem, na sua maioria, fervorosos stuartistas?

Durante o reinado de Carlos I, uma dúzia de membros “gentleman” admitidos na Loja Mary’s Chapel de Edimburgo pertenciam à corte do Rei. Destes, só Robert Moray voltou à loja em 1647. O panorama das lojas escocesas majoritariamente operativas irá mudar consideravelmente a partir da morte de Carlos II. O quantitativo de personalidades não operativas recebidas nessas lojas, desde a ascensão ao trono de James II em 1685, eleva-se a mais de uma centena até 1717, aproximadamente o quíntuplo dos recebidos na totalidade do reinado de Carlos II, num período de tempo sensivelmente equivalente.

Na loja de Dunblane em 1696, por exemplo, dos 13 membros nomeados em ata de reunião, somente 4 são operativos, sendo a maioria constituída por nobres, quase todos ligados à causa stuartista. Steveson aponta que os membros dessa loja muito seletiva eram relativamente assíduos, mas não se preocupavam muito com o “ofício”, até finais de 1710, quando o predomínio passou para os operativos. Teria a ver com o final das “esperanças” dos stuartistas em reconquistarem o trono, como sugere Louis Trébuchet?

A prática comprovada, mas excepcional, das Lojas receberem a titulo honorário pessoas exteriores à profissão, que raramente lá voltavam, terá produzido, segundo Dachez, um conjunto de “maçons livres” com a possibilidade de transmitir uma Maçonaria que foram transformando em função dos seus próprios objetivos e preocupações intelectuais. Tinham descoberto algo que lhes interessou vivamente, um ritual e uma tradição.

Assim a “fronteira do Norte” terá sido permeável à expansão até ao Sul da Inglaterra destes maçons “não- operativos” que a Maçonaria operativa nunca integrou internamente, justificando plenamente que a maçonaria inglesa do século XVII tenha sido, desde a origem, puramente especulativa.

Parece não existir outra explicação plausível para a admissão de elementos não operativos nas Lojas Escocesas já que, por volta de 1717, ainda possuíam um importante papel na área da construção e, contrariamente ao que se passava na Inglaterra, não se reuniam em tabernas ou em locais esporádicos, mas em edifícios ou locais que lhes pertenciam.

As Lojas “antigas” da Inglaterra

Na Inglaterra a iniciação de cavalheiros (“gentlemen”) em Lojas é registada desde 1640, mas aqui o processo é muito mais obscuro.

Sendo fato praticamente inequívoco que a maçonaria especulativa, tal como a entendemos, surgiu na Inglaterra, não existem contudo documentos suficientemente esclarecedores de que pessoas estranhas ao oficio fossem admitidos em lojas operativas inglesas. E, mesmo relativamente a estas últimas e ao seu funcionamento como estrutura permanente em todo o território, não existem quaisquer dados.

Para os que defendem a primazia da Inglaterra no aparecimento da moderna Maçonaria, sobretudo no século XVII, apontam-se os seguintes fatos:

  • cópias mais antigas das “Old Charges” (não são conhecidas cópias escocesas anteriores a meados do século XVII);
  • utilização generalizada do termo “freemason” e utilização do termo “maçom aceito”(“accepted mason”);
  • Lojas compostas unicamente por “não operativos” (que se pode interpretar como indicando que a “maçonaria” inglesa era, muito mais que a escocesa, uma criação sem, ou com reduzida, sustentação profissional);
  • criação da primeira Grande Loja.

A única certeza que existe é de que as poucas lojas operativas que tardiamente surgem, permanecem operativas até à sua extinção, como a loja de Chester. A famosa loja de Acception, de Londres (século XVII), abusivamente citada como exemplo da transição especulativa é indevidamente classificada como Loja, uma vez que este termo não aparece nunca em suas respectivas atas, não se sabendo quem a fundou e por que motivo, deixando historicamente apenas dois leves traços documentais, em 1610 e em 1686, relacionados com Elias Ashmole.

Nas primeiras lojas inglesas, contrariamente à Escócia, não se detectam ligações aos operativos, o que sugere que a maçonaria foi aqui uma criação “artificial”, no sentido de ter sido originada por pessoas sem contato direto com a profissão, muitas vezes influenciados provavelmente pelo que “acontecia” ou então podem ter sido “importadas” a partir da Escócia. Não existe atualmente nenhuma loja na Inglaterra a que se possa ser feita referência continuada antes de 1716-17, quando a Grande Loja foi criada. As lojas inglesas só tinham inicialmente um grau, o que implicava substanciais diferenças nos rituais comparativamente à Escócia, onde existiam dois graus.

A teoria clássica da “transição”, foi posta contestada também por outros historiadores (finais da década de setenta), nomeadamente Eric Ward, que defendem que na Inglaterra, contrariamente à Escócia, não teria havido transição da maçonaria operativa para a especulativa e que as lojas dos primeiros se foram progressivamente extinguindo, sem deixar rastro, face às características sócio-econômicas da época. A crítica de Ward fundamenta-se sobretudo na interpretação do significado clássico atribuído a certas palavras-chave (origens de “freemason” e de “Free-Mason” ou “Free-Masons”) utilizadas indistintamente pela teoria da “transição”).

Também para Knoop e Jones, os únicos fatos mais ou menos incontestados, comprovam que desde a sua origem, as lojas maçônicas inglesas são puramente especulativas, contando-se como exceção, como vimos, a loja de Chester. Nesse período existiu também a Companhia dos Maçons de Londres, restrita à área da capital, e a única guilda conhecida na Inglaterra para a profissão de maçom, não se conhecendo mais nenhuma estrutura comparável. Esta corporação procurou o suporte de vários patronos de famílias nobres e comerciantes, com a figura de membros honorários, para ajudarem a assegurar o fundo financeiro de apoio aos associados.

Lembre-se que a Escócia era, no início do século XVII, um país estrangeiro e inimigo, havendo poucas relações entre ambos, motivo pelo qual a existência de Lojas operativas organizadas por toda a Escócia não poderia, por si só, impulsionar ou servir de catalisador do surgimento de uma Maçonaria especulativa, na mesma época, no sul da Inglaterra.

A tese de Colin Dyer (a teoria do “empréstimo”/“emprunt” em francês), seguida por outros autores ingleses contemporâneos, aponta para que o movimento que dá origem à maçonaria especulativa tenha tido origem e motivações claramente religiosas. O estudo comparado das “Old Charges” (“Antigos Deveres”) estabelece claramente que este movimento, aparentemente secreto, o que à luz da história da época se torna compreensível, não teve qualquer ligação com a maçonaria operativa. Teria sido estabelecido por altura de 1560 ou 1580, época em que os conflitos religiosos atingiram grande intensidade (atestam por exemplo que o Manuscrito da “Grande Loja, n°1” não teve nada a ver com o de “Cooke”, sendo um documento totalmente novo, já que a ortografia utilizada segue a das Bíblias publicadas em Inglaterra após a Reforma, ou seja a partir de 1540, cerca de 180 anos após este).

Os trabalhos de David Steveson trouxeram, contudo, uma nova interpretação da controversa questão das fontes da maçonaria especulativa. O fenômeno da “aceitação” utilizava uma expressão puramente inglesa, nunca adotada na Escócia, o que comprovou pela análise cuidadosa das listas dos membros das diversas Lojas, e da sua história durante vários decênios.

Detectou contudo, um novo ponto muito importante, a curiosidade e o interesse com que, desde a origem, algumas personalidades, entre as quais o famoso Sir Robert Moray, demonstraram sobre estas Lojas escocesas. A prática excepcional, mas comprovada, de receber com o título de membros honorários, pessoas estranhas ao ofício, teria permitido constituir uma população de “maçons livres”, que embora numericamente fraca, era legítima e ativa, possibilitando-lhes transmitir uma Maçonaria que lhes foi possível transformar em ordem às suas preocupações intelectuais e filosóficas.

Poderiam as lutas religiosas de 1640 a 1660/80 e depois entre stuartistas e hanoverianos, estar na origem da falta de documentação relativa às Lojas Inglesas?

Na Inglaterra, o papel de loja mãe foi durante muito tempo assegurado pela velha loja de York. Este teria sido o motivo da recua da “Old Lodge of York” em reconhecer a autoridade da Grande Loja de Londres, quando esta foi instituída em 1717. Segundo P. Naudon, somente após a reunião da Assembleia Maçônica de York, em 27 de dezembro de 1663, quando a Maçonaria já se tinha tornado especulativa, o título de grão-mestre foi aprovado, embora não conferisse autoridade administrativa a quem fosse designado. De fato, o escolhido poderia ser somente um “protetor”, garantindo o patrocínio à corporação. Os poderes do grão-mestre só foram criados a partir de 1717, com a Grande Loja de Londres.

Segundo Knoop e Jones, a hipótese duma rede desconhecida de lojas (iniciáticas e secretas), cuja existência e ensinamentos tenham escapado à análise do historiador, é insustentável, pelo menos se pretendermos permanecer no campo da história, tal como o entendemos.

Há, contudo, uma data a que devemos prestar atenção e que não é muitas vezes referida, que é 1707. Neste ano realizou-se o “Ato de União”, transformando a Escócia e a Inglaterra num único reino. As duas nações que tinham estado até aqui de costas voltadas e muitas vezes em guerra, iniciaram finalmente uma lenta, mas real , aproximação, sem que contudo, a desconfiança de um país face ao outro se tivesse automaticamente atenuado.

Da Royal Society à Grande Loja de Londres

Considerando as diferenças e eventuais interseções entre maçonaria operativa e especulativa, sobretudo na Escócia do século XVII e início do XVIII, nada permite fundamentar, face à sequência temporal e histórica, que a maçonaria especulativa tenha nascido em 1717. De fato, esta data é quase irrelevante no longo processo de desenvolvimento do movimento. Segundo Knoop e Jones,

“naquela altura, a formação da Grande Loja foi uma ocorrência de menor importância no desenvolvimento da Maçonaria, e não faz sentido constituir um marco na historia maçônica”.

No entanto a nova forma de organização instituída pela Grande Loja de Londres constitui uma inovação, face à organização predominante até ao momento, de raiz escocesa, centrada sobretudo nas Lojas.

P. Naudon salienta que não se conhecem as razões oficiais da criação da referida Grande Loja, francamente modesta na concepção, sendo a ênfase dada possivelmente à necessidade de um poder regulador sobre as lojas, o que fará sentido, como veremos.

Somos pois levados a concordar com a afirmação de J. Marty:

“O fato das mais influentes lojas maçônicas na Inglaterra, na Escócia e na Irlanda terem uma fortíssima influência stuartista, a outra família real que disputava o trono, impôs aos novos ocupantes do trono inglês o desenvolvimento de esforços imediatos para contrariar essa influência no mesmo terreno, como uma das formas de manterem o poder adquirido.”

Não é pois sustentável diluir historicamente a criação da Grande Loja de Londres (que no século seguinte evoluiria para a Grande Loja Unida da Inglaterra), como não deixando de corresponder a um plano político organizado pela nova família real inglesa, a dinastia Orange ou hanoveriana, para combater a influência stuartista.

Recuando de novo à questão do nascimento da Maçonaria Especulativa, é necessário correlacioná-la e ter também presente a criação da Royal Society, em 28 de novembro 1660, no Gresham College, em Londres e em que tiveram destacado papel alguns maçons ou Rosacruzes da época, nomeadamente Robert Moray, Elias Ashmole, Christopher Wren, e outros.

Robert Moray foi elemento preponderante na liderança que constituiu a Royal Society, e foi virtualmente o seu presidente durante 1661 e a primeira metade de 1662, apesar do titulo não ter sido formalmente utilizado por ninguém, até a carta patente receber o selo real, onde foi personagem decisivo. O aparecimento desta instituição mostrou claramente o crescente interesse na investigação científica e na experimentação, e o prestigio crescente destas atividades.

Antes da constituição da Royal Society, a ciência estava completamente dominada pela religião e amarrada a argumentos teológicos. Qualquer investigador que desafiasse a visão dos inquisidores era considerado herege e punido enquanto tal, pagando muitas vezes o preço da própria vida.

Mais do que um conjunto de ideias estabelecidas, os princípios de estudo da natureza propostos pela Royal Society representavam uma atitude e uma maneira inovadoras de pensar a realidade, resultantes do desejo de reexaminar e pôr em questão as ideias e os valores recebidos, mas com enfoques bem diferentes.

A esta grande mudança no desenvolvimento científico, levando uma comunidade a rejeitar uma teoria pseudo-científica anteriormente seguida, em favor de uma outra com ela incompatível, traduz uma mudança de paradigma, no sentido “kuhniano” do termo. A esta mudança não foram alheios os ideais da verdade, da tolerância, do respeito pelo trabalho realizado, da retidão e da fraternidade dos Maçons que estiveram associados à fundação e direção inicial da Royal Society, da qual que Isaac Newton veio a ser um dos mais notáveis presidentes (já no início do século XVIII).

Em resposta à interpretação de Eric Ward, Frederic Seal-Coon respondeu no ano seguinte (1979) com uma teoria mais política, que estabelecia a correspondência cronológica entre o nascimento da maçonaria especulativa e as relações tumultuosas da dinastia escocesa dos Stuarts com o trono da Inglaterra, ocupando grande parte do século XVII e a primeira metade do século XVIII, em que tentou recuperar o trono, após o exílio na França.

Na Grã-Bretanha, tanto os stuartistas, quanto os hanoverianos, foram atraídos para alianças maçônicas rivais. O sistema das lojas, combinado com o secretismo, ideais de lealdade e modos secretos de reconhecimento, originou uma estrutura ideal de organização, na qual os membros puderam colocar os seus próprios valores, podendo adaptá-los para utilização própria.

Da análise dos sermões do Rev. Anderson de 1712 e 1715, Steveson concluiu que era evidente uma tonalidade “whigh” (protestantes, partidários da casa de Hannover) radical e determinante, já que descreve o país como

“benzido com um bom protestante como soberano e uma feliz Constituição, depois de libertado das garras e da escravatura papista, pela revolução…”

Aliando estas interrogações ao fato das Constituições elaboradas pretensamente pelo Rev. Anderson (que era pastor presbiteriano escocês), elaboradas em 1723, seis anos depois da criação da Grande Loja de Londres, terem efetuado uma “limpeza criativa e radical” (continuada pelo duque de Montagu) de toda a documentação conhecida anteriormente existente, contribuiu para reforçar um conjunto de interrogações, cujo esclarecimento tentamos aprofundar.

Somos, pois, levados a concordar de novo com J. Marty, em que

“a história oficial que foi criada e difundida, constituiu parte de um programa de cultura imperial global muito ativo no último quadrante do século XVIII e no século XIX, por parte da potência dominadora a nível mundial nesse período, a Grã- Bretanha.”

Também não se encontra antes de 1723 nenhum texto proibindo as lojas escocesas, e mais tarde as lojas temporárias inglesas, de serem criadas sem terem a autorização superior de alguém com poderes para tal, mas a partir daquele ano, só puderam ser criadas novas lojas na Inglaterra com a obtenção prévia da carta patente, firmada pelo Grão-Mestre da Grande Loja de Londres.

O primeiro Grão-Mestre de origem nobre da Grande Loja de Londres foi, em 1721, o Duque de Montagu, “whigh” convicto, condecorado em 1718 por George I com a distinta Ordem da Jarreteira, responsável pela criação em 1745, de um regimento de cavalaria para combater o príncipe Carlos Eduardo Stuart, quando da última tentativa deste para recuperar o trono.

Os dados parecem pois apontar para que tenha existido uma tomada de poder dentro da fraternidade maçônica pela facção “whigh”, então minoritária, numa época em que a ascensão ao trono de George I de Hanover, três anos atrás, estava longe de ser unânime, quer na Inglaterra, mas sobretudo na Escócia.

A reação stuartista/jacobita não se fez esperar e o duque de Wharton, de regresso da Europa depois de convertido à causa stuartista, conquistou o grão-mestrado num golpe interno. Foi destituído no ano seguinte, mas a luta de influencias, perdida no território inglês, continuará agora na França.

As “lojas escocesas” na França

Desde que se deu a confrontação entre os Stuarts e o Parlamento, e mais tarde entre os Stuarts e a casa de Hannover, cada uma duas partes procurou trazer a Ordem para o seu lado. A ligação desta aos Stuarts era manifesta desde a Escócia, em virtude das origens escocesas comuns, pelo que não lhes foi difícil utilizá-la como aliada e veículo dos seus objetivos restauracionistas.

O papel desempenhado pela Maçonaria Escocesa na França é confirmado pelo cavaleiro Ramsay, no seu famoso “discurso” de 1737, sendo a presença de lojas escocesas mais evidente a partir do exílio forçado dos Stuarts.

A Maçonaria stuartista chegou na França em 1688 através das primeiras lojas militares que se formaram nos regimentos que acompanharam James II, no exílio em Saint Germain de Laye. Existem provas de que a fuga para França intensificou a criação de Lojas maçônicas nos regimentos stuartistas. Por volta de 1689, os regimentos escoceses e irlandeses sediados na França possuíam “staffs” maçônicos, constituindo muitas vezes, a autoridade administrativa, sendo os militares a executiva.

É possível que a primeira loja na França tenha sido a que mais tarde se designou por “La Parfaite Égalité” (inicialmente “Irish Guard Lodge”), loja militar real irlandesa do coronel Walsh, do regimento de guarda pessoal de James II. Quatro anos depois da sua fundação , o Grande Oriente de França reconhece, em 1777, que essa loja foi constituída em 25 de março de 1688.

A primeira loja francesa, indiscutivelmente conhecida, foi fundada em 1725 por Charles Radcliffe de Derwenwater e outros fervorosos stuartistas. Sensivelmente por volta de 1728, as lojas escocesas na França, reconheceram como Grão-Mestre o duque de Wharton, anterior Grão-Mestre da Grande Loja de Londres e apoiador dos Stuarts. Após a sua morte, em 1731, Lord Derwentwater assumiu o grão-mestrado, seguido por Hector MacLean (baronete escocês) de 1733 a 1735 e de novo Lord Derwentwater, a partir de 1736.

A concorrência “whigh”/hanoveriana, não se fez esperar muito, deslocando-se também a partir de 1734 para o solo francês, com a criação em Paris de uma loja rival à de Derwentwater, em que a Grande Loja de Londres se faz representar pelo duque de Richmond e Jean T. Desaguiliers. O conflito provocado pela existência de duas categorias de lojas rivais – escocesas e inglesas, transpôs-se e desenvolveu-se também na França, até à criação da Grande Loja de França e da nomeação do duque de Antin, como Grão-Mestre (ad vitam), em 24 de junho de 1738.

Foi o duque de Montagu, que sucedeu, desde 1721, ao pastor J. T. Desaguiliers, que se comprometeu a introduzir na França a Maçonaria especulativa (tendência “inglesa”). Do desenvolvimento dos ritos da época, a par das teorias filosóficas que sustentaram o aparecimento da Real Society, acabaria por surgir o Rito Francês. Mais tarde, e embora apresente maior parentesco com a matriz escocesa, acabaria por surgir o Rito Escocês Antigo e Aceito, assim designado apesar do berço francês.

Notas finais

Julgamos poder concluir, no essencial, que a moderna maçonaria teve origem escocesa, em vez de inglesa. A evidência escocesa pode ser fielmente comprovada durante o século XVII, através dos documentos oficiais de várias lojas, que foram conservados, graças aos Estatutos de Schaw. Contrariamente, na Inglaterra somente parcos registos em papel, que possam ter pertencido a Lojas, sobrevivem.

O termo “aceito” continuou a ser aplicado na Inglaterra aos Mmaçons iniciados, e a Grande Loja de Londres, fundada cerca de 40 anos depois, passou a chamar-lhes “maçons livres e aceitos“. Nos anos do rápido desenvolvimento da maçonaria inglesa depois de 1700, os rituais que surgiram eram baseados na “mason word” e as práticas descritas no catecismos mais antigos têm, sem dúvida, origem na Escócia.

A primeira referência a uma loja inglesa caracterizada por um corpo permanente e não por uma reunião ocasional, é a de Chester, também no norte do país. A primeira loja na Inglaterra cujas atas sobreviveram, a loja de Alnwick, fica a 20 milhas da fronteira com a Escócia. A loja mais antiga descrita na Inglaterra refere-se a Warrington, no Lancashire, também no Norte.

Tudo isto sugere claramente que as lojas maçônicas, na sua moderna configuração, nascem da instituição escocesa que se espalhou pela Inglaterra no decurso do século XVII. A maçonaria na qual os primeiros “gentlemen” não operativos foram iniciados foi também muito influenciada pelas práticas escocesas.

No entanto, e esta é uma diferença essencial, desde o início os ingleses preferiram encontrar-se informal e irregularmente, apelidando por vezes estes encontros ocasionais de “reuniões de loja”. No entanto, a institucionalização da estrutura, originada por Schaw, foi reconhecida e as lojas ocasionais foram dando progressivamente origem a instituições permanentes.

Doze dos Grão-Mestres da Inglaterra no século XVIII eram escoceses e, quando os maçons franceses inventaram inúmeros altos graus e rituais, sentiram que a melhor maneira de lhes dar legitimidade era designá-los por “Rito Escocês”. Também estes fatos parecem admitir tacitamente que a maçonaria escocesa tem um papel especial na história da Ordem….

O objetivo subjacente à elaboração das Constituições de Anderson, o papel desempenhado por Desaguiliers, a Grande Loja de Londres e os conflitos que se arrastaram por quase 100 anos entre “Antigos” e “Modernos”, podem dar lugar a diversas interpretações, mas certo é que por trás destes conflitos estavam dois conceitos distintos da Maçonaria, que foram utilizados na disputa do trono real britânico pelos blocos stuartista e hanoveriano.

Parece não existir dúvidas, face aos historiadores e obras que temos referido, que as Lojas maçônicas escocesas, irlandesas e inglesas foram palco da intensa luta entre estes dois blocos, que no fundo apoiavam duas concepções religiosas distintas, a católica e protestante. Também pode não ter sido ocasional que o Papado só tenha apresentado a sua primeira Bula contra a Maçonaria (“In Eminenti Apostolatus Specula”), quando já era evidente que a luta entre os dois blocos pendia para os protestantes (hanoverianos) e a derrota definitiva dos Stuarts se resumia a uma questão de tempo. Todavia, este assunto é por demais vasto, exigindo elevada preparação e estudo, para que possa ser tratado nestas breves e humildes notas.

Pelas análises dos historiadores que citamos, nomeadamente Steveson e Eric Ward, a teoria da “transição” parece não ter suporte documental fidedigno, pelo menos analisando historicamente os dois países onde mais se enraizava, a Inglaterra e a Escócia.

Parece também não existirem dúvidas de que as Constituições de Anderson traduziam uma versão mais universalista e agregadora da Maçonaria, rompendo com as versões mais tradicionalistas, que eram a base da Maçonaria católica stuartista.

Em reação a esta visão mais progressista (à época) organizaram-se mais tarde os “Antigos”. Esta polêmica entre “Antigos” e “Modernos” durou cerca de 100 anos, mas o enfraquecimento progressivo da Grande Loja de Londres e a pressão do establishment real acabaria, também por pressão adicional da revolução francesa e dos receios por ela provocados na monarquia britânica, de proporcionar a fusão das duas, originando a Grande Loja Unida de Inglaterra, com predominância inequívoca dos valores dos “antigos”.

O estudo das origens é fundamental para uma melhor compreensão da Ordem. No entanto a sua análise, contribuindo para a nossa progressão individual a caminho do conhecimento e da Luz, só alcançará o seu sentido último se alavancar o nosso trabalho no mundo profano.

Termino citando Jean Mourges:

“Independente da interpretação das origens, a Augusta Ordem deverá conservar dois princípios, sem os quais não será Maçonaria:

      • Os Maçons são construtores. Creem na possibilidade de estabelecer uma Ordem Social ou em todo o caso de contribuir para a estabelecer”; e,
      • Escolher os construtores que, entre eles, saibam elevar-se acima das querelas das Escolas, já que a perfeição da ordem Coletiva repousa na qualidade dos homens chamados a construí-la.”

Autor: Salvador Allende – R∴ L∴ Ocidente

Fonte: Freemason

Revisão e adaptação ao português brasileiro: Luiz Marcelo Viegas

Screenshot_20200502-144642_2

Está gostando do blog, caro leitor? Saiba que só foi possível fazermos essa postagem graças ao apoio de nossos colaboradores. Todo o conteúdo do blog é disponibilizado gratuitamente, e nos esforçamos para fazer de nossa página um ambiente agradável para os públicos interessados. O objetivo é continuar oferecendo conteúdo de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E agora você pode nos auxiliar nessa empreitada! Apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil. Para fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Bibliografia

“The-Origins-of-Freemasonry-Scotland-s-Century-1590-1710” – David Stevenson – Cambridge University Press, 1988.

“A Maçonaria e o Nascimento da Ciência Moderna -O Colégio Invisível” – Lomas, R. – Madras Editora Lda, 2007.

“The-Secret-History-of-Freemasonry-Its-Origins-and-Connection-to-the-Knights-Templar” – Paul Naudon – 2005.

“Les Origines de la Maçonnerie Spéculative” – Roger Dachez, revista “Renaissance”.

“The Genesis of Freemasonry” – Douglas Knoop e G.P. Jones” – Manchester University Press – 1947.

“Maçonaria Especulativa e Sir Robert Moray” – José Marti.

Blog + Sites da Loja Ocidente – http://a2ocidente.blogspot.pt.

“El Nacimiento del Escocismo” – Louis Trébuchet (www.masoniclib.com).

“Isaac Newton and the Scientific Revolution, Christianson, G. Oxford University Press.

“Sir-Robert-Moray-Freemason” – Robert Lomas.

“El Rito Francês Moderno” – Guillermo Fuchslocher.

Los Oficios y Los Oficiales de La Logia” – Daniel Berésniak.

“La Masoneria” – Armando Hurtado.

“La Pensée Maçonnique -Une Sagesse pour Occident” – Jean Mourges – Éditions P.U.F. – 1998.

O significado da Páscoa

ENDOENÇAS: MARGENS DO RIO TÂMEGA E DOURO VOLTAM A ILUMINAR-SE ...

A Páscoa, como a maioria das pessoas imagina, não é uma festa somente cristã. A palavra Páscoa vem do hebraico Passach, que significa “passagem”. Ela foi instituída pelos judeus, quando ainda estavam no cativeiro no Egito. Refere-se não a passagem do povo judeu do Egito para a terra prometida, mas sim que Deus iria “passar” pela terra do Egito, e ferir os primogênitos, sejam de homens ou animais.

Ela deve ser comemorada no dia 14 do mês de Nissan, que é o primeiro mês do calendário judaico.

De acordo com as tradições judaicas, ela foi comemorada pela primeira vez há 3.500 anos, quando Deus enviou ao Egito as dez pragas, conforme relatado no livro de Êxodo.

Ao contrário dos cristãos, que se abstém de carne na sexta-feira santa, os judeus comem carne de carneiro com pão ázimo.

Enquanto os judeus comemoram a Páscoa indicando a passagem de Deus pelas terras do Egito, os cristãos celebram a ressurreição de Cristo, ocorrida três dias após sua crucificação, sendo considerado um dos dias mais importantes do cristianismo.

O cristianismo adotou muitos dos ritos judaicos, sendo a Páscoa uma delas. Mas a igreja, para distinguir da Páscoa judaica, decidiu que a data cristã seria comemorada no primeiro domingo após a Páscoa dos judeus, ou seja, após a primeira lua cheia da primavera que ocorre no hemisfério norte. Dai a Páscoa sempre ocorrer entre o dia 22 de março e 25 de abril.

Muitos dos costumes ligados ao período pascal originam-se dos festivais dos povos pré-cristãos da primavera.

Na Europa, esses povos homenageavam a deusa Ostera ou Ostara ou ainda Esther, sendo que, na língua inglesa, Easter quer dizer Páscoa.

Ostara era a deusa da Primavera, que era representada segurando um ovo em sua mão e observando um coelho, que era considerado símbolo da fertilidade. Tanto o ovo como o coelho são símbolos da chegada de uma nova vida. A celebração era realizada no Equinócio de primavera no hemisfério norte. Representa também o renascimento da terra após o inverno, a chegada da luz. Assim como muitos deuses antigos, Ostara foi cristianizada, bem como os seus símbolos, o ovo e o coelho.

Na Maçonaria essa data é celebrada, nos graus filosóficos, por uma sessão especial, a da Quinta-feira de Endoenças. Essa tradição pertence ao Grau de Cavaleiro Rosa Cruz, praticado no Brasil pelo Grau 18 do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Independentemente de ter origem pré-cristã, o significado da Páscoa hoje é reforçar no coração de todos, que devemos ter um novo recomeço, perdoando nossos desafetos, sendo também um momento de começar uma nova jornada abandonando velhos vícios e hábitos.

Autor: Dermivaldo Colinetti
ARLS Rui Barbosa, Nº 46 – GLMMG – Oriente de São Lourenço

Screenshot_20200502-144642_2
Agora, com a parceria entre o site Apoia-se.com e O Ponto Dentro do Círculo, você pode ajudar a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil e ainda concorrer a recompensas! Clique no link abaixo para fazer sua contribuição!

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

 

Referências

A diferença entra as Páscoa Judaica e Cristã e sua influência na Maçonaria – College Adoniramita.

A origem da Páscoa – Autor desconhecido.

Pessach e Páscoa – A diferença entre as festas judaicas e cristãs e suas influências na Maçonaria. Luis Genaro L. Fígoli.

 

O problema da proibição da política e da religião na maçonaria

Resultado de imagem para política e religião

É uma das primeiras coisas que nos dizem sobre a maçonaria, seja como instrução a um novo membro ou explicando alguns princípios básicos aos profanos.

“Não discutimos política nem religião na loja. É divisivo”. Também podemos ouvir algo do tipo: “Não há dois assuntos que dividam tanto os homens como política e religião”.

A esperança é que, ao aderir a essas “regras”, surja uma organização mais unificada. Nós, como membros desta fraternidade, pretendemos ser irmãos, não apenas no título, mas na mais ampla importância do termo. Devemos chorar com nossos irmãos, alegrar-nos com nossos irmãos, estar intimamente ligados a eles – ter Storge, que é o termo grego para um amor familiar. O escritor Irlandês C.S. Lewis, autor da obra “As Crônicas de Nárnia”, considerava que: “O amor familiar é responsável por 9/10 de toda a felicidade humana sólida e duradoura”.

Esse amor é da maior importância. Ele fornece uma base para nossos relacionamentos e gentilmente nos guia em nossas ações ao interagir com nossos irmãos de fraternidade. Unidade é o objetivo. Não podemos ter homens com raiva uns dos outros e também sermos unidos, não da maneira que queremos. Queremos promover uma visão unificada de melhorar os homens bons, elevar a condição humana e a mente consciente. Acima de tudo, tratamos nossos membros como família. Somos uma coleção diversificada de pessoas, todas com origens, costumes e crenças diferentes. Assim como no mundo profano, onde temos famílias biológicas com crenças diferentes das nossas.

Em nossas várias interações com nossa família, nos desviamos da discussão sobre política e religião?

Nos últimos tempos, essa resposta é “Sim”. De acordo com uma pesquisa da CBS de 2018, a maioria dos americanos não fala de política na mesa de jantar no Dia de Ação de Graças. Atualmente, as opiniões políticas são mais do que divisivas, são acusatórias, são definidoras, são mal compreendidas. Absolutamente polarizadoras e disruptivas. Esta é uma tendência que, no Brasil, virou uma febre a partir das últimas eleições.

A apreensão, o medo e a ansiedade que temos como sociedade em termos de discussão de nossas ideologias e outras crenças derivam de algumas deficiências simplistas.

Quando estão ocorrendo discussões de qualquer tipo, existe uma incapacidade da pessoa comum escutar, pensar e fazer perguntas refinadas sobre as ideias que estão sendo propostas. Nós ouvimos algumas palavras-chave e nossa atenção é imediatamente atraída para nossas próprias mentes, instantaneamente respondendo e tomando uma série de tangentes mentais. Perdemos a capacidade de perguntar e ouvir, para apenas repetir.

Uma vez que ouvimos uma opinião contrária à nossa, o primeiro ponto é procurar entender o que ela está querendo dizer, qual a sua visão sobre o assunto. Então, se você não concordar, apresente sua posição. Isso é apropriado, educado e nos permite crescer através da expressão mútua de ideias.

Em segundo lugar, temos um problema com a dissonância cognitiva. Esta é a aversão emocional em aprender algo que pode não apoiar ou que pode estar em completo contraste com uma ideia em que passamos anos acreditando.

Para ilustrar esta ideia, dou o exemplo de um homem que foi para a prisão por um assassinato há dez anos. O depoimento de testemunhas oculares, juntamente com o principal trabalho de investigação, foi usado na condenação do homem. O entendimento de que este homem era culpado era algo acreditado pela acusação. Sua convicção era prova da sua culpa absoluta. Anos depois, há um apelo. Evidência de DNA está disponível e, pela primeira vez, nosso homem condenado tem a chance de provar sua inocência. O caso é reaberto, o DNA é testado e sua inocência é comprovada. Nas mentes das pessoas que colocaram o homem na prisão ainda há a certeza de que ele é culpado. Este é um exemplo de dissonância cognitiva. Quando deixamos de reconhecer novas informações, independentemente do que isso significa para nós, não conseguimos progredir mentalmente e emocionalmente.

Se pudermos aprender a abordar essas coisas como uma sociedade, então talvez haja uma chance de crescimento e comprometimento efetivo. Isso, no entanto, é apenas um começo.

Abordando nossas vulnerabilidades

Temos uma incapacidade de admitir vulnerabilidade aos nossos pares. Especificamente, não admitimos quando não entendemos algo. Não há vergonha em admitir que não entendemos um conceito político ou religioso.

Todos nós temos receio disso, porque ao admitir que não entendemos algo, podemos ser notoriamente rotulados como de conhecimento inferior. Em vez de ajudar alguém a entender, algumas pessoas a rotulam como ignorantes e parte do problema. Isto está errado.

Fortalecendo a mente

Temos um analfabetismo geral da mente que só é enfraquecido por uma incapacidade ou uma ignorância intencional para tentar entender melhor. Essa “tentativa” é uma ação – um exercício que, sem seu uso, atrofia nossas mentes e a consequência é um quadro em branco pelo qual a mídia politicamente carregada pode imprimir sua própria versão de eventos. Uma mensagem subjetiva que é apresentada em uma rede promoverá uma maneira de pensar ou narrativa que é projetada para conquistar uma mente simples ou solidificar a crença existente do observador.

A única maneira de combater isso é praticar suas próprias habilidades de pensamento crítico. É difícil. Todos conhecemos os perigos de compartilhar artigos em mídias sociais sem lê-los, baseando nossa participação em um excelente título. Isto é relevante porque este é um exemplo de não pensar criticamente, não ler, não absorver a informação real para si mesmo.

Consumindo ideias

Isto nem sempre foi desse jeito. Houve um tempo antes das mídias sociais, antes que as manchetes fossem ressaltadas com o número de minutos que levaria para ler, por exemplo, “3 minutos de leitura”. Aparecendo sob um artigo postado no Facebook. No passado, precisaríamos pegar o papel ou o livro, abrir e lê-lo. Digeri-lo, falar com nossos amigos, familiares, vizinhos e colegas de trabalho, a fim de trabalhar a informação em nossas mentes. Se viajarmos mais para trás no tempo, você poderia notar que o título dos livros vinha no final do texto. Por exemplo, no final dos evangelhos, pode-se ler algo como: “Este é o evangelho segundo João”. Dessa forma, você leria o livro e depois obteria um título. Hoje, temos um título e, se não formos atraídos, passamos adiante.

Nos dias de outrora, pré-internet, cobertura de notícias pré-24 horas, presumo que talvez tenhamos sido melhores em discussões e em pensamento crítico. Provavelmente, porque nós tivemos que ser. Agora estamos muito ocupados para fazer nossa própria pesquisa, para nos ocuparmos de formar nossas próprias opiniões e confiar naquilo em que confiamos para ser notícias e informações precisas e objetivas.

Como o ator Bing Crosby disse no filme “White Christmas” de 1954, “todo mundo tem um ângulo”. Você sabe como é o ângulo do outro? Não. O único ângulo que podemos ter é o de tentar entender e, pelo nosso entendimento, pelo nosso ângulo de vista.

E o que isso tem a ver com a Maçonaria?

Por que proibimos os tópicos de religião e política dentro das lojas?

Eles são divisivos, sim, mas apenas quando decidimos não praticar as três primeiras peças das artes e ciências liberais. Aquelas três artes cuja fundação é baseada na fé da intenção, compreensão e amor ao nosso irmão. O Trivium – Gramática, Retórica e Lógica, que são encobertos nas lojas e a ênfase é quase inteiramente dada ao Quadrivium.

Mas, vamos ser honestos, quantos realmente estudaram isso quando nos foi dito?

O que descrevi acima são apenas algumas técnicas sobre como podemos começar a utilizar o Trivium para entender e manter um discurso educado com o objetivo de encontrar um terreno comum e resolver nossos problemas.

Diz-se que a Maçonaria é uma Ciência Moral Progressista. Muito do que falamos dentro da Ordem é de uma linguagem desconhecida. Enquanto afirmamos que entendemos as palavras e o significado, a realidade é que não entendemos. Nós raramente olhamos para o significado das palavras visualizando o tempo em que estas palavras foram escritas. As palavras mudam com o tempo e seus significados também.

Um exemplo maravilhoso é a palavra “Condescendência”. No uso atual, é algo negativo. Mas quando a palavra foi escrita, no entanto, significou algo totalmente diferente. Significava se encontrar no nível.

Vejamos as palavras, Ciência Moral Progressista, muito utilizadas para se referir a maçonaria, em seu uso contextual – isto é, o que essas palavras queriam dizer quando foram escritas. Este exercício nos permitirá compreender se estamos realmente agindo de acordo com os ditames da Maçonaria, algo com o qual estamos frequentemente preocupados, em outras palavras, protegendo a visão como exposta pelos documentos “sacrossantos”, “antigas obrigações” e os famosos “Landmarks”, como alguns gostam de citar.

A palavra “progressista” tem sido usada desde a década de 1600 na maioria das vezes para descrever o idealismo e movê-lo para frente. Embora isso possa não ser novidade para você, será novidade para aqueles que dizem que a palavra “Progressista” serve apenas para transmitir que “Progredimos” de grau para grau. Porque é mais provável que o primeiro, quando dizemos uma ciência moral “progressista”, estamos definindo o tom para um propósito. Esse propósito é aprovar um sistema pelo qual podemos influenciar um idealizador que promova a aceitação e as reformas sociais. Este ponto é ainda mais apoiado quando olhamos para a próxima palavra, “Moral”.

A palavra “moral” pode ser rastreada até os anos 1400 e seu uso lá, retrata o ideal de caráter e as ideias que alguém exibe no seu dia-a-dia. Seus comportamentos são definidos como sua moralidade. À medida que progredimos no tempo, provavelmente no período em que a linguagem foi usada em nossa fraternidade, a palavra mudou muito pouco. Agora é assumido não apenas os comportamentos, mas também o conceito de costumes. Finalmente, em 1752, vemos o uso para descrever os princípios, a boa conduta e a confiança de alguém. Curiosamente, mantém a ideia de costumes também, o que é muito relevante quando consideramos que existem vários costumes em todo o mundo. Além disso, cada um desses costumes é de natureza subjetiva no país de onde nasceram. Por exemplo. Alguém usa a mão esquerda para saudar? E se assim for, é essa “moral” na região em que a saudação foi dada?

Esta informação apoia a ideia de que a palavra “Progressista” significa ou está ligada a “Reformas Sociais”.

Em seguida, devemos olhar para a palavra “Ciência”. A partir de meados dos anos 1300, vemos que é usado para descrever o conhecimento, a aplicação do conhecimento e da aprendizagem. Este permaneceu assim até hoje.

Por essa exploração, devemos necessariamente nos perguntar como praticamos essa Arte Real?

Obviamente, vamos nos deparar com um enigma. Ainda não viu? Vamos continuar.

O enigma explicado

Há um ponto em que nossos governos nos forneceram líderes através do processo de meios democráticos. Esses líderes são titãs construídos no idealismo e financiados por doações de constituintes, lobistas e empresas. Esses líderes nos dão as leis pelas quais devemos viver e, no entanto, de onde tiram essas leis? Nossas leis derivam, na maioria dos casos, da nossa visão filosófica da vida – a maior parte disso é dada a nós através de nossas várias crenças e, em outras ocasiões, é derivada da simples reflexão sobre a condição humana.

Nosso sistema político, tal como existe, assumiu o idealismo dado por nossos textos religiosos. Para tornar as coisas mais complicadas, ele é amplamente baseado na questão das interpretações desses textos. Esta é a natureza humana, para dar sentido às coisas e querer governar com um conjunto de ideias em que se acredita, para transmitir o melhor modo de viver, para promover a ideia de unidade acima mencionada.

Por natureza, um governo deve tratar das questões do povo. A nossa constituição nos dá o direito à “vida e a liberdade”. Um sentimento semelhante na natureza vem de Thomas Paine, em seu livro The Rights of Man, no qual ele lista o papel do governo. No seu caso, a monarquia britânica e parlamento.

“O único propósito do governo é salvaguardar o indivíduo e seus direitos inerentes e inalienáveis; cada instituição social que não beneficia a nação é ilegítima – especialmente a monarquia e a aristocracia ”.

A fim de ajudar a nação, um governo assume a si próprio para abordar as reformas sociais, a “ciência moral progressista”. Não é surpreendente, considerando a conexão maçônica com a filosofia fundadora de nosso país.

O resultado/problema

Então, o resultado final é que a religião se infiltrou na política e tornou os dois inseparáveis. Além disso, o sistema político assumiu o que a fraternidade maçônica é encarregada de fazer. E, porque estes são agora inseparáveis, muitos não discutem a “Ciência Moral Progressista” em seu contexto apropriado sem violar nossa posição contra a discussão de política ou religião em nossas lojas.

Hoje, se você me disser algo em que acredita, posso apostar que seria rotulado como uma definição ampla de um campo político. Provavelmente como de Direita ou de Esquerda, devido ao extremismo presente no Brasil atual. Alternativamente, você poderia me dizer qual partido político do qual você é membro e eu vou adivinhar o seu alinhamento Religioso.

O Pew Research Center publicou uma enquete que nos fornece os dados sobre esse tópico. A afiliação partidária quase se tornou a nova religião devido aos valores morais que foram absorvidos pela instituição. Uma ideia simples como ajudar os menos afortunados através de um imposto é democrata e apoiar as mesmas pessoas através de doação voluntária é vista como republicana. O resultado é semelhante, mas a maneira como chegamos lá é diferente. A disputa que existe é em grande parte impulsionada pela compreensão dos direitos humanos no que se refere à nossa própria propriedade e sua capacidade de ser tributada ou não, e uma série de outras várias minúcias filosóficas.

Voltando ao início deste artigo, eu delineei um conjunto de práticas em que as pessoas poderiam começar a manter o discurso social e trabalhar para entender um ao outro. Se fizéssemos isso, poderíamos então começar a falar sobre questões que afetam a sociedade e despertar mais consciência do que nossos temperamentos?

Eu me pergunto se não há problema em discutir em uma loja de materiais de construção, a segurança de um grupo de trabalhadores locais que estão construindo um prédio?

Eu poderia fazer isso de tal maneira e organizar um programa social ou mesmo introduzir um projeto de lei no governo local para ajudar esses trabalhadores?

Você poderia usar a loja maçônica para falar aos nossos irmãos benevolentes sobre uma injustiça social que aconteceu na comunidade?

A resposta muitas vezes é um retumbante, “Não”.

Há uma grande confusão entre política e valores morais. Como eu sei disso? Porque eu já vi isso ser derrubado em uma loja. Porque eu tenho visto homens educados sob acusações maçônicas por tentarem praticar a “Ciência Moral Progressista”. Uma ideia simples para auxiliar e organizar algo para a comunidade, devido à jurisdição intelectual dos governos locais sobre todas as coisas relacionadas ao bem-estar de seus constituintes, é por vezes entendido como assunto de natureza política e, como tal, banido da loja.

Nos resta apenas doar dinheiro para causas benignas. Doando dinheiro para organizações que fazem o trabalho por nós e que provavelmente contribuem para os próprios políticos que prometem ajudar. Nós abandonamos a intenção original da Maçonaria? Nós negamos isso completamente? Ou talvez, o que temos feito é simplesmente o melhor que podemos fazer desde que nos vinculamos a ordem?

Conclusão

É minha intenção demonstrar algo muito real. Diretamente, que pelo exercício de remover nosso direito de discutir política ou religião dentro de uma loja, nós efetivamente neutralizamos nossa capacidade de praticar a Arte Real dentro do contexto de nosso propósito declarado original. Abandonando nossa tradição, sem nunca perceber. Por um lado, nos opomos veementemente a mudanças em qualquer coisa, por outro lado, ignoramos o que já mudou e aceitamos as limitações que colocamos em nós mesmos.

Se quisermos assumir o controle e praticar a Maçonaria, então devemos aprender como efetivamente comunicar, ouvir, digerir, fazer mais perguntas, ouvir de novo e compreender. Por essa ação, podemos ser capazes de ter essas discussões dentro de uma Loja e, portanto, afetar nossas comunidades locais, trabalhando verdadeiramente para a melhoria da condição humana. Talvez até mesmo deixar o mundo em uma versão melhor do que era antes de entrarmos nisso. Talvez em vez de proibir conversas de natureza religiosa ou política, deveríamos, ao contrário, treinar como manter um discurso apropriado.

Sem dúvida, não há recurso para separar a ideologia política da ideologia religiosa. A ligação é indissolúvel. Talvez com razão. Há, ao longo dos tempos, discussões filosóficas sobre se a humanidade pode ter um conjunto de morais sem ter um dogma religioso codificado do qual seria lamentável. Mais uma vez, os dois lados, que discordam ardentemente sobre a revelação dos direitos humanos e a moralidade.

Ao fechar este diálogo, desejo fazer um pedido a você, caro leitor, que é estar atento. Escutar antes de formular uma resposta e tentar, por mais desconfortável que seja, ver as coisas do ponto de vista de seu irmão. Se coloque no lugar dele, verdadeiramente. Somente através da tentativa deste exercício de percepção podemos ver a fundação de uma ideia estranha a nós, e a partir daí, onde podemos alinhar nossos valores e nos esforçar para incorporar a Unidade. Então, podemos praticar a Arte Real da Maçonaria, a Ciência Moral Progressista.

Autor: Robert H. Johnson
Tradução: Luciano R. Rodrigues

Fonte: Blog O Prumo de Hiram

Doação para manutenção do blog

Está gostando do blog, caro leitor? Só foi possível fazermos essa postagem graças ao apoio de nossos colaboradores. Todo o conteúdo do blog é fornecido gratuitamente, e nos esforçamos para fazer um ambiente amigável para os públicos interessados. O objetivo é continuar no ar oferecendo conteúdo de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E agora você pode nos auxiliar nessa empreitada! Faça uma doação e ajude a manter o blog funcionando. Para garantir sua segurança utilizamos a plataforma de pagamentos PayPal e você pode contribuir usando o cartão de crédito, para isto basta clicar logo abaixo na bandeira correspondente ao seu cartão. Se preferir, pode também fazer sua doação por transferência bancária em favor de Luiz Marcelo Viegas da Silva, CPF 633.643.366-87, Banco do Brasil, Ag: 2115-6 CC: 14770-2.

$10.00

O equívoco da Escada de Jacó no REAA

Resultado de imagem para jacob's dream murillo

Tal afirmação poderá talvez “chocar” alguns irmãos do Rito Escocês Antigo e Aceito, acostumados a ouvirem falar constantemente quando das cerimônias de iniciação, elevação e exaltação e também nos graus denominados superiores (Altos Graus) que o maçom subiu mais um degrau na Escada de Jacó, aludindo é claro, a ascensão do maçom nos graus do REAA. Ledo engano; e falsa prédica.

A Maçonaria sempre foi perseguida pelo fanatismo religioso, desde a sua criação como Maçonaria dos Aceitos, ou Especulativa. No ano de 1738, cerca de 15 anos após a publicação da Constituição de Anderson, o Papa Clemente XII promulgou a Bula Papal “In Eminente”, excomungando a Maçonaria. A partir deste evento, através do Irmão Jonh Payne (Grão-Mestre), os Maçons passaram a adotar o…

Clique no link abaixo e digite a P∴S∴ de Apr∴ (primeira letra maiúscula) para ter acesso ao texto completo:

https://opontodentrocirculo.com/2016/02/24/o-equivoco-da-escada-de-jaco-no-reaa/

Doação para manutenção do blog

Está gostando do blog, caro leitor? Só foi possível fazermos essa postagem graças ao apoio de nossos colaboradores. Todo o conteúdo do blog é fornecido gratuitamente, e nos esforçamos para fazer um ambiente amigável para os públicos interessados. O objetivo é continuar no ar oferecendo conteúdo de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E agora você pode nos auxiliar nessa empreitada! Faça uma doação e ajude a manter o blog funcionando. Para garantir sua segurança utilizamos a plataforma de pagamentos PayPal e você pode contribuir usando o cartão de crédito, para isto basta clicar logo abaixo na bandeira correspondente ao seu cartão. Se preferir, pode também fazer sua doação por transferência bancária em favor de Luiz Marcelo Viegas da Silva, CPF 633.643.366-87, Banco do Brasil, Ag: 2115-6 CC: 14770-2.

$10.00

 

Fé e Razão: a liberdade de consciência na Maçonaria e a religiosidade

Resultado de imagem para FÉ E RAZÃO

1. Maçonaria e religião: breve visada histórica

Muito antes da Antiguidade, a vida profana se confundia com o sagrado. A partir da chamada Revolução Cognitiva, ocorrida há, aproximadamente, 50 mil anos, os humanos começaram a conferir significados para a realidade imediata que iam além do mundo material. Aqueles humanos antigos, então, passaram a simbolizar elementos de sua existência. Com isso, fenômenos naturais passaram a não ser apenas o resultado das forças da natureza agindo entre si, mas a manifestação de seres invisíveis, que interagiam neste mundo e, por vezes, controlavam os desígnios da humanidade. Assim, para muitos povos antigos, e também do presente, a vida seria regida pela vontade divina, manifestada por meio de eventos naturais e de acontecimentos das sociedades humanas que incluíam, entre outros, o mundo do trabalho.

É nesse sentido que é possível a compreensão da intensa relação estabelecida, na Idade Média da Europa central, tema de nossa atenção por ter sido o berço da Maçonaria, entre o trabalho e a espiritualidade, sobretudo por parte, no que diz respeito à história maçônica, da Ordem dos Templários e das corporações de ofício de construtores (NAUDON, 1964, p. 99 e ss.). Percebe-se nitidamente, nessas instituições, que o trabalho era marcado não apenas pelo caráter operativo (sua realização em si, como esquadrinhar e cortar pedras, empilhar toras de madeira, trançar fios para fabricar cordas, ordenhar animais, cuidar das plantações, alimentar os animais, entre muitos outros), mas também por muita especulação (observações empíricas da natureza, investigações teóricas, realizações de cálculos, reflexões etc.).

Um dos exemplos mais paradigmáticos dessa relação, ou seja, dessa mistura entre operativo e especulativo pode ser visto na Regra Beneditina, estabelecida por São Bento de Núrsia no século VI. De acordo com seus 73 capítulos, as comunidades religiosas cistercienses deveriam ser fixas e contar com todos os meios necessários para sua sobrevivência. Os mosteiros, portanto, precisavam ser autossuficientes, de modo que se encontrem no seu interior todas as coisas necessárias, isto é, água, um moinho,um jardim, uma padaria e oficinas, para que se possa exercer no próprio interior do monastério os diversos ofícios, conforme o capítulo LXVI, versículos 6-7, da Règle de Saint Benoît (SCHMITZ, 2018, tradução do autor). A explicação para isso, neste caso, era a garantia do isolamento dos monges cistercienses, em linha com os preceitos da ordem monástica (JORGE, 2012, p. 39-40). Independentemente de suas origens históricas, a Maçonaria também incorporou, como não poderia deixar de ser, a mistura do Operativo com o Especulativo, observada nas ações de solidariedade, na realização de cultos, nos deveres religiosos, na filantropia e na educação dos aprendizes, incluindo rituais de cunho religioso para a transmissão dos old charges. Entretanto, a peculiaridade da Maçonaria, em comparação com as demais corporações de ofício medievais, residiu na admissão dos chamados aceitos, que incluíam, entre outros, alquimistas. Vale destacar que esses alquimistas, assim como os integrantes da Rosa Cruz aceitos na Ordem maçônica no século XVIII, tiveram grande importância para a consolidação do caráter especulativo da Maçonaria, contribuindo para o aprofundamento dos estudos do que hoje chamamos de desenvolvimento interior, destinados para o trabalho reflexivo por parte dos maçons.

2. Os aceitos

A liberdade de deslocamento concedida aos franco-maçons medievais os havia levado a formar laços com pessoas de diversas localidades, tecendo, assim, uma rede de proteção para os que se moviam de um local para outro. Adentrado o século XVIII, essa transição se completou, primeiro na Escócia, depois na Inglaterra, tendo contribuído para isso o declínio, ainda no século XVII, das corporações de ofício e das guildas, acompanhado pelo desenvolvimento e expansão de uma economia capitalista que levou a mudanças nos ritos de sociabilidade entre membros de distintos grupos sociais, em especial a pequena nobreza e a burguesia.

Como resultado da incorporação e ampliação dos aceitos em seu meio, a Maçonaria oitocentista da Europa se constituiu como espaço de tensões e ambiguidades, na medida em que representava toda a configuração social do Antigo Regime – que teve na França seu mais alto grau de refinamento –, baseada na simbologia tradicional de hierarquia e condição social, ao mesmo tempo que construía as bases de uma sociedade que hoje pode ser definida, clara e inequivocamente, como democrática. Nesse sentido, Vieira lembra que a Grande Loja de Londres era dirigida nos seus primórdios por quatro nobres titulados, cinco fidalgos, cinco profissionais da classe média e cinco artesãos, sendo dois marmorários, um carpinteiro, um ferreiro e um pedreiro (VIEIRA, 1987, p. 199). Nas Lojas, os maçons disputavam o poder, debatiam ideias, concorriam de acordo com regras estabelecidas em leis e Constituições, elegiam seus representantes por meio de votações, distribuíam funções de acordo com a ocupação que cada maçom tinha na administração da Loja, preconizavam o abandono das distinções profanas de status e riqueza e possuíam e valorizavam a liberdade de expressão, como bem apontou Margareth Jacob (JACOB, 1991, pp. 179-204). Em sua maioria, não se vinculavam ao Estado e a seus monarcas e aristocratas, o que lhes conferia um vasto espaço de manobra, fornecendo, desse modo, uma alternativa viável à Igreja e ao Estado, ainda que não estivesse livre de conflitos e cisões.

Como contraponto a essas transformações em curso, lembremos que, nessa mesma época, a França era governada por um dos mais significativos reis absolutistas da Europa e as monarquias ibéricas seguravam-se como podiam nas antigas, e já cambaleantes, estruturas administrativas coloniais calcadas no Antigo Regime, com suas mercês e concessões de títulos nobiliárquicos como formas de distribuição de privilégios as quais visavam facilitar a dominação das possessões ultramarinas. Porém, chegado o século XVIII, praticamente toda a Europa já contava com suas Lojas maçônicas. Só em Paris havia 10 mil maçons na década de 1770, para uma população estimada em 600 mil habitantes. Para efeitos de comparação, é como se houvesse, atualmente, 250 mil maçons só na capital paulista – o número real em 2019 beira um décimo dessa cifra.

No século seguinte, a Maçonaria europeia foi marcada por ideias progressistas que visavam à construção de uma fraternidade entre os maçons que fosse universal, viés este que seria gradualmente abandonado ao longo do século XX, diante da crescente crítica aos modelos alternativos de sociedades, em especial os de natureza progressista, como o comunismo e os socialismos (utópico e científico). Apesar desse retrocesso reformista da Maçonaria ocorrido na passagem do século XIX para o XX, um marco renovador que perdurou foi a liberdade de culto concedida a todos os seus integrantes, respaldada pela criação e inserção de símbolos, lendas e mitos que, conforme afirmou o Grande Orador do Supremo Conselho da França em um pronunciamento realizado no começo dos anos 2000, tornou a Maçonaria, em especial o Rito Escocês Antigo e Aceito, livre do reducionismo e aberta à multiplicidade de interpretações, até mesmo opostas entre si (ICHER, 2004).

3. Espiritualidade no REAA

A forte carga simbólica do REAA foi criada em um momento em que a espiritualidade europeia ainda não havia saído, de maneira ampla, dos domínios das religiões católica e protestante, o que explica o fato de a Bíblia ter sido a inspiração para essa construção. Esse cenário começou a ser mudado ao longo da segunda metade do século XVIII, com a inserção do hermetismo, do gnosticismo, do misticismo, da cabala e da Rosa Cruz. No século seguinte, fé e razão começavam a ter suas fronteiras sendo bastante bem definidas, com o crescimento do pensamento laico e do materialismo, em especial entre as camadas cultas. Esse cenário colocou em confronto o tradicionalismo das chamadas religiões do Livro e a espiritualidade filosófica e ampla.

O clima de contestação espiritual chegou à Maçonaria e instigou o que ficou conhecido como a Querela do Grande Arquiteto do Universo. Em 1872, Lojas da Bélgica, e depois em 1877, na França, deixaram de obrigar que os trabalhos fossem dedicados à Glória do Grande Arquiteto do Universo. Diante desse impasse, lideranças do Supremo Conselho da França, na Convenção de Lausanne, de 1875, decidiram pela universalização do tratamento destinado ao Grande Arquiteto do Universo, em vez de limitá-lo ao Deus das religiões, referindo-se a Ele como Criador Supremo, Princípio Criador e Força Superior – lembremos de muitas outras denominações como Deus, Essência Divina, Causa Primeira, Eterno, Ser Supremo, Consciência Ilimitada, Energia, Poder Universal, Natureza Original, Verdade Final, Amor, Perfeição, Luz. Desenvolvia-se, desse modo, o princípio da Liberdade Absoluta de Consciência. Contudo, a decisão tomada em Lausanne não pacificou as ânimos e gerou novas polêmicas que perduram (ICHER, 2004).

A falta de concórdia derivada das medidas adotadas em Lausanne pode ser melhor explicada se forem observadas as particularidades das Maçonarias francesa, também conhecida como Maçonaria Liberal (Grande Oriente da França), e inglesa, chamada de Maçonaria Regular (Grande Loja Unida da Inglaterra): a primeira, praticada na França e no continente europeu, foi marcada pelas transformações trazidas pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa que defendiam os direitos como algo intrínseco aos homens, acima de qualquer crença religiosa; a segunda, caracterizada pela tradição e por uma monarquia conservadora. Os lemas de cada uma dessas maçonarias revelam essas diferenças conceituais: ―”Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (França) e ― “Sabedoria-Força-Beleza”, que nos EUA se tornaria ―”Fraternidade, Auxílio e Verdade”.

Em 1961, essas diferenças seriam retomadas e aprofundadas. Nesse ano, o Grande Oriente da França e potências liberais fundaram o Centro de Ligação e de Informação das Potências Maçônicas Signatárias do Apelo de Estrasburgo (Clipsas), do qual decorreu a liberdade para as Lojas de: utilizarem ou não a Bíblia; saudarem ou não o Grande Arquiteto do Universo; iniciarem mesmo os que não acreditam na imortalidade da alma; aceitarem ou não ateus; incorporarem pessoas portadoras de deficiências físicas; interpretarem livremente a simbologia maçônica; e debaterem sobre política e religião.

Disputas ideológicas de natureza espiritual à parte, a decisão manifestada na Convenção de Lausanne vai em linha com os preceitos filosófico-iniciáticos da Maçonaria, manifestados no próprio Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), de uma proposta de retorno a si mesmo ainda antes da cerimônia de Iniciação e, sobretudo, ao longo desta. Esse giro ontológico, essa guinada para dentro, exige do neófito, seguindo a própria ritualística, um esforço intelectual, a instrumentalização de uma razão a serviço de uma busca espiritual. Surge, daí, a necessidade de questionarmos o dualismo tão conclamado nos estudos dos séculos XVIII e XIX feitos sob a perspectiva da industrialização e modernização, a qual opõe, de um lado, a fé, e de outro, a razão. Apesar do inegável industrialismo e dos avanços técnico-científicos promovidos durante esse período, os quais a partir de 1789 vão se juntar ao radicalismo político, jacobino ou não, esse período também deve ser lembrado como o do surgimento de muitas ideias e atitudes que buscavam no além respostas para os dramas e as dúvidas de muitas pessoas.

Por toda a Europa, a partir de meados do século XIX, intensificou-se a procura pelo sobrenatural e místico, que visava obter respostas para problemas que o crescente incremento tecnológico e o desenvolvimento industrial não eram capazes de dar. Assim, milhares de pessoas procuravam no além a resposta para suas angústias pessoais, além de contatos com os mortos, ações que podiam ser atendidas não por meio das tecnologias industriais, mas pelo misticismo. Mesas volantes, gurus espirituais, práticas que se diziam vir do Oriente, novas concepções filosófico-religiosas e clubes místicos se espalhavam por todo o continente europeu (OLIVEIRA, 2019, pp. 28-29).

Concluímos, desse modo, que nenhuma época histórica deve ser analisada sob o prisma de categorizações amplas que promovam restrições ou alargamentos conceituais que estejam descolados do cotidiano daqueles que o viveram.

4. Maçonaria no Brasil: tensões com a Igreja católica e o despertar da razão

Ainda no século XVIII, a Maçonaria chegava à América portuguesa, acompanhada de seus opositores, que acusavam seus membros de incitarem complôs, atos maldosos e sedições, mesmo tendo em vista que o segundo ordenamento das Constituições de Anderson proibisse os maçons de se envolverem em conspirações (VIEIRA, 1987, p. 199).

Um Maçom é uma Pessoa pacífica perante os Poderes Civis, onde quer que resida ou trabalhe, e jamais deverá se envolver em Conjuras ou Conspirações contra a Paz e o Bem-estar da Nação, nem faltar a seus deveres perante os Magistrados inferiores (ANDERSON, 1982, p. 50).

Apesar dessa exigência colocada por Anderson, em acordo com Jean Théophile Desaguliers, no século seguinte essas imagens ligadas a ideia de complô ganharam força, incitadas pela produção e circulação de textos antimaçônicos (BARATA, 2006, p. 127). Ainda nos seus primórdios como organização efetiva e centralizada, a Maçonaria já levara o papa Clemente XII a emitir em 1738 a Constituição Apostólica In Eminentia postolatus specula, a primeira condenação católica formal à Maçonaria, motivado pelo incentivo que esta dava à reunião de homens de diferentes credos e pela manutenção de segredos entre maçons – mas isso não foi uma novidade, pois governos europeus já haviam feito o mesmo na Holanda, em Genebra, na França, na Suécia e em Hamburgo. Tal proibição foi reiterada em 1751, pela bula papal Providas romanorumpontificum, de Benedito XIV.

Em Portugal, suspeitos de heresia, os maçons eram acusados de serem maus católicos e maus vassalos e deveriam ser denunciados à Santa Inquisição, freando a expansão da Ordem. Essa associação entre más posturas como crentes e súditos se explica pelo caráter dual que a Inquisição adotou em Portugal a partir do século XVIII até 1821, quando foi extinta. Ciosa por justificar sua existência após a proibição de perseguir cristãos-novos, os inquisidores foram em busca dos “crimes de pensamento”, que incluíam os maçons. Assim, na época da Revolução Francesa, um mal cristão também era considerado um mal súdito, um inimigo do Estado (BARATA, 2006, p. 139). Por isso, diante da ameaça ao poder monárquico em uma Europa convulsionada pelos ideais libertários, todo comportamento suspeito era passível de perseguição e condenação – apesar de todo esse clima persecutório, a entrada de clérigos na Maçonaria não foi impedida. No início do século XIX, com o crescimento da Maçonaria em Portugal e no Brasil, aumentava também o temor de que os maçons pudessem estar em conluio com os invasores franceses e planejar a queda da monarquia portuguesa. Dava-se, portanto, a junção de maçons como hereges e conspiradores. A lenda negra tomava forma, alimentada pelas associações entre Lojas e revolucionários na França de 1789.

Associar a maçonaria a uma “seita” conspiratória que objetivava a destruição dos “tronos e dos altares” era uma forma de colocar ordem no caos. Era um método de encontrar uma resposta para as profundas mudanças vivenciadas na virada do século XVIII para o século XIX (BARATA, 2006, p. 164).

No mundo luso-brasileiro, seguiam as condenações. A Maçonaria era vista como organização dedicada à dominação mundial. E, assim, a “narrativa do complô” ganhava força no mundo luso-brasileiro.

[…] Estava guardado para nós o sermos testemunhas da maior perseguição, que nunca padeceu a Igreja de Deus, e toda excitada, e fomentada pelos Pedreiros-Livres!!! E querem estes miseráveis, que não estremeçamos, só de lhes ouvirmos o nome! Era necessário que deixássemos de ser Católicos, e que perdêssemos todo o cuidado, e interesse pelas coisas de Deus, para que fizéssemos a vista grossa ao maior Labéu da nação Portuguesa. Franco-Maçom é uma espécie de D. Quixote, ou Cavaleiro andante de Constituições, assim como o herói de Cervantes o era das formosas Dulcineias. Franco-Maçom é uma toupeira com semblante humano, que está ocupada sempre em minar, e escavar, e ainda que veja o poder do mundo a cair-lhe em cima, nem por isso tomará juízo, ou se fará mais comedido. Franco-Maçom é um aborto na classe dos seres racionais, pois se nutre de estragos, e ruínas, e antes quereria ver como Nero incendiada, ou arrasada uma Cidade inteira, do que ver desmentido um só ápice das suas enturradas teorias. Franco-Maçom é um desalmado, que está pronto a envenenar seu próprio Pai, quando seja necessário para os interesses da Seita!!! Ser Franco-Maçom, ou Pedreiro-Livre, é estar sempre em guerra com os seus concidadãos, maquinando contra tudo o que eles mais amam, e respeitam. Ser Franco-Maçom é ser tudo quanto é mau, é quebrar sem pejo os laços mais fortes da vida social, e viver disposto a zombar de todas as Leis, e de todas as autoridades. Ser Franco-Maçom é presumir de saber mais que Nosso Senhor Jesus Cristo, é querer emendar-lhe a mão, e instituir coisa melhor, que a o Evangelho!!! Tudo isto ainda não é nada para o que eles merecem, e creio que será impossível às forças humanas definir exatamente um só pedreiro!!! São eles com efeito os que realizam a adivinha. – Quanto mais se lhe tira maior é. Por mais que se diga, e torne a dizer, sempre fica muito, e muito que arranhar, pois a matéria é inesgotável, dá para tudo, e para todos a fartar (SÃO BOAVENTURA, 1824).

Ainda em 1809, a Imprensa Régia de Portugal publicou a primeira obra antimaçônica autorizada a circular no Brasil, intitulada Os Pedreiros-Livres, e os Iluminados, Que mais Propriamente se deveriam denominar os Tenebrosos, De cujas Seitas se tem formado a Pestilencial Irmandade, a que hoje se chama Jacobinismo. Nela, seu autor aproxima a Maçonaria aos Iluminatti bávaros, para expor os objetivos dessas instituições: a subversão do Trono e do Altar. Esse tipo de publicação só aumentaria nos anos seguintes, até atingir seu ápice na década de 1820, como resultado das disputas políticas em torno das Cortes de Lisboa, da independência do Brasil e das disputas pelo trono português entre D. Miguel e D. João VI, momentos de crise institucional em Portugal e também no Brasil (BARATA, 2006, p. 168).

Já no Segundo Reinado, crescia o clamor das elites sociais do país, veiculadas por setores da imprensa, em favor da modernização do país. O progresso era o grande objetivo ao qual se ansiava. Com base na observação da realidade nacional, muitos concluíram que o Brasil só poderia se modernizar pela ajuda dos protestantes, uma vez que foram eles os grandes responsáveis por muitas obras de infraestrutura iniciadas na segunda metade do século. Disso, concluía-se, por contraposição, que o catolicismo, manifestado pela Igreja, representava o retrocesso, o obstáculo a ser superado. Desse modo, não surpreende a adesão de muitos maçons aos protestantes, em apoio à imigração de pessoas vindas de países protestantes, como Suíça, Alemanha, Inglaterra, Irlanda, Escócia e, em especial, dos estados Confederados que perderam a Guerra de Secessão nos Estados Unidos (VIEIRA, 1987, p. 207). A díade Maçonaria/complô seguiria firme ao longo do século XX, como ocorreu em Pernambuco, com o acirramento da Igreja católica ao lado de setores da imprensa, tendo à frente o influente jornal A Tribuna. Como resposta a esses ataques, a Maçonaria pernambucana ampliou suas ações efetivas (fundação de escolas, bibliotecas públicas, clubes de leitura, entre outras) com forte teor anticlerical (COELHO, 2016, p. 70-72).

Ao longo do todo o século XIX, a Maçonaria brasileira se viu às voltas com cisões e influências externas. Uma sucessão de Grandes Orientes, apoiados por instituições maçônicas europeias de países como França, Inglaterra, Portugal e Bélgica, começou a ocorrer a partir de 1831, com a fundação do Grande Oriente Brasileiro, dividindo a cena local com o já criado Grande Oriente do Brasil, de 1822. A uma sequência de eventos ora favoráveis, ora contrários às Lojas maçônicas brasileiras, foi instaurada uma crise no seio da monarquia de D. Pedro II, com a chamada Questão Religiosa, nos anos 1870, na qual dois bispos da Igreja católica decidiram enfrentar a Maçonaria. Poucos anos antes desse ocorrido, buscando modificar a situação da Igreja no Brasil, o papado de Pio IX publicou a encíclica Quanta cura (1864) e seu anexo, Sílabo de Erros, este último atacando a Maçonaria brasileira.

Um dos resultados da Questão Religiosa foi o incremento de grupos concorrentes do catolicismo, como o protestantismo, o positivismo e o espiritismo (MATOS, 2011, p. 7), que se juntaram ao republicanismo e à Maçonaria, reforçando o programa liberal (registro civil de nascimentos, casamentos e óbitos, laicização dos cemitérios, Lei do Ventre Livre, projetos educacionais para adultos, reforma do sistema de ensino e abolição gradual da escravidão) até que, por fim, foi feita a separação do Estado e da Igreja pelo Decreto n. 119-A, de 7 de janeiro de 1890, confirmada pela Constituição de 1891. Essa separação já vinha sendo intensamente debatida no seio maçônico, entre o Grande Oriente dos Beneditinos (criado em 1863 como dissidência do Grande Oriente do Brasil) e o Grande Oriente do Lavradio que eram, respectiva e sinteticamente, a favor e contrário a essa separação.

Diante da laicização do Estado brasileiro, a Igreja católica adotou novas medidas e reformou suas estruturas, formando dioceses, arquidioceses e seminários, incentivou a vinda de religiosos estrangeiros e reforçou sua oposição à Maçonaria e outros grupos (MATOS, 2011, p. 13).

A criação do decreto de 1890, contudo, não levou ao abandono de práticas religiosas e ao aumento da secularização, mas deu as condições para que o contrário acontecesse, ao resultar na ampliação de outras práticas religiosas que não a católica e na busca por autonomia e legitimação de outras crenças em termos de manifestação pública. A liberdade de culto foi, então, consolidada para que as práticas antes tidas como feitiçarias, curandeirismos e batuques se organizassem como religiões, incluindo o espiritismo, de origem francesa (SILVA, 2010, p. 2) e praticada, em boa parte, por membros das classes médias urbanas. Aquele espírito progressista que animara a Maçonaria europeia do século XIX também pôde ser visto no Brasil na virada para o século XX. Em sua análise feita sobre a Maçonaria cearense, Marcos José Diniz Silva chama a atenção para a construção de um espaço maçônico em que as ideias espíritas e teosóficas tiveram campo fértil para germinar em confronto com o tradicionalismo católico.

Silva lembra que essa doutrina espiritual se respaldava na “fé racional”, ao lado do avanço do positivismo e do evolucionismo entre as camadas mais letradas e liberais da sociedade imperial, em contraposição à crescente romanização da Igreja católica contrária às modernizações de costumes, dinâmica já exposta por Silva (SILVA, 2010, p. 5). Portanto, assim como Margareth Jacob considerou a Maçonaria europeia como local de embates entre o tradicionalismo do Antigo Regime e o constitucionalismo de caráter democrático, podemos arriscar uma hipótese que sustenta a ideia do surgimento de um outro arco de tensão na Maçonaria brasileira: de um lado, a ritualística calcada na simbologia católica de base bíblica e, de outro, a adesão de maçons ao espiritismo kardecista, como ocorrera no Ceará, como parte dos esforços racionalistas típicos da Ordem maçônica.

Se a oposição da Igreja católica gerou uma resposta de igual intensidade e de sentido contrário por parte do Grande Oriente da França a partir de 1877, seguido por outros países, no Brasil essa resposta não foi tão intensa.

Essa “religião natural” maçônica conservando elementos esotéricos das tradições e Mistérios Antigos, aos quais se acrescentaram pressupostos racionalistas, positivistas e evolucionistas dos séculos XVIII e XIX, configurou com o Espiritismo e a Teosofia, promovida pela Sociedade Teosófica, uma grande corrente moderno-espiritualista (SILVA, 2010, p. 7).

No Brasil do começo da República, os maçons, ao menos no Ceará, partilhavam crenças comuns ao espiritismo e à teosofia, assentadas

[…] nos seguintes fundamentos: (a) difusão da antiga lei dos renascimentos sucessivos (reencarnação); (b) evolução espiritual; (c) evolução planetário-cósmica; (d) possibilidade de comunicação entre os vivos e os mortos (mediunidade); (e) aliança entre religião e ciência; (f) complementaridade entre todas as crenças religiosas, fundada na unidade das leis divinas; (g) a defesa e a prática da liberdade, da fraternidade e da solidariedade entre todos os povos, crenças e raças (SILVA, 2010, p. 11).

Podemos enfatizar os itens b) e g) como sendo os mais maçônicos, ainda que não os únicos, entre os citados. Do conjunto desses itens, inferimos o nítido caráter teleológico do Espiritismo e da Teosofia, ambos defendendo a ideia de que a humanidade caminharia rumo à evolução, a qual culminaria no encontro com Deus. Esse tipo de proposição é típica do século XIX, durante o qual doutrinas políticas, como o marxismo (que desposava a religiosidade e afirmava seu materialismo), asseguravam que a história humana é a história da evolução (neste caso, o ponto áureo seria a revolução do proletariado e a abolição do Estado). Muitas outras proposições seguiam pela mesma vereda, tais como as ideias de Alfred Russel Wallace e de Charles Darwin sobre a evolução da vida, que contribuíram intensamente para o fortalecimento do pensamento teleológico, o qual gerou proposições como as de Herbert Spencer (sobrevivência das sociedades mais fortes), o darwinismo social e a antropologia criminal evolucionista de Cesare Lombroso.

5. A resolução da tensão entre fé e razão na Maçonaria

A Maçonaria não esteve alheia às influências do pensamento teleológico que dominava as mentes europeias desde o século XVIII e também orientou seus adeptos no sentido de uma prática que misturava racionalismo e religiosidade/espiritualidade, sempre em busca da construção de uma sociedade melhor e mais evoluída, por meio do trabalho de autoconhecimento de cada maçom.

Para dar conta da pluralidade de crenças religiosas e filosóficas dos maçons, os diversos ritos surgidos desde o século XVIII incorporaram em seus rituais e ensinamentos uma forte carga simbólica, a ser decodificada pelos maçons conforme suas crenças. Vale lembrar que o primeiro ordenamento da Constituição de Anderson, de 1723, formulada sob liderança do conde de Montagu poucos anos após a criação da Grande Loja da Inglaterra – recentemente, afirma-se que a Grande Loja foi fundada em 1721 e não em 1717 –, já principiava o caráter ecumênico, ainda que restrito às religiões cristãs – os judeus só seriam aceitos no final do século (VIEIRA, 1987, p. 199) –, da Maçonaria inglesa:

Um Maçom é obrigado, por sua Condição, a obedecer à Lei moral; e se compreende bem a Arte, não será jamais um Ateu estúpido, nem um Libertino irreligioso. Mas se bem que nos Tempos antigos os Maçons fossem obrigados em cada País a ser da Religião, qualquer que fosse, desse País ou dessa Nação, contudo é considerado mais conveniente de somente os sujeitar àquela Religião sobre a qual todos os Homens estão de acordo, deixando a cada um suas próprias Opiniões; isto é, serem Homens de bem e leais, ou Homens de Honra e de Probidade, quaisquer que sejam as Denominações ou Confissões que os possam distinguir; pelo que a Maçonaria se torna o Centro de União, e o Meio de firmar uma Amizade sincera entre Pessoas que teriam ficado perpetuamente Distanciadas (ANDERSON, 1982, p. 50).

A dicotomia fé e razão remonta à Antiguidade grega, cujas narrativas mitológicas dariam conta de uma suposta verdade que estaria além da compreensão humana e, por isso, inegável, uma vez que pertenceria ao mundo dos deuses e titãs – de acordo com alguns autores, seus mitos não estariam desprovidos de racionalidade e, seguindo esse pressuposto, a filosofia teria surgido da depuração desses mitos, assunto, evidentemente, para muitos debates.

Chegada a Idade Média, período cronológico que começa a dizer respeito mais diretamente à Maçonaria, a religião (que substituiu os mitos gregos) e a filosofia se imiscuíram. Santo Agostinho e São Tomás de Aquino foram, sem dúvida, os nomes mais influentes desse processo de amalgamação. Ao ter se dedicado ao mundo das ideias, Platão foi, então, reinterpretado pelo bispo de Hipona para ser conformado às ideias cristãs baseadas, sobretudo, na contemplação de Deus. Ainda na visão do santo, Platão seria o responsável pela preparação das almas das pessoas para que pudessem receber o cristianismo. Nesse momento incipiente de formação da Igreja, a fé imperava sobre a razão. Tomás de Aquino, por sua vez, procurou equilibrar fé e razão no pensamento cristão medieval, de forma que a razão, a lógica e o empirismo estivessem a serviço da comprovação da existência divina, valorizando o mundo material, ao contrário do pensamento agostiniano – daí a influência de Aristóteles no pensamento de Aquino. A razão, aqui, deve ser mobilizada para demonstrar e organizar os mistérios da fé. Portanto, a verdade poderia ser buscada tanto pela razão quanto pela fé – a primeira fornecida pela filosofia; a segunda, pela religião.

Já no Renascimento, o pensamento contra a fé sem limites, que não aceita as explicações racionais, tomava vulto e se materializava das mais distintas maneiras: nas artes, na ciência, na literatura e na própria filosofia. Séculos depois, o Iluminismo aprofundaria essas críticas, sem negar, em sua totalidade, Deus ou a religião cristã. Nesse equilíbrio entre fé e razão, o ideário iluminista pautou-se, em grande parte, pela ideia da evolução constante rumo à perfeição e ao progresso contínuo e irrefreável construído por meio das habilidades humanas. Nesse sentido, o Iluminismo acabou por criar uma nova crença: a fé na modernidade e no progresso. No século XIX, em plena modernidade, o sobrenatural, como já foi mencionado, assumia – cabe indagar se algum dia deixou de assumir – protagonismo diante de muitas questões para as quais a ciência não tinha respostas. Foi nesse período que a Maçonaria, já consolidada na forma como a conhecemos hoje, reforçou suas estruturas políticas, administrativas e também filosóficas.

Preservando a condição de que um maçom deve crer em uma força superior, e não apenas no Deus dos cristãos, a Maçonaria pôde germinar entre adeptos de distintas crenças religiosas, processo que se estendeu ao longo de todo o século XX. Essa confluência fica clara no documento publicado em 1987 pelo Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Jurisdição Sul dos EUA (SUPREMO, 1987), no qual eminentes maçons, de diferentes religiões, manifestaram-se a esse respeito:

Algumas palavras de introdução.

Por Christian Frederick Kleinknecht Jr., 33º – Soberano Grande Comandante

[…] Todo Maçom deve acreditar em um Ser Supremo. […] A Maçonaria sempre recebeu homens de todas as fés e crenças religiosas, para adentrar em suas portas. O único requisito é que sejam homens bons, que acreditem no Supremo Arquiteto e na imortalidade da alma. […] a Maçonaria trabalha para melhorar os bons homens, construindo dentro de cada Irmão do Craft, um Templo de boas obras e realizações éticas. […] A Maçonaria, portanto, congratula-se com suas fileiras de cristãos, judeus, muçulmanos, budistas e todos os homens bons de qualquer religião que realmente aspiram a viver de acordo com a vontade do Criador. […] O que maçonaria significa para mim.

Por Reverendo Dr. Norman Vincent Peale, 33º.

A maçonaria não é uma religião, porém, na minha experiência, os maçons são predominantemente homens religiosos e, em sua maior parte, da fé cristã. Através da Maçonaria, no entanto, tive a oportunidade de compartilhar o pão com homens bons, além da minha fé cristã. A Maçonaria não promove nenhum credo religioso. Todos os maçons acreditam na Deidade, sem reservas. No entanto, a Maçonaria não faz exigências sobre como um membro deve pensar no Grande Arquiteto do Universo. A Maçonaria é, para todos os seus membros, um suplemento à vida boa, que elevou a vida de milhões de pessoas que entraram em suas portas. Embora não seja uma religião, como tal, ela complementa a fé em Deus, o Criador. É o apoio da moral e da virtude. A maçonaria não tem dogma nem teologia. Não oferece sacramentos. Ensina que é importante para cada homem ter uma religião de sua própria escolha e ser fiel a ela em pensamento e ação. Como resultado, homens de 4 diferentes religiões podem se encontrar em comunhão e fraternidade sob a paternidade de Deus. Eu acho que um bom Maçom se torna ainda mais fiel aos princípios de sua fé, por sua participação na Loja. […] Um maçom sem apologia.

Por Bispo Carl. J. Sanders, 32º, K\ C\C\ H\ – Igreja Metodista Unida, Alabama

Deixe-me rápida e enfaticamente dizer que a Maçonaria não é e nunca foi uma religião; no entanto, a Maçonaria sempre foi amiga e aliada da religião. Em 50 anos como ministro e como maçom, não encontrei conflito entre minhas crenças maçônicas e minha fé cristã. Não encontrei e não acho que a Maçonaria seja “incompatível com a fé e as práticas cristãs”. […] Minhas atividades maçônicas nunca interferiram em minha lealdade e meu amor pela minha Igreja. Muito pelo contrário, minha lealdade à minha Igreja foi fortalecida pelos meus laços maçônicos. Os bons maçons são bons homens religiosos. […] Eu tenho orgulho de ser maçom.

Por Rabino Seymour Atlas, 32º, K\ C\C\ H\ – Sinagoga Beth Judah, Nova Jersey

[…] a Maçonaria não é um substituto da religião, nem é uma religião. […] Maçonaria e Religião.

Por Reverendo Dr. W. Kenneth Lyons Jr., 32º, K\ C\C\ H\

[…] O rito escocês e a maçonaria da Loja simbólica nunca inferiram nem declararam que seus edifícios deveriam ser casas de culto, mas lugares onde a religião de todos os homens seria igualmente respeitada e a perseguição com as crenças religiosas não seria tolerada. [grifos do autor]

Se ainda restam dúvidas quanto ao caráter filosófico-religioso da Maçonaria, em especial do REAA, fiquemos com as palavras de Max Icher:

Ela é uma busca, uma meditação e uma aventura pessoal conduzidos num plano tradicional que indica uma orientação de pesquisa mas não exatamente a origem desta pesquisa. Aqui, a prática ritualística não é cultural ou sacramental mas ajuda a distinguir o mundo profano do mundo sagrado e a facilitar a passagem de um ao outro; o seu simbolismo só pode ser visto numa iniciação e como um suporte de uma reflexão meditativa. Ela não reclama nenhuma crença preliminar, mas somente uma disposição que possa responder a um apelo interior e uma tenacidade a querer acompanhar tão longe e por quanto tempo for necessário para lhe permitir desabrochar. Ela não repousa sobre nenhuma afirmação teórica ou formulação dogmática concernente às Verdades as quais convém subscrever, mas implica a prática efetiva de um percurso, prova iniciática em direção a uma ―realidade‖ cuja presença irá revelar-se ao coração, ao centro da pessoa.
[…]
Independente de uma revelação divina, de uma doutrina filosófica ou religiosa, de uma devoção a uma entidade divina, um profeta ou um guru, o caminho espiritual do Rito Escocês Antigo e Aceito é verdadeiramente universalista porque ele não impõe nenhum pré-requisito ideológico. Dirigido para o existencial, repousa sobre uma Fé no Homem, no sentido de uma confiança na sua perfectibilidade, na sua capacidade e discernimento e na sua faculdade de despertar todas as suas potencialidades: sensitiva, psicológica, intelectual, cognitiva, intuitiva e espiritual (ICHER, 2004).

6. Conclusões

O acirramento do conflito entre Igreja e Maçonaria pode ser reconstruído a partir do advento da chamada Maçonaria Especulativa de cunho iluminista, iniciado no século XVIII, rumo a criação de uma organização filosófico-racionalista, com base nos antigos mistérios e harmonizada com as religiões monoteístas de seus integrantes.

Por sua vez, poderíamos concluir também que a polissemia da simbologia maçônica é menos uma fuga fácil de disputas e discussões religiosas dentro das Lojas, do que uma forma eficaz, racional e libertária de incorporação dessas mais variadas crenças e filosofias, fornecida pela pluralidade de interpretações possíveis aos seus símbolos e narrativas simbólicas. A famosa inscrição do Templo de Delfos, na Grécia Antiga, Conhece-te a ti mesmo, muitas vezes atribuída a Sócrates, é um exemplo paradigmático do pensamento clássico antigo e está associada ao enaltecimento da razão e do movimento filosófico e intelectual de autodepuração do indivíduo. Ela é também o título da Introdução da Carta Encíclica sobre as relações entre fé e razão, do papa João Paulo II – lembrando que, aqui, a visada católica se justifica pela busca da verdade plena, que somente pode ser manifestada por Deus (PAULO II, 1999, p. 8). Nesse documento, o papa esclarece que a crença na verdade revelada pela fé está além da compreensão humana, o
que a torna dogmática e inquestionável.

Podemos concluir, portanto, que a fé é construída de forma coletiva, mas, ao fim e ao cabo, cala fundo na alma de cada crente, de maneira individual. Por sua vez, a verdade descoberta pela razão está sujeita a questionamentos, experimentações e repetições. Caberia, então, a cada maçom estabelecer um equilíbrio entre esses dois polos. Assim sendo, a liberdade de consciência é fundamental para que os maçons, em consonância com a natureza filosófico-iniciática do REAA, possam desenvolver seu longo, e infindável, trabalho de desbastamento interior, uma vez que a liberdade é a falta de entraves, a ausência de bloqueios coercitivos, ainda que possa trazer em si o germe da dúvida, a angústia da liberdade, em um aparente paradoxo. O paradoxo é apenas aparente porque a angústia deriva da imobilização, da incapacidade de se conhecer e reconhecer suas potencialidades e limitações. Sendo a consciência a capacidade inerente ao ser humano de perceber sua realidade imediata (exterior) e a si próprio (interior), ela, associada à liberdade, é o que deveria mover os maçons em busca de suas conquistas espirituais, sejam elas quais forem.

Autor: Paulo Ferraz de Camargo Oliveira

Fonte: Revista Ciência e Maçonaria

Doação para manutenção do blog

Está gostando do blog, caro leitor? Só foi possível fazermos essa postagem graças ao apoio de nossos colaboradores. Todo o conteúdo do blog é fornecido gratuitamente, e nos esforçamos para fazer um ambiente amigável para os públicos interessados. O objetivo é continuar no ar oferecendo conteúdo de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E agora você pode nos auxiliar nessa empreitada! Faça uma doação e ajude a manter o blog funcionando. Para garantir sua segurança utilizamos a plataforma de pagamentos PayPal e você pode contribuir usando o cartão de crédito, para isto basta clicar logo abaixo na bandeira correspondente ao seu cartão. Se preferir, pode também fazer sua doação por transferência bancária em favor de Luiz Marcelo Viegas da Silva, CPF 633.643.366-87, Banco do Brasil, Ag: 2115-6 CC: 14770-2.

$10.00

Referências

ANDERSON, James. As Constituições dos FrancoMaçons de 1723 ou Constituições de Anderson. Trad. e introd. João Nery Guimarães. São Paulo: A Fraternidade, 1982. p. 50. AZEVEDO, Celia M. Marinho de. Maçonaria: história e historiografia. Revista USP, São Paulo, v. 32, p. 178-189, dez./fev. 1996-97. BARATA, Alexandre Mansur. Maçonaria, sociabilidade ilustrada e independência do Brasil 1790-1822. Juiz de Fora: Ed. UFJF; São Paulo: Annablume, 2006. COELHO, Claudio Marcio. Religião e História. Em nome do Pai: Gilberto Freyre e Casa-Grande & Senzala, um projeto político salvífico para o Brasil (1906-1933)? Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em História do Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo, 2016. GRANDE ORIENTE DE SÃO PAULO. Origem. Disponível em: <http://gosp.org.br/maconaria/origem/&gt;. Acesso em: 6 abr. 2019. GRANDE ORIENTE DO BRASIL. O que é a Maçonaria? Disponível em: <https://www.gob.org.br/o-que-e-amaconaria/&gt;. Acesso em: 23 fev. 2019. GRANDE ORIENTE PAULISTA. Ritual de Aprendiz Maçom. Rio Escocês Antigo e Aceito. GOP: São Paulo, 2002. ICHER, Max. A espiritualidade do Rito Escocês Antigo e Aceito. Trad. MoizHalfon. O Malhete, 2004. Disponível em: <https://omalhete.blogspot.com/2019/02/aespiritualidade-do-rito-escoces.html?m=0&gt;.  Acessoem: 23 fev. 2019. JACOB, Margaret C. Living the Enlightenment: Freemasonry and politics in eighteenth-century Europe. New York: Oxford University Press, 1991. JORGE, Virgolino Ferreira. Os cistercienses e a água. Revista Portuguesa de História, Coimbra, t. XVIII, pp. 35-69, 2012. MATOS, Alderi Souza de. Breve história do protestantismo no Brasil. Vox Faifae: Revista de Teologia da Faculdade FASSEB, Goiânia, v. 3, n. 1, p. 1-26, 2011. NAUDON, Paul. Les origines religieuses et coroporatives de La franc-maçonnerie. Nouvelle édition entièrementre fondue. Paris: Dervy-Livres, 1964. OLIVEIRA, Paulo Ferraz de Camargo. Leituras da História, São Paulo, v. 122, pp. 26-34, 2019. PAULO II, João. Carta encíclica sobre as relações entre fé e razão. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. SÃO BOAVENTURA, Fortunato. O Mastigóforo, Prospecto de hum Diccionario das Palavras e Frazes Maçonicas. Lisboa, 1824. Verbete Franc-Maçon ou Pedreiro-Livre. SCHMITZ, Philibert. Règle de Saint Benoît. Revue et annotée à partir de latraduction de PhilibertSchmitz de lamêmeabbaye. [ed. digital]. SILVA, Marcos José Diniz. República e ―religião social‖: maçons, espíritas e teosofistas no espaço público cearense. Revista de História e Estudos Culturais, v. 7, n. 3, p. 1-20, set./out./nov./dez. 2010. SUPREMO CONSELHO DO GRAU 33, DO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO DA JURISDIÇÃO SUL DOS EUA. Maçonaria e religião – Uma publicação do Supremo Conselho do Grau 33 do REAA (Mãe do Mundo). 1987. In: O Prumo de Hiram, 4 jun. 2017. Disponível em: <https://www.oprumodehiram.com.br/maconaria-e-religiao-uma-publicacao-do-upremo-conselhodo-grau-33-do-reaa-mae-do-mundo/&gt;. Acesso em: 6 abr. 2019. VIEIRA, David Gueiros. O Liberalismo, a Maçonaria e o Protestantismo no Brasil no Século Dezenove. Estudos Teológicos, São Leopoldo, v. 27, n. 3, pp. 195-217, 1987.

O círculo, o ponto e as paralelas tangenciais

Imagem relacionada

1 – Introdução

Na profusão da edição de rituais e instruções maçônicas no Brasil, muitas questões têm se apresentado que ainda clamam por uma solução ou explicação satisfatória nesse particular, sobretudo pela inserção de instruções que não pertencem a esse ou aquele Rito e sua correspondente doutrina iniciática, levando-se em conta à vertente na qual pertença o costume maçônico.

É o caso, por exemplo, de uma questão que envolve, dentro da simbologia maçônica, o conjunto composto pelo Círculo, pelo Ponto e pelas Paralelas Tangenciais e ainda no contexto acrescido do Livro da Lei e da Escada de Jacó. Indiscriminadamente esse conjunto alegórico, em não raras vezes, tem habitado as instruções para o Aprendiz emanadas em alguns rituais brasileiros do Rito Escocês Antigo e Aceito como o exemplo do que segue:

“Em Loja Maçônica Regular, Justa e perfeita, existe um ponto dentro de um circulo, que o verdadeiro Maçom não pode transpor. Este círculo é limitado, ao Norte e ao Sul, por duas linhas paralelas, uma representando Moisés e outra o rei Salomão. Na parte superior deste círculo, fica o Livro da Lei Sagrada, que suporta a Escada de Jacó, cujo cimo toca o céu. Caminhando dentro deste círculo sem nunca o transpor, limitar-nos-emos às duas linhas paralelas e ao Livro da Lei Sagrada, e, enquanto assim procedermos, não poderemos errar”.

O conteúdo acima foi motivo de consulta perpetrada por um Respeitável Irmão da COMAB, no que assim se manifestava naquela oportunidade: “Este texto tem gerado inúmeras discussões em Loja sem jamais chegarmos a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico”.

2 – Comentários

2.1 – Vertente inglesa da Maçonaria

Embora o Círculo entre as Paralelas Tangenciais seja um conjunto simbólico eminentemente genérico na Maçonaria universal, a sua composição com o Altar, com a Escada de Jacó e com o Livro da Lei Sagrada, além da menção aos personagens bíblicos de Moisés e de Salomão, é um conjunto alegórico pertencente à Tábua de Delinear[1] inglesa do Primeiro Grau, portanto não são componentes do Painel do Grau de Aprendiz do Rito Escocês Antigo e Aceito, rito esse de vertente francesa, a despeito de que em se tratando do conteúdo simbólico de ambos (da Tábua e do Painel), aparecem significativas diferenças.

Devido à existência dessas distinções litúrgicas e ritualísticas entre os dois principais sistemas doutrinários maçônicos (embora o escopo seja único – o de reconstruir e aprimorar o Homem) – surgem então às anfibologias e as incompreensões sobre esse conteúdo, sobretudo quando pertinente às instruções e catecismos maçônicos se equivocadamente generalizados.

Na concepção inglesa (teísta), por exemplo, esse conjunto no momento em que é composto pelas paralelas tangenciais, pelo círculo e pelo ponto, dentre outros, representa também a Lei (do patriarca Moisés) e a Sabedoria (do rei Salomão).

À bem da verdade, esse conjunto simbólico é fruto haurido da Moderna Maçonaria e sacramentado através das Lições Prestonianas (William Preston[2]), além de outras interpretações relacionadas à mencionada alegoria, efetivamente a partir do primeiro quartel do Século XIX, inclusive quanto à alusão aos personagens bíblicos do Antigo Testamento, Moisés e Salomão, já que os nomes dessas personalidades se dariam em substituição aos tradicionais santos patronais João, o Batista e João, o Evangelista devido à decisão da Grande Loja em transformar a Maçonaria em uma instituição não sectária na Inglaterra, nesse particular sob o ponto de vista religioso[3].

Naquela oportunidade então é que seria recomendado, na medida do possível, que as novas Tábuas de Delinear não contivessem símbolos associados ao Cristianismo. Nesse sentido, por exemplo, é que o título Bíblia seria designado simplesmente como o “Volume das Sagradas Escrituras”. Essa aparente descristianização dos catecismos maçônicos seria um dos motivos principais que levaria às escaramuças entre os Antigos e os Modernos relativos às duas Grandes Lojas rivais à época na Inglaterra.

Obviamente que ao longo desses acontecimentos, longe da unanimidade, muitos símbolos cristãos ainda assim permaneceriam como integrantes desse corolário alegórico particular à Maçonaria Inglesa. É o caso da Cruz que identifica a Fé como virtude teologal, colocada no primeiro lance da Escada de Jacó em direção ao céu, sobejamente conhecida na composição do “Tracing Board” (Tábua de Delinear) do primeiro Grau do Craft inglês nos Trabalhos de Emulação (equivocadamente chamado no Brasil como Rito de York).

Nesse conjugado alegórico o Círculo entre as Paralelas Tangenciais é exposto na Tábua de Delinear aparecendo como uma espécie de base, alicerce ou arrimo que dá apoio ao Volume da Lei Sagrada que, por sua vez, é o sustentáculo da Escada de Jacó.

Dentre outras exegeses pertinentes para esse conjunto alegórico, a mais comum encontrada é a que se destaca a seguir:

O Círculo entre as paralelas expressa os limites impostos pela Sabedoria daquele que cumpre a Lei. Essa é a base (Altar) onde descansa o código de moral e ética (Volume das Sagradas Escrituras), cujo caminho avulta a ascensão do Obreiro ao aperfeiçoamento. É o que sugere a Escada em cujo topo aparece uma Estrela de Sete Pontas (sete – a Fé, Esperança e Caridade somadas à Justiça, Prudência, Temperança e Coragem). O interior do Círculo representa o espaço limitado pelos ditames da obediência à Lei exarada no Volume da Lei Sagrada. Em linhas gerais denota que aquele que segue os ditames da Lei, não pode errar.

Para ilustrar essa interpretação, também fica aqui transcrito um trecho do livro Master Key de autoria de John Browne datado de 1802 com perguntas e respostas pertencentes à Primeira Preleção com base Prestoniana que serve de apoio para justificar de onde fora retirado o conteúdo textual mencionado no ritual da COMAB citado na introdução desse arrazoado e que é o motivo principal desses apontamentos. Esse mesmo texto também pode ser encontrado no livro Simbolismo na Maçonaria, de Colin Dyer, publicado no Brasil pela Madras Editora, São Paulo, 2006.

Perg: Qual é o primeiro ponto da Maçonaria?

Resp: O joelho esquerdo despido e dobrado.

Perg: No que incide esse primeiro ponto?

Resp: Na posição ajoelhada me foi ensinado a amar o meu Criador. Sobre o meu joelho esquerdo nu e dobrado eu fui iniciado na Maçonaria.

Perg: Existe algum ponto principal?

Resp: Sim, o de podermos fazer um ao outro feliz e ainda transmitir aquela felicidade para outro.

Perg: Existe algum ponto central?

Resp: Sim, um ponto no interior do círculo, do qual o Mestre e os Irmãos não podem materialmente errar.

Eis aí então a origem dessas citações nas instruções maçônicas, lembrando sempre que elas realmente se adequam aos catecismos da vertente inglesa da Maçonaria.

Ilustrando ainda mais, segue a sequência do texto mencionado nesse catecismo conforme a mesma obra citada:

 – Explicai esse ponto no interior do Círculo.

R. Nas Lojas regulares de Francomaçons existe um ponto no interior de um círculo, ao redor do qual o Mestre e os Irmãos não podem materialmente errar. O círculo é limitado ao Norte e ao Sul por duas linhas perpendiculares paralelas: a no Norte representa São João Batista, e a do Sul simboliza São João Evangelista. Nos pontos de cima destas linhas e no perímetro do circulo, está colocada a Bíblia Sagrada, sobre a qual se apoia a Escada de Jacó, que alcança as nuvens do céu. Aí também estão contidos as Ordens e os Preceitos de um Ser que é Infalível, Onipotente e Onisciente, de tal forma que, enquanto estivermos no seu interior e obedientes a Ele, como foram João Batista e João Evangelista, seremos levados a Ele e não nos decepcionaremos nem O frustraremos. Portanto, ao nos mantermos assim circunscritos será impossível a que venhamos errar materialmente”.

Como se pode notar, o texto tem a intenção de explicar a instrução onde o termo “circunscrito” representa o limite imposto pelo Círculo, cujo “ponto central” é a origem donde o Maçom por primeiro dobrou o joelho esquerdo apoiando-o no chão e se sujeitando no ato à “obrigação” (também conhecida na vertente latina como juramento) de cumprir os deveres impostos e à promessa perpetrada – o Livro da Lei é o Código de Moral e Ética; o Círculo é o limite; o Ponto é a origem e a Escada o caminho para o aperfeiçoamento[4]. Assim, isso significa que se bem observada a Arte e ressalvados os limites da Lei, o Maçom não pode errar.

Ainda em relação ao texto acima mencionado, há que se notar também que à época ainda era citado na Inglaterra a Bíblia Sagrada, assim como os nomes dos santos patronais cristãos, muito embora já no primeiro quartel do Século XIX não tardariam esses títulos a serem substituídos – a Bíblia seria denominada como o Volume da Lei Sagrada, e cada santo padroeiro passariam a ser um dos personagens bíblicos do Antigo Testamento – Moisés e Salomão.

2.2 – REAA – Vertente francesa da Maçonaria

Dadas essas considerações, entra finalmente na questão o Rito Escocês Antigo e Aceito que, embora até possua em muitas das suas características influências históricas anglo-saxônicas (o título Antigo, por exemplo), sobretudo porque o seu simbolismo sofrera influência direta das Lojas Azuis norte-americanas que praticam o Craft oriundo da Grande Loja dos Antigos da Inglaterra, vale a pena lembrar que mesmo assim o Rito Escocês é historicamente originário da vertente francesa da Maçonaria.

Sob essa óptica, o arcabouço doutrinário francês de Maçonaria, principalmente aquele relativo ao simbolismo do Rito Escocês Antigo e Aceito, nele envolve o aperfeiçoamento humano que é simbolicamente representado pela alegoria da ressurreição e morte da Natureza, bem como a sua constante renovação (cultos solares da Antiguidade).

Assim, o simbolismo do Rito Escocês aborda e encena a evolução da Natureza. Nesse particular teatro iniciático aparecem representados na sua liturgia e ritualística os solstícios e os equinócios, os ciclos Naturais ou as estações do ano, as Colunas Zodiacais, as Colunas Solsticiais B e J (marcam a passagem dos trópicos de Câncer e Capricórnio), assim como as Colunas do Norte e do Sul que são separadas no Templo pelo eixo imaginário do Equador.

Nesse particular, o REAA por ser um Rito de origem francesa, não usa o título distintivo de Tábua de Delinear, entretanto faz uso no seu lugar do nome de Painel da Loja que fica situado e exposto originalmente em Loja aberta no centro do Ocidente. Entretanto, se faz mister observar que no conteúdo simbólico desse Painel da Loja do REAA não existe a figura da Escada de Jacó e nem aparece o Círculo com o Ponto ao centro entre as Paralelas Tangenciais, daí não combinar qualquer instrução que porventura possa fazer menção a esses símbolos relacionados ao franco maçônico básico do escocesismo – essa conduta doutrinária, se por acaso mencionada, além de equivocada não faria mesmo qualquer sentido.

Devido a não observação correta desses particulares – já que nem tudo o que reluz é ouro – é que, em busca do significado simbólico, ainda existem referimentos como:

“Este texto tem gerado inúmeras discussões em Lojas sem jamais chegarmos a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico.”

Desse modo, infelizmente, é verdadeiro comentar que alguns autores e ritualistas brasileiros, talvez por mera falta de atenção, ainda insistem inadvertidamente em misturar procedimentos de vertentes maçônicas distintas nas suas instruções.

Assim, se explica que a falta de sentido dessa inferência é que faz com que jamais se chegue a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico (é a queixa de muitos).

Essas ilações ainda são o sustentáculo para a propagação, através de certos autores imaginosos, de verdadeiras pérolas do faz-de-conta, geralmente suportadas por palavras bonitas que em superficial análise acabam por não fazer sentido algum – palavras mais palavras e palavras… vazias ao vento.

Não obstante a toda essa aleivosia histórica e ritualística, ainda existe outra classe – a daqueles que “acham bonito”, ou que simplesmente “copiam” rituais anacrônicos imaginando-os como fontes primárias e fidedignas. É o caso, por exemplo, do enxerto da Tábua de Delinear, que é da doutrina inglesa, no Rito Escocês que possui sabidamente preceito francês.

Daí, como se o Sol pudesse ser tapado com a peneira e na tentativa de se justificar toda essa aberração se utilizando a lei do menor esforço, identificou-se o intruso objeto como o tal do “Painel Alegórico”, o que só fez aumentar ainda mais a cinca, oferecendo absurdamente para o escocesismo simbólico a existência equivocada de “dois painéis” – um legítimo (o da Loja) e o outro como produto de enxerto oriundo de outra vertente maçônica (o tal justificado como Alegórico).

Ora, isso evidentemente não existe e é produto de mera enxertia imposto por “achistas”, já que o Rito Escocês genuinamente possui apenas o Painel da Loja no centro do Ocidente e não mais outro painel que, ainda por cima, seja denominado de “alegórico” (sic).

Para que não pairem dúvidas, evidentemente o estudante de Maçonaria deve conhecer o Painel da Loja (sistema Francês) e a Tábua de Delinear (sistema Inglês). Em linhas gerais, no grau de Aprendiz, o primeiro é aquele que, dentre outros símbolos, destaca-se por apresentar um pórtico ladeado pelas Colunas B e J (vide ritual do GOB, edição 2009, por exemplo). Enquanto que a segunda (a Tábua) é aquela que destaca dentre outros símbolos, três Colunas, tendo ao centro uma Escada em direção ao firmamento em cujo topo se apresenta uma Estrela Heptagonal (vide ritual de Emulação).

Nesse sentido, quando misturados os conteúdos simbólicos, a mixórdia acaba por trazer consigo instruções inglesas para dentro da doutrina francesa de Maçonaria. Aliás, esse é um fator deveras importante que todo o estudante da Ordem precisa saber distinguir: existem duas vertentes principais de Maçonaria – uma inglesa e outra francesa. Embora o objetivo da Sublime Instituição seja um só, os métodos doutrinários se diferem conforme a respectiva vertente – tanto pela visão social, quanto pela visão cultural.

Retomando essa questão, embora nos três Graus simbólicos do Rito Escocês cada respectivo Painel da Loja não apresente literalmente o símbolo do Círculo entre as Paralelas Tangenciais, a doutrina por si só ao mencionar a alegoria da evolução da Natureza, de modo abstrato acaba, sem mostrar os símbolos, por se referir ao Sol (Círculo) e aos trópicos de Câncer ao Norte e Capricórnio ao Sul (limites solsticiais).

Explica-se: como as datas solsticiais de 24 de junho e 27 de dezembro aludem respectivamente aos solstícios de inverno e de verão no hemisfério Norte (origem do Rito) ainda, por extensão, coincidem por influência da Igreja com as datas comemorativas a João, o Batista (verão no Norte) e com João, o Evangelista (inverno no Norte).

Assim, essa alegoria maçônica no Rito envolve toda a evolução da Natureza associando-a as etapas da vida humana – Primavera, Verão, Outono e Inverno, ou o nascimento, a infância, a juventude, e a maturidade, tudo distribuído de modo iniciático nos Graus de Aprendiz (puerícia), Companheiro (puberdade) e Mestre (maturação).

Por assim ser, mesmo de modo oculto, o Círculo entre as Paralelas Tangenciais pode representar também o Sol entre os Trópicos indicando que, conforme os solstícios, o Astro Rei, sob o ponto de vista da Terra, estando mais ao Norte ou mais ao Sul nunca ultrapassará na sua eclíptica anual o limite indicado pelos os trópicos.

Sob essa óptica, não significa de maneira alguma que esses símbolos careçam estar literalmente expostos no Painel relativo ao arcabouço doutrinário francês.

Simbolicamente, no Templo o Sol também é o centro (onde existe a circulação) que fica entre as Colunas do Norte e do Sul, cujo limite deste deslocamento, seja ele austral ou boreal, está representado pela marcação da passagem abstrata (sem base material) dos trópicos de Câncer e Capricórnio. Daí as Colunas B e J, também conhecidas como “solsticiais”, serem os marcos toponímicos que marcam a passagem dos aludidos Trópicos no Templo – sob o ponto de vista da porta de entrada para o Oriente, ao centro está a linha imaginária do Equador, à esquerda, marcada pela Coluna B, está a linha imaginária correspondente ao Trópico de Câncer e à direita, balizada pela Coluna J, a correspondente ao Trópico de Capricórnio.

O Sol, ao tangenciar o limite de Câncer (solstício de verão no Norte), corresponde à data comemorativa ao santo padroeiro João – o Batista, enquanto que ao tangenciar o limite de Capricórnio (solstício de Inverno no Norte), corresponde à data comemorativa ao Santo padroeiro João, o Evangelista.

Essa alegoria sugere no Rito em questão que a consciência do Homem, limitando-se tal qual às Leis da Natureza, é inviolável, já que ele, o Homem, é também parte integrante dessa Ordem Natural perpetrada pela Criação (um conceito deísta).

No escocesismo, a Loja simbolicamente representa um segmento do globo terrestre situado sobre o Equador, cuja largura vai do Norte ao Sul ou vice-versa e o seu comprimento de Leste para o Oeste ou vice-versa. A sua altura vai da Terra (Pavimento Mosaico) ao Céu (Abóbada).

É sobre esse espaço (Oficina) que a Terra simbolicamente fica viúva do Sol uma vez por ano (inverno). À bem da verdade, é o processo da evolução da Natureza a partir do seu renascimento na Primavera até a sua morte no Inverno para novamente renascer na Primavera (Lenda de Hiran). Assim, comparativamente e de modo iniciático, tal como a Natureza que morre para renascer como a fênix revivida, também o Homem profano fenece para renascer iniciado na Luz – da câmara de Reflexão à Exaltação do Mestre (a senda iniciática).

3 – Considerações finais

Em linhas gerais essas são as interpretações que envolvem a alegoria composta pelo Círculo entre as Paralelas Tangenciais nos dois sistemas de Maçonaria abordados. Todavia, somente ficam passíveis de uma explicação racional se devidamente separadas conforme as suas tradições, usos e costumes nos diversos rincões terrenos onde se apresenta a Sublime Instituição – cada coisa no seu devido lugar ou haverá o caos no Canteiro.

É oportuno aqui mencionar uma contradição que não raras vezes aparece no escocesismo quando muitos Irmãos, de modo anacrônico, ainda insistem em comparar a evolução dos Graus com os “degraus da Escada de Jacó” que, diga-se de passagem, nem mesmo aparece como elemento simbólico na doutrina do Rito Escocês.

Pior ainda é querer definir o número de degraus que formam essa Escada quando nem mesmo na Bíblia, essência da doutrina moral como Livro da Lei, essa quantidade é mencionada.

É o caso, por exemplo, quando alguém congratulação menciona o ultrapassado jargão: “parabéns por teres conseguido alcançar mais um degrau da Escada de Jacó”.

Ora, sem apelar para o preciosismo, não existe nada mais contraditório do que comparar a ascensão aos Graus com os degraus de uma escada que nem mesmo é parte integrante da doutrina simbólica do escocesismo.

Diferente do Círculo e das Paralelas que, mesmo de modo abstrato, chegam a fazer sentido no corolário doutrinário do Rito Escocês, a Escada, nem mesmo em caráter contemplativo, é mencionada na alegoria dos Painéis do verdadeiro escocesismo.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

Notas

[1] – O Painel na Inglaterra denomina-se Tabual de Delinear ou de Traçar (Tracing Board). Já na França é denominado como Painel do Grau. O conteúdo simbólico entre ambos aparecem sensíveis diferenças. Alguns autores acreditam que o nome “Tábua de Delinear” se derive como uma corruptela do antigo “cavalete” (tressel) ou Prancha de Traçar (Tracel ou Tracing Board) geralmente usada nas Lojas no final do século XVIII que objetivava apresentar os hieróglifos maçônicos, cuja Prancha ou Tábua muitas vezes nas Lojas ficava disposta sobre um cavalete no centro.

[2] – Willian Preston (1.742 – 1.818) – Nascido em Edimburgo na Escócia, foi iniciado em Londres no ano de 1.763. De carreira maçônica fecunda e brilhante assumiu o veneralato da Loja Antiquity nº 1 (atualmente nº 2) considerada à época como “Loja dos Tempos Imemoriais”. À Preston e dado o título simbólico de ter sido ele o primeiro professor de Maçonaria, permanecendo ainda ligado aos seus Ilustrations of Freemansonry (Esclarecimentos sobre a Franco-Maçonaria), cuja primeira edição data de 1.772. Essa importante obra teve dezessete edições, das quais doze durante a vida do autor. Falecido em 1.818 foi sepultado na Catedral de São Paulo em Londres. Os Ilustrations of Freemansonry se constituem de uma coletânea de conferências eruditas e de alto valor literário para uso das Lojas. É devida ainda a William Preston a autoria das famosas Prestonian Lectures (Lições Prestonianas) que permanecem atuais e são base para conferência de notáveis sobre assuntos instrutivos de interesse maçônico. A coletânea das Lições Prestonianas é publicada pela Quatuor Coronati Lodge, 2.076 de Londres. As dissertações sobre o conteúdo das Tábuas de Delinear inglesas se baseiam nas mensagens Prestonianas. O termo “Prestoniano” deriva-se em homenagem a Preston.

[3] – Além da disposição contrária ao sectarismo religioso, a Grande Loja se posicionava também contrária ao sectarismo político. Essa é a origem da proibição de discussões que envolvam política e a religião nos Templos e em nome da Maçonaria presente até os dias atuais na imensa maioria das Constituições das Obediências Maçônicas.

[4] – A ascensão ou subida dos degraus dá a ideia de evolução e aperfeiçoamento.

Referências

DYER, Colin – Simbolismo na Maçonaria, Editora Madras, São Paulo.

CARVALHO, Francisco de Assis – Símbolos Maçônicos e Suas Origens, Volumes I e II, Editora Maçônica A Trolha, Londrina – Pr.

LOMAS, Robert – O Poder Secreto dos Símbolos Maçônicos, Editora Madras, São Paulo.

MELLOR, Alec – Dicionário da Franco Maçonaria e dos Franco Maçons, Editora Marins Fontes, São Paulo.

JUK, Pedro – Exegese Simbólica para o Aprendiz Maçom – Tomo I, Editora Maçônica A Trolha, Londrina, Paraná.

JUK, Pedro – Topografia e Simbolismo do Templo REAA, Ensaios, Diário JB NEWS, Florianópolis, Santa Catarina.

JUK, Pedro – São João e os Solstícios na Maçonaria, Ensaios, Diário JB NEWS, Florianópolis, Santa Catarina.

A Catedral do Mar – A Espanha na Idade Média

Imagem relacionada

Uma igreja para o povo e feita pelo povo. “Olhe ali, acima do portão”, apontou a Cris, minha amiga e guia de turismo do blog Sol de Barcelona. Ela mostrava as figuras esculpidas acima do portal da Basílica Santa Maria del Mar. A igreja, também conhecida como Catedral do Mar, tem nessas figuras uma das várias homenagens ao povo que financiou e trabalhou para que o templo fosse construído.

Inaugurada oficialmente em 1391 e de pé até hoje no coração do bairro El Born, a igreja ganhou esse apelido carinhoso graças ao romance de Ildefonso Falcones, que usa a história de sua construção como fundo para a trama envolvente de “A Catedral do Mar”. E, quando você olhar para a Santa Maria, tenha em mente que cada pedra ali foi carregada nas costas de um homem. Tamanha devoção está refletida no portal em bronze e dentro da igreja em relevos de pedra e mármore que representam esses carregadores portuários.

Até o século 18, Barcelona ficou confinada dentro de muros e portões. Essas muralhas, inicialmente do período romano, foram se expandindo. Mas foi em “A Catedral do Mar” que eu aprendi que o El Born, que já foi chamado de bairro da Ribeira do Mar, ficava fora das antigas muralhas e era habitado por pescadores, estivadores e gente proveniente de classes sociais mais baixas. Ali, havia uma pequena igreja, Santa Maria das Areias, onde estariam enterradas as relíquias de Santa Eulália, uma mártir do ano de 303. Mais tarde, com a construção dos portos de Barcelona e o afastamento da praia, essa igreja passou a ser Santa Maria do Mar.

Por Luiza Antunes Postado

Fonte: 360 Meridianos