Maçonaria: problemas modernos ou antigos?

O Triunfo da Maçonaria especulativa: O capitalismo como criação de Lojas  Maçônicas radicais

Introdução

Choque de gerações, novos tempos, entre outros assuntos que envolvem mudanças na Maçonaria costumam gerar bastante polêmica.

No entanto, este artigo se propõe a demonstrar que nem tudo é o que parece e que, muitas vezes, aquilo que é interpretado como um problema da modernidade, na realidade, não tem nada de novo.

Antes da Era da Informação, a Maçonaria brasileira no geral, bem como uma grande quantidade de lojas em particular, viviam numa espécie de bolha de realidade, isoladas do restante do mundo e da história maçônica em uma série de coisas. Afinal, manuscritos, livros e até mesmo conversas com o resto do mundo ficavam restritos a uns poucos.

Mas a realidade atual é outra. E, através de dez exemplos reais, este artigo demonstrará que muitas vezes aquilo que é percebido como uma mudança ruim, na realidade, nada mais é do que um fenômeno antigo.

1) Ritual canibalizado?

Algumas semanas atrás, um amigo me ligava e dizia-se chateado com os desdobramentos do Rito Escocês Antigo e Aceito no Grande Oriente do Brasil. Segundo ele, o ritual havia sido canibalizado e havia uma insatisfação geral na loja com seu conteúdo. Cogitavam até trocar de Potência.

Pedi pra ver o ritual e pude constatar que diversos dos enxertos que foram feitos ao rito nas últimas décadas haviam sido removidos. De modo que aquele era um dos rituais mais próximos do ritual francês de 1829 em prática aqui no Brasil. Quando esclareci isso a meu amigo, ele demonstrou enorme surpresa.

Não importa se alguém é contra ou a favor da revisão dos rituais e eliminação dos enxertos. Fato é que, muitas vezes, os rituais revisados podem se basear numa prática mais antiga. Não se pode considerar que isso seja uma inovação!

2) Sem Entrada Ritualística

Numa crítica recente às sessões virtuais, presenciei alguns irmãos dizendo que não poderiam considerar aquilo como sessão porque não havia como ter entrada ritualística em uma sessão virtual.

Independente da posição que alguém tenha sobre sessões virtuais, ocorre que entrada ritualística não é prevista em diversos ritos ou trabalhos. Rituais do York, Emulação, entre outros, preveem que os trabalhos comecem com os irmãos já em loja.

Mesmo no Rito Escocês Antigo e Aceito, a entrada ritualística não consta nos primeiros rituais. O que não quer dizer que ela seja ruim. Apenas, não se define Maçonaria a partir desse fato.

3) Contra o Espírito da Coisa?

Outra crítica às reuniões virtuais diz que conceder graus de forma virtual quebraria o espírito da coisa, já que não teríamos ritualística e a passagem se resumiria a uma mera leitura.

A crítica a isso ser um processo sem graça e bem inferior à teatralidade e às cerimônias das sessões não deixa de ser bastante válida. O problema é que novamente isso é apontado como um problema moderno.

Se alguém atentar para os rituais originais de Charleston do REAA, produzidos no começo do século 19, verá que a ritualística era extremamente simples e os graus eram quase que essencialmente leitura.

A teatralização e maior elaboração das cerimônias foi algo que começou a ser desenvolvido meados do século 19 em diante.

4) Uso de Novas Tecnologias

Outro problema apontado como recente seria o uso de novas tecnologias.

Porém, uma gravura datando de cerca de 1900, no acervo do museu do Rito Escocês do Supremo do Norte dos EUA (NMJ) mostra um retroprojetor sendo usado em loja para ilustrar o conceito dos graus.

Em outras palavras, a Maçonaria já incorpora novas tecnologias a favor de suas sessões há mais de 120 anos!

5) A Maçonaria agora aceita mulheres?

Recentemente, a Grande Loja Unida da Inglaterra postou uma foto conjunta com a Maçonaria feminina.

A foto gerou vários comentários raivosos de maçons brasileiros mas, o que chamou a atenção foram alguns comentários reclamando da ‘modernidade’ no aceite de mulheres na Maçonaria, o que uns classificavam como traição, outros como comércio, uns tantos ainda como o presságio apocalíptico do fim da Maçonaria.

Ocorre, porém, que existem duas Grandes Lojas femininas na Inglaterra com quem a GLUI tem amizade: a Honourable Fraternity of Ancient Freemasons, que foi fundada em 1913, e a Order of Freemasonry for Women, que se tornou estritamente feminina na década de 1920.

Como se pode ver, a Maçonaria feminina na Inglaterra tem literalmente mais de um século. Além de décadas de amizade com a GLUI. Ou seja, não se trata de uma questão recente.

6) Estão desrespeitando os Landmarks?

Analogamente, não é incomum ver maçons alegando que algo vai contra os Landmarks quando veem coisas que lhes causam estranheza. E qual não é o espanto de muitos ao saber que os landmarks de Mackey, criados em 1858, nunca foram adotados como critério pela Inglaterra, que é quem mais dá as cartas em termos de regularidade maçônica no mundo e tem seus próprios Princípios de Regularidade, nem são adotados como padrão universal pelas Grandes Lojas norte-americanas.

Isso sem contar que, ao longo do século 19, vários compilados de landmarks foram propostos por autores diferentes. Nenhum deles foi adotado de forma universal.

Discussões, portanto, revolvendo em torno de coisas que destoam os landmarks de Mackey também não podem ser tratadas como inovações.

7) Revisionismo?

Não são poucos os que vociferam contra irmãos que se levantam para denunciar as ideias e alegações fantasiosas de autores como Rizzardo da Camino, Jorge Adoum, Jean-Marie Ragon, entre outros. Alegam que fazer tal coisa seria matar a alma da Maçonaria.

Mas, novamente, essa questão está longe de ser uma atitude revisionista moderna.

Muito pelo contrário, a própria loja Quatuor Coronati 2076, da Grande Loja Unida da Inglaterra, foi fundada exatamente porque os maçons ingleses já questionavam desde, pelo menos, meados século 19, as ideias fantasiosas propagadas por alguns sobre as origens e desenvolvimentos da Maçonaria.

E os registros históricos da Quatuor Coronati indicam que a loja questionava ideias lendárias propagadas por ninguém menos do que o próprio James Anderson, autor das famosas constituições que carregam seu nome.

Ou seja, a Maçonaria nunca teve um autor como sagrado ou acima de qualquer crítica, e sempre teve pessoas que criticaram a romantização de suas origens.

8) Maçons não estudam mais?

Igualmente é comum ver irmãos reclamando que nos tempos deles os estudos eram sérios e supostamente muito mais conhecedores de Maçonaria do que atualmente, como se os tempos atuais fossem piores.

No entanto, em 1875, Albert Mackey fez a seguinte reclamação:

“No entanto, nada é mais comum do que encontrar maçons que estão em trevas totais sobre tudo o que se relaciona com a Maçonaria. Eles são ignorantes de sua história – eles não sabem se é uma produção de cogumelos hoje, ou se remonta a idades remotas em sua origem. Eles não têm compreensão do significado esotérico de seus símbolos ou suas cerimônias, e dificilmente estão familiarizados com seus modos de reconhecimento. E, no entanto, nada é mais comum do que encontrar tais pseudo-sábios de posse de altos graus e às vezes honrados com assuntos elevados na ordem, presentes nas reuniões de lojas e capítulos, intermediando com o processo, tomando uma parte ativa em todas as discussões e teimosamente mantendo opiniões heterodoxas em oposição ao juízo de irmãos de maior conhecimento.” (Reading Masons and Masons Who Do Not Read)[1]

Ou seja, o problema de haver uma grande quantidade de maçons ignorantes, e pior, ostentando altos graus, cargos administrativos, etc. não é exatamente um problema novo.

9) Aventais

Outra discussão que recentemente presenciei dizia respeito ao Rito Escocês Antigo e Aceito nas Potências da COMAB. Alguns irmãos reclamavam que a COMAB teria “suprimido as rosetas” em prol do típico M. B. no avental de Mestre.

Outros ainda discutiam o padrão dos aventais de Mestre Instalado. Novamente, acusando alguns de quererem inovar.

Ocorre, porém, que um manual dos graus franceses publicado em 1820, em Paris, descreve o ritual de Mestre como tendo justamente o M. B. utilizado pela COMAB.

E, pra piorar, temos o fato de que Instalação é algo inexistente na origem do Rito Escocês Antigo e Aceito, tendo sido incorporada ao rito aqui no Brasil e em outros países. Ou seja, na origem, o REAA não tinha avental de Mestre Instalado, de modo que não importa o padrão, já que não há um padrão original a ser seguido.

10) Egrégora

Outra preocupação muito constante entre alguns irmãos é que determinadas posturas corporais ou pequenos desvios ritualísticos possam comprometer a egrégora da loja. Reclamam que as novas gerações não atentam para coisas que poderiam supostamente quebrá-la.

Sem entrar no mérito da questão de se egrégora existe ou não, fato é que até pouco tempo atrás não se ouvia falar tal termo em Maçonaria. E ele certamente não figura em nenhum ritual histórico da Maçonaria nos seus principais ritos e sistemas.

Ou seja, ironicamente, o conceito de egrégora é, em si, a inovação, não os desvios que poderiam supostamente comprometê-la!

Considerações finais

A lista poderia continuar, com dezenas de outros exemplos, mas os dez acima já são mais do que suficientes para ilustrar o ponto.

Como se pode perceber, uma parte considerável dos incômodos levantados por alguns irmãos com as supostas mudanças ou inovações dos tempos atuais ou das novas gerações estão muito longe de ser assim. Pelo contrário, às vezes representam até mesmo um resgate de práticas mais antigas.

É importante compreender que a postura do “porque sim” ou do “sempre fizemos desse jeito nesta loja”, para justificar ideias ou práticas, não sobrevivem à possibilidade de escrutínio que a Era da Informação nos trouxe, em que fontes podem ser checadas e informações outrora tidas como verdadeiras podem ser facilmente invalidadas.

A Maçonaria não corre, portanto, risco de extinção por esse processo. Nem é justo atribuir tais coisas, como alguns fazem, ao “danoso espírito inovador.”

Autor: Luis Felipe Moura

*Luis Felipe é M∴ M∴, membro da ARLS São Paulo de Piratininga 250 (GOP/COMAB). É bacharel em Letras (inglês), mestre em Teologia e em Psicanálise, atualmente trabalha como psicanalista e professor de Bíblia Hebraica.

Fonte: Ritos & Rituais

Nota do blog

[1] – Clique AQUI para ler o texto completo de Albert Mackey.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Bibliografia

DYER, Colin. The history of the first 100 years of Quatuor Coronati Lodge No. 2076. Disponível em: https://www.quatuorcoronati.com/about-qc-lodge/centenary-booklet/. Acesso em: <08/09/2021>

JANTZ, Percy. The Landmarks of Freemasonry. Disponível em: http://freemasonry.bcy.ca/texts/landmarks.html. Acesso em: <08/09/2021>.

MACKEY, Albert. Reading Masons and Masons Who Do Not Read. The Master Mason, 1875.

SIMON, Jacques. REAA – Rituel des trois premiers degrés selon les anciens cahiers. Éditions de La Hutte, 2010.

RODRIGUES, Luciano R. Egrégora: um conceito totalmente estranho à tradição maçônica. Disponível em: Egrégora: um conceito totalmente estranho à tradição maçônica. Acesso em: <08/09/2021>

Magic Lanterns: Illuminating the Teachings of Freemasonry. Disponível em: https://scottishritenmj.org/blog/magic-lantern-freemasonry. Acesso em: <08/09/2021>

Manuel Maçonnique, ou Tuileur de tous Les Rites de Maçonnerie Pratiqués en France. Paris, 1820.

Ordo Ab Chao: The Original and Complete Rituals of the first Supreme Council, 33º – Vol. 1. Boston: Boemandres Press, 1995.

Women Freemasons. Disponível em: https://www.ugle.org.uk/becoming-a-freemason/women-freemasons. Acesso em: <08/09/2021>.

HFAF: Our history. Disponível em: https://hfaf.org/about-us/our-history. Acesso em: <08/09/2021>.

The Order of Women Freemasons: Our History. Disponível em: https://www.owf.org.uk/about-us/our-history/. Acesso em: <08/09/2021>.

Origens do Ritual Maçônico

Maç Primitiva, Operativa e Especulativa | GLERN

As origens das cerimônias maçônicas são integralmente discutidas por Knoop e Jones no Capítulo X do livro A Gênese da Maçonaria. Os autores deduzem as origens de cerimônias maçônicas do século XVIII de duas fontes principais. Em primeiro lugar, a Invocação; a lenda ou “história” do Ofício; e os regulamentos dos maçons, conforme comumente contidos nos manuscritos maçônicos, sendo estes os respectivos protótipos da Oração de Abertura, da História Tradicional e das Obrigações do ritual Maçônico posterior. Em segundo lugar, “a forma de dar a Palavra maçônica” e as Perguntas e Respostas do Teste associadas à Palavra de Maçom. Dois manuscritos dessa natureza foram rastreados até agora: o Manuscrito Edimburgo Register House de 1696 e o Manuscrito Chetwode Crawley , cerca de 1700.

Estas são as primeiras versões conhecidas do que geralmente são chamadas de catecismos maçônicos, e retratam uma cerimônia de uma natureza diferente daquela sugerida nos manuscritos maçônicos.

O Manuscrito Edimburgo Register House de 1698 afirma que “a pessoa que recebe a Palavra” primeiro teve que fazer um juramento de segredo, no qual jurou não revelar por palavra ou por escrito qualquer parte do que eventualmente ouvisse ou visse, ou traçá-la com a ponta de uma espada ou outro instrumento, sobre a neve ou areia. Ele então saia com o maçom mais jovem (último maçom iniciado na loja), que lhe ensinava os sinais, posturas e palavras de sua entrada. Ele então retornava e dizia as palavras à sua entrada, terminando com as palavras “. . . sob não menos dor do que ter minha língua cortada sob meu queixo e de ser enterrado dentro da estranha marca, onde nenhum homem saberá”. Parece que ele então recebia a palavra dada pelo Mestre. O MS. afirma que o texto acima pertence ao Aprendiz e que outros sinais e palavras pertencem a um Mestre Maçom ou Companheiro.

O Manuscrito Chetwode Crawley confirma que havia duas cerimônias diferentes, uma que se aplicava aos Aprendizes e outra aos Companheiros ou Mestres. Os autores consideram que “ambos os tipos de cerimônia operativa, aquela retratada no Catecismos, sem dúvida contribuíram para o desenvolvimento dos trabalhos atuais. . . ” e que “a evidência parece apontar para que membros operativos e não-operativos das Lojas escocesas e para o Maçom Aceito na Inglaterra, usavam um tipo combinado de cerimônia na segunda metade do século XVII.”

As Obrigações de um Maçom foram “resumidas” por Anderson para as suas Constituições de 1723, e orientadas “para serem lidas ao se fazer um Novo Irmão, ou quando o Mestre assim ordenasse”. Elas estão incorporadas ao NZ Book of Constitution (1974 Edition) 9-20. Knoop e Jones (op. Cit p. 235) acham que as Obrigações de 1723 não substituíram as Old Charges, e que essas últimas podem ter continuado em uso até meados do século XVIII.

Em 1734 ou 1735, “Uma curta obrigação a ser dada aos irmãos recém-admitidos” aparece no “Pocket Companion for Free-Masons” de Smith. Utiliza-se em parte do material das Constituições de 1723 com uma boa quantidade de material novo – Leia (op. Cit. Pp. 236 f.) – Os irmãos notarão que muito da substância das Obrigações aparece após a Iniciação na p. 84 do Ritual da Nova Zelândia; e outras partes dele também têm lugar em nosso Ritual.

A edição irlandesa do mês de maio seguinte contém uma Aprovação pela Grande Loja da Irlanda imediatamente após as Obrigações. As Obrigações são reproduzidas quase literalmente no Ahiman Rezon (Ed. 1756) pp. 35-38. As Obrigações agora usadas nos trabalhos irlandeses correspondem bastante de perto aos quatro primeiros parágrafos das Obrigações da N. Zelândia, mas omite completamente os três parágrafos restantes.

A Prece de Abertura, ou Prece de Admissão incorporava uma invocação à Trindade no Manuscrito Aberdeen de 1670 e diz-se que invocações formuladas de forma semelhante à Trindade ocorriam em todas as versões escocesas dos manuscritos maçônicos.

Nas “Constituições” de Penell, publicadas em Dublin em 1730, a “Prece a ser feita na abertura de uma Loja ou ao se “Fazer um Irmão” também é de caráter Trinitário. Este era o Livro das Constituições da Grande Loja da Irlanda; a prece provavelmente estava em uso na Irlanda e contém a essência da prece pelo candidato do Primeiro Grau, na pág. 41, do Ritual NZ.

Três formas alternativas de prece sobrevivem na coleção Rawlinson. Nenhuma delas contém uma referência específica à Trindade. Eles são provisoriamente datadas por volta de 1730 e devem ter existido antes de 1755, o ano da morte do Dr. Rawlinson. Uma delas está impressa na pág. 41 do Ritual da Nova Zelândia.

Os registros da Loja de Pesquisas, No. CC., Irlanda, para 1934-38 contém na p. 137 um artigo de Q Ir∴ Philip Crossly intitulou “Fazendo um Irmão, por volta de 1740”. Ele afirma, inter alia, que os primeiros catecismos não representam uma cerimônia ou ritual fixo; que a classificação da Fraternidade em Aprendizes, Companheiros e Mestres encontrada em “O Livro das Constituições, um deles publicado em Londres em 1723 e outro em Dublin em 1730” são estágios em vez de graus, e não devem ser confundidos com nossa prática atual; que “qualquer Cerimônia de Iniciação em 1730 só acontecia quando o aprendiz era ‘feito irmão’ e recebia a Palavra de Maçom, que significava que nossa fé em Deus se firma na força”; que o irmão era passado ao grau de Companheiro ao dar prova de sua proficiência no Catecismo, aparentemente sem cerimonial; e que ele alcançava a parte de Mestre, ou seja, Mestre da Loja, somente por mérito pessoal ─ “essa Parte deve ter sido inteiramente filosófica.”

Depois de notar isso, Maçonaria Dissecada de Samuel Prichard de 1730 foi frequentemente reimpressa e traduzida para o francês e alemão, apesar da denúncia da Grande Loja da Inglaterra em dezembro de 1730, nosso irmão comenta que “os maçons continentais parecem ter aceitado isso como representação do trabalho inglês ortodoxo”.

O funcionamento da Loja é descrito a seguir: após o Aprendiz ter assumido sua obrigação “era-lhe presenteado  um avental branco de pele de cordeiro com a abeta dobrada para dentro, um par de luvas brancas para ele e outro par para a senhora que ele mais estimava”. A abeta do avental ainda está dobrada para dentro nos trabalhos irlandeses.

AQC LXVI, pág. 107., oferece um relato contemporâneo dos trabalhos maçônicos que parece ter vindo à tona recentemente. Documentos originais do arquivo da Inquisição de Lisboa, descobertos e traduzidos por um membro do Ramo de Lisboa da Associação Histórica, e reproduzidos por cortesia daquela Associação, tratam do julgamento de John Coustos pela Inquisição. Os documentos mostram claramente que o tribunal se esforçou para fazer um registro completo e preciso de seus procedimentos.

John Coustos nasceu por volta de 1700, e antes de 1732 era membro de uma Loja de Londres , a Loja No. 75, hoje Loja Britânica, No. 33; e se tornou Fundador de outra Loja de Londres, a Loja No. 98, constituída em 17 de agosto de 1732 e existente até 1753.

Em 6 de outubro de 1742, um advogado denunciado depôs formalmente perante um Inquisidor “que cerca de um mês e meio atrás apareceram vários professores e adeptos nesta cidade da nova seita chamada ‘Maçons’ condenados pelos Sé Apostólica alguns anos atrás ”- isto sem dúvida se refere ao Bula do Papa Clemente XII em 1738 ″ – “e que o chefe destes é um inglês chamado Monsieur Coustos, Master Diamond Cutter. . . que é um herege. . . ” Ele dá os nomes de outros seis como “companheiros e seguidores da mencionada seita . . . todos franceses e católicos ”, e passa a dar mais informações.

Outro informante depôs em 11 de fevereiro de 1743, e o informante original, novamente, no dia seguinte. Nos dias 21 e 26 de março de 1743, foi registrada a Confissão de John Coustos, ocupando seis páginas da A.Q.C., e o Exame após a Confissão, em 30 de março de 1743, ocupando mais quatro páginas. Ele dá um relato muito completo das ações dos maçons, verdadeiro até onde se pode dizer. As referências ao Primeiro Grau são extraídas daqui – descrição nas páginas 112 e 113, ler: –

Parece que as cerimônias, embora menos elaboradas do que aquelas agora em uso, incorporam muito da substância de nossos atuais Primeiro e Segundo Graus. Diáconos não são mencionados, nem (com uma possível exceção) o Guarda Interno. O registro fala de mais instruções (aparentemente visuais) após a recreação, e parece transmitir que o período de recreação contava como parte do tempo durante o qual a Loja esteve aberta.

A formação da Loja também é descrita: “[..].ali existe…colocada uma mesa, longitudinalmente com três grandes velas de cera sobre ela na forma de um triângulo, a saber, duas nos dois cantos da parte superior da mesa e a outra no meio da parte inferior[…] À cabeceira da mesa está o Mestre principal de todos, e ao lado estão os outros Irmãos de acordo com seu grau, até o último lugar onde se sentam os chamados vigilantes.”. Esse arranjo de velas e cadeiras (considerando o formato diferente da mesa) aparece na Prancha IV na p. 112 do “Guia e Compêndio dos Maçons” de BC Jones.

In British Masonic Miscellany, Vol. IV, pp. 79-131, o Ir∴ Rev. HG Rosedale considera a Evolução do nosso Ritual antes da União (Primeiro Grau). Ele considera as “Exposições” como versões mais ou menos corretas do que realmente acontecia nas lojas, e está satisfeito que em 1724 todas as três cerimônias, de alguma forma, já existiam. Além disso, que as “exposições” do século XVIII indicavam que o ritual era um desenvolvimento gradual, e ele encontra as diferenças entre J. e B.Mahhabone (publicado em 1766), e Hiram sem importância, no que se refere ao ritual. Ele transcreveu onze páginas cifradas de “Chave Mestra” de Browne (1789) e descobriu que eram a parte das perguntas dos três cerimônias; e observa seu desapontamento ao descobrir “o quanto estava faltando para a descoberta de algo como o ritual completo”.

Posteriormente, ele obteve a Segunda Edição (1802), contendo as respostas, parte em cifra e parte em aberto, e considera a obra um “registro realmente confiável”. Infelizmente para o presente propósito, os três catequismos ocupam 1-80, e “Iniciação de um Candidato” apenas pp. 81-82. No pouco material disponível, ele retrata “com pelo menos alguma abordagem geral da verdade” o cenário de uma Loja Maçônica no período de 1800 a 1813. O Mestre estava colocado no Oriente, os Irmãos sendo divididos em duas linhas, ao Norte e ao Sul, e os Vigilantes na extremidade ocidental dessas duas linhas, e representando os dois pilares no pórtico ou entrada, o Primeiro Vigilante à direita e o Segundo Vigilante à esquerda do Mestre, o Segundo Vigilante estando, portanto, ao Sul “em relação ao Primeiro Vigilante e à Loja.”

Nosso irmão começa a ensaiar a cerimônia de iniciação “tomando a versão de Browne e melhorando-a com dicas. . . de formas mais antigas e não apenas do Ritual publicado por. . . Finch ”, em quem nosso irmão está preparado para confiar Ad hoc. O Candidato é admitido no ponto de a s ─- pi – – – t etc.

Na sua entrada, o S.V. vinha em seu auxílio e perguntava ao Guarda do Templo (Tyler) quem ele tinha ali. A resposta era dada muito como atualmente, o S.V. reporta-se ao Mestre e o Candidato é admitido. Depois da prece, etc., ele é conduzido de volta à Loja pelo S.V. e entregue ao P.V. no Ocidente. O P.V. pergunta “quem vem lá” e o S.V. responde nos termos usados anteriormente pelo Guarda do Templo . A cerimônia prossegue com pouca variação em relação ao uso atual, exceto que o P.V. leva o Candidato para o Oriente seguindo as instruções do Mestre.

Os “Antigos” parecem ter usado uma forma de Obrig. mais curta do que a presente, mas incorporando a maior parte do conteúdo. A Obrig dos “Modernos”. era ainda mais curta e parece incorporar as penalidades de mais de um grau, conforme usado hoje. Após a Obrig. o P.V., por ordem do Mestre, “mostra a luz ao Candidato”, assim como o S.V. faz atualmente. As fontes variam em detalhes quanto às Luzes Maiores e Menores e quanto à forma de investidura. Os segredos eram então comunicados e a colocação no canto NE era seguida.

Browne termina a cerimônia aqui, mas versões posteriores de J. e B. e Mahhabone continuam com as Ferramentas de Trabalho, “o desenho no chão” e sua lavagem subsequente pelo iniciado “se for feito com giz e carvão”, seguido pela Palestra do Aprendiz, principalmente um diálogo entre o Mestre e o P.V., com o objetivo de explicar ao iniciado, passo a passo, o significado esotérico daquilo em que ele participou.

Sendo assim, os vislumbres anteriores do ritual sugerem, na minha opinião, um fio bastante forte de continuidade dos Manuscritos, Constituições e Catecismos até a época da União.

Autor: A. L. Blank

Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

image.png

Estimado leitor, contribuindo a partir de R$ 2,00 você ajuda a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil e nossos podcasts O Ponto Dentro do Círculo e O Peregrino. Clique no link abaixo e apoie nosso projeto! Contamos com você!

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Reflexos da ética maçônica

Make your own PATH - Motivational quote photography stock photo ...

O Rito Escocês Antigo e Aceito tem rica filosofia da qual o Maçom dispõe para a sua autoconstrução. Este cabedal filosófico reflete-se na sociedade na forma de mudanças que promovem libertação do sistema humano que subjuga o pensamento das pessoas. E todas as mudanças sociais e políticas ocorrem antes na mente e depois se materializam na forma de ações e produtos em constante evolução e graus de complexidade. A transformação é obtida aos saltos pelos que trabalham os neurônios constantemente. Abruptamente, despertam, fixam-se e mudam conceitos, verdades. Ao longo da história humana os saltos intuitivos sempre foram influenciados por fatores ambientais, genéticos e culturais. O software da mente gravado no hardware do cérebro humano só progride em resultado da troca de informações entre indivíduos em debates, conversas ou leituras. O método maçônico visa estes saltos intuitivos dos seus adeptos para encontrar a solução de problemas que se refletem na sobrevivência pacífica da espécie humana.

O homem sempre usou dos pensamentos dos seus semelhantes para desenvolver máquinas, escrita, arte, ciência e toda a cultura existente. O Maçom usa os seus companheiros para deles extrair e desenvolver pensamentos que mudem a sua forma de pensar e agir no campo moral. Da camaradagem desenvolvida nas reuniões brota a força que muda intelecto, emoção e espiritualidade. É a energia condicionadora que o grupo social exerce sobre o indivíduo. E isto é realidade desde a época das cavernas, onde um ser humano influiu na educação do outro, até acumular no presente toda a vasta cultura política, metafísica, social e tecnológica. O Maçom é multiplicador da filosofia político-social da Maçonaria. Do conjunto de atividades do filosofar maçônico ele desenvolve posturas que constituem o código de ética que dirige os seus passos e que se reflete no meio social. E como ética e moral se confundem, pois é tênue a sua diferença e profundo o seu alcance, convém esclarecer o que é a ética maçonicamente orientada.

Na conceituação da Ética é possível identificar dois grandes campos de concepções fundamentais: na primeira concepção, “o bem seria para onde se dirigiria o homem”, e na segunda concepção, “o bem seria uma realidade, embora não inscrita na natureza, humana e alcançável” (Abbagnano, 1998, página 380 e 381).

A Ética, um ramo da Filosofia que busca os princípios ou fundamentos da natureza das ações humanas, pode também referir-se a princípios que fundamentam o pensar humano, sem formular ações ou regras de conduta, precisas e fechadas. Ética, também chamada de Filosofia da Moral, é caracterizada por ser um pensar reflexivo dos princípios ou fundamentos que determinam os valores e as normas que governam a conduta humana. Nesta perspectiva, a Ética, enquanto Filosofia da Moral, mantém ampliadas ligações de natureza prática com outras áreas do conhecimento humano, dentre as quais, a biologia, a antropologia, a economia, a sociologia, a teologia, a história e a política. São áreas do conhecimento caracterizadas por serem disciplinas regidas pela lógica cartesiana da sistematização, com ordenamento racional e perda do caráter sagrado, portanto, ciências descritivas ou experimentais.

A Ética, enquanto Filosofia da Moral, ao contrário, busca a determinação dos fundamentos ou princípios que justificam a natureza de teorias normativas e estando determinados os fundamentos ou princípios, aplica-os, se necessário, e quando for o caso, aos dilemas morais.

Algumas áreas do conhecimento que eram objeto de estudo da filosofia, em especial da Ética, após a revolução industrial e a consequente profissionalização e especialização do conhecimento, estabeleceram-se como disciplinas independentes e científicas. Assim, pôde a Ética ser definida como a área da Filosofia que estuda as normas morais nas sociedades humanas e que pretende explicar e justificar os costumes de uma determinada sociedade, bem como, solucionar dilemas a ela inseridos.

A Moral é um conjunto de normas e regras estabelecidas por cada sociedade e aplicadas ao quotidiano de cada pessoa. A Moral ocorre em dois planos: o normativo e o factual. De um lado, nela encontramos normas e regras que tendem a regulamentar a conduta dos homens e, de outro lado, um conjunto de atos humanos regulamentados por eles; cumprindo assim a sua exigência de realização (Vásquez, 1998, página 51-64). A Moral, com as suas normas e regras, que orientam e julgam as ações do indivíduo sobre o que é certo e errado, bom e mau, moral e imoral. Um pensar sobre a conduta.

A Ética investiga justamente o significado e propósito desses adjetivos, tanto em relação à conduta humana, como no seu sentido fundamental e supremo. Um pensar a partir de princípios ou fundamentos. Um infindável pensar, refletir e construir.

Noutra perspectiva, existe a Moral como primazia exclusiva, defendida por um sistema filosófico, o Moralismo, que fundamentou ideologias de intolerância, de preconceito e de puritanismo. Para alguns, a palavra Moral foi desqualificada por esta associação a Moralismo e, deste modo, justificaram a preferência em associar à palavra Ética as regras e os valores por eles consagrados. No campo das ideologias, não se pode deixar de apontar a diferença que se estabeleceu entre a lógica dos que associaram a palavra Ética às regras e valores por eles consagrados e a lógica dos moralistas, onde a Moral aparece como primazia exclusiva. Passou a referir-se a julgamentos éticos, ou princípios éticos, quando seria mais pertinente falar de juízos morais ou princípios morais.

Assim, existem pessoas que possuem um valor e por um processo psicológico que legitimam as normas ou regras decorrentes e pautam a sua conduta por elas, sem controle externo, só porque estão emocionalmente convictas de que esta regra representa um bem moral. Outras pessoas por costume e por hábito validam certas condutas.

Há aquelas que consideram determinadas condutas como boas, e assim, devem ser praticadas. Aqui o juízo de valor como matriz para a legitimação das normas. São exemplos de conduta Moral, de Moralidades. Existem pessoas em que os processos inconscientes seriam os determinantes da conduta moral, que são oriundos da sua individualidade pessoal e social, responsável pela forma habitual e constante de agir do caráter e da personalidade. Este é um exemplo de Ética, enquanto Filosofia da Moral.

A partir do final do século XIX, da era dos sofistas e início do século XX, observa-se na Ética ocidental três perguntas constantes:

  • Seriam os juízos éticos reflexos dos desejos dos que os criam ou verdades inseridas neste mundo?;
  • Seria a ação boa, fruto da racionalidade construída, introjetada ou inculcada ou simplesmente ação vinculada ao interesse próprio?; e ainda,
  • Qual seria a natureza do certo, do errado e do bem?

Desde o início do século XX estes temas desenvolveram-se nas mais variadas formas, com ênfase na aplicação da Ética para problemas práticos e descritos como Ética normativa, Ética aplicada e Meta-ética. Esta última como estudo que, diferente de se prender à análise de teorias éticas ou julgamentos morais, dedica-se à busca da natureza dos juízos morais, se objetivos ou subjetivos.

Por óbvio, pode-se estar a inserir aqui a Ética Maçônica como estudo contemporâneo e ajustado ao paradigma deste milênio, quando ela busca ajudar os irmãos a legitimar intimamente valores, pela introjecção de princípios ou fundamentos que os farão conduzir-se, coerentemente, por normas e regras consagradas como boas e virtuosas. Abordam-se os princípios ou fundamentos filosóficos que pretendem ser valores intimamente legitimados pelos maçons e passem a ser sistema de regras e normas que os norteiem e os qualifiquem nas relações entre irmãos e sociedade.

Considera-se que o Maçom se aperfeiçoa gradativamente, lentamente acordando dentro de si mesmo, pela auto-educação, autoconhecimento e relações fraternas. Esta ética maçonicamente orientada, onde algumas etapas o levam a evoluir como pessoa humana pertencente a um único corpo vivo e interdependente ao qual se denomina humanidade.

E esta humanidade é o que o Maçom desenvolve em si na sua caminhada, na sua busca por religação ao divino e para cumprir a especificação de projeto do Grande Arquiteto do Universo. A ética maçônica tem reflexos imediatos na vida do cidadão formado nas colunas da Maçonaria. O Maçom que muda a si mesmo influencia o Universo inteiro e não apenas a circunvizinhança. Isto é perceptível na sua vida quando ao mudar paradigmas se torna dono do seu próprio futuro.

Autores: Charles Evaldo Boller e Carlos Alberto Peixoto Baptista

Fonte: Freemason

Screenshot_20200502-144642_2

Só foi possível fazermos essa postagem graças à colaboração de nossos leitores no APOIA.SE. Todo o conteúdo do blog é disponibilizado gratuitamente, e nosso objetivo é continuar oferecendo material de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E você também pode nos auxiliar nessa empreitada! Apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil. Para fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Protegido: A Iniciação Real e a Morte do Ego – Parte II (exclusivo para os apoiadores do blog no Apoia.se)

Este conteúdo está protegido por senha. Para vê-lo, digite sua senha abaixo:

Protegido: Caridade – quando a linguagem nos engana…(para ver a senha acesse nosso mural na página https://apoia.se/opontodentrodocirculo)

Este conteúdo está protegido por senha. Para vê-lo, digite sua senha abaixo:

Cowans: os pedreiros sem a palavra – Capítulo Final

A Concise History of Freemasonry

Os Cowans no ritual maçônico francês

Em geral, os rituais franceses geralmente não ecoam o tema dos cowans, pelo menos sob esse termo anglo-saxão definido, embora seja verdade que ele foi traduzido ou recriado, geralmente sob outros significados, como intruso, ou como espião ou simplesmente como profano.

Diante dessa situação paradigmática, o professor D. Stevenson vem ao nosso apoio, quando nos diz que toda essa trajetória pelas terras francesas é quando se nota que tal palavra desapareceu dos rituais atuais e “provavelmente porque houve poucos historiadores da maçonaria que examinaram a questão, bem como as áreas que ela cobre, e até os próprios maçons não sabem muito bem o que essa expressão significa[1], além das expressões canônicas em uso e encontradas em alguns tratados e em muitas páginas da web nas quais são repetidas como papagaios.

Localizados nos primeiros textos pré-rituais originários das heranças dos Modernos, e gerado em solo francês, como foi o ritual Luquet de 1745.  Isso nos diz que o Guarda do Templo (Tuileur) tem o senso e o dever de afastar os profanos:

P. Pourquoi vous armez-vous de glaive in vos L. ? (Por que estais armado com uma espada dentro da loja?).

R. C’est pour écarter les profs. (Para afastar os profanos).

Neste momento, não estamos mais diante de traduções, mas pelo contrário, diante de produções rituais típicas da prática maçônica francesa, que em sua fraseologia nos lembram vagamente o tema dos famosos cowans anglo-saxões, neste caso quem intervém é o Tuileur (Telhador) do Luquet, tratando de afastar os profanos, que parece dirigir-se a eles como os chamados cowans, que estariam interessados em obter esse acesso sem saber muito bem  para quê e, por outro lado, não parece fazer muito sentido afastar  aqueles que poderiam ser candidatos adequados para fazer parte da fraternidade maçônica.

É claro que, no subconsciente coletivo, atua sob pressão da constante presença de bisbilhoteiros no entorno das lojas para poder dar prazer ao público que exigia esse tipo de material, conforme mostra a extensa lista de divulgações e exposições que foram publicadas ao longo do século XVIII, tanto na Inglaterra quanto na França.

A exposér que vaza alguns anos após o Luquet, sob o título: Antimaçons (1748)comunica existência de pessoas indiscretas e dedicadas à espionagem, e serem malignas em suas pretensões.

On peut s’en rapporter aux sots pour remarquer tout ils n’ont que cela à faire. Ils sont espions par malignité, & indiscrets par besoin de conversation.”

Nesse sentido, estamos diante de uma definição mais exata da situação pela qual passava a Maçonaria, pois estarem todos os seus rituais sendo vazados para a opinião pública, evidentemente com a intenção de desacreditar, e cuja forma de obtenção como foi vista no Prichard de 1730 através de espionagem, daí a essencialidade do Guardião do Templo externo.

A Condenação do Régulateur sobre artesãos e Companheiros

Mas enquanto todas as exposições francesas vão se mover nesse mantra da bisbilhotice e a intrusão, será um ritual do final do século como o Régulateur du Maçon, que vai além ao definir uma diretriz muito alinhada com o associativismo terminológico que venho comentando, já que no ritual do grau de Aprendiz, ao detalhar as condições para admissão, ele explica:

“Raramente se admitirá um artesão, mesmo que ele seja um Mestre, especialmente em lugares onde as corporações e comunidades não estejam estabelecidas.”

Procurando explicações para esta citação, que não é mais sobre os cowans operativos sobre os quais foi insuflada uma certa penalidade em forma de maldição, mas que transfere essa pressão para o setor artesanal francês, realizando uma transmutação que havia sido realizada antes sobre os artesãos canteiros sem a palavra, ou seja, os cowans, embora obviamente a história dos dois grupos de cantaria, tanto ingleses quanto franceses sejam radicalmente diferentes.

Para entender em parte a razão dessas omissões no tratamento e estudo sobre os cowans e as condenações sobre os Companheiros nos rituais, nos voltamos para a figura de Pierre Nöel, que nos explica por que significados, autores como Guenón[2], Dat ou Guyot não expuseram a existência dessas incongruências, e a explicação vem do fato de que parte desses estudiosos nunca leram os rituais operativos da Worshipful Society e autores do outro lado do canal como Bothwell-Gose ou Debenham, pelo contrário, nunca leram o Régulateur du Maçon.

E, portanto, a questão da rejeição pode ser observada no que é exposto pelo ritual Luquet, que é, por sua vez, uma espécie de enxerto operativo de origem inglesa na ritualidade francesa; é evidente que nesta história não brilham muito os cowans que, geralmente, são semienterrados sob outros nomes, como se pode observar nas exposérs francesas, exatamente até que o Regulateur, de uma maneira muito discriminatória, volta a colocar no tapete as velhas essências inglesas de rejeição a alguns setores operativos do início do século XVIII.

Não deixa de parecer estranho que o “esquecimento” por parte dos historiadores e estudiosos franceses sempre tenha sido muito exigente e mais sobre o fato de que essa curiosa dissolução terminológica do cowan tenha ocorrido com base em várias traduções pelas quais outros termos mais tradicionais, ligados ao determinismo hexagonal foram incorporados, cujas adaptações surgiram com base em situações e realidades muito diferentes, que viriam a criar fortes distorções semânticas e de interpretação histórica.

Em 1801, quando o Régulateur du Maçon é publicado na França pela mão do Grande Oriente da França, que codifica a prática dos Modernos, mostra uma frase que vem complementar aquela já anteriormente exposta à forte rejeição dos artesãos, a frase termina com esta determinação:

“Jamais se admitirão os trabalhadores chamados Companheiros (Compagnons) nas artes e ofícios.”[3]

Conhecidos são os embates históricos do Companheirismo (Compagnons) na história das construções religiosas e sociais ao longo dos diferentes séculos, tanto de caráter religioso, sindical e social, que levaram os poderes civis a perseguir tais guildas, tidas como revoltosas, o que não deixa de ser paradoxal que a mente coletiva maçônica, pelo menos no âmbito castelhano, continue a propor paralelismos estranhos, acreditando que são os mesmos ou semelhantes construtores de catedrais e maçonaria e, portanto, continua a ser mitologizada como algo próprio da Maçonaria especulativa por herança, quando na realidade, no caso da França, é mais uma questão muito mais de guildas de Ofício e dos Companheiros.

Portanto, depois de ler o vade-mécum sobre o trabalho do Companheirismo na França[4] fica bastante claro que a censura feita pelo Régulateur não deixa de ser  é uma recriação do malditismo dos artesãos e, portanto, dos Companheiros, o que nos vem lembrar os velhos cowans anglo-saxõesapesar de sua história registrar grandes confrontos com seus irmãos de confraria, mas nesse outro contexto de torná-los alvo de invectivas e objetos de perseguição e zombaria, o que no contexto francês afetaria os Companheiros.

E é nesse contexto que se pode entender como lógica a condenação exposta no Régulateur, que se destaca dos usos terminológicos equívocos mais atuais, tais como profano ou intruso, para inclinar-se em direção às raízes operativas, transformando o dardo da marginalização desta vez sobre os Companheiros (Compagnons).

No entanto, um especialista em questões de Companheirismo, como é Jean-Michel Mathoniere, indica que essa referência aos Companheiros no Regulateur não se refere aos  Companheiros de Dever, mas aos “Companheiros do mesmo sistema corporativo e gremial dos operativos”. Essa acaba sendo uma opinião bastante estranha, pois desde os tempos antigos estamos diante de uma queixa quase permanente sobre a possível presença de artesãos, como cowans, cuja maldição está incluída no relato bíblico de Ezequiel 13.  10-15:

“Porque inclusive seduziram o meu povo, dizendo: Paz; não havendo paz; e um construiu um muro e eis que os outros o sujaram com lodo solto.”

Nas referências a seguir, eles são tratados ou assemelhados a intrusos, e de abomináveis,  fazendo-os passar continuamente, como “ouvintes intencionais” que desejam entrar nas lojas e, assim, obter a Palavra de Maçom, ou seja querer passar-se por, em todo caso querer passar-se por maçons, uma opinião encontrada em ambos os lados do Canal da Mancha, nessa sequência, primeiro como cowans e depois como espiões intrusos, embora seja necessário esclarecer que alguns seriam ouvintes involuntários (cowans) e outros seriam os ouvintes intencionais (espiões), a serem finalmente assemelhados aos Companheiros, que definitivamente serão classificados como indesejados.

Pessoalmente, estou inclinado a pensar que o Régulateur, em seu preâmbulo, quer abranger precisamente aqueles artesãos, qualificados em alguns setores como “vis, sem elevação e sem mérito”[5] e os Companheiros, como um reflexo do repúdio a esse estamento, dada sua história como guildas dentro da articulação do ofício na França.

Os maçons de Teoria e de Prática

Se isso era pouco dentro desse imbróglio terminológico da França do século XVIII, que relaciona os cowans ingleses a espiões e intrusos, etc., é perturbado pela chegada de outros significados e concepções controversos encontrados nos rituais franceses, que versam sobre os maçons de prática e de teoria.

Embora não deixe de ser certo que este assunto apresente muitos problemas ao lidar tanto com o conceito quando com a historiografia.

Um dos primeiros rituais que expõe a questão colocada é o ritual Luquet (1745). Em seu catecismo baseado na troca típica de perguntas e respostas, destaca-se a pergunta:

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos.

P. Quais são eles?

R. O M. de Teoria e o M. de Prática.

P. O que você aprende como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, para purificar nossas maneiras e nos tornar agradáveis a todos.

 P. O que é um M. de Prática?

R. Ele é um pedreiro, que trabalha a pedra e que levanta colunas sobre suas bases.

Aqui vemos, como um maçom de teoria se tornaria o virtuoso maçom especulativo com base no aceitação de bons elos cavalheiros, que formarão a associação da Grande Loja de Londres, em vez disso, o maçom de prática é apresentado como um simples e tosco pedreiro que não parece ter outro objetivo senão erguer colunas, ele não é um construtor, mas sua missão parece mais simples, como os antigos cowans, erguer pilares.

P. O que aprendeis como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, purificar nossos costumes, tornando-nos agradáveis a todo mundo. [novamente a presença dos cavalheiros ou gentis homens]

P. Quais são as principais qualidades de um M. de Teoria?

R. Ser um homem livre e discreto, igual aos príncipes reconhecidos por suas virtudes e amigo de Deus e do próximo.”

Eleva-se o elemento cavalheiro à categoria semidivina, ao contrário de como se expõe o artesão e o pedreiro, simplesmente um trabalhador da pedra, em que permanecerão pelo resto de suas vidas, pelo menos sob essa concepção medieval de estar sujeito ao ofício por toda a vida.

P. Que é o Maçom Prático?

R. Quem usa materiais nos edifícios.

P. Não pode ser tão virtuoso quanto nós?

R. Todo homem pode estar nesse estado; mas a grosseria e muitas vezes as razões mecânicas impedem praticamente que ele se una.

Essa discriminação é algo compartilhado por outra divulgação francesa do mesmo ano, a Sceau Rompu (1745) e que prossegue nessa mesma linha o Luquet em seus ditados, e onde essa exposição sobre a grosseria baseada na ruralidade como incapacidade de se projetar e ser portador de suficiente argamassa para que a Maçonaria lhe diga que

“não tem lugar para quem constrói suas paredes simbólicas sem o cimento do amor fraterno.”

Por outro lado, observar que na tradução apresentada pela editora Pardes esses dois termos foram traduzidos diretamente como “Maçons especulativos e Maçons Operativos”, conforme indicado na nota colocada no rodapé da página da tradução. O catecismo continua:

P. Quantas classes de maçons existem?

R. Maçons de teoria e Maçons de Prática.

P. O que aprendeis como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, para purificar nossos costumes e nos tornar agradáveis a todos.

P. O que é um Maçom de Prática?

R. Um trabalhador de pedra que levanta perpendiculares (aprumadas) sobre suas bases.

Em relação ao exposto, insiste-se nesse erguer verticalmente de forma unânime, como aqueles que erguem muros e os Maçons de Teoria  seria o maçom especulativo que deve aprender, por sua condição, a obter uma boa moral, a purificar as maneiras e ser agradável a todos. Deverá observar o silêncio, o segredo, a prudência e a caridade, fugindo das calúnias e da intemperança, pois a Arte Real dos Maçons sempre teve o desejo de unir a prática da virtude e as artes liberais herdadas da antiguidade.

E esse objetivo é proposto à custa de rebaixar o pedreiro simples, maçom de prática, que lhes doou primeiro suas ferramentas e conhecimentos para com eles construir uma fraternidade, para depois despojá-lo de toda a sua ciência, de seu ser e estar no sítio da construção maçônica.

De qualquer forma, essa não é a novidade, mas que uma divulgação deixe tão claro que os maçons operativos não tinham nenhuma conotação espiritual ou esotérica e que obviamente não parecem ter eco na Maçonaria recém-criada por sua falta de empatia e amor fraterno, o que cria um paradoxo, já que tais afirmações vão contra a corrente mítica que elevou os maçons operativos como os grandes construtores das catedrais com toda a sua carga místico-esotérica.

Em textos como a Divulgação de 1745, ou a de 1748, Le Nouveau Catéchisme de Franc-maçons, ou os rituais do Marquês de Gages de 1763, ou mesmo nos rituais do Duque de Chartres de 1784, todos eles se alinham para deixar clara a razão diferencial entre Maçons Práticos e Teóricos (Operativos e Especulativos), e nessas apreciações não há grandes diferenças de conceito entre eles.

É mais um dos últimos rituais descritos como provenientes do ramo dos Modernos, e já terminando o século XVIII, como é o Corpo Completo da Maçonaria, adotado pela Grande Loja de França (1761 ou 1774) isso continua na mesma posição.

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos: Maçons de Teoria e os Maçons de Prática.

P. Quem são os Maçons de teoria?

R. São aqueles que aprendem uma forma de moral, purificam seus hábitos e se tornam agradáveis a todos.

P. Quem são os Maçons de Prática?

R. São os que talham a pedra e erguem a perpendicular (aprumada) sobre suas bases.

Essas definições na instrução do Segundo Grau do Regulateur (1786), voltam a reafirmar, com uma diferença entre uma e outra, mas rebaixando cada vez mais as funções do Maçom de Prática.

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos, uns de Teoria e outros de Prática.

P. O que os aprendem os Maçons de Teoria?

R. Uma boa moral que serve para purificar nossos costumes e nos tornar agradáveis ​​a todos os homens.

P. O que é um Maçom de Prática?

R. É o trabalhador da construção.

Essa ideia da distinção entre ambos será mantida até o final do século XVIII, embora em parte vá se dissolvendo gradualmente, mas mesmo assim, surge alguma divulgação tardia que se afasta de tais paradigmas, como é o caso de Mahhabone (1766), que vai um pouco mais longe ao deixar para trás, pois assume o novo estado no qual o novo membro da loja deve ter tanto de cavalheiro quanto de pedreiro:

P. O que aprendestes ao se tornar Cavalheiro Maçom?

R. O Segredo, a Moral e a boa camaradagem.

P. O que aprendestes ao se tornar Maçom do Ofício?

R. A talhar a pedra em esquadro, dar forma à pedra, possuir o nível de habilidade com a perpendicular (prumada).

É evidente que a exposição Mahabone assume e adota as duas tipologias, é claro a dos cavalheiros como seu fundamento essencial, mas assumindo o elemento operativo como uma herança valiosa que o ajudará a elevar-se até o novo estado que propõem os cavalheiros, os quais

“trabalham de segunda a sábado, com giz, carvão de madeira e uma panela que significa Liberdade, Fervor e Zelo, essa é uma proposta um pouco diferente do futuro universo especulativo.”

A herança dos Antigos e dos Cowans um século depois

No entanto, dentro da corrente dos Modernos e no seio do continente, essa questão praticamente desaparece, exceto pela exceção do Régulateur, que eu já expus antes, por outro lado e a título de contraste, expor que a corrente dos Antigos recupera a antiga linha marcada pelos preconceitos.

É assim que a situação é apresentada em um texto do Catecismo de Instrução do REAA da Grande Loja da Espanha (GLE)[6].

P. Um maçom pode seguir sendo um Cowan?

R. Aquele homem que ingressa por mera curiosidade, para ganhar posição social ou vantagens nos negócios, o falso maçom é o verdadeiro cowan, uma fonte sutil de problemas dentro do corpo do Ofício, que certamente afetará a vida da Irmandade. se não se tiver cuidado.

A pergunta que poderíamos nos fazer é: Por que se segue recolhendo em diferentes textos do REAA a proposta de Anderson de 1738 em um documento de 2011 da Maçonaria de tradição espanhola?

A julgar pelo que alguns maçons anglo-saxões expõem, isso é relativamente fácil de entender, uma vez que os cowans são elementos exógenos das guildas da maçonaria especulativa, uma vez que são trabalhadores sem a palavra, que desejam ingressar em nossas fraternidades… e, portanto, esse termo tem sido o ideal para definir a situação.

Podemos verificar o mesmo no Duncans´Masonic Ritual and Monitor de 1866, e pertencente à herança Antiga:

P. Brother Tyler, your place in the Lodge. (Irmão Guarda do Templo Qual é vosso lugar em Loja?)

R. Without the inner door. (Fora da porta interna)

P. Your duty there? (Qual é o seu dever ali?)

R. To keep off all cowans and eavesdroppers, and not to pas o repas any but are duly qualified and have the Worshipful Master´s permission. (Manter afastados todos os profanos e bisbilhoteiros, e não deixe passar ninguém devidamente qualificado e sem a permissão do Venerável Mestre.)

Como já expliquei, no restante dos cadernos rituais franceses de raiz Moderna do século XIX, perde-se praticamente toda a referência à persistência nessas tessituras, exceto no Rito Francês Filosófico que retoma a questão, mas a partir de perspectivas novas e diferentes.

Conclusões

Com base no exposto sobre os famosos cowans, pode-se resumir o que segue:

  • Temos no início de toda essa história na região anglo-saxônica alguns pedreiros rurais (wallers ou construtores de muros) coexistindo no tempo e, circunstancialmente, nos mesmos lugares com os poderosos setores do Ofício (Craft) de caráter marcadamente urbano: guildas, confrarias, corporações, etc. .
  • Pedreiros rurais apontados pelas corporações de ofício como pedreiros marginais, ou mão de obra eventual, a quem designam em vários documentos como “Cowans”. (Canongate, Glasgow, Morher Kilwinning, York, Lodge Aitchison´s Haven).
  • Cowans, que, nas Old Charges, e em alguns outros regulamentos e documentos, são mencionados em relação ao exercício e regulamentação do Ofício, nos quais lhes são atribuídas uma certa especificidade profissional de natureza rural limitada à construção de muros e pequenas construções no meio rural e, portanto, a eles são reduzidos as áreas de trabalho e dedicação. (Estatutos de Shaw, manuscritos DumfriesWilkinson).
  • Termo que provém dos usos operativos da Escócia e que aparece em solo inglês e seus textos regulatórios no final do século XVII e início do século XVIII, estendendo esse termo em relação à Maçonaria a qualquer pessoa que não fosse um maçom especulativo.
  • Como tais trabalhadores da cantaria rural não estavam inseridos nos grupos das guildas urbanas do Ofício, ficando à margem da posse da Mason’s Word (Palavra do Maçom), que dava opção para mais benefícios de trabalho ou proteção.
  • Tais cowans aparecem no seio da ritualidade no início do período especulativo como tais cowans, mas também sob descrições: espiõesintrusos, etc., e sob o pretexto de entrar secretamente na Maçonaria, conforme apresentado em diversos textos. (Confissão de Maçons, Constituições de Anderson,)
  • São o resultado de campanhas de assédio e ridicularização, tanto nos rituais quanto por outros meios: canções e desenhos, nos quais são apresentadas como tal e conforme ocorre  no Ahiman Rezon, como imorais e abomináveis.
  • Na ritualidade francesa, o termo cowan vai adquirindo outros significados já comentados:  espiõesintrusos, e como profanos indignos, perdendo a raiz original, aparecendo certos problemas de tradução e interpretação ao perder a raiz.
  • A adaptação do termo cowan nos meios de comunicação de massa maçônicos franceses transformou sua presença como maçons de prática, como um ponto de ruptura e separação entre o mundo operativo e o mundo especulativo, que se apresenta como um simples obreiro que levanta colunas e sem atitudes, devido à sua grosseria.
  • Volta ao conceito de marginalização operativa, ou seja, considerando cowans certos setores do Ofício: os artesãos e os Companheiros(Régulateur du Maçon).
  • Desaparecimento prático, dentro da raiz dos Modernos no século XIX, de tais significados denegridores.
  • Presença dos velhos clichês operativos dentro da corrente dos Antigos e até o século XIX. ( Ritual e Monitor de Duncans)

Em geral, este estudo quis demonstrar como um termo que esteve presente por mais de um século em nossos rituais, como os cowans, foi sendo alterado em termos de definições, disseminação e desenvolvimento, em cujo setor do Ofício foi marcado com sangue e fogo sob alguns conceitos como pedreiros, artesãos ou companheiros, mas sob percepções ou tratamento pejorativos como espiões, intrusos, detestáveis ou abomináveis de quem a Maçonaria se serviu para denegrir e atribuir certas atitudes, quando, de fato, como diz Bob Walker da Grande Loja da Escócia, nunca esses [cowans] representaram um problema ou uma ameaça para Maçonaria[7].

No entanto, houve toda uma concomitância em querer apresentar os cowans sob diferentes denominações como pessoas que não são capazes de construir nada no seio da Maçonaria, porque lhes faltariam, como diz um maçom inglês “o cimento que supõe o amor fraternal”, recorrendo à mesma Bíblia em que o livro de Ezequiel 13:10-15 dedica um flagelo cruel a esses simples pedreiros rurais que constroem muros sem argamassa.

“Deste modo, destruirei o muro que vós cobristes com lodo solto, e o jogarei por terra, e sua fundação será descoberta e cairá, e sereis consumidos no meio dela; e sabereis que eu sou Jeová. Assim, cumprirei minha fúria no muro e naqueles que o cobriram com lodo solto; e eu vos direi: Não existe muro, nem quem o revestiu.”[8]

Não deixa de ser curioso que uma fraternidade como a maçônica, baseada no objetivo de “reunir os dispersos”, tenha mantido essa discriminação e denigração por tanto tempo.

Um termo como “cowans” que, se não fosse pela atenção ou estudo de autores como Mackey, Joseph Fort Newton, Henry Carr ou Sudarkis…, teria sido esquecido, perdendo toda a sua marca.

Estas são as investigações e reflexões que pude conceber para trazer à tona as velhas dúvidas maçônicas que desde a idade de aprendiz maçom eu vinha arrastando em relação a esses estranhos pedreiros rurais, os cowans.

FINIS

Autor: Victor Guerra
Tradução: José Filardo

Fonte: BIBLIOT3CA

Clique AQUI para ler os capítulos anteriores

Publicado originalmente em: ritofrances.net/

Screenshot_20200502-144642_2

Está gostando do blog, caro leitor? Saiba que só foi possível fazermos essa postagem graças ao apoio de nossos colaboradores. Todo o conteúdo do blog é fornecido gratuitamente, e nos esforçamos para fazer de nossa página um ambiente agradável para os públicos interessados. O objetivo é continuar oferecendo conteúdo de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E agora você pode nos auxiliar nessa empreitada! Fazendo uma doação a partir de R$ 2,00 você ajuda a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil, tem acesso a posts exclusivos e concorre a livros todos os meses. Para fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Notas

[1]Stevenson, David.Les Premiers Francs-Maçons. Les Loges Écossaises originelles et leursmembres. Éditions Ivoire-Clair. 2000.

[2]http://pierresvivantes.hautetfort.com/archive/2013/12/15/rene-guenon-et-les-origines-de-la-franc-maconnerie-les-limit-5247265.html#_ftn3, (René Guénon y los orígenes de la masonería: los límites de una mirada).

[3]Régulateur du Maçon. Editor Masonica. Es.

[4] – Berton, Hugues ; Imbert, Christelle. Les Enfants de Salomon. Approches historiques et rituelles sur le Compagnonnages et la franc-maçonnerie. Éditions Dervy. 2015.

[5] – Anatole de Maontaignon. Etat des ouvriers ramenés d’Italie par Charles VIII, 1497-8. Archives de L´Arte Français. T. 1. 1906.

[6]Lectura de Instrucción por preguntas y Respuestas, basadas en los catecismos y textos tradicionales del REAA. GLE. 2011.

[7] – Are there Cowans in our midst? http://www.themasonictrowel.com/Articles/General/other_files/are_there_cowans_in_our_midst.htm

[8] – Ezequiel 13. 14-15

TFA e pós-pandemia

Covid-19: Homens com barba estão menos protegidos pelas máscaras?

“Cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça” (popular)

Em meio às turbulências ora vivenciadas com a pandemia da COVID-19, conjecturar sobre o futuro é sempre tendencioso, certamente podendo descambar para exageros, mas é inevitável não especular a respeito de possíveis cenários. Estamos com tempo para isso.

Limitando-nos à seara maçônica, muito afetada com a necessidade do distanciamento social imposto pelas autoridades de saúde e acatado por nossas lideranças, o retorno às atividades normais após a cessação das medidas restritivas de reuniões enseja preocupações antes não vislumbradas no radar. Afinal, nosso grupo é composto majoritariamente de obreiros com mais de 60 anos, com as vulnerabilidades impostas pela vida.

Que tudo isso passará, não restam dúvidas. Mas, a que preço? A pergunta que não quer calar é: tudo será como dantes? Correremos o risco de novas ondas e necessidade de repetidos isolamentos? No nosso caso, continuaremos a reunirmo-nos em Templos apertados e sem circulação de ar natural, para evitar os olhares indiscretos e quebra dos quesitos de segurança?  Muito receio entre maçons com idade provecta e seus familiares.

Fazendo do limão uma limonada, sabe-se que várias Lojas contornaram as restrições de reuniões lançando mão de encontros virtuais, as festejadas vídeoconferências, que viabilizaram a continuidade, mesmo que mitigada, dos trabalhos administrativos, com apresentação de trabalhos e discussões de temas de interesse, mantendo firmes os imprescindíveis laços de fraternidade.

Ocorre que não houve unanimidade nas participações, haja vista que muitos irmãos não são familiarizados com os recursos ora proporcionados pelas redes sociais. Outros, por questões de ponto de vista, mantiveram-se distanciados, por não aceitarem de bom grado os avanços tecnológicos e mudanças de comportamentos. Porém, nosso tempo merece ser mais bem aproveitado, o aprendizado não pode parar e os conhecimentos e experiências precisam ser compartilhados.

Não é segredo que nós os maçons nutrimos muita afeição pelos nossos pares e tratamo-nos com muito respeito e carinho, o que é um grande tesouro a ser preservado. Dada às novas circunstâncias, alguns cuidados deverão seguramente ser aplicados e, quem sabe, mais um recurso será adicionado ao vestuário tradicional, como a máscara, e o uso obrigatório das luvas, antes colocadas em segundo plano, considerando-se que a ritualística e os procedimentos de reconhecimento exigem proximidade física, em especial nos tradicionais abraços fraternos que caracterizam os verdadeiros encontros de irmãos.

Quanto às sessões presenciais, algumas medidas poderão ser adotadas, quanto ao afastamento físico, sabendo-se que os irmãos mais novos em idade correm menos risco, mas podem se tornar vetores de contaminação em futuras recaídas da espécie. Uma possibilidade a ser avaliada é a de alterações de agendas, no sentido de incluir as reuniões virtuais no cotidiano das Lojas, com as devidas precauções, mantendo as sessões magnas para os fins a que se destinam e as ritualísticas normais para escrutínios e avaliação de obreiros em processos de aumento de salários, dentre outros.

Enfim, como livres pensadores não podemos deixar de avaliar cenários, e mudanças regulamentares serão reclamadas, em face do novo normal que se nos apresenta. Enquanto privados dos encontros presenciais, podemos incentivar e incrementar nossas vídeoconferências com discussões dessa temática, agora enriquecida com um número cada vez maior de visitantes de diferentes Lojas, Ritos, Orientes e Potências, sem falar que nesse contexto estamos participando de mais reuniões dentro do conforto de nossos lares e com interação ainda maior em número de participantes, antes impensável. Para encerrar, quem ainda não leu em nossos grupos de WhatsApp irmãos perguntando onde tem reunião hoje? Novos tempos, novos desafios!

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Screenshot_20200502-144642_2
Agora, com a parceria entre o site Apoia-se.com e O Ponto Dentro do Círculo, você pode ajudar a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil e ainda concorrer a recompensas! Clique no link abaixo para fazer sua contribuição!

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Ramsay e os Graus Superiores – uma visão diferente

Resultado de imagem para ramsay maçonaria

Todo estudante da Maçonaria Europeia, principalmente se estiver interessado no desenvolvimento dos graus superiores e da Cavalaria na Maçonaria, encontrará o nome de Andrew Michael Ramsay. Esta figura enigmática ainda ganha atenção e sua suposta influência foi, por exemplo, um dos principais temas para workshops e trabalhos na Segunda Conferência Mundial sobre Fraternidade, Maçonaria e História em Paris, em maio de 2017. Ramsay merece a posição que historiadores lhe reservaram como uma peça-chave no desenvolvimento dos rituais Maçônicos. No entanto, sou da opinião de que os pedaços disponíveis sobre Ramsay, e o que se sabe sobre seu trabalho, bem como a época em que ele viveu, pode ser organizado para formar uma visão alternativa, que mostra que sua influência hoje é considerada um tanto exagerada.

Quem foi Ramsay?

Este não é o lugar para uma visão completa da vida de Ramsay, mas para os interessados, biografias detalhadas estão disponíveis em outros lugares[1]. No entanto, alguns eventos devem ser mencionados: Ramsay era filho de um ministro episcopal em Edimburgo e foi provavelmente nascido em Abbotshall, em Fife, em meados de junho de 1693. Completou sua educação na Universidade de Edimburgo em 1707 e foi empregado como tutor em uma família nobre em 1708. Posições semelhantes também devem ter sido o seu sustento mais tarde.

Por volta de 1710, ele deixou a Escócia, para a França, e poucos meses após sua chegada, se converteu à fé católica devido à influência do arcebispo Fénelon. Ramsay voltou para Escócia em 1715 para se juntar ao exército jacobita, foi capturado após a Batalha de Preston em novembro do mesmo ano, mas escapou e fugiu de volta para a França[2].

Em 1716, chegou a Paris, onde residiria até sua morte em 1743. De 1717 a 1722 trabalhou novamente como tutor. Seu empregador em Paris era um dos conselheiros mais próximos do regente francês, e há motivos para supor que esse relação foi fundamental para que fosse nomeado Cavaleiro em 20 de maio de 1723 da L’ordem de Saint- Lazare de Jérusalem, pelo qual adquiriu o direito de usar o título de “Chevalier” (Cavaleiro)[3].

Ramsay, no entanto, aspirava glórias maiores. Em Paris, ele fez contato com a alta cúpula jacobita, e em várias ocasiões expressou sua lealdade ao exilado James Edward Stuart (James III) como o legítimo rei da Grã-Bretanha[4].

Não está claro se Ramsay ainda era um defensor da causa Stuart, ou se ele apenas achou oportuno explorar as circunstâncias. No entanto, James Edward parece ter adquirido grande estima sobre ele. Quatro dias depois de ser Cavaleiro na França, ele recebeu a confirmação do pretendente de que era de família escocesa nobre e, em em 1724, foi chamado à corte dos Stuarts em Roma como professor do filho de James Edwards, Charles Edward, que tinha cerca de quatro anos de idade. No entanto, foi uma empreitada malsucedida, e Ramsay retornou a Paris em poucos meses. Continuou, no entanto, a manter contato com a comunidade jacobita e em 1735 James Edward o elevou a Barão Escocês. Ramsay também foi autorizado a passar seus últimos anos em Saint-Germain-en-Laye, o palácio dos Stuarts perto de Paris.

O Maçom Ramsay

Em 1727, Ramsay publicou com sucesso o romance Les Voyages de Cyrus. Em meados de 1729, viajou para a Inglaterra em conexão com a publicação da tradução de seu livro e ficou no país por cerca de um ano. Durante seu tempo na Inglaterra, foi nomeado Doutor em Direito em Oxford e eleito Membro da Royal Society. Em março de 1730 foi iniciado na Maçonaria. Isso aconteceu no Horn Lodge. Talvez o Loja mais prestigiada de Londres, onde Desaguliers e outras figuras-chave dentro da Royal Society eram membros[5].

Depois que Ramsay retornou a Paris de sua estadia na Inglaterra, há apenas informações indiretas sobre suas atividades como maçom. Em uma carta datada de 02 de agosto de 1737, Ramsay afirma que havia servido como orateur (Orador) durante várias iniciações maçônicas em Paris, e um de seus contemporâneos confirma que Ramsay era conhecido por fazer discursos em tais “Iniciações”. Acredita-se que o conteúdo de um manuscrito com o título 1736 Discours de M Le Cher de Ramsay prononce a la Loge de St Jean le 26 Xbre (Discursos do Cavalheiro Ramsay, pronunciados na Loja de São João, em 26 de Dezembro), preservados na biblioteca da pequena cidade francesa de Epernay, é esse discurso apresentado por Ramsay para novos irmãos. Supõe-se ainda que o discurso tenha sido usado repetidamente (pelo menos em oito ocasiões), mas pouco ou nada se sabe sobre quando e onde isso aconteceu, exceto em 26 de dezembro de 1736, como especificado no cabeçalho do documento[6].

No entanto, um documento semelhante está localizado na Bibliothèque municipale de Toulouse (Biblioteca Municipal de Toulouse), intitulado discours prononce à la réception des Francs-Macon (discurso sobre a recepção dos Franco-Maçons), por M. de Ramsay, grand orateur de l’orders (Grande Orador da Ordem). Este manuscrito (e versões posteriores impressas) segue o mesmo esboço como o documento de Epernay, mas a versão de Toulouse é cerca de 20% mais longa. Além disso, algumas partes são expandidas enquanto outras são reduzidas. A versão do texto também é conhecida em dois outros manuscritos, bem como em pelo menos quatro edições impressas no período de 1738 a 1743[7].

Como esse texto mais longo foi o mais distribuído, é razoável sugerir que foi a última de duas versões que foram produzidos e que a versão mais longa se baseia na primeira, mais curta. Cyril Batham acredita que esta segunda versão foi feita porque Ramsay foi convidado a falar em uma reunião na Grande Loja Parisiense em 21 de março do mesmo ano[8]. Apoio essa visão de que que Ramsay reformulou seu texto durante os primeiros meses de 1737, e existem argumentos que dão apoio a isso e que listo abaixo, mas também demonstrarei que as razões poderiam ter sido outras, além de uma reunião na Grande Loja.

A Maçonaria encontra oposição

Durante a última metade de 1736, a consciência pública sobre a Maçonaria começou a aumentar em Paris. Vários relatos descrevem a oposição do rei Luís XV a esse novo movimento, que atraiu vários jovens da nobreza muito ansiosos, e que mantinha reuniões em segredo de forma organizada (e, portanto, de conteúdo incontrolável). A pressão das autoridades estava aumentando, e o cardeal Fleury, ministro-chefe do rei, e Hérault, Lieutenant General de Police (tenente-general de Polícia), em Paris, começaram a procurar contramedidas. A campanha anti-maçônica parece ter começado com Hérault publicando o texto Reception d’un frey-Macon (A recepção de um franco-maçom), que supunha ser a revelação de um ritual maçônico, e tinha a intenção expressa de ridicularizar o Ordem[9]. Em 17 de Março de 1737 passou a ser considerado uma ofensa criminal oferecer instalações aos maçons e, em maio, maçons foram enviados para a prisão, embora muitos membros franceses estivessem protegidos de processos por sua alta posição social. Enquanto a polícia conduzia ataques contra Lojas, o conhecido Coustos-Villeroy Lodge, recebeu visitantes não convidados durante o verão de 1737 e, em setembro do mesmo ano, um dono de estalagem foi multado por hospedar uma Loja. Somente após a morte do cardeal Fleury, em 1743, essas condições melhoraram[10].

Ramsay entra em ação

Com essa situação em mente, pode ser plausível que Ramsay tenha editado seu discurso em uma tentativa de afastar a oposição que ele entendia estar sendo criada. Ramsay enviou sua nova versão ao cardeal Fleury apenas três dias após a proibição da atividade Maçônica entrar em vigor, e isso pode apoiar tal teoria. O mesmo pode ser dito para as mudanças no conteúdo do discurso: enquanto a primeira versão pode ser descrita como uma representação imaginativa da história maçônica, complementada pela iluminação filosófica e ênfase nas qualidades que eram esperadas dos maçons, a versão revisada parece ter outro propósito. Neste texto em particular, Ramsay é mais focado em apresentar os maçons como cidadãos leais dentro da comunidade, e que eles estavam trabalhando para melhorar os costumes e promover a virtude e a ciência[11]. Segundo Ramsay, um maçom, era obrigado a:

[…] Proteger seus irmãos por sua autoridade, iluminar por suas luzes, edificá-lo pelas vossas virtudes, ajudá-lo em suas necessidades; sacrificar todo ressentimento pessoal e procurar tudo o que possa contribuir para a paz, concórdia e união na sociedade.[12]

Esta segunda versão também tem um caráter claramente mais cristão do que a primeira, e as passagens frequentemente citadas que ligam a Maçonaria aos cruzados medievais podem ser vistas como um instrumento usado por Ramsay para corroborar que o ofício não estava apenas de acordo com cristianismo ortodoxo, mas também de acordo com a Santa Igreja Católica Romana. Ele abordou o tema cruzado na primeira versão, mas em seu retrabalho Ramsay expande o tema de uma maneira que pode dar ao leitor a impressão de que a Maçonaria contemporânea se via como herdeira desses antigos guerreiros em serviço da Igreja[13].

A maneira pela qual Ramsay conclui sua segunda versão também é significativa:

[…] A Arte Real está agora repassando para a França, sob o reinado daquele mais amável dos reis, cuja humanidade anima todas as suas virtudes e sob o ministério de um Mentor que realizou tudo o que poderia ser imaginado como fabuloso.[14]

Esse texto pode muito bem ser percebido como um chamado ao Rei para se juntar aos maçons e se tornar seu líder, bem como um convite semelhante a Fleury, que foi denominado como o “Mentor” no texto. Mais tarde, no mesmo ano, Ramsay revelou qual era o objetivo que ele realmente pretendia alcançar:

Se o cardeal tivesse durado mais um mês, eu teria o “mérito” de discursar para o rei da França, como chefe da confraria e ter iniciado Sua Majestade em nossos mistérios sagrados.[15]

Se esse discurso fosse proferido em uma assembleia da Grande Loja ou não, traria poucas mudanças. O objetivo principal era alcançar o rei com uma mensagem. Quando Ramsay envia o seu manuscrito para Fleury em 20 de março de 1737, ele está se referindo a uma informação planejada, pretexto para garantir uma resposta rápida, como ele pede ao Cardeal, para adaptar o texto como ele deseja e, assim, apoiar o trabalho de Ramsay na organização. Em sua carta a Fleury, Ramsay não mostra nenhuma consciência das restrições que haviam afetado a Maçonaria três dias antes, mas pode-se suspeitar que ele foi informado e isso o instigou a entrar em contato com o cardeal.

A resposta de Fleury não sobreviveu, mas dificilmente pode ter sido positiva. Ramsay agiu rápido para limitar o dano e, apenas dois dias após sua primeira carta, ele escreveu novamente para o Cardeal, afirmando que acabara de tomar consciência do ressentimento das autoridades contra a Maçonaria e pediu conselhos sobre como se comportar de acordo e, além disso, se ele ainda estava autorizado a participar de reuniões maçônicas. A resposta sucinta de Fleury é famosa: “Le roi ne le veut pas” (não é o desejo do rei). A conclusão das palavras do Cardeal devem ter sido óbvias, e Ramsay provavelmente se manteve no anonimato  no que diz respeito às suas atividades maçônicas nos anos seguintes.

Se a reunião na grande loja onde Ramsay deveria fazer seu “discurso” realmente foi planejada, ela deve ter sido adiada de 21 para 24 de março. Dada a difícil situação, parece que a reunião foi cancelada e não há vestígios de reuniões na Grande Loja naquele ano. Assim, o discurso revisado provavelmente nunca foi realizado[16]. Ao contrário do que foi assumido até agora, Ramsay não renunciou à Maçonaria após este episódio. Em conversa com dois alemães que visitam Paris em março de 1741, Ramsay se apresentou como o Grand Chancelier (Grande Chanceler) Maçônico da França e falou com entusiasmo sobre a Maçonaria[17].

A influência de Ramsay e seus discursos

Já foi discutido neste artigo que a segunda versão, a revisada, do discurso de Ramsay não foi concebida como um discurso a ser feito na Grande Loja, mas que foi criado apenas para convencer o Rei e seu ministro de que o movimento maçônico era benéfico para a sociedade e retratou os maçons como fiéis adeptos da Igreja e da Coroa. Depois que essa tentativa foi inútil, Ramsay e a Ordem Francesa esperaram discretamente alguns anos de repressão. No entanto, muitas vezes se afirma que o texto de Ramsay teve ótima – alguns diriam crucial – importância no desenvolvimento dos graus superiores da Maçonaria e das lendas cavalheirescas. Com base nas evidências históricas disponíveis, e não na lenda maçônica, é necessário desafiar algumas das verdades estabelecidas em relação a este tópico. A intenção não é a depreciação geral de Ramsay e a influência de seus textos.

No entanto, removendo mitos, pesquisas desatualizadas e conclusões infundadas, podemos obter uma imagem mais clara do que poderia ter sido sua contribuição, em vez de apenas redistribuir uma lenda. A seguir, quatro questões diferentes serão discutidas.

  • As lendas óbvias: Ramsay estava, em um estágio inicial, associado à invenção de novos graus maçônicos. Isso não deve surpreender, pois as versões impressas de seu discurso foram algumas das poucas fontes disponíveis para os primeiros estudiosos, e é compreensível que eles escolheram colocar suas teorias nos poucos nomes e documentos conhecidos. Já em 1802, Fessler afirmou que Ramsay introduziu outros graus em Londres em 1728, e isso foi repetido por Thory em 1815. Isso foi refutado mais tarde, no mesmo século, por Schiffman e Gould como alegações infundadas, mas a chama ainda existe[18]. Ramsay também foi associado à criação do Arco Real e do Rite Ancien de Bouillon (Rito Antigo de Bouillon), afirmações que da mesma maneira foram convincentemente rejeitadas[19]. Reivindicações não documentadas como esta, no entanto, ao longo dos séculos, estabeleceram uma forte conexão mítica entre Ramsay e a Maçonaria dos altos graus que se pode suspeitar que serviram de base subconsciente para pesquisadores mais recentes;
  • Os primeiros graus superiores – novas ideias: Até recentemente, a visão predominante entre estudiosos era que o conceito de graus superiores foi concebido na França na década de 1740. Nesse cenário, o discurso de Ramsay era como uma faísca que acendia o movimento écossais (Escocês), mas essa cadeia de eventos foi recentemente desafiada por novos fatos. As fontes disponíveis agora indicam que o primeiro grau superior foi trabalhado em Londres pelo menos já em 1733, e que esse grau (Mestre Escocês) foi introduzido em Berlim em 1742. Não antes do final de 1743 que se tem menção desse grau em documentos franceses, e então é claramente considerado como um ponto recém-formado[20]. Assim, se o berço do primeiro grau superior estava em outros lugares fora da França, as possíveis influências iniciais de fontes francesas como os discursos de Ramsay não são tão óbvias quanto antes;
  • O desenvolvimento de novos graus: Quando a ideia de graus além dos Graus Simbólicos acabou sendo introduzida na França, esse país tornou-se um ponto central para o desenvolvimento de novos rituais. Homens que se propuseram a desenvolver novo material ritualístico poderiam ter ouvido o discurso de Ramsay em uma ou mais ocasiões antes de 1737. O discurso também poderia ter sido realizado algumas vezes durante os anos seguintes, apesar de Ramsay provavelmente ter aparecido menos em público com suas conexões maçônicas neste período. Em teoria, ele poderia ter influenciado formadores de graus dessa maneira, mas se Ramsay veio a servir de inspiração para novos graus, é mais provável que isso tenha sido transmitido através das versões impressas dos discursos. A primeira versão de seu discurso parece ter sido impressa pela primeira vez em 1738 e conhecemos reimpressões e outras edições nos anos seguintes[21]. No que diz respeito ao conteúdo dos primeiros graus superiores, que tratavam principalmente do período imediato após a morte do Mestre Construtor, nenhuma das duas versões oferece tanto material quanto influência. A menção a Zerubbabel (Zorobabel) e “o misterioso livro de Salomão”[22] parece ser a parte mais relevante para novos graus, mas depois encontramos apenas os primeiros graus conhecidos no final da década de 1740 como, por exemplo, o grau Knight of the East (Cavaleiro do Oriente)[23].

A segunda versão do discurso de Ramsay foi impresso pela primeira vez em 1742. As principais contribuições inspiradoras nesta versão são, obviamente, as referências a “Nossos ancestrais, os cruzados”[24], a suposta união com os Cavaleiros de São João, como as primeiras Lojas foram criados por nobres que retornavam da Cruzada, e em especial como a Escócia era considerada como a conservadora na preservação das tradições[25]. Isso aponta para os graus cavalheirescos e tenho que admitir que a palestra encontrada no grau de Chevalier Elu (Cavaleiro Eleito), descoberta em Quimper e datado de 1750, mostra alguns paralelos com a segunda versão do discurso de Ramsay[26]. Um estudo mais detalhado dos primeiros rituais manuscritos pode revelar outras ligações mais detalhadas de Ramsay, mas em um nível meramente superficial.

  • Poucas ideias originais: O último fator a ser considerado ao discutir a questão do potencial de influência de Ramsay nos graus maçônicos é que uma quantidade considerável de seus textos consiste em plágios. Alain Bernheim analisou isso com mais detalhes e mostrou várias fontes de Ramsay que, por direito próprio, poderiam ter lhe inspirado[27]. Pode-se argumentar que Ramsay foi influente na montagem de material de diferentes fontes e, posteriormente, colocá-lo em um contexto maçônico, mas novamente, é preciso considerar que uma das fontes que ele mais utiliza é o Livro das Constituições de Anderson de 1723 que deve ter sido de conhecimento de grande parte da audiência de Ramsay.

Vale ressaltar também que John Coustos, depois de passar um tempo na prisão a partir de outubro 1742, deu o seguinte testemunho à Inquisição em Lisboa em março de 1743:

… quando ocorreu a destruição do famoso templo de Salomão, foi encontrado abaixo da Primeira Pedra uma tábua de bronze sobre a qual estava gravada [uma familiar Palavra bíblica que significava] ‘Deus’, dando assim a entender que esse Tecido e o Templo foi instituído e erigido em nome do dito Deus a quem era dedicado, esse mesmo Senhor, o começo e o fim de uma obra tão magnífica, e, como no Evangelho de São João, são encontradas as mesmas palavras e doutrinas que elas, por esse motivo, faça o Juramento naquele lugar.[28]

Esta lenda é certamente da história da igreja por Philostorgius (Filostórgio), e Coustos provavelmente está apenas explicando por que os maçons fazem seus juramentos no evangelho de São João. Bernheim, no entanto, mostrou que Filostórgio é uma das fontes de Ramsay (embora através de Claude Flery). O testemunho de Coustos, portanto, nos fornece o que possivelmente é uma tradição maçônica independente baseada nas mesmas fontes que Ramsay usava. O que parece ser inspiração de Ramsay em graus recém-formados pode, portanto, confiar em outras fontes também.

Epílogo

O objetivo deste ensaio não é uma tentativa de provar que Ramsay e sua obra maçônica foi insignificante ou sem influência. No entanto, acho peculiar que Ramsay regularmente recebe um lugar tão importante no desenvolvimento dos graus superiores, sem se raciocinar ou fornecer argumentos. Isso é notável mesmo em trabalhos acadêmicos, e parece que a importância de Ramsay é considerada um axioma. A posição de Ramsay como parte essencial da história da Maçonaria pode ser merecida, mas considerando novos conhecimentos e pesquisa, não podemos mais ver isso como tão evidente, e até que novas fontes sejam descobertas, o significado de Ramsay deve, na melhor das hipóteses, ser considerado indeterminável.

Autor:  Leif Endre Grutle
Tradução: Rodrigo Menezes

Publicado originalmente na  The Plumbline Volume 24, No. 2 (verão de 2017). – Revisado em março de 2018 e fevereiro de 2019.

Fonte: Ritos e Rtuais

Doação para manutenção do blog

Está gostando do blog, caro leitor? Só foi possível fazermos essa postagem graças ao apoio de nossos colaboradores. Todo o conteúdo do blog é fornecido gratuitamente, e nos esforçamos para fazer um ambiente amigável para os públicos interessados. O objetivo é continuar no ar oferecendo conteúdo de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E agora você pode nos auxiliar nessa empreitada! Faça uma doação e ajude a manter o blog funcionando. Para garantir sua segurança utilizamos a plataforma de pagamentos PayPal e você pode contribuir usando o cartão de crédito, para isto basta clicar logo abaixo na bandeira correspondente ao seu cartão. Se preferir, pode também fazer sua doação por transferência bancária em favor de Luiz Marcelo Viegas da Silva, CPF 633.643.366-87, Banco do Brasil, Ag: 2115-6 CC: 14770-2.

$10.00

Notas

[1] – Ver, por exemplo, CN Batham, ‘Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, Ars Quatuor Coronatorum 81 (1968) e L. Kahler, “Andrew Michael Ramsay e seu Manifesto Maçônico”, Heredom 1 (1992).

[2] – C. Powell, ‘Novas evidências sobre o início da vida do cavaleiro Andrew Michael Ramsay’, Ars Quatuor Coronatorum 131 (2018).

[3] – Ordo Militaris e Hospitalis Sancti Lazari Hierosolymitani foi uma das ordens cavalheirescas fundadas durante as Cruzadas, tendo como principal tarefa cuidar dos leprosos. A Ordem tinha poucos recursos e estava prestes a ser dissolvida após a derrota final dos cruzados na Terra Santa em 1291. O rei Filipe da França ofereceu proteção à Ordem em 1308, ironicamente, apenas um ano depois que ele iniciou a perseguição aos Cavaleiros Templários. A ordem de Lázaro era, portanto, na época de Ramsay, uma ordem real da França, que também gozava de autorização apostólica do papa.

[4] – A. Bernheim, Alain, ‘Ramsay e seus discursos revisados’, Acta Macionica 14 (2004). Este artigo foi mais tarde expandido e publicado como livro em francês: A. Bernheim, Ramsay et ses deux discours (Paris: Edições Télètes, 2011).

[5] – Os membros proeminentes da Loja fizeram com que suas atividades fossem divulgadas na imprensa, e é um aviso de jornal que nos fornece os detalhes da iniciação de Ramsay. Batham, ‘Chevalier Ramsay. Uma nova visão ‘, 285 e RLD Cooper, The Rosslyn Hoax? (Hersham: Lewis Masonic, 2006), 39-43. A Loja se reunia originalmente na estalagem Rummer and Grapes em Channel Row, Westminster, e foi uma das quatro que uniram forças para formar a primeira Grande Loja em Londres. O Loja ainda é o número quatro na lista da Grande Loja Unida da Inglaterra e agora é chamado Royal Somerset House e Inverness Lodge . C. N. Batham, ‘A Grande Loja da Inglaterra (1717) e suas Lojas Fundadoras’, Ars Quatuor Coronatorum 103 (1991), 30-32, cfr. R. Berman, Schism. A Batalha que Forjou a Maçonaria (Brighton: Sussex Academic, 2013), 124-125.

[6] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, 291-292 e Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 17-23.

[7] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 20-22, e G. Lamoine, ‘Oração do Chevalier de Ramsay, 1736-37: Maçonaria na França ‘, Ars Quatuor Coronatorum 114 (2002), 233.

[8] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, 288.

[9] – AJB Milborne, ‘As primeiras exposições continentais e sua relação com os Textos Ingleses Contemporâneos’, Ars Quatuor Coronatorum 78 (1965), cfr. H. Carr, Harry (org.). As primeiras exposições francesas (Londres: 1971), 1-8.

[10] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, 305, W. McLeod,’ John Coustos: suas lojas e seu Livro ‘, Ars Quatuor Coronatorum 92 (1979), 116, J. Mandleberg, Rose Croix Essays (Hersham: Lewis Maçônico, 2004), 26.

[11] – Lamoine, ‘A Oração do Cavalheiro Ramsay, 1736-37: Maçonaria na França’, 234-235.

[12] – Lamoine, ‘A Oração do Cavalheiro Ramsay, 1736-37: Maçonaria na França’, 231

[13] – As duas versões podem ser encontradas dispostas paralelamente no francês original em Bernheim, Ramsay et ses deux discursos , 67-91. Para tradução para o inglês, consulte Batham, ‘Chevalier Ramsay. Uma Nova Visão’, 298-304 (reimpresso em Heredom 1 , 49-59). Veja Lamoine, ‘A Oração do Chevalier de Ramsay, 1736-37: Early Alvenaria na França ‘para uma tradução anotada.

[14] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 304.

[15] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 291. É concebível, no entanto, que a iniciativa de Ramsay teve o efeito oposto, e o conteúdo do documento enviado à Fleury pode ter influenciado o processo que terminou com a bula do papa contra a Maçonaria em 1738. A. Piatigorsky, Quem tem medo dos maçons? (Londres: The Harvill Press, 1997), 116.

[16] – A. Bernheim, ‘Letter to the Editor’ (Carta ao Editor), Heredom 5 (1996), 9-10.

[17] – R. Markner, Conversas de Anton von Geusau com Ramsay: Um Exame de seu Diário Original (Documento apresentado na Conferência Mundial sobre Fraternidade, Maçonaria e História , Bibliothèque Nationale, Paris, 27 de maio de 2017). Publicado como R. Markner, ‘Les conversations entre Anton von Geusau et Ramsay: Recherches sur l’original of son journal of voyage ‘, Renaissance Traditionnelle N o 189 (2018), 54-61.

[18] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 33-35.

[19] – WJ Hughan, Origem do Rito Inglês da Maçonaria (Leichester: Lodge of Research, No. 2429, 3a ed. JT Thorp, 1925), 80-82, e BE Jones, o Livro do Maçom do Arco Real  (Londres: George G. Harrap & Company Ltd, 1965), 41-43.

[20] – A. Bernheim, ‘Early’ High ‘ou Écossais Graus Originam-se na França?’, Heredom 5 (1996), 96-102. O manuscrito Kloss XXV-334, afirma que o grau Écossais Anglais (Escocês Inglês) ou Parfait maître Anglais (Perfeito Mestre Inglês) era pouco conhecido na França antes de 1740, e foi introduzido pelos maçons ingleses. Este é provavelmente o mesmo grau mencionado em 1743. Veja: L. Trebuchet, De l’Écosse à léscossisme. Tomo 2 – Volume 2 (Marselha: Ubik edições; 2015), 223-225. Recentemente, mostrei que é altamente improvável que o sueco Carl Fredrik Scheffer poderia ter sido iniciado em graus superiores em Paris em 1737, embora essa seja uma afirmação frequentemente repetida. LE Grutle, «Frimureriske høygrader – myter og fakta», Acta Masonica Scandinavica 17 (2014), 296-297.

[21] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 42-44.

[22] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 302.

[23] – Trebuchet, De l’Ecosse à léscossisme. Tomo 2 – Volume 2 , 371ss.

[24] –  Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 299.

[25] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 303

[26] – A. Bernheim, ‘A Figura do Cavaleiro Kadosch na na França e em Charleston’, Heredom 6 (1997), 164-165. Veja também: P. Mollier, ‘Maçonaria e Templarismo’, Handbook of Freemasonry (Leiden: Brill, 2014), 88-89.

[27] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours (Ramsay e seus discursos), 23-32.

[28] – Jones, O Livro do Maçom do Arco Real, 43-44

Decoração e simbologia egípcia nos templos maçônicos

Resultado de imagem para egito e maçonaria

Não resta dúvida que o costume de utilizar desmedidamente agregados simbólicos penitentes à cultura egípcia se tem feito presente na decoração de muitos templos maçônicos pelo mundo. Todavia isso se dá mais por efeito decorativo do que iniciático, pois a história autêntica já comprovou inúmeras vezes a inexistência na Ordem Maçônica nos tempos do Antigo Egito.

É bem verdade que houve inclusive personagens embusteiros que criaram ritos maçônicos exaltando uma suposta maçonaria egípcia (Memphis-Misraim), mas que mais tarde foram desmascarados por fraude – dentre outros a respeito, vide apontamentos sobre in Dictionnaire des Franc-Maçons et de la Franc-Maçonerrie, Alec Mellor, Belfond, Paris, 1971-1979.

Sob o aspecto da Maçonaria documental (autêntica), a Sublime Ordem comprovadamente possui aproximados 800 anos de história[1], sendo os seus ancestrais as guildas de construtores da Idade Média. Assim, a Instituição Maçônica não nasceu e nunca existiu nos tempos do Egito Antigo, portanto é preciso antes compreender que para construção do seu arcabouço doutrinário especulativo muitas lendas passariam a fazer parte nesse contexto. Contudo, reafirma-se que são lendas introduzidas com o desiderato de, como alegorias, aplicar lições de moral, ética e sociabilidade e não como elementos comprobatórios relacionados à existência verdadeira de fatos e acontecimentos ao ponto de aparecerem decorando paredes de templos maçônicos.

Assim compreendido, cita-se por exemplo a Lenda do 3º Grau como parte desse arcabouço lendário que fora retirado dos cultos solares da Antiguidade, cujo qual, por esse viés, possui palpável consonância com a lenda de Osíris, Ísis e Hórus, entretanto esse não é um fato histórico, mas lendário, assim não autoriza qualquer afirmativa no sentido de que lendas da antiguidade usadas pela Maçonaria sirvam para comprovar sua existência naqueles idos tempos – muito menos arrumar justificativas se construir templos maçônicos copiando arquitetura egípcia.

Lendas são lendas e não afiançam autenticidade aos fatos que constituem o mosaico da História. Infelizmente essa não é uma lição que tenha sido aprendida por muitos imaginosos autores que, em detrimento de citações lendárias associadas ao ufanismo maçônico, semeiam suposições que não têm qualquer compromisso com a verdade. James Anderson, por exemplo, carregou algumas páginas da Constituição de 1723 com essas elucubrações, geralmente retiradas do Old Charges que traziam forte apelo religioso, especialmente pela forte influência da Igreja sobre as corporações de ofício da Idade Média. Sob o aspecto prático, é compreensível que Anderson tenha inserido essas exposições lendárias já que a “nova ordem”, amparada pela Royal Society e que compunha a Moderna Maçonaria, surgida em 1717 em Londres, carecia de agregar novos adeptos e com isso chamar atenção com fatos tidos como “misteriosos segredos guardados pela Maçonaria”. Isso sem dúvida ajudou a Premier Grand Lodge reforçar suas Colunas, principalmente com membros atraídos pela curiosidade despertada, sobretudo quando publicados nos diários londrinos da época. Lawrence Dermott, por exemplo, para atrair adeptos para a sua Grande Loja, a dos Antigos (1751), criou o Real Arco afirmando que nele havia o encerramento e a explicação da Lenda do 3º Grau. Artifício inteligente que até hoje faz com que adeptos da Ordem acreditem na existência de um 4º grau maçônico advindo dos tempos imemoriais, fato que também não se sustenta, pois comprovadamente a Maçonaria de antanho trabalhava com apenas duas classes de trabalhadores, vindo a surgir o 3º Grau especulativo somente na Moderna Maçonaria surgida no final do primeiro quartel do século XVIII.

Outro aspecto nesse mesmo sentido (o da não existência de Maçonaria na antiguidade) é o que envolve a própria “arte de construir”.

Nesse sentido, não há como negar que a profissão de construtor é um ofício milenar, entretanto não como uma organização feito à Maçonaria.

A arte de construir, surgida principalmente pela necessidade de se proteger, fez com que o homem, ao deixar a vida sedentária das cavernas para viver em sociedade estratificada, começasse a edificar choupanas, vivendas e casebres para se abrigar das intempéries e se proteger dos perigos e agruras comuns ao ambiente que o envolvia.

Com isso davam-se os primeiros passos na arte e no ofício das construções, sendo, portanto, perfeitamente viável se afirmar que essa profissão é oriunda dos tempos imemoriais, entretanto isso não significa dizer que existiam guildas de construtores maçons naquela época, pois documentalmente se sabe que a Franco-Maçonaria somente viria florescer, sob a proteção da Igreja-Estado, no século XIII.

Como sociedade organizada de artesãos construtores, a Franco-Maçonaria, seguindo o curso da história e atendendo à necessidade surgida pela expansão dos domínios da Igreja, nascera em substituição, primeiro às Associações Monásticas e depois às Confrarias Leigas.

Longe e anterior a tudo isso está a civilização do Antigo Egito ocorrida no Antigo Oriente próximo ao norte da África há 3.100 a. C. Seu aparecimento no ideário maçônico, além daqueles motivados por lendas solares, provavelmente se reforçou por teorias de incautos e ufanistas que, usando da lei do menor esforço, não tardariam a imaginar as pirâmides sendo construídas por maçons, o que cientificamente é muito pouco provável, simplesmente porque não existe nenhuma prova ou indício que aponte para a existência da Maçonaria naquele período.

Saindo do Antigo Egito, mas seguindo esse mesmo viés, vem a construção do primeiro templo hebraico, o de Jerusalém, muito conhecido em Maçonaria como Templo de Salomão (o rei que reinou em Israel de 1010 a 970 a.C.).

Por ser a maior alegoria maçônica e ligado à lenda hirâmica, a construção desse Templo também não tardaria a despertar no fértil imaginário que foram os maçons os seus construtores, tudo obviamente em detrimento à Lenda do Terceiro Grau onde os personagens do Rei Salomão, Hiram – Rei de Tiro e Hiram Abif (Hiram meu Pai), de modo fictício, são descritos mitologicamente como maçons no sentido de estruturar a lenda introduzida em 1725 pelo aparecimento do grau de Mestre Maçom na Moderna Maçonaria.

Na realidade, a Lenda do Terceiro Grau é a adaptação de uma lenda Noaquita que envolve os personagens bíblicos de Noé e seus três filhos, Sem, Can e Jafé. Sem dúvida essa lenda, tal como a de Osíris, Ísis e Hórus, se estrutura nos cultos solares da Antiguidade, cujos quais serviram de base para a maioria das religiões que conhecemos.

Retomando a Lenda Hirâmica, ela, como qualquer outra lenda, não tem qualquer compromisso com a realidade histórica, portanto ela não afirma, mas apenas menciona figuradamente a Maçonaria na época da construção do primeiro templo hebraico – o de Jerusalém.

Infelizmente isso ainda não tem sido bem compreendido e faz com que muitos maçons não separem lenda – que é uma narrativa escrita ou oral no qual fatos históricos são deformados pela imaginação – de realidade histórica. Com isso, acabam muitos, até de modo infantil, disseminando inverdades tal como a de “achar”, por exemplo, que os templos maçônicos são edificados como cópias fiéis do lendário templo bíblico.

Embora alguns ritos maçônicos, por questões doutrinárias decorem seus templos estilizando mobiliários e partes do espaço de trabalho, relativizando-os às descrições imaginadas do lendário templo hebraico, por certo isso só pode ser tratado como característica de uma alegoria maçônica construída sob elementos figurados. Entenda-se que a sala da Loja, como uma oficina simbólica de trabalho, longe está de ser um modelo (arquétipo) do Templo de Jerusalém.

Não é cabível, portanto, que ainda existam maçons que não saibam discernir narrativas lendárias de fatos reais e continuem imaginando que foram os maçons os construtores do Templo de Jerusalém, ou mesmo os que construíram as Pirâmides do Egito.

Sem conclusões apressadas é mister mencionar que o primeiro templo maçônico somente viria surgir nos meados do século XVIII na Inglaterra após o advento do aparecimento da Moderna Maçonaria. Assim, sua disposição mobiliária copia a do Parlamento Britânico, principalmente no que diz respeito à acomodação do plenário e da great chair. No mais, por influência da Igreja sobre os ancestrais da Moderna Maçonaria, os templos maçônicos seguem o mesmo modelo de orientação das Igrejas, destacando que, por sua vez, essas últimas foram inspiradas no Tabernáculo hebraico, antepassado do Templo de Jerusalém.

Dado ao exposto, a Maçonaria deve ter seus templos decorados conforme o previsto no rito que a Loja pratica, não obstante existirem às vezes, em total desrespeito para com a originalidade e liturgia, muitos elementos decorativos que apenas possuem o desiderato de satisfazer o gosto e a imaginação de alguns.

Certo é que como exemplificado anteriormente, elementos decorativos tais como painéis pertinentes ao Antigo Egito, ou outros do gênero, não fazem nenhum sentido para o REAA, dentre outros, embora, como dito, eles equivocadamente muitas vezes apareçam no interior de alguns templos maçônicos.

Eu diria que essa decoração é mais apropriada para a AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz) do que para a Maçonaria. Como elementos associativos eles até podem aparecer no contexto das lendas, mas muito longe de se materializarem como símbolos aplicados pela doutrina maçônica.

É daí meu Irmão talvez o seu insucesso na procura de explicações sobre a simbologia egípcia na decoração dos templos maçônicos.

Em termos de decoração egípcia nos templos simbólicos do REAA, por exemplo, podem existir elementos pontuais, como é o caso, por exemplo, da decoração original das Colunas B e J. Essas, de estilo babilônico, comumente aparecerem decoradas com folhas de lótus (universalidade) e de papiros (eterna busca pelo transcendental). Explicam-se as suas presenças porque as Colunas Gêmeas são pilares solsticiais, portanto se relacionam diretamente com os cultos solares da Antiguidade. Assim, as folhas de lótus e papiros (símbolos egípcios), de modo pontual, remontam ao significado de uma alegoria reservada aos iniciados, porém nunca para mencionar a existência da Maçonaria nos tempos do Antigo Egito.

Cada símbolo traz consigo a sua originalidade, a despeito de que em Maçonaria ele geralmente aparece para chamar atenção do iniciado para uma verdade inserida numa mensagem oculta (esotérica).

Desse modo, outros elementos simbólicos pertencente às diversas civilizações também fazem parte de corolário emblemático maçônico, contudo eles não possuem o desiderato de explicar a presença da Ordem em períodos da História.

Concluindo, a simbologia maçônica é ampla e abrange inúmeros aspectos culturais e sociológicos que foram retirados do misticismo de muitas civilizações. A Ordem Maçônica, eclética por natureza, para montar seu arcabouço doutrinário se utilizou desse artifício. Cabe assim ao maçom entender que a simples presença de símbolos de antigas civilizações no corolário simbólico adotado pela Maçonaria não representa que Ordem possui caráter de existência milenar. Reitero, documentalmente a Maçonaria possui aproximados 800 anos de história, o resto… Bem, o resto é lenda.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

Nota do Blog

[1] – O autor se refere à Maçonaria Operativa. A Maçonaria Moderna tem pouco mais de 300 anos, tendo como marco a criação da Grande Loja de Londres e Westminster em 1717.

Doação para manutenção do blog

Está gostando do blog, caro leitor? Só foi possível fazermos essa postagem graças ao apoio de nossos colaboradores. Todo o conteúdo do blog é fornecido gratuitamente, e nos esforçamos para fazer um ambiente amigável para os públicos interessados. O objetivo é continuar no ar oferecendo conteúdo de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E agora você pode nos auxiliar nessa empreitada! Faça uma doação e ajude a manter o blog funcionando. Para garantir sua segurança utilizamos a plataforma de pagamentos PayPal e você pode contribuir usando o cartão de crédito, para isto basta clicar logo abaixo na bandeira correspondente ao seu cartão. Se preferir, pode também fazer sua doação por transferência bancária em favor de Luiz Marcelo Viegas da Silva, CPF 633.643.366-87, Banco do Brasil, Ag: 2115-6 CC: 14770-2.

$10.00

Protegido: O Painel do Grau de Aprendiz (para ler o artigo digite a P∴ S∴ de Apr∴)

Este conteúdo está protegido por senha. Para vê-lo, digite sua senha abaixo: