John Theophilus Desaguliers, o pai da Maçonaria Especulativa

Traveling Templar: John Theophilus Desaguliers: Father of Modern  Speculative Freemasonry

Introdução

“Na atualidade, o nome Desaguliers é familiar apenas para poucos maçons. Mas eles deveriam saber que a ele, talvez mais do que qualquer outro homem, devemos a existência atual da Maçonaria como uma instituição viva, …. E a quem, talvez, mais do que qualquer outra pessoa, a atual Grande Loja da Inglaterra deve a sua existência. (Albert G. Mackey).

“Ele pegou uma antiga ordem que estava morrendo e deu uma filosofia que lhe era muito própria e peculiar. Ele acrescentou um toque de ciência, um conceito prático do Grande Arquiteto e Organizador do Mundo. Ele soprou uma oração e nasceu a maçonaria especulativa” (George E. Maine – Grande Orador da Grande Loja de Washington em 1939).

No ano de 2000, em um artigo sobre “as dez teorias propostas sobre a origem da maçonaria”, da Ars Quatuor Coronatorum, encontramos a citação abaixo, sobre “A teoria das origens rosacruzes” de A. Cosby F. Jackson:

Jackson propôs que duas fraternidades, a Maçonaria especulativa e o Rosacrucianismo, foram lançadas com poucos anos de diferença por homens de qualidades intelectuais semelhantes. Ambos teriam começado no século XVII com propósitos parecidos, o auto aperfeiçoamento e o misticismo religioso. O Rosacrucianismo espalhou-se rapidamente com ideias da alquimia, enquanto a Maçonaria tinha um atrativo diferente, e consequentemente se desenvolveu mais lentamente.

Havia apenas dois vínculos plausíveis:

  1. A importância da piedade cristã e auto aperfeiçoamento.
  2. Os membros das duas convicções poderiam estar envolvidos com a recém-fundada Royal Society, que fora estabelecida por senhores cultos.

A pesquisa

Neste texto vamos examinar a criação da Maçonaria que conhecemos, especialmente o seu principal fundador, Rev. Dr. John Theophilus Desaguliers.

Ao fazê-lo, chegamos à conclusão de que, em vez de reviver fielmente os segredos e mistérios de pedreiros medievais e operativos, Desaguliers e seus associados criaram uma nova instituição (com alguns elementos antigos, reais ou imaginários, contudo, eles eram bem diferentes dos empregados pelos operativos).

Nesta nova instituição, eles conseguiram inserir em quatro ou mais lojas de Londres, e estes perpetuaram, alguns usos e costumes remanescentes dos maçons (pedreiros) artesãos.

A Grande Loja de Londres foi criada em 1717. No primeiro ano, o Grão-Mestre foi Anthony Sayer, que não fez nada para o desenvolvimento da ordem. No ano seguinte, o segundo Grão-Mestre, George Payne, provou ser um administrador competente, mas não excepcional. Até que em 1719, momento que a Grande Loja enfraquecia, foi reavivada pela liderança de John Theophilus Desaguliers depois de ser eleito como o terceiro Grão-Mestre.

Sua visão extraordinária transformou o que tinha sido até então, pouco mais do que uma combinação de clubes de bebedores, com uma instituição nobre e da moda, eminentemente preparada para o aparecimento do Século das Luzes, ou mais conhecido como o Iluminismo.

Todos os Grãos Mestre subsequentes foram patronos “só de nome”, de nascimento aristocrata ou real, cuja rotina de trabalho era depositada no Deputy (ou Adjunto), posição ocupada por Desaguliers por três vezes.

Desaguliers é considerado unanimemente como o criador da primeira Grande Loja.

No livro The Royal Masonic Cyclopaedia de 1987, o autor Kenneth Mackenzie nos diz:

“Por seu ardor despertou as energias dos maçons de seu tempo, e depois da conferência preliminar com o velho Christopher Wren (talvez apócrifa), reuniu quatro lojas em Londres em 1717, quando a Grande Loja foi formada. Sob Dr. Desaguliers, o Ofício cresceu rapidamente em força, número, respeitabilidade e influência, muitos nobres participaram das cerimônias e posteriormente como oficiais”.

Outro ponto sobre o qual o Dr. Desaguliers tinha muito interesse foi a coleta de documentos antigos relativos ao Ofício (Craft) e a isso se deve a preservação das “Obrigações dos maçons” e a preparação do Regulamento Geral.

Em suas Constituições de 1723, James Anderson dá o crédito a seu mentor, de ter auxiliado no trabalho, provavelmente exagerando o papel de Desaguliers para dar brilho ao que era essencialmente o trabalho do próprio Anderson, e assim conseguiu a aprovação da Constituição pela Grande Loja.

Referindo-se novamente ao livro de Kenneth Mackenzie:

“Depois de se retirar do cargo em 1720, ele (Desaguliers) foi nominado por três vezes como Grão-Mestre Adjunto (Deputy ou Vice Grão-Mestre): em 1723, pelo Duque de Wharton; em junho do mesmo ano, pelo Conde de Dalkeith; em 1725, por Lord Paisley; e durante este período de serviço ele fez muitas coisas para o benefício do Ofício, entre outros, iniciando o esquema de caridade que foi posteriormente desenvolvido no que é hoje conhecido na Grande Loja da Inglaterra como o Fundo de Benevolência.

Durante este período, ele visitou lojas operativas em Edimburgo. (Este ponto é tão interessante que será explorado em outro post)

Em seguida, ele viajou para a Holanda e foi mestre de uma loja especialmente reunida para iniciar o Duque de Lorena, mais tarde Grão Duque da Toscana e imperador da Alemanha. Ele também iniciou o príncipe de Gales em Kew em uma loja formada especialmente para este propósito.

Através da força de sua própria personalidade, ele atraiu a sua nova instituição, homens importantes na Inglaterra, a realeza, os nobres, a elite, a as grandes mentes.

Devido a pureza de seus princípios e a importância desses primeiros líderes reunidos por Desaguliers, a Maçonaria desde estes dias, é uma coisa viva, pulsando com o melhor que há em cada homem. Alguns escritores afirmam que Desaguliers “foi quem escreveu a maioria de seus rituais”.

Dr. Oliver em “Os Princípios Peculiares do Ofício”, diz:

“Seu desempenho (Desaguliers) poderia ter contribuído para o benefício de toda a comunidade, se tivesse sido encaminhado em uma certa direção desde a saída de Sir Christopher Wren”.

Podemos supor que Desaguliers tentou redirecioná-los para algo totalmente novo (a influência de Wren é duvidosa e provavelmente foi invocada para legitimar as inovações de Desaguliers).

Em “The Ritual of the Operative Freemasons” (Carr), ficamos surpresos pela falta de semelhança entre o sistema de guildas de Londres, de sete graus, e os atuais três graus da Maçonaria simbólica.

A palavra de cada um dos primeiros graus é totalmente diferente (não apenas transposta como aconteceu depois) do que é utilizado na moderna maçonaria especulativa e os pilares que são tão proeminentes em graus especulativos tinha um significado muito diferente entre os operativos.

Além disso, como afirma Bernard E. Jones em “Freemasons Guide and Compendium”, observamos que entre os maçons especulativos não há registros de um terceiro grau ou a lenda de Hiram até cerca de 1726, quando aparece, e não se assemelha a nada praticado entre os pedreiros operativos.

O que Desaguliers teria em mente ao criar a Maçonaria que nos é familiar?

A pergunta nos leva a tentar entender como era este irmão.

Desaguliers era um cientista de renome, amigo íntimo de Sir Isaac Newton (Presidente da Royal Society de 1703 até sua morte em 1727) e Desaguliers era um Companheiro desta sociedade.

Tal influência se reflete nos rituais da Maçonaria, com a ênfase nos “Mistérios ocultos da natureza e ciência”, as “Sete Artes Liberais e Ciências” e seu discurso por um “avanço diário no conhecimento maçônico” e como os escritores Hamill e Gilbert nos diz em “The First Grand Lodge”:

“Parece haver pouca dúvida de que a quantidade de Companheiros da Royal Society, que se tornaram maçons, foi devido à influência do exemplo de Desaguliers e certamente não foi por acaso que, pelo menos, 12 dos Grãos Mestres foram Companheiros da Royal Society ao longo dos 20 anos após Desaguliers.”

Na verdade, a ideia de que a Maçonaria especulativa foi o produto da Royal Society é uma das teorias mais plausíveis sobre as origens da maçonaria, que citada por Mackey em “The History of Freemasonry”. No entanto, apesar da prevalência da moda do Rosacrucianismo no início do século XVIII, quando a alquimia era considerada uma ciência e da influência que o Rosacrucianismo pode ter exercido tanto na Royal Society quanto na Maçonaria, a última conexão e direta entre os dois parece estar ausente por um motivo a se observar: enquanto que os aspectos práticos do Ofício dos operativos podem ter dado origem a algum interesse entre os membros da Royal Society, há muito pouco sobre a maçonaria especulativa que explique o motivo deles, como entusiastas da ciência, gostariam de ter sido envolvidos em sua criação.

Voltando ao Desaguliers, encontramos um outro aspecto deste maçom, que nos leva a considerar uma nova teoria: Ele foi um huguenote, que é o nome dado aos protestantes franceses durante as guerras religiosas na França.

Quando Desaguliers tinha dois anos de idade, seu pai que era Reverendo, foi para a Inglaterra dentro de um tonel de vinho para escapar da perseguição na França. Todos os clérigos protestantes foram forçados a deixar a França, enquanto que outros protestantes foram obrigados a ficar (muitos escaparam). Na Inglaterra, Desaguliers também se tornou um clérigo protestante (embora um ministro anglicano).

Um grande número de huguenotes eram artesãos e por causa do preconceito religioso eram bem-vindos na maioria dos países onde eles se refugiaram. Um outro número de huguenotes foram entusiastas cientistas.

Na Academia Real de Ciências da França pode ser lido (Instituto e Museu de História da Ciência):

“A Academia declinou após a revogação do Édito de Nantes (1685), quando muitos cientistas huguenotes deixaram a França”.

Não é de se estranhar, então, que a Royal Society de Londres floresceu atraindo membros huguenotes, como Desaguliers, conforme afirma Neville Barker Cryer, em “Huguenot Freemasons”, de 1995.

Eu sugiro que está aqui, entre os huguenotes e ilustres protestantes, o grão da verdade na teoria das origens da Royal Society e onde a Maçonaria especulativa pode ser encontrada.

Margaret Kilner, no livro “The Huguenot Heritage”, falando da capela Huguenot de Leicester Square, nos diz:

“Junto a capela se encontra a residência de Sir Isaac Newton (1642-1727) mais conhecido como o maior cientista do seu tempo….. Parece que sua proximidade com a capela, lhe permitiu oferecer o andar térreo de sua residência como um lugar de culto para os refugiados franceses. Muitos Huguenotes rezavam ali”.

Em uma publicação intitulada “Huguenot freemasons”, apresentado a “Huguenot Lodge” de Londres, o Rev. Neville Barrer Cryer disse:

“…. Nada menos do que um quarto de todos os nomes registrados dos Stewards da Grande Loja são reconhecidos em sua origem Huguenot mas e aqueles cujos nomes foram prontamente anglicanizados?

Os huguenotes seguem as doutrinas de João Calvino. Os Calvinistas que falavam Inglês, tal como os huguenotes e valões, emigraram para a Inglaterra, os covenanters escoceses, os puritanos ingleses, etc., entusiasticamente aderiram à Bíblia de Genebra, mesmo depois que foi imposto o uso da versão autorizada do rei James.

Valões foram um povo de origem germânica e céltica que habitavam a região da Valônia, na atual Bélgica. Covenanters eram membros de um movimento religioso nascido dentro do presbiterianismo na história da Escócia. Puritanos eram membros de grupos calvinistas rígidos de costumes.

Em outra publicação, Cryer prova que o Volume da Lei Sagrada em uso na primeira Grande Loja foi uma Bíblia de Genebra.

Aliás, a ligação entre os huguenotes e covenanters foi particularmente forte devido à “Auld Alliance” (Antiga Aliança) entre os franceses e escoceses, contra o inimigo comum, o Inglês.

Na sequência da Reforma e, especialmente, no contexto da perseguição dos huguenotes (por exemplo, o massacre do Dia de São Bartolomeu), esse aspecto da vida de Desaguliers pode ter sido influenciado pela insistência sobre a tolerância, especialmente em matéria de religião, como apresentado na Primeira Grande Loja.

Nesta conjuntura, eu acho que temos que manter em mente que os temas comuns entre os protestantes, incluíam traduções da Bíblia e restauração dos mistérios da igreja primitiva (por exemplo, o gnosticismo) acusando Roma de os ter desprezado. As traduções da Bíblia agora estão disponíveis, mas e sobre os mistérios?

Igrejas protestantes e seus cerimoniais ainda são mais inflexíveis do que os dos católicos. Para os mistérios, eu sugiro que você estude o rosacrucianismo como um braço mais ou menos separado da Reforma.

Agora vamos voltar ao protegido de Desaguliers, o Rev. Dr. James Anderson (1648-1746), o criador das Constituições da Maçonaria. Sua fama tem se mostrado muito duradoura entre os maçons e podemos surpreender ao dizer que ele não era um clérigo ortodoxo, mas um membro da Igreja Reformada Escocesa, presbiteriana, que tinha suas raízes calvinistas e nos covenanters.

Além disso, apesar de ser um pastor presbiteriano, ele assumiu a concessão de uma capela em Swallow Street, Piccadilly, pertencente a uma congregação de protestantes franceses, onde o pai de Desaguliers tinha sido pastor e alguns pesquisadores acreditam que suas constituições são o produto do saber, seguindo o exemplo de seu amigo e mentor, Desaguliers, para criar a Maçonaria especulativa moderna.

Também a essa luz, pode ser refletida a irritação dos maçons britânicos, devido a proliferação de graus na França, em comparação ao seu, “básico, puro e inalterável” Ofício, atravessando o canal.

Conclusão

Podemos observar que a maçonaria especulativa, apesar de ter origem na Inglaterra, teve uma influência francesa desde a concepção e talvez os franceses simplesmente conheceram a instituição pela retidão que tinha, e posteriormente introduziram suas ideias desenvolvidas em alegorias e símbolos.

Autor: Luciano R. Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

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Bibliografia

The Ritual of the Operative Freemasons – Thomas Carr

The Geneva Bible and its Contribution to the Development of English Ritual – Neville Barker Cryer

The First Grand Lodge – Robert Gilbert e Jonh Hamill – acesso em março 2017 http://www.mastermason.com/3rdnorthern/MasonicHistoryfiles/firstgl.htm

Huguenot Freemasons – Neville Barker Cryer

The Huguenot Heritage – Margaret Kilner – acesso em março de 2017 – http://ensignmessage.com/articles/the-huguenot-heritage/

The Royal Masonic Cyclopaedia – Kenneth Mackenzie

Encyclopedia of Freemasonry and its Kindred Sciences Comprising the Whole Range of Arts, Sciences and Literature as Connected with the Institution – Albert Gallatin Mackey

The History of Freemasonry – Albert Gallatin Mackey

Desaguliers and the March of Militant Masonry – George Maine – acesso em março de 2017 – https://archive.org/stream/Desaguliers_And_The_March_Of_Militant_Masonry_-_G._E._Maine/Desaguliers_And_The_March_Of_Militant_Masonry_-_G._E._Maine_djvu.txt

The Royal Society Tercentenary – Alexander Piatigorsky

Royal Society, a antecâmara da Maçonaria

Em muitos aspectos, a Royal Society e a Maçonaria britânica podem ser consideradas como irmãs gêmeas, filhas do Iluminismo, embora, naturalmente, suas produções fossem…Se ambas reivindicam origens várias décadas antes, elas tomam seu crescimento no século XVIII e ainda estão vivas em nossos dias.

Francis Bacon em Nova Atlantis, tanto em Oxford e Londres. A sociedade de Londres se reunia no Gresham College, nome sob o qual ficou logo conhecida. Sir Christopher Wren, o arquiteto que reconstruiu Londres depois do grande incêndio de 1666, foi nomeado professor de astronomia no Gresham College em 1657. Sir Robert Moray, um cientista perto escocês próximo de Charles II também participa de reuniões do Gresham College. Embora seja fantasioso considerar o inglês Sir Christopher Wren como o primeiro Grão-Mestre, como foi reivindicado às vezes, quando ele era apenas o arquiteto de Londres, parece igualmente inegável que o escocês Sir Robert Moray foi iniciado em uma loja provisória de Newcastle sob a égide da loja St. Mary’s Chapel em 20 de maio de 1641. Ambos trabalham para formalizar os trabalhos do Gresham College: em 15 de julho de 1662, uma Carta Régia é concedida, dando origem à Royal Society, uma instituição que visa incentivar as descobertas científicas e se estabelece em nossos dias ainda em Londres e Edimburgo (a Royal Society of Edinburgh, no entanto, data de 1783). A partir de 1695, a Royal Society publica suas atas, as Philosophical Transactions, que refletem os trabalhos e experimentos: na tradição empírica de John Locke, todo o conhecimento deve ser testado para ser validado.

Naquela época, a Grande Loja da Inglaterra ainda não emergira. No entanto guildas e companhias de pedreiros de ofício existem, conforme evidenciado pelas Antigas Obrigações, conjuntos de textos que governam a vida desses pedreiros chamados “operativos” porque eles realmente participam em projetos grandes de catedrais ou edifícios públicos. Na Escócia, as primeiras lojas de maçons aparecem a partir do século XVII e acolhem os membros que não são necessariamente parte do ofício de construtores, bem antes da criação da Grande Loja da Escócia em 1736. Nas origens da Royal Society, encontramos assim cientistas ingleses e escoceses, alguns dos quais estavam próximos dos pedreiros de ofício.

Na esteira da Revolução Gloriosa, Newton, a Royal Society e a primeira Grande Loja

Se a Royal Society viu oficialmente a luz sob a Restauração, em 1662, ela quase não era ativa durante o reinado de James II, monarca absoluto, convertido ao catolicismo e que desprezava o Parlamento. É realmente decolou com a época de Locke e Newton, na esteira da Revolução Gloriosa, que corresponde ao surgimento do Iluminismo, na Inglaterra.

A Revolução Gloriosa de 1688, apoiada pelos parlamentares e alguns bispos anglicanos e de quem John Locke elogiava os méritos em seus Tratados sobre o Governo, pôs fim à monarquia por direito divino, substituído por uma monarquia parlamentar. Além disso, ela se apoiava nas divergências; todos estes dissidentes, protestantes, mas não anglicanos até então perseguidos por se opor o peso dos católicos. A Declaração de Direitos de 1689 proclamou a soberania do povo e do Parlamento. Certamente por pessoas, entendia-se especialmente os aristocratas e os meios mais ricos, mas ainda assim era um primeiro passo rumo à democracia. O Iluminismo corresponde a este desafio a todos os dogmas, políticos e religiosos, no contexto da Revolução Gloriosa. Esta tolerância religiosa é acompanhada por um desejo por conhecimento, progresso científico, gerados por uma crença no homem e não só em Deus.

Sir Isaac Newton, que publicou sua grande obra, Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, um ano antes da Revolução Gloriosa, e depois Opticks em 1704, presidiu a Royal Society de 1703 até 1727. Se ele mesmo não fazia parte de nenhuma loja, nem seu amigo, o filósofo Locke, ele trouxe para a prestigiosa sociedade um grande número de franco-maçons, entre os quais Théophile Desaguliers, um dos arquitetos da Grande Loja da Inglaterra. Como acabam de demonstrar Andrew Prescott e Susan Sommers, esta última não viu a luz em 1717, mas certamente em 1721, quando o Duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre, dois anos após ter sido recebido na Royal Society. Desaguliers, o que provavelmente colaborou na redação das Constituições de Anderson, ajudou a popularizar as teorias de Newton em The Newtoniam System of the World: the Best Model of Government, an Allegorical Poem (1728). Ele explicava que de acordo com Newton “O que fazia mover os planetas em tal ou qual ordem […] era Harmonia e Amor”, uma visão que claramente se afasta do conceito tradicional da origem do mundo. Mesmo não sendo uma questão de negar a existência de Deus, um grande lugar foi deixado para as leis da natureza. Antes que Anderson escrevesse suas famosas Constituições (1723), exatamente no mesmo espírito, a Royal Society tinha proibido toda a discussão política e religiosa, conforme destacaria mais tarde Benjamin Franklin, que era um membro: “A Royal Society aceita todos os partidos, mas a política é completamente excluída dos nossos trabalhos.”

Muitos franco-maçons eram membros da Royal Society

De 1721 a 1741, doze dos 22 Grãos Mestres britânicos eram membros da Royal Society. Podemos, certamente, duvidar do alto nível científico de todos estes Grãos Mestres e é provável que a sua participação na prestigiosa Sociedade fosse sobretudo honorária. No entanto, é significativo que eles estivessem orgulhosos de incentivar com sua simples presença as descobertas científicas de seu tempo, de promover esta nova “cultura da ciência”, este “casamento da ciência e o Iluminismo”, para citar Roy Porter. Com a morte de Newton em 1727, seus dois vice-presidentes, Martin Folkes e Hans Sloane, são candidatos à sua sucessão. É Hans Sloane quem ganha. Presidente do Royal College of Medicine, ele é também um botânico que publica artigos sobre o café e a pimenta da Jamaica, que ele mesmo explorou e um colecionador que reúne seus objetos em sua mansão de Chelsea, um pequeno museu que posteriormente fornecerá as primeiras peças do Museu Britânico. Apesar de muitos manuscritos na Biblioteca Britânica relativos à Maçonaria trazerem o seu nome, não há nenhuma evidência de que ele mesmo fora iniciado. Por outro lado, seu sucessor em 1741, seu antigo rival Martin Folkes, foi Grão-Mestre Adjunto de Charles Lennox, duque de Richmond em 1721. Dado que os cargos de Grãos Mestres eram honorários na época, sempre ocupados por aristocratas, a função de Adjunto era essencial. Folkes vai para Paris, onde foi membro da Academia Real de Ciências e apoiou a candidatura de Voltaire para a Royal Society (1743). Especialmente interessado em Numismática, ele parece ter tido competências mais diplomáticas do que científicas. Sob sua presidência, a Royal Society era essencialmente um clube social.

Dois presidentes deram um verdadeiro impulso à Sociedade: Sir John Pringle, físico, eleito em 1772 e, especialmente, Sir Joseph Banks que o sucedeu em 1778 por 42 anos. Banks tinha acompanhado o Capitão Cook em sua expedição de 1768 a 1771. Eles tinham por missão, de um lado observar o trânsito de Vênus, o que fizeram desde o Tahiti para medir a unidade astronômica e, assim, estimar a distância entre o Sol e a Terra, e de outro verificar a existência da Austrália, então designada como Terra Australis incognita. Joseph Banks tornou-se maçom muito jovem, um pouco antes de 1768.

O ecletismo científico dos membros da Royal Society é característica do conhecimento na época do Iluminismo, que ainda não fora dividido, compartimentado em diferentes disciplinas, como observaria mais tarde Foucault. Esta verdadeira sede por conhecimento era tanto uma riqueza quanto uma fraqueza. Uma riqueza, porque esses primeiros cientistas estavam interessados ​​em tudo, sem antolhos, uma fraqueza também, é claro, e que às vezes se prestou à sátira.

Na idade de ouro da sátira na Inglaterra, a mais divertida era a de Jonathan Swift, que agora sabemos era maçom, em As Viagens de Gulliver (1726). Ele descreveu a academia de Lagado, povoada por estes projectors, como eram então chamados, estes homens de “projetos” um pouco loucos que queriam experimentar tudo, tão grande era sua sede de descoberta. Um desses projetores decide então construir uma casa começando pelo telhado, enquanto outro tenta extrair raios de sol de pepinos para aquecer a atmosfera… Samuel Johnson, o autor do primeiro dicionário do idioma Inglês, também ironiza: “Grandes esperanças nasceram com o progresso repentino das artes úteis … os membros da Sociedade se reúnem e se reúnem sem que as misérias da vida tenham diminuído visivelmente.”

E os maçons também não escapariam da sátira. A sociedade paródica apareceu de maneira muito efêmera na década de 1720. O pintor Hogarth, ele mesmo um grande intendente da Grande Loja da Inglaterra, os imortalizou em O Mistério da Maçonaria Trazido à Luz pelos Gormogons (1724). Esta pintura descreve uma procissão liderada por um certo “Chin Quan”, bem como pelo sábio Confucius, que continha, entre outras personagens grotescas, um macaco vestido de avental e luvas maçônicas, provavelmente uma caricatura do Reverendo Anderson, o autor das Constituições maçônicas de 1723. Como vemos, não se tratava de sátiras virulentas, mas sim de divertidos flagrantes.

Novas ideias, princípios comuns

As inovações muitas vezes fazem sorrir, sabemos disso. No entanto, só elas permitem que os homens evoluam. A Royal Society, assim como a Maçonaria Inglesa e Escocesa, traz a marca do Iluminismo. Se elas têm as suas raízes mergulhadas em séculos anteriores, se elas se dizem herdeiras de tradições antigas, elas rejeitam dogmas, o conhecimento fossilizado, os preconceitos. No início do século XVIII, elas são portadoras de ideias que fundaram nossas sociedades modernas, embora sejam muitas vezes postas à prova hoje: a tolerância, as virtudes da observação, o respeito pela natureza e homens em sua diversidade.

Autora: Cécile Révauger
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

A Royal Society e a Grande Loja de Londres de 1717 – Parte IV

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O Papel de Sir Robert Moray (continuação)

Quando o Primeiro Estatuto foi entregue, Moray ficou por trás, colocando em evidência o entusiasta Naval, Lord Bouncker como Primeiro Presidente, na esperança de que a Sociedade agora continuaria sob a sua própria dinâmica. Talvez ele esperasse passar mais tempo trabalhando na História da Maçonaria, que ele começou a escrever e incentivar o livre intercâmbio de informações por meio de suas ‘Transactions’ propostas. Ele foi bem sucedido em estabelecer as Transações, mas sua História da Maçonaria foi perdida quando o Hanoveriano Duque de Sussex ‘reorganizou’ a biblioteca da Royal Society, no início do século XIX e a purgou de qualquer história Stuart.

O primeiro sinal de que a sociedade de Moray estava se desenvolvendo em algo mais do que uma comissão maçônica especializada para apoiar o Rei, veio quando ele apresentou o Primeiro Estatuto à sua Royal Society. Os companheiros não gostaram do título, que, talvez, era muito uma indicação da intenção de Moray. Eles queriam um título que os ligasse à ciência, e não apenas com a Realeza. Seus membros insistiram em um título que fizesse deles mais do que apenas uma ‘Sociedade de Apoio ao Rei’; eles se tornaram uma Sociedade para a busca do conhecimento, que era patrocinada pelo Rei. No entanto, o princípio que Moray tinha estabelecido de misturar amadores ricos para fornecer os fundos e cientistas menos ricos para fazer o trabalho de experimentação provou ser sólido pelos próximos duzentos anos.

A filosofia maçônica de Moray foi herdada pela nova Sociedade e ela levou a cultivar os avanços científicos mais importantes de todos os tempos. Os problemas enfrentados pela marinha de Charles eram os problemas de compreensão do Universo. Através do desenvolvimento de técnicas para auxiliar a navegação, os fundadores da Royal Society criaram técnicas e tecnologias que permitiram aos seus membros estudar as estrelas. A política de realizar demonstrações extravagantes para difundir as ideias da ciência às camadas mais influentes da sociedade. Ao usar o microscópio para investigar criaturas minúsculas para divertir a nobreza, a ciência da biologia foi descoberta. Finalmente, a política de publicar os resultados de estudos e experimentos aumentou a taxa de inovação. Em menos de vinte anos, o estudo das estrelas havia se mudado da tradição da astrologia para a aplicação prática das Leis de Newton para prever o retorno do cometa Halley. É um pensamento caprichoso que a primeira edição do Almanaque do Velho Moore tenha sido publicado apenas sete anos antes que o estudo dos céus de Newton transformasse a ciência da Astrologia de Francis Moore em mera superstição.

A Royal Society recém-formada foi um pacote potente que levou um animado grupo de pensadores e lhes deu financiamento; incentivo e um meio de partilhar conhecimentos. Sem a mudança de atitude em relação ao estudo dos céus que a Royal Society tinha conseguido, Newton poderia nunca ter sido publicado. Menos de uma geração anteriormente, enquanto Bacon estava escrevendo sua Casa de Salomão, Galileu era perseguido pela Igreja por se atrever a sugerir que a Terra podia girar em torno do sol!

Todos os maçons hoje recitam a declaração formal da heresia Galileana que faz parte das perguntas do teste do Grau de Companheiro. Talvez esse seja um memorial permanente para o trabalho do Ir∴ Sir Robert Moray em colocar em prática o seu juramento maçônico de “estudar os segredos ocultos da Natureza e da Ciência para conhecer melhor o seu Criador”.

Apesar da evidência de suas ações, acho difícil acreditar que Sir Robert se propôs a criar a primeira Sociedade Científica do mundo em 28 de Novembro de 1660. Ele provavelmente só esperava que o grupo resolvesse os problemas militares que Charles não podia dar-se o luxo de resolver. No entanto, ele usou os princípios maçônicos de igualdade e o estudo da ciência para criar uma força vital enorme. Seu grupo estava livre dos grilhões do dogma religioso e tinha uma estrutura democrática única para a época. Seja por acidente ou de propósito, ele usou três das ideias mais poderosas da Maçonaria escocesa e as aplicou para o desenvolvimento da tecnologia.

Estas foram as ideias que ele tirou da Maçonaria:

  • Que o estudo das obras da natureza pode levar a uma compreensão do plano subjacente de Deus, ou seja, que há uma ordem subjacente das leis da natureza que pode ser determinada pela observação e experimentação. Essa ideia levou diretamente ao trabalho de Newton.
  • Que todos os homens são iguais. Se eles se reúnem para discutir a aprendizagem, e proíbem a discussão de religião e política, eles serão capazes de cooperar. Essa concentração em ciência experimental com a exclusão de todas as distrações ajudou a Royal Society a se tornar uma grande força na criação de nossa era científica moderna.
  • Que para Diretores e Presidentes terem verdadeiro poder, eles devem ser eleitos por seus pares, e contar com o apoio dos membros que governam. William Schaw, o Primeiro Grande Vigilante da Maçonaria tinha decretado isso 60 anos antes, e Moray inseriu a ideia nos Estatutos da Sociedade, assegurando que os Fellows elegeriam seus próprios líderes para que pudessem ser leais a eles.

Esses princípios provaram ser uma base sólida para a construção de uma instituição científica. O quarto princípio de Moray, de que amadores ricos podiam ser levados para a Sociedade para financiar cientistas menos ricos, incentivou os cientistas, que tinham sido fortes defensores do Parlamento, a se sentar e se reunir com monarquistas ricos, que por sua vez, ajudaram a financiar o trabalho deles e ajudá-los em sua reabilitação na sociedade da Restauração. Mas essa ideia só durou até a presidência do Duque de Sussex. Agora, a Royal Society limita seus membros a cientistas de renome mundial, sem quaisquer amadores ricos.

Esta, então, é a minha explicação do sucesso improvável da Royal Society. Foi fundada por um maçom astuto, motivado politicamente. Seu objetivo era resolver uma crise de curto prazo na tecnologia militar para uma Marinha em ruínas. Sir Robert Moray tomou a estrutura e filosofia da Maçonaria escocesa e as usou para construir um tipo totalmente novo de organização. Logo ela ultrapassou os objetivos limitados de Moray e elaborou para si uma agenda muito mais ampla, tomando o melhor das ideias de Moray e aplicando-as à sua própria escolha de problemas.

Suas novas atitudes em relação ao conhecimento e ao estudo dos mistérios ocultos da natureza e da ciência levaram ao estudo da física de sucesso e às teorias de Newton. A Filosofia Natural tornou-se uma ciência preditiva e a tecnologia floresceu da superstição.

Devemos a nossa sociedade moderna, e seus muitos aparelhos científicos maravilhosos ao sucesso acidental do irmão Sir Robert Moray. Ele viu a sabedoria dos ensinamentos maçônicos, que o havia inspirado; ele usou o sistema escocês Schaw de Lojas e seus métodos de promoção da harmonia Maçônica para reunir os lados opostos após a grande guerra civil; e ele forneceu uma estrutura que permitiu à ciência libertar-se da gaiola supersticiosa da religião.

Não importa quão cuidadosamente você analise uma situação complexa; você não será capaz de prever todos os possíveis resultados de suas ações. Isto é certamente verdadeiro sobre os fundadores da Royal Society. Esse pequeno grupo de maçons provavelmente só esperava resolver alguns dos problemas de tecnologia naval e então recuperar um pouco de sua posição perdida na sociedade. O que eles fizeram foi muito maior. Eles criaram um sistema que trouxe um grande aumento no bem-estar humano, mais do que qualquer outro na história.

O método científico começou com o trabalho da Royal Society que, por sua vez, foi inspirado pelos ensinamentos da Maçonaria escocesa. Acontecimentos políticos posteriores podem muito bem ter tornado conveniente para a Monarquia Hanoveriana esquecer a dívida que nossa sociedade tem com a Maçonaria escocesa jacobita, e a Grande Loja Unida da Inglaterra pode preferir ser tímida sobre suas raízes escocesas, mas tempo suficiente já não decorreu agora para que a ameaça de um renascimento jacobita que inspirou esta atitude seja esquecido?

Certamente agora podemos celebrar livremente a história do nascimento maçônico da ciência moderna e honrar a memória do irmão Sir Robert Moray, o maçom que concebeu a Royal Society, alimentada por nove meses de presidências iniciais e, finalmente, deu origem a ela através de seus Estatutos fundadores.

FINIS

Autor: Dr. Robert Lomas

Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Nota do Blog

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A Royal Society e a Grande Loja de Londres de 1717 – Parte III

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O Papel de Sir Robert Moray

Apenas um desses fundadores originais teve qualquer influência real com o Rei e esse foi Sir Robert Moray. Mas este antigo espião francês e monarquista agitador parece fora do lugar entre os puritanos Parlamentaristas do grupo de Gresham. Como é que ele se envolveu com eles?

Em 05 de dezembro de 1660, a ata da Society mostra que:

“Sir Robert Moray trouxe notícias da Corte de que o rei tinha sido informado sobre a finalidade da Reunião. E ela a aprovava, e daria incentivo a ela.”

Esta foi apenas uma semana depois da primeira reunião. Então, Sir Robert estava ou extremamente ansioso para agradar seus novos amigos puritanos, ou ele já tinha preparado o seu terreno.

Quando garoto, Robert Moray era fascinado por engenharia civil e inspirado pela mina submarina que George Bruce construiu sob o Firth of Forth. Depois de estudar na Universidade de St. Andrew, ele tornou-se um soldado e em seguida um político. Enquanto servia no Exército, tornou-se maçom, e descobriu que as ideias e filosofia da Maçonaria complementavam seu amor pela ciência e atendia à sua necessidade de realização espiritual que havia sido satisfeita pela religião convencional. A Maçonaria incentivou seu amor inato pelo simbolismo e o ajudou a pensar sobre as coisas por si mesmo para desenvolver ideias distintas ao longo de sua vida. Sua autossuficiência, muitas vezes provocava seus inimigos, mas ele tinha aprendido com a Maçonaria a ser cauteloso em suas respostas. Ele certa vez escreveu sobre si mesmo: “Eu tenho sido denunciado como ter escrito contra as Sagradas Escrituras, ser um ateu, um mágico ou Nigromante, e um maligno conhecido por meio Reino.” Isso não parecia incomodá-lo muito. Também não parecia preocupar Charles II. O rei era tão cínico quanto Sir Robert. Charles II tem sido descrito como um rei indiferente à religião que deixou Moray seguir seu próprio caminho, observando provocativamente que ele acreditava que Moray era o chefe de sua própria igreja.

Mas a acomodação com os reis Stuart veio mais tarde na vida de Robert. Como um jovem soldado, ele mostrou um talento para a manipulação e espionagem, e uma fraqueza para o glamour da corte francesa, que trabalhava contra Charles I.

Como um agente para os franceses, ele era ativo nos acontecimentos que levaram ao impeachment de Charles. Moray utilizou sua condição de membro da Loja de Edimburgo, que tinha entre os seus membros muitos dos cortesões escoceses de Charles I e o General Hamilton (que havia iniciado Moray na Maçonaria em Newcastle) para melhorar a sua rede de contatos. Os Stuarts e sua corte tinham estado envolvidos com a Maçonaria desde 1601, quando James VI (I) havia sido iniciado na Maçonaria em Scoon como parte do plano de William Schaw para estabelecer patrocínio real para a Maçonaria.

Moray foi adotado pelo Cardeal Richelieu para espionar contra os ingleses. Ele parece ter realizado esse papel com grande prazer durante o tempo em que Richelieu o apoiou. Moray levou a notícia da morte de Richelieu para Charles I em Oxford. As conexões de Moray com os maçons da corte escocesa de Charles podem ter persuadido o rei que ele poderia ser confiável, pois em 1642, Charles sagrou Sir Robert cavaleiro, para lhe dar o status suficiente para atuar como mensageiro do rei britânico junto ao Rei da França.

Quando Moray retornou à França e entregou a mensagem de Charles, ele foi promovido por seus esforços. Então ele entrou para o serviço ativo na Baviera, onde ele teve o azar de ser capturado e preso. Louis XIII morreu e o Cardeal Mazarin tomou o poder sobre a França. O novo rei, Luís XIV era muito jovem para governar. Mazarin não estava interessado em Moray e deixou a definhar na prisão.  Ele só foi resgatado quando Mazarin viu a chance de usá-lo na negociação entre Charles e seu Parlamento Inglês. As conexões maçônicas de Moray com os principais Covenanters eram a chave para a sua importância. Moray foi enviado a Londres onde o General Hamilton liderava a delegação escocesa. Mazarin somente comprou a libertação de Moray para usar suas conexões maçônicas e trabalhar como agente provocador contra Charles.

Sir Robert quase convenceu Charles I a fugir para a França, onde ele teria se tornado um peão útil para Mazarin. Mas Charles perdeu a coragem, depois que Moray o vestiu de mulher para tentar fazê-lo passar pelos guardas. Moray poderia ter comprometido tanto a linha Stuart, persuadindo Charles I a buscar exílio na França, que Cromwell teria criado uma República inglesa duradoura. No entanto, Charles não chegou à França; ele foi posteriormente levado a julgamento, considerado culpado de traição e executado.

Após a morte de Charles I, Moray deixou o Exército francês e voltou para Edimburgo, e para renovar seus contatos com sua Loja de Edimburgo, sua atas registram seu comparecimento a reuniões. Ele se casou com Sophia Lindsey e pareceu tornar-se menos mercenário. Até aquele momento, o seu talento tinha estado à venda e a França pagou-lhe bem. Mas depois de seu curto e trágico casamento (Sophia morreu no parto menos de um ano após o casamento), ele se tornou muito mais leal. Ele chegou a Charles II no momento em que o jovem estava sob enorme pressão política e religiosa dos presbiterianos e foi atraído por ele. A partir de então, ele parece ter usado todas as suas habilidades militares e políticas indubitáveis ​​para apoiar o novo Stuart, Rei dos Escoceses.

Ele ajudou nas negociações para a coroação de Charles II em Scoon. Após a morte de sua esposa, Moray tornou-se mais chegado a Charles II e organizou um levante em seu favor nas Terras Altas. Quando Lord Glencairn falsamente acusou Moray de conspirar contra o jovem rei, Moray fez um apelo maçônico peculiar a Charles para protestar por sua inocência. Depois de receber esta carta Charles falou em sua defesa. A escolha de palavras de Moray quando apela ao rei chamou a atenção para o seu envolvimento contínuo com a Maçonaria. Ele escreveu: “Vossa Majestade pode, fazer comigo o que um Mestre Construtor faz com seu material.”

Mais tarde Moray trabalhou para Charles contra os Roundheads, nas Terras Altas e ele se manteve fiel mesmo depois de ser preso e falsamente acusado de conspirar para matar o Rei.  Uma vez que seu nome tinha sido limpo, Moray usou sua influência na França para ajudar a causa do Rei. Charles tinha fugido para a França, para se juntar à sua mãe, após a invasão Roundhead da Escócia. Moray mais tarde passou a fazer parte da corte de Charles em Paris e, em seguida, mudou-se com o Rei para Bruges.

Após a morte de Cromwell, parecia provável que Charles II seria restaurado ao trono da Inglaterra. Charles era próximo de sua irmã, que era casada com o duque de Orange e dela ele soube que a guerra naval com os holandeses, que Cromwell havia começado, provavelmente se incendiaria novamente. Moray foi convocado, ou se ofereceu para usar seus contatos maçônicos para conseguir o máximo de informações militares sobre as intenções dos estados holandeses que pudesse. Ele foi para Maastricht, onde recolheu informações políticas e militares sobre as intenções dos holandeses. Ele usou suas conexões maçônicas para se juntar aos maçons locais e com base nessa aceitação tornou-se um cidadão de Maastricht. O objetivo das missões de espionagem de Moray era dimensionar a ameaça holandesa e, em seguida, voltar a Paris para avaliar a provável resposta francesa, antes de finalmente se juntar ao Rei, em Londres.

Uma vez que Charles estava de volta a Whitehall, Moray se juntou a ele. Quando chegou a Londres, ele foi saudado como um velho amigo, “o rei segurando e apertando sua mão’, como um irmão, e lhe foram dados apartamentos privados no Palácio de Whitehall com acesso regular ao Rei. Moray, trouxe de volta notícias preocupantes de que a marinha holandesa superava a frota de Charles e que a retomada da guerra naval era extremamente provável. Charles não tinha dinheiro e pouca experiência para melhorar sua marinha. Ele tinha um grande entusiasmo por assuntos navais, mas nenhum recurso.  O que poderia ser feito, sem quaisquer especialistas navais, ou o dinheiro para contratá-los?

Moray veio com uma solução inspirada. Ele renovou seus contatos maçônicos em e em torno de Londres, provavelmente com a ideia de descobrir quem estava envolvido no estudo “dos mistérios ocultos da natureza e da ciência”, o tema do Segundo Grau maçônico até hoje. Dentro de semanas, Moray tinha feito contato com grupos maçônicos que estavam agora apoiando os irmãos “pobres e aflitos” que tinham sido expulsos de cargos acadêmicos pelo retorno de um governo monarquista.

Ele rapidamente descobriu que o principal centro de Maçonaria, na Londres da Restauração era o Gresham College. Gresham era uma faculdade pública que Sir Thomas Gresham tinha criado para apoiar seus ideais maçônicos de estudo. Aqui Moray encontrou a resposta para o dilema de Charles. Quando o rei voltou para a Inglaterra, ele tinha removido muitos dos cientistas parlamentaristas de seus cargos universitários em uma resposta quase instintiva, e eles estavam lutando para sobreviver. Um grupo importante estava baseado no Gresham College, sobrevivendo com os pequenos salários do Colégio pagos a eles ou a seus amigos. Eles representavam um grupo de peritos em tecnologia naval que poderia ser utilizado. Mas esses “cientistas” estava todos politicamente em desgraça, bem como extremamente empobrecidos. E Charles não tinha dinheiro para pagá-los.

Moray, no entanto, era engenhoso. Ele tinha muitos contatos com os nobres escoceses maçons e conhecia muitos cavalheiros ricos maçons. Esses maçons não eram apenas amadores no estudo da ciência, mas eles tinham dinheiro e influência. Moray viu uma maneira de instrumentalizar esses dois grupos e persuadi-los a trabalhar juntos para o bem de seu rei e do país. Ele viu que poderia usar seus contatos maçônicos para resolver os problemas da marinha de Charles.

Moray reuniu Monarquistas com dinheiro e Parlamentaristas com competências científicas, para criar um grupo de autofinanciamento para resolver os problemas prementes para da triagem para organizar a Marinha. Moray, o soldado, estava com medo de uma nova guerra com os holandeses e ele percebia que suas habilidades de construção naval eram muito mais avançadas do que as inglesas na época. Sua solução tocou a imaginação do reino recém-restaurado. Ele usou o interesse pela ciência, que era compartilhado por todos os maçons, como base para uma nova Sociedade para focar a aplicação da ciência aos problemas da defesa.

Sir Robert incentivou seus amigos e contatos a participar da palestra semanal, realizada por uma das estrelas brilhantes dos cientistas Parlamentaristas, Christopher Wren.  Parece que apenas dois do fundador não tinha vínculos com a Maçonaria. Estes eram Christopher Wren e Robert Boyle. Eles são registrados como estando na primeira reunião, mas também como adicionados à lista de membros elaborada na reunião para ser os primeiros a serem convidados a participar. Esta omissão pode ser explicada se eles haviam deixado a reunião antes que Moray e seus irmãos maçons passassem à discussão detalhada sobre a criação de uma nova sociedade para estudar o objetivo maçônico dos mistérios ocultos da natureza e da ciência. Embora Wren quase certamente se tornasse um maçom em uma data posterior, Robert Boyle nunca ingressou na Ordem pois ele não faria um juramento sob nenhuma circunstância.

Para fazer sua ideia funcionar, Moray tirou da Maçonaria a limitação de não falar sobre religião ou política dentro das reuniões. E ele coletou fundos, apelando para a caridade daqueles que podiam pagar, permitindo assim que homens capazes, mas pobres, fossem capazes de realizar experimentos.

Moray conquistou a confiança dos maçons Parlamentaristas quando garantiu que seu líder deposto, John Wilkins, assumisse a presidência dessa primeira reunião. Wilkins tinha sido muito chegado a Cromwell e sua família. Reabilitando-o com o Rei, Moray mostrou aos outros cientistas Parlamentaristas que eles eram todos iguais no novo órgão científico de inspiração maçônica que ele estava criando. Ele lançou as bases com cuidado e, apesar de agenda lotada do Rei, Moray relatou de volta ao grupo, dentro de uma semana, que eles iriam receber uma Carta Régia.

Pelos dois primeiros anos, ele dirigiu e atormentou o grupo em direção à sua visão de uma nova marinha científica. Ele foi satirizado como mostram estes versos sobre ele:

O Primeiro-Virtuoso empreendeu
Através de todos os Experimentos fazer
daquele homem letrado, Sir Francis Bacon
mostrando que pode o que não pode ser feito.

Moray certificou-se de que a maioria dos cientistas, entre esses primeiros membros, tinha interesse em assuntos que importavam para a Marinha. Ele incentivou projetistas de navios, especialistas em navegação e especialistas em armas a contribuir para os primeiros trabalhos. No começo, ele se certificou de que ele presidia a maioria das reuniões, para estabelecer uma forma estruturada de reunião. Ele seguia uma agenda e mantinha atas; formas de trabalho que tinha aprendido das Lojas maçônicas de Schaw da Escócia . As duas regras básicas estabelecidas eram: todos os homens eram bem vindos para participar, independentemente de política, raça ou religião; e durante as reuniões apenas assuntos científicos deveriam ser discutidos, sendo expressamente proibidos religião e política.

Moray conseguiu criar algo muito maior do que jamais sonhou. À medida que a Sociedade se desenvolvia, ela ganhava vida própria e logo se separou de suas raízes maçônicas. Moray preparou outros para assumir as tarefas do dia a dia da gestão das reuniões, e dedicou-se à elaboração de um regulamento para a criação de seu cérebro. À medida que a sociedade cresceu, ela aceitou muitos outros que não eram maçons.

Continua…

Autor: Dr. Robert Lomas

Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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A Royal Society e a Grande Loja de Londres de 1717 – Parte II

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Mas, quem eram exatamente esses homens que fundaram a Royal Society? Bem, seu fator comum mais importante é que todos eles eram participantes regulares das palestras públicas no Gresham, algo que eles compartilham conosco esta noite. Então, comentarei sobre cada um deles, começando com o homem que assumiu a presidência na primeira reunião da Royal Society, John Wilkins.

Rev. John Wilkins – Parlamentar

Wilkins nasceu em 1610 em Fawsley, Northamptonshire. Ele era filho de um ourives de Oxford e neto de vigário da região, John Dodd. Ele passou a ser ele mesmo um clérigo bem sucedido. No momento em que morreu, em 1672, ele era bispo de Chester.

Durante a Guerra Civil, Wilkins foi um grande defensor do Parlamento. Ele teve sua recompensa. Em 12 de abril de 1648, (após a rendição de Charles I aos escoceses em Newark), foi feito Diretor do Wadham College, Oxford. O cargo estava vago porque o Parlamento demitiu o diretor anterior, por ter simpatias monárquicas. Onze anos mais tarde, Wilkins procurou com sucesso uma decisão especial do Lord Protetor, Oliver Cromwell, para que ele fosse “dispensado da proibição contra o casamento”, que era uma exigência do cargo. Assim que esta foi concedida, ele se casou em 1656 com a irmã de Cromwell, Robina.

Seja qual for o motivo de Wilkins para se casar, o casamento ajudou em sua carreira. Um dos últimos atos de Cromwell antes de morrer foi ordenar ao Parlamento que o nomeasse Mestre do Trinity College, em Cambridge. Isto foi confirmado pelo sobrinho de Robina, Richard Cromwell, que se tornou por pouco tempo o Protetor após a morte de seu pai.

O plano de Wilkins para preferência rápida se desfez, no entanto, quando Charles II retornou ao trono. Ele foi deposto como Mestre do Trinity College e o uma vez favorecido cunhado de Cromwell foi reduzido à pregação por vinténs. Ele estava lutando para viver, apertado no alojamento miserável de outro clérigo deposto e reduzido a atuar como capelão para os advogados mesquinhos de Gray Inn. Wilkins era a personificação de um espetáculo tão triste que estava começando a atrair voyeurs à igreja Temple, apenas para se maravilhar até onde a família do falecido Lord Protetor podia ser humilhada.

Assim, quando Wilkins presidiu aquele fatídico encontro na quarta-feira 28 novembro de 1660, ele estava em circunstâncias terríveis. Ele era objeto de curiosidade para os homens mais letrados de Londres; ele tinha perdido seu Mestrado; ele era um sem-teto; e ele tinha sido expulso de seu novo trabalho em Cambridge. Reduzido a partilhar os alojamentos de Seth Ward, Wilkins deve ter sido duramente pressionado a encontrar a subscrição substancial necessária para aderir à nova Sociedade.

Visconde William Brouncker – Monarquista

Brouncker era um monarquista que tinha mantido a cabeça baixa durante o governo de Cromwell. Ele passou seu tempo traduzindo as teorias de Descartes sobre música para o inglês. Ele também era um matemático competente. Brouncker havia estudado com John Wallis, o professor Savilian de Geometria em Oxford, que era amigo de John Wilkins. Como signatário da Declaração de 1660, Brouncker tinha desempenhado seu papel na Restauração, quando ele foi restabelecido como Deputado por Westbury no Parlamento da Convenção.

Brouncker queria ter certeza de que o Rei recém-restaurado sabia de sua lealdade, então ele deu de presente a Charles uma pequena embarcação de recreio, a que deu o nome de The Greyhound. Ele a havia projetado em novas linhas radicais, e deu ao Rei este presente ‘para marcar sua restauração ao trono da Inglaterra’. Ele estava do lado oposto da cerca política a John Willkins e suas sortes estavam se movendo na direção oposta. Brouncker tinha acabado de recuperar o poder político, enquanto Wilkins estava desacreditado, para baixo e para fora.

O Honorável Robert Boyle – Parlamentar

Robert Boyle tinha trinta e três anos de idade e tinha passado a maior parte da Guerra Civil escrevendo tratados teológicos nas profundezas de Dorset. Durante a primeira parte do Protetorado, ele se mudou para a Irlanda, mas em 1653, John Wilkins escreveu a ele convidando-o para o Wadham College, para continuar seus estudos da natureza e da ciência. Boyle mudou-se para Oxford em 1654. Ele provou ser um físico extremamente competente e deu seu nome à lei que relaciona a pressão e o volume de um gás. Ele permaneceu em Oxford até 1668, quando se mudou para Londres. Se ele era um participante regular das palestras nas tardes das quartas-feiras no Gresham College, ele também deve ter sido um viajante regular. O Gresham College, então em Bishopsgate Street, estava 120 milhas de sua casa, ida e volta, perto da taverna Three Tuns em Oxford. Com mais de um dia a cada viagem, ele teria pouco tempo para qualquer outra coisa, por isso, parece seguro afirmar que Robert Boyle não tornou seu costume usual assistir às palestras nas tardes de quarta-feira. Mas ele, por vezes, veio a Londres para ficar com sua irmã em Chelsea, quando John Evelyn o visitou ali em 7 de setembro 1660. No entanto, a palestra a ser proferida por Christopher Wren deve tê-lo atraído o suficiente para fazer a viagem e alguém pode tê-lo incentivado a vir. Quem poderia ter sido? Como seu ex-tutor, talvez fosse John Wilkins.

Alexander Bruce, Segundo Conde de Kincardine – Monarquista

Bruce era um escocês e o irmão mais novo de Edward, o primeiro Conde de Kincardine. Edward Bruce tinha sido feito Conde por Charles I em 1647. A família de Bruce apoiou os Stuarts durante a Guerra Civil. Após a tentativa frustrada de Charles II de expulsar Cromwell em 1650, Alexandre foi forçado a fugir para o exílio em Breman. Ali ele permaneceu até 1660, quando foi para Haia para se juntar a Charles II para o seu retorno a Londres. Ele viajou de volta a Londres com a comitiva de Charles, e montou casa em Charing Cross.

A saúde de Bruce era ruim após seu retorno do exílio, e ele permaneceu em Londres recuperando-se até 1662. Naquele ano, ele sucedeu ao título de seu irmão e voltou a viver em Culross, Escócia. Uma série de palestras de quarta-feira à tarde sobre ciência soa exatamente como o tipo de coisa para animá-lo durante a sua convalescença, então ele pode ter sido ‘participante regular’, pelo menos após a Restauração. Ou ele foi convidado por seu próximo e longo tempo de amizade pessoal com Sir Robert Moray?

Dr. Jonathan Goddard – Parlamentar

Goddard era um médico que havia obtido seu doutorado de medicina em Cambridge em 1643, com a idade de 26 anos. Ele tinha sido nomeado Professor de Física no Gresham College em 1655, mas tinha sido Diretor do Merton College em Oxford. Goddard teve o melhor dos dois mundos. Talvez lhe tenha sido concedida tal licença porque era o médico pessoal de Oliver Cromwell. Ele manteve sua nomeação de Gresham in absentia e continuou a viver em Oxford, e ganhar o salário de diretor, até que Charles II o demitisse sumariamente. Goddard era amigo de Wilkins, enquanto este estava em Oxford. Mas quando Charles purgou Oxford de Parlamentares, Goddard decidiu que era hora de voltar à sua cátedra em Gresham, e voltou a viver em seus alojamentos da faculdade. Muitas das primeiras reuniões da Sociedade foram realizadas em seus aposentos no Gresham. O colégio foi importante quando a Royal Society estava sendo formada e eu não poderia deixar de me perguntar por que tantos professores do Gresham vieram a apoiar a ‘Royal’ Society, logo após serem expulsos pelo Rei recém-restaurado dos cargos mais bem remunerados da Universidade.

Sir Paul Neile – Monarquista

Neile nasceu em 1613 e tinha sido um cortesão de Charles I. Por seu serviço como um porteiro da Câmara Particular ele havia sido nomeado cavaleiro em 1633. Em 1640, foi eleito deputado por Ripon durante o Parlamento Curto, mas durante o governo de Cromwell, Neile sabiamente viveu tranquilamente perto de Maidenhead, mantendo-se discreto. Ele permaneceu quase invisível até que os livros de atas da Royal Society começaram a relatar algumas de suas atividades. É claro que ele era muito mais um cientista amador, cuja habilidade especial era a moagem de vidros ópticos para uso em telescópios. Foi esse interesse privado na produção de elementos ópticos de alta qualidade, que reuniu pela primeira vez, o então desonrado cortesão e o poderoso Diretor do Wadham College. Na verdade, Neile tinha tanta habilidade em moagem de lentes que John Wilkins preferia passar sua lua de mel com Sir Paul, falando sobre o processo de moagem, em vez de com sua nova noiva. Talvez isso tenha sido uma medida acertada, considerando a idade avançada de Robina Cromwell (ela era uma viúva de 46 anos de idade na época do seu casamento).

Dr. William Petty – Parlamentar

Petty inventou o ofício de estatístico. Ele desenvolveu técnicas de registro e análise dos detalhes de acontecimentos políticos envolvendo grande número de pessoas, e lançou as bases para o moderno Escritório de Estatísticas do Governo. Nascido em 1623, ele atuou como grumete antes de entrar para a Marinha Real. Ele manteve um interesse em navios e navegação pelo resto de sua vida. Quando a Guerra Civil começou, Petty deixou a Inglaterra. Ele foi para Paris estudar medicina e química e, enquanto estava lá ele conheceu Thomas Hobbes e Descartes. Ele voltou a Londres após a derrota do Rei, e foi bem colocado quando o Parlamento removeu muitos dos titulares de altos cargos nas Universidades, e os substituiu por os seus próprios apoiadores. Ele se tornou um Fellow do Brasenose College em Oxford, e obteve um MD. Em 1650, ele ocupou a Cadeira de Anatomia em Brasenose, e também foi nomeado Professor de Música no Gresham College. Seu verdadeiro sucesso, no entanto, veio quando ele tirou dois anos de licença de suas posições acadêmicas para ir para a Irlanda como médico-chefe do exército de Cromwell. Lá, ele ganhou uma boa reputação como médico militar. Uma vez que o exército de Cromwell subjugou a Irlanda, as terras confiscadas tiveram de ser redistribuídas e novos títulos de propriedade criados. Em dezembro de 1654 ele ofereceu-se para concluir um novo levantamento de toda a Irlanda dentro de 13 meses. Ele conseguiu de forma brilhante e seu ‘Levantamento Down’ ainda é a base de registro legal de títulos para uma grande parte das propriedades de terras da Irlanda.

Durante seu tempo na Irlanda, Petty conheceu Robert Boyle, que se tornou seu paciente e amigo. Através de Petty, Boyle encontrou o ‘Grupo Parlamentar de Mesa Alta” (incluindo Wilkins). Esses eram acadêmicos que tinham substituído monarquistas e agora ocupavam todos os cargos importantes em Oxford. Petty se tornou rico independentemente de seu levantamento bem sucedido da Irlanda. No entanto, ele ainda mantinha seus compromissos de Oxford e no Gresham College “in absentia” e ganhava ambos os salários. No final dos anos cinquenta, Petty começou a ter um interesse prático em projetos de embarcações à vela eficientes. Ele começou a trabalhar em projetos para casco duplo (navios do tipo catamarã), que tinham o potencial para ultrapassar grandemente os navios contemporâneos.

Ele tinha sido um partidário tão forte do Parlamento durante o período da comunidade, que no final de 1660 foi destituído da Vice-presidência do Brasenose College em Oxford. Ele foi morar em Gresham, mantendo a cabeça baixa com os outros refugiados. A Cadeira de Música no Gresham College era o único posto acadêmico que ele conseguiu manter. Talvez seja dificilmente surpreendente que ele tenha se encontrado com seus antigos colegas, que também tinham sido expulsos de seus acolhedores postos universitários pelo Rei recém-retornado. Enquanto estava residindo no Gresham College, sua participação na palestra de Wren em 28 de novembro de 1660 não me surpreendeu, mas por que ele queria ajudar a fundar uma Royal Society era um quebra-cabeça. Ele não tinha nenhum motivo para gostar do Rei ou a esperança por patrocínio do monarca.

Sr. William Ball – Monarquista

Ball era um cientista amador e um monarquista. Charles II o escolheu para ser o primeiro tesoureiro da Royal Society. Antes da reunião de 28 de novembro, Ball tinha estado cooperando com John Wallis para estudar os anéis do planeta Saturno. Entre 1656 e 1659, Wallis escreveu uma série de cartas ao astrônomo holandês e matemático, Christiaan Huygens. Nessas cartas, ele relatou os resultados de observações de Ball.  Huygens chegou a citar o trabalho de Ball na sua própria teoria sobre a natureza de Saturno e seus satélites. Huygens visitou a casa de Ball em Londres em 1 de Maio de 1661. Na noite dessa visita, o Sr. Ball realizou um jantar para comemorar o primeiro aniversário da leitura do Parlamento da Declaração de Breda de Charles II. A aceitação dessa declaração pelo Parlamento abriu o caminho para a volta do Rei, de Haia em Maio de 1660. Sir Robert Moray, que havia passado alguns anos na Holanda também foi convidado para o jantar.

Sr. Laurence Rooke – Parlamentar

Laurence Rooke foi o anfitrião da reunião de 28 de Novembro. Na época, ele era Professor de Geometria no Gresham College e tinha 38 anos. Ele havia ganhado seu diploma do Kings College em Cambridge em 1643, e então afastou-se por três anos para se viver no campo. Ele parece nunca ter gozava de boa saúde. Na verdade, ele nem mesmo estava em condição de se formar. Seu título foi concedido “in absentia”, pois ele não estava forte o suficiente para participar da cerimônia. Ele foi viver em Kent depois de completar a sua licenciatura. Esse retiro para o campo pareceu fortalecê-lo, e em 1650 mudou-se para o Wadham College, para estudar com John Wilkins e Seth Ward. Ele também conheceu e trabalhou com Robert Boyle. O fato de que ele era aceitável em Oxford confirma que era um partidário parlamentar, pois todos os monarquistas foram expulsos das universidades. Depois de dois anos trabalhando em Oxford, foi-lhe oferecido o cargo de Professor de Astronomia no Gresham College, cargo que ocupou por cinco anos, até que ele se tornou Professor de Geometria no Gresham em 1657.

A principal área de interesse de Rooke era a medição da longitude. Suas primeiras ideias eram de usar avistamentos da lua ou os movimentos das luas de Júpiter. Ele escreveu artigos sobre métodos para a observação de eclipses lunares com “o objetivo de determinar a longitude geográfica terrestre”. Rooke sabia que o movimento de sombras na superfície da lua podiam ser usados como um relógio preciso. Os picos irregulares das montanhas da lua atuavam como um ponteiro sobre um relógio de sol, e ele achou que as várias crateras e fendas poderiam tornar-se a escala deste relógio celestial. Como a lua era visível em todos os lugares na superfície da Terra, o momento do contato da sombra acontecia ao mesmo tempo para todos os observadores. Rooke reconheceu a lua como um relógio de sol gigante pendurado em plena vista de todo o mundo. Tudo o que era necessário para conhecer a sua longitude era medir a altura de uma estrela de primeira magnitude e compará-la com a sua altitude, na mesma hora para o ponto de origem.

Charles II ficou tão impressionado com a ideia que pediu uma demonstração desse efeito. Suas instruções, enviadas via Sir Robert Moray, pediam que fosse construído um modelo de globo grande, na escala da lua “representando não só os pontos e diferentes graus de brancura sobre a superfície, mas as colinas, eminências e cavidades moldadas na obra sólida.” O modelo foi construído por Christopher Wren e presenteado ao museu privado do rei. Ele foi criado em um suporte giratório para que pudesse ser iluminado e girava para revelar todas as fases da lua “com a variedade de aparências que aconteciam a partir das sombras das montanhas e vales.”

A ideia é genial e funciona bem, se o céu estiver claro o suficiente para permitir uma visão detalhada da lua e o marinheiro for um astrônomo experiente, familiarizado com as características da superfície da lua. Além disso, o marinheiro precisaria de uma tabela de efemérides mostrando as posições das principais estrelas.

Rooke era um homem intensamente prático, capaz de pensamentos originais. Sua praticidade, no entanto, não se estendia a cuidar de sua própria saúde. Ele pegou um resfriado enquanto caminhava para casa sem o casaco, depois de uma visita à casa de seu patrono, o Marquês de Dorchester, e morreu em 26 de junho 1662.

Sir Christopher Wren – Parlamentar

Christopher Wren nasceu em 20 de outubro de 1632 em uma pequena vila a cerca de dezesseis milhas de Salisbury. Sua mãe morreu quando ele tinha apenas dois anos de idade e no ano seguinte, seu pai, também chamado Christopher, foi nomeado Deão de Windsor e Secretário da Ordem da Jarreteira. As primeiras memórias de jovem Christopher teriam sido aquelas de viver dentro do castelo de Windsor e misturando-se aos seus ocupantes reais. A Instalação de Charles II, um menino pouco mais velho do que ele, como o Príncipe de Gales e Cavaleiro da Ordem da Jarreteira deve tê-lo impressionado. Como Dean de Windsor, seu pai participou da cerimônia em 12 de Maio de 1638.

O Príncipe Charles Louis, o exilado Eleitor Palatino também estava hospedado no Decanato de Windsor. O Eleitor tinha como seu capelão pessoal um jovem clérigo que já apareceu nessa história, John Wilkins. Nesta fase da vida de Wren, tanto ele quanto o Rev. Wilkins estavam claramente no campo monarquista.

Algo aconteceu em 1642, que fez Wilkins decidir que ele iria se sair melhor no lado do Parlamento, enquanto o jovem Christopher estava comemorando seu décimo aniversário. Uma tropa de soldados Roundhead liderada pelo capitão Fogg tomou o Decanato de Windsor e o saqueou. A família de Wren fugiu primeiro para Bristol e depois para Bicester, perto de Oxford. (Wilkins fugiu para Londres. Ele não se alinhou com os monarquistas novamente até depois da reunião de 28 de Novembro e a Restauração o forçou a isso.)

O pai de Christopher Wren manteve-se um firme partidário do Rei. Primeiro em Bristol, e em seguida, depois de Bristol ter caído diante de Lord Fairfax, em Oxford. (Charles havia mudado seu Parlamento para Oxford naquela época.) Em uma tentativa de manter seu filho fora das hostilidades, o velho Wren enviou Christopher para a escola em Londres, onde ele se encontrou com John Wilkins, agora um partidário do Parlamento e Diretor do Wadham College de Oxford. Em 1650, aos 18 anos, Christopher foi para o Wadham College estudar. Wilkins tornou-se protetor de Wren, algo que ele certamente precisava naqueles tempos difíceis, pois seu pai havia enfrentado sérias acusações dos puristas Roundhead. Eles disseram que o trabalho de gesso decorativo que ele havia criado na sua Igreja em East Knoyle, era ornamentado demais e papista! O pai de Wren foi severamente censurado e perdeu sua renda, enquanto Wren júnior prosperava em Oxford sob a proteção de Wilkins.

Em 1657, Christopher Wren foi nomeado para a Cadeira de Astronomia de Gresham. Para marcar sua preferência, Sir Paul Neile, um velho amigo da família Wren de seus dias em Windsor, deu a Christopher um novo telescópio. Wren o usou com bons resultados durante os quatro anos em que ficou em Gresham. Wren deixou Gresham em 1661, para assumir o cargo de Professor Saviliano de Astronomia na Universidade de Oxford. Este foi o posto de onde Seth Ward havia sido ejetado por Charles II apenas doze meses antes.

Sr. Abraham Hill – Sem compromisso

Hill parece uma escolha muito estranha para um dos fundadores da Royal Society. Sua principal virtude era que ele era rico. Ele tinha só vinte e cinco anos, mas no início de 1660 seus pais morreram deixando-lhe uma fortuna moderada. Ele não tinha necessidade de trabalhar para se manter e, como ele não tinha se beneficiado de uma formação universitária, decidiu aproveitar as palestras públicas oferecidas pelo Gresham College.

Ele era um ouvinte regular para palestras de Gresham e assim, talvez, foi natural para ele ser convidado para as discussões posteriores. Ele estava certamente interessado nos processos experimentais iniciais da nova Sociedade, servindo em muitos comitês e ajudando os membros mais eruditos em vários experimentos

Sir Robert Moray – Covenanter / Espião Francês / Monarquista

Sir Robert Moray também era escocês. Ele nasceu em 10 de março de 1609 e foi educado na Universidade de St. Andrews antes de servir com os Scots Guards de Louis XIII em 1633. No fim da vida do Cardeal Richelieu, Moray tornou-se seu favorito e, em seguida, atuou como espião para ele. Em 1638 a Assembleia Geral dos Covenanters na Escócia estava se rebelando contra Charles I.  Richelieu deu a Moray uma comissão, promovendo-o a tenente-coronel dos Scots Guards de elite de Louis, e o despachou para a Escócia. Aparentemente ele deveria recrutar mais soldados escoceses, mas ele também admitiu que tivesse o objetivo de auxiliar seus compatriotas em sua disputa com Charles, causando problemas para a Inglaterra.

Moray foi nomeado intendente-geral do exército dos Covenanters em 1640. Ele foi responsável por desenhar acampamentos e fortificações, onde seu conhecimento de matemática e agrimensura teria sido extremamente importante. Ele marchou para o sul com o Exército Escocês em direção a Tyne e desempenhou o seu papel na derrota dos Exército inglês alistado do Conde Stafford, em Newcastle. Em 20 de maio de 1641, Moray foi iniciado na Maçonaria enquanto estava em Newcastle; os oficiais maçons que o iniciaram eram o General Alexander Hamilton, comandante do Exército dos Coventanters em Newcastle e John Mylne, Mestre Construtor do rei Charles I.

Por volta de 1643 ele estava atuando como um agente de ligação entre o Exército dos Covenanters e Charles I em sua corte em Oxford. Em 10 de janeiro de 1643, Charles o sagrou cavaleiro. Logo depois, Sir Robert retornou à França e foi promovido a coronel dos Guardas Escoceses. Ele foi capturado pelo Duque de Bavária enquanto liderava seu regimento na batalha em 24 novembro de 1643 e ficou preso por 18 meses. Ele foi libertado em 28 de abril de 1645, quando os franceses decidiram pagar um resgate de 16.500 libras por ele.

Após a execução de Charles I, e, a pedido do Conde de Lauderdale, Moray abriu negociações que levaram a Charles II ir para a Escócia para ser coroado rei da Escócia, em Scoon em 1650. A campanha de Charles, com um exército escocês, para recuperar a Inglaterra de Cromwell falhou na batalha de Dunbar e, depois de se esconder por um tempo em um carvalho, Charles fugiu para a França. Moray permaneceu na Escócia.

Logo após a fuga de Charles, Moray se casou com Sophia Lindsey, a irmã do Conde de Balcarres. Em julho de 1652 os recém-casados ​​Morays voltaram para Edimburgo para o nascimento de seu primeiro filho, e também para ajudar a organizar um levante para restaurar Charles ao trono da Inglaterra, mas nenhuma das duas coisas aconteceu. Sophia sofreu um trabalho de parto prolongado e agonizante antes de finalmente morrer em 02 de janeiro de 1653, com um natimorto.

Os escoceses foram derrotados por Cromwell na batalha de Loch Garry em julho de 1654. Moray foi acusado de trair o rei, mas foi liberado depois de escrever diretamente a ele e apelar por sua inocência. Moray retornou à França, e nunca se casou novamente.

Em 1655, Moray estava de volta a Paris. Aos 46 anos, ele estava ficando velho demais para os Guardas Escoceses. Ele renunciou à sua patente e, depois de passar um ano em Bruges foi para Maastricht, onde passou seu tempo estudando ciências e mantendo correspondência duradoura com Alexander Bruce. Em setembro de 1659 foi a Paris para se encontrar com Charles, e passou a tomar parte nas negociações com o general Monck para ter Charles restaurado ao trono da Inglaterra.

Quando o rei voltou à Inglaterra, no final de junho 1660, Moray permaneceu em Paris por alguns meses. Quando ele viajou para Londres, em agosto, os contemporâneos relataram que o rei o cumprimentou calorosamente. ‘Sua Majestade recebeu Robert Moray esmagando e chacoalhando sua mão.’ Charles encontrou para ele imediatamente uma casa de graça dentro do recinto do Palácio de Whitehall. Um desenho de Whitehall em 1680, mantido pela Sociedade Topográfica de Londres, mostra que os alojamentos de Sir Robert eram uma pequena casa situada dentro do Horse Guards Gate e com vista para o jardim privado. O local dessa casa era exatamente oposto ao lugar onde fica agora Dover House no atual Whitehall.

Foi desta casa que Sir Robert partiu para o Gresham College em 28 de novembro. Ele estava morando em Londres há três meses, depois de ter passado os últimos 10 anos no exílio. Ele dificilmente poderia ter sido um participante regular das reuniões de Gresham durante essa época. Eu estava muito interessado em tentar descobrir por que ele decidiu comparecer ao Gresham College para a palestra de Wren. Mas eu também queria saber apenas como é que um espião francês chegou a conhecer o cunhado de Oliver Cromwell? Muito menos ser convidado para uma reunião com tantos Parlamentaristas insatisfeitos, que como história nos diz, elegeram por unanimidade o cunhado de Cromwell para presidi-las.

Os fundadores originais da Royal Society dividiram-se em dois grandes grupos. Cerca de metade era de monarquistas que se mantiveram fora da vida pública durante o governo de Cromwell e retornaram a Londres em busca de avanço na corte do Rei Carlos II; enquanto a outra metade era de acadêmicos parlamentaristas que haviam assumido o controle das Universidades sob Cromwell, mas que tinham sido expulsos de praticamente todos os lugares, exceto do Gresham College, quando Charles retornou. Adicione-se a esta mistura um jovem rico e independente que estava seguindo um curso voluntário em autoeducação, novamente em Gresham, e você tem uma imagem bastante clara dos fundadores. Agora vamos olhar para o papel de Robert Moray em reuni-los.

Continua…

Autor: Dr. Robert Lomas

Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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A Royal Society e a Grande Loja de Londres de 1717 – Parte I

Construtores (em francês: Maçons) existiram por toda a Europa desde a baixa Idade Média, desde quando os senhores precisaram construir seus castelos para defender suas comunidades contra  ataques e a Igreja impôs seu domínio construindo imensas catedrais nos locais de culto das populações conquistadas. E sendo homens especializados e raros, eles tinham trânsito livre e proteção para ir de obra em obra por anos a fio.

Já em 1149, as primeiras Zünftes alemãs, ou sindicatos de pedreiros, se desenvolveram em Magdeburg, Würzburg, Speyer e Straßburg. Em 1250, a primeira Grande Loja dos Maçons formou-se na cidade de Colônia (Köln), Alemanha. A Grande Loja foi formada como parte do imenso empreendimento para erguer a catedral de Colônia.

Durante a Idade Média a atividade floresceu até que se esgotaram os recursos para a construção de grandes obras.

Assim, no final do século XVI, na Escócia, William Schaw fundou uma Grande Loja de fato, visando organizar a atividade naquele reino. Com base em conhecimentos transmitidos oralmente, criou algumas regras para o exercício do ofício de construtor. Essa estrutura não tinha o nome de Grande Loja, mas na prática ela congregava diversas lojas escocesas que aceitaram as regras.

Durante o século XVII, essa estrutura evoluiu aceitando entre seus membros os chamados “cavalheiros maçons”, pessoas que não tinham relação com o ofício de construtor, mas que ofereciam proteção e prestígio às lojas existentes.

As lojas proliferaram por toda a Escócia, Irlanda e Inglaterra congregando “cavalheiros maçons” que tinham suas preferências políticas e apoiavam diferentes pretendentes ao trono inglês.

Com a evolução política e a sucessão, considerando as diferenças religiosas entre escoceses e ingleses, uma parte dessas lojas apoiava pretendentes católicos ao trono de uma Inglaterra protestante.

Nesse quadro se insere a conferência do Ir. Roberto Lomas sobre um desses “cavalheiros maçons” que teve influência fundamental na invenção da Maçonaria Especulativa como a conhecemos em nossos dias.

 SIR ROBERT MORAY – SOLDADO, CIENTISTA, ESPIÃO, MAÇOM E FUNDADOR DA ROYAL SOCIETY

Quando a ciência moderna nasceu

No século XVII, a Inglaterra sofreu uma guerra civil devastadora. Ela começou como uma discussão sobre a importância relativa dos Reis Stuart e seu Parlamento Inglês, e terminou com Carlos I tendo sua cabeça cortada. Durante este período turbulento, a magia morreu e a ciência começou.

De alguma forma, no meio das batalhas entre o Rei e o Parlamento, a ciência moderna, experimental surgiu. Um país, que queimara vivas pelo menos 100 mulheres idosas por ano por suspeita de que eles estavam causando doença, lançando “mau-olhado”, desenvolveu espontaneamente uma massa crítica de cientistas com discernimento e lógica.

Quando, como e por quê isso aconteceu?

O “quando” e “como” é fácil. Foi quarta-feira 28 de novembro de 1660, no Gresham College. Esta foi a primeira reunião da Royal Society, realizada após uma palestra pública nesse colégio.

O “por quê” é uma questão mais difícil. Velhas crenças em forças mágicas não morrem instantaneamente, nem mesmo entre os fundadores da Royal Society. Em 1657 quando o fundador Christopher Wren, deu sua aula inaugural como professor de Astronomia, aqui no Gresham, ele falou de como Londres era particularmente favorecida pelas “várias influências celestes dos diferentes planetas, como a sede das artes mecânicas e comércio, como bem como das ciências liberais”. Nenhum professor de Astronomia moderno faria uma afirmação tão astrológica hoje.

Como um jovem cientista, aprendi que uma das maiores honras que um membro da comunidade científica pode aspirar é tornar-se um Fellow da Royal Society (FRS). A Royal Society é a sociedade científica mais antiga e respeitada em todo o mundo, onde os nomes de seus primeiros membros vivem em meio aos índices de livros didáticos de física onde estudei. Nós, físicos, ainda aprendemos a Lei de Hooke, a Lei de Boyle, a construção de Huygen, as Leis de Newton, o teorema de Leibniz e o movimento browniano. E ainda olhamos com interesse para os trabalhos de cientistas menores, como Christopher Wren, John Evelyn, John Wilkins, Elias Ashmole, John Flamsteed e Edmund Halley.

Os homens que fundaram esta sociedade não eram apenas os primeiros cientistas, eles também foram os últimos feiticeiros. Ashmole pertencia a uma sociedade de Rosacruzes e era um astrólogo praticante; Newton estudou e escreveu sobre os conceitos Rosacruzes de alquimia; enquanto Hooke realizava experimentos mágicos envolvendo aranhas e chifres de unicórnio.

O que inspirou um grupo improvável de refugiados de ambos os lados da Guerra Civil a se reunir; formar a sociedade científica mais antiga e respeitada do mundo; e, em seguida, continuar a desenvolver as ferramentas da ciência moderna? Esta é a pergunta que me fez partir em uma busca para compreender como a Royal Society veio a ser formada. Eu queria saber onde esta estranha mistura de clérigos e políticos teve a ideia de proibir a discussão de religião e política nas suas reuniões. Em uma época dominada pela política e religião, parecia uma coisa estranha a fazer. Mas, quando olhei na sequência de eventos, o papel de um homem, Sir Robert Moray, se destacou. Ele não era muito um cientista, mas ele foi o primeiro fixador de taxa e um sobrevivente nato. Ele reuniu homens com dinheiro e homens com conhecimento, e os fez trabalhar juntos. Esta palestra é uma celebração de sua realização.

Com o retrospecto de uma educação científica, parece inevitável que a lógica da ciência deveria ter sucesso em banir mito e superstição. No início de 1660, no entanto, esse resultado não era tão certo. Foi apenas sorte que juntou tantos pais importantes da ciência moderna neste momento difícil e os inspirou a desenvolver uma nova lógica positiva? Ou foi um ato intencional por parte de alguém?

Apenas cinco meses após Charles II ter retornado ao trono da Inglaterra, este pequeno grupo de homens deu o pontapé inicial da ciência moderna.  Porque o método científico desenvolver-se a partir de uma comunidade que acreditava em magia é um evento improvável. Quando você adiciona à mistura que um número quase igual de membros fundadores da Royal Society tinha recentemente lutado em lados opostos da brutal Guerra Civil, tal encontro  fortuito de mentes não apenas parece improvável, mas impossível.

Na história das ideias geralmente há um caminho que pode ser seguido para trás, mostrando onde elas aparecem pela primeira vez, e como elas se desenvolvem. No entanto, se formos acreditar nas narrativas tradicionais da formação da Royal Society, o conceito de ciência experimental foi desenvolvido e completamente formado, independentemente, mas simultaneamente, em ambos os lados durante a Guerra Civil. Então, através de um interesse comum em palestras públicas, aconteceu de todos os membros dos dois grupos se reunirem para o chá no Gresham College em uma tarde enevoada de novembro. Este resto é história.

Os sobreviventes de uma guerra civil não parecem ser as pessoas mais propensas a iniciar um novo clube de ciências. Após a morte de Oliver Cromwell, o país cambaleava à beira de um novo conflito, até que a polêmica decisão foi tomada de convidar o Rei a retornar. Ele tinha, no entanto, que prometer se comportar. No entanto, neste ambiente caótico da Restauração, começou a Royal Society. E não era barato participar. Ela tinha uma taxa extremamente elevada de adesão e uma taxa de atualização semanal pesada a ser paga, tivesse você participado ou não das reuniões.

Durante a Guerra Civil, os filhos haviam lutado contra seus pais; irmãos tentaram matar uns aos outros, grandes propriedades foram expropriadas, um Rei tinha sido decapitado publicamente e príncipes reais haviam fugido para o exílio. Durante doze anos, o país tinha sido conduzido segundo o capricho pessoal por um ditador militar e só a ameaça imediata de uma nova guerra civil havia convencido o Parlamento a restaurar o Rei. No entanto, como um olho de calma no meio de tempestades furiosas, devemos aceitar que esses homens instruídos tenham se sentado tranquilamente a conversar sobre como desenvolver uma nova filosofia radical de ciência experimental. Apenas a visão perfeita em retrospectiva pode fazer isso parecer natural.

Os fundadores da Royal Society questionavam as premissas básicas da religião e da teologia. No entanto, eles conseguiram evitar lutar contra os fanáticos radicais que estavam forçando os seus pontos de vista sobre todos os outros. Tendo evitado com sucesso as atenções dos Covenanters, dos Levellers, dos Fifth Monarchists, dos Papistas e dos seguidores do Livro de Oração Comum, eles pareceram livres para investigar assuntos heréticos, como a praticidade da bruxaria, e ninguém os desafiou.

Eles pareceram evitar os problemas de fé, aceitando a visão da Igreja sobre Deus e a alma, mas questionando tudo o mais. Mas, se eles estivessem desenvolvendo tais questionamentos durante o tempo de Matthew Hopkins, (que como Descobridor Geral de Bruxas em 1647 executou 200 mulheres idosas pela prática de bruxaria) eles devem ter mantido o silêncio sobre eles ou eles também teriam sido perseguidos. No entanto, para que estas ideias aparecessem 23 anos mais tarde, totalmente formadas, sugere-se que elas devem ter existido por um tempo considerável. Por volta de 1660, os membros da Royal Society não estavam dando nenhuma credibilidade à bruxaria e estavam rindo publicamente de “milagres papistas”, como prova de superstição.

Por que ninguém percebeu essas ideias se desenvolvendo? Por que dentro das primeiras semanas da Restauração, a ciência de repente se libertou do dogma sufocante da crença religiosa e da superstição repressivo da magia, em um caminho sem volta?

A mudança pode ser atribuída diretamente a esses homens que se reuniram em Gresham e criaram uma sociedade para estudar os mecanismos da natureza. Foi um movimento inspirador proibir a discussão de religião e política em suas reuniões pois isso fez com que eles não se distraíssem com dogmas. Deste grupo cresceu a ciência experimental moderna.

Parece bastante simples. Um número de cavalheiros se encontrou por acaso quando frequentavam regularmente as palestras públicas de Gresham, em Londres. Eles gostavam tanto de falar sobre a ciência que montaram uma sociedade científica para se divertir. Eles não estavam com falta de dinheiro, assim eles fixaram uma taxa de adesão de dez xelins e uma contribuição de um xelim por semana para pagar por sua diversão (isto equivaleria a cerca de 500 libras (R$ 1.860) para aderir e uma taxa contínua de cinquenta libras (R$ 186) por semana em termos de hoje).

Mas, quem eram exatamente esses homens que fundaram a Royal Society? Bem, seu fator comum mais importante é que todos eles eram participantes regulares das palestras públicas no Gresham, algo que eles compartilham conosco esta noite. Então, comentarei sobre cada um deles, começando com o homem que assumiu a presidência na primeira reunião da Royal Society, John Wilkins.

Continua…

Autor: Dr. Robert Lomas

Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA