Maçonaria na modernidade tardia: mitos e imaginários (Parte II)

A Maçonaria que 95% dos maçons desconhecem!

As críticas à Maçonaria e o imaginário antimaçônico

Escolhemos uma consulta aos sites na internet para procurar perceber como a Maçonaria é vista por seus opositores e aprofundar um pouco a reflexão sobre o imaginário que a envolve.

A Igreja Católica é opositora da Maçonaria desde os tempos da Revolução Francesa, à medida que os maçons combatiam a falta de liberdade de pensamento que a Igreja era uma das principais responsáveis. As críticas da Igreja Católica já foram mais contundentes, mas hoje permanece a proibição aos católicos de pertencerem à Maçonaria, como aparece no site https://padrepauloricardo.org/episodios/um-catolico-pode-ser-macom:

Permanece, portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão. (Acesso em 15/07/2014).

A principal motivação para essa proibição, na continuidade da reflexão apresentada no site, é que a Maçonaria defende o relativismo religioso como regra fundamental para seus adeptos. Esse fato fere o princípio cristão de que somente Jesus Cristo pode levar à salvação, o que contraria qualquer tipo de relativismo. Assim, desde o século XIX quando diversos documentos papais condenaram a Maçonaria, permanece o veredicto católico sobre o erro de se participar dessa instituição[4].

Já outros sites são bastante agressivos contra a Maçonaria, como, por exemplo, o site http://intellectus-site.com/site2/artigos/maconaria-braco-direito-do-diabo.htm, que em tom violentamente contrário, procura mostrar que os símbolos e ideais maçônicos são contrários à Bíblia e ligados a Lúcifer ou Satanás. No texto do site encontramos:

Deus está entregando o Brasil nas mãos de saqueadores e de homens cujo coração não somente se encontra longe dele, mas cujos intentos nunca levam em consideração nem o amor ao próximo e nem a misericórdia. Porém, estamos falando de uma nação inteira, de um país com quase 200 milhões de pessoas, como se tem dado isto na prática?
As Origens da Maçonaria e de seu Pai, Lúcifer
Essa organização luciferiana, chamada de Maçonaria, diferentemente do que muitos supõem, não é um organismo isolado e singular no mundo. Antes, trata-se de um poderoso segmento do Império de Satanás. (Acesso em 15/07/2014).

Como pode ser entendido pelo texto citado, o autor do site associa a Maçonaria ao satanismo e também reputa a essa instituição o que ele entende como fracasso do Brasil em se tornar uma nação desenvolvida. O interessante deste site é que o autor parece conhecer bastante os ritos e símbolos da Maçonaria, pois se utiliza de imagens dos mesmos e textos maçônicos para exemplificar e contestar cada elemento pertencente à Maçonaria. Ao fim de sua argumentação, a conclusão é bastante contundente:

A Bíblia e a Maçonaria são opostas entre si e eternamente inconciliáveis!
A Maçonaria é uma organização iniciática, ocultista e completamente satânica!
A Maçonaria se infiltrou na política brasileira, e continua infiltrada, e nenhuma nação da Terra pode ser beneficiada por uma organização filha do Inferno! Muito pelo contrário!
O deus da Maçonaria não é o Deus da Bíblia! O deus da Maçonaria é o diabo!
Impossível ser Cristão e Maçom ao mesmo tempo! Mais cedo ou mais tarde, a escolha terá de ser feita, e significará o Céu ou o Inferno, respectivamente.
(http://intellectus-site.com/site2/artigos/maconaria-braco-direito-do-diabo.htm Acesso em 15/07/2014)

O interessante da contraposição desses dois sites em relação à Maçonaria é que a finalidade é a mesma – manter os cristãos afastados dessa instituição –, mas a forma assumida reflete dois modos contemporâneos do cristianismo de combater as demais crenças: a argumentação racional e assertiva com base em pressupostos teológicos, que é característica do catolicismo e demais igrejas protestantes históricas; e a demonização pura e simples, mesmo que acompanhada de certo conhecimento do tema, que é característica das igrejas evangélicas de cunho pentecostal e neopentecostal surgidas nos últimos 120 anos.

Esses dois exemplos que coletamos constituem uma pequena, mas significativa, amostra do que uma rápida consulta ao “Google” oferece: encontram-se 2.400.000 (dois milhões e quatrocentos mil) sites que disseminam informações sobre a Maçonaria e também os que tratam tanto das acusações dos inimigos da Maçonaria como das defesas postadas pelos maçons e seus defensores. Ao consultar o conteúdo de muitos deles, encontramos sempre os mesmos argumentos contrários e as mesmas explicações, mostrando que o diálogo é impossível entre essas correntes de pensamento, e que, apesar da Maçonaria estar expondo publicamente a parte não secreta de seus rituais e doutrinas, não há um limite para o estímulo dos opositores ao imaginário que procura transformar a instituição numa força demoníaca e conspiradora contra a sociedade que se pensa cristã.

Considerações sobre os mitos e o imaginário que cercam a Maçonaria

A consulta aos livros que estudam a história da Maçonaria, aos artigos de divulgação em revistas científicas e de divulgação jornalística e aos sites que tratam dos temas ligados à Maçonaria, nos possibilitaram um entendimento sobre o poder que é atribuído à Maçonaria, o medo e as polêmicas que a instituição suscita socialmente, assim como os motivos para que ela seja condenada pelos defensores mais radicais do cristianismo.

O surgimento dessa instituição num momento histórico de grandes transformações no mundo ocidental, com a revolução produzida pelos ideais renascentistas e depois iluministas, o confronto das novas formas de pensamento com as tradicionais formas de poder que vigoravam desde o final da Antiguidade, mais precisamente o poder monárquico e o clerical, colocou a Maçonaria no centro de muitas polêmicas, principalmente por acolher entre seus adeptos muitos defensores dessas novas ideias.

Aliado a essa opção pela defesa da liberdade de pensamento e de investigação que marcou a Maçonaria desde o princípio, sua constituição sob a forma de sociedade iniciática, adepta do estudo das ciências ocultas cuja origem remonta a um passado mítico, produziu um efeito impressionante sobre o imaginário das sociedades ocidentais onde a instituição atuou decisivamente. A capacidade de manipular o poder, de influenciar decisões, de mudar os rumos dos acontecimentos, sempre foram capacidades atribuídas aos magos. Numa sociedade de maioria cristã e intolerante com outras formas de crença e de conhecimento religioso, o poder mágico atribuído aos maçons só poderia ter uma única origem, que não era, obviamente, ligado a Jesus Cristo.

Hoje os conhecimentos ditos ocultos estão disponíveis na internet sob a forma de artigos, documentários, guias práticos, etc., não constituindo mais nenhum mistério essas informações que – segundo o imaginário coletivo – podem ajudar uma pessoa a manipular situações e mentes. O fato da Maçonaria permanecer como alvo das críticas e oposições ferrenhas dos cristãos está mais ligado ao passado e ao imaginário social do que ao presente, pelo fato da instituição ter perdido – no último século – grande parte de seu estímulo para lutar por ideais que agora já são bastante comuns e públicos.

É sobre esse aspecto que trataremos na continuidade do texto.

A presença da Maçonaria na História e o discurso e práticas atuais

Já abordamos rapidamente alguns aspectos da participação da Maçonaria e dos maçons na Revolução Francesa e na Independência dos Estados Unidos. Nessas duas nações inspiradoras da maior parte dos ideais que hoje fundamentam a cultura ocidental, assim como na Grã-Bretanha, nação onde se originou a instituição maçônica, o papel da Maçonaria foi muito importante historicamente. Chatenet (2009), por exemplo, afirma que, entre George Washington e Bill Clinton, apenas dois presidentes americanos não pertenceram à Maçonaria: John Kennedy e George Bush.

Se olharmos para a história do Brasil, apesar da participação maçônica não ter sido tão preponderante como nos EUA, houve claras influências da Maçonaria no movimento republicano e abolicionista, assim como na direção que o Brasil tomou na Primeira República. (AZEVEDO, 1996; BARATA, 1999).

As ideias maçônicas estão presentes no Brasil desde o final do século XVIII (AZEVEDO, 1996, ACIOLY, 2004), havendo especulações sobre a presença dessas ideias na Inconfidência Mineira. Entretanto, há certo acordo entre os historiadores de que a primeira Loja foi fundada em 1801. Nas décadas seguintes, até 1860, aconteceu grande expansão das Lojas pelo Brasil, que se afiliaram às tradições maçônicas francesa, belga, portuguesa e inglesa (AZEVEDO, 1996, p. 182).

Apesar de ser impossível dissociar as atividades maçônicas das principais questões que motivaram transformações no Brasil durante o período imperial e no início da República, poucos estudiosos se aventuraram a um aprofundamento maior sobre a real participação da Maçonaria nos eventos políticos, econômicos, sociais e culturais.

Barata (1999) procurou mostrar a Maçonaria no Brasil – como também na sua origem europeia – como a principal divulgadora dos ideais do iluminismo e da ilustração, tendo seus membros se tornado alguns dos mais importantes defensores da abolição da escravidão, da necessidade de modernização para o país, tanto economicamente como na área da educação. O esforço para retirar da Igreja Católica o predomínio sobre o sistema educacional brasileiro aparece como um dos principais investimentos maçônicos, fato que aconteceu nos principais estados do Brasil, como também mostra o artigo de Colussi (2000) quando aborda a participação da Maçonaria no Rio Grande do Sul.

Vieira (1999) centra seu foco na participação da Maçonaria na Questão Religiosa (ocorrida entre 1872 e 1875), conflito que envolveu a Maçonaria, a Igreja Católica e o Regime Imperial, e que contribuiu significativamente para o aumento do descrédito do governo monárquico de conduzir o Brasil ao desenvolvimento, à medida que tinha dificuldade de lidar com o poder religioso e impor sua autoridade (ROMANO, 1979). Esse conflito acabou por beneficiar o movimento republicano e o movimento favorável à vinda de imigrantes para substituir a mão de obra escrava. Para Vieira (1999) a Questão Religiosa e a atuação da Maçonaria – mesmo que os protestantes também tivessem dificuldade de aceitar a instituição maçônica – contribuíram para que o Protestantismo tivesse maior liberdade de atuação no Brasil, país que tinha na época o catolicismo como religião oficial.

Morel e Souza (2008), numa abordagem fundamentada historicamente, mas com o viés do enfoque e da linguagem jornalística, esforçam-se por apresentar um panorama geral da Maçonaria, desde seu surgimento na Grã-Bretanha, explicando seus mitos e sua condição de organização iniciática, até sua chegada e desenvolvimento no Brasil. Procuram mostrar a participação dos maçons nos principais eventos da política brasileira no século XIX e contradizem a tese de Sérgio Buarque de Holanda de que a Maçonaria perdeu força no Brasil devido ao avanço do pensamento positivista. O aspecto diferenciado da obra de Morel e Souza (2008) é ter avançado até o período contemporâneo, quando há um silêncio entre historiadores sobre a Maçonaria, analisando a transformação da Maçonaria em função das transformações culturais acontecidas no Brasil e no mundo.

Azevedo (1996) procura fazer uma reflexão sobre esse silêncio que cercou os estudos sobre a Maçonaria a partir da década de 1940. A autora afirma que mesmo os historiadores da Escola dos Annales pouco se interessaram pelo tema desde a fundação da revista (AZEVEDO, 1996, p. 186). Outro fato que a autora destaca, é que no Congresso Internacional do Bicentenário da Revolução Francesa, realizado na Sorbonne em 1989, entre as mais de duzentas comunicações apresentadas nenhuma tratou da participação da Maçonaria (AZEVEDO, 1996, p. 188).

Algumas explicações têm sido apresentadas para justificar – segundo a autora – o silêncio a que os historiadores relegaram a Maçonaria. A primeira delas é “o impacto do mito da conspiração maçônico-judaica que perpassou o imaginário europeu desde o início da década de 1930” (AZEVEDO, 1996, p. 188), outro motivo seria a dificuldade de acesso às fontes maçônicas, sigilosas pela própria natureza da instituição, por fim, a opção por não pesquisar uma sociedade secreta que supostamente estuda ciências ocultas, tema pouco interessante para a abordagem mais racionalista contemporânea.

Na abordagem de Azevedo (1996), assim como em Morel e Souza (2008) e em reportagens das revistas História Viva e Superinteressante, aparece um aspecto que se mostra bastante relevante para a abordagem que procuramos dar sobre o tema: apesar dos elementos míticos e imaginários que cercam a Maçonaria ainda nos dias atuais, a instituição se tornou comum, isto é, deixou de ser uma vanguarda do pensamento político e cultural como foi nos tempos em que os ideais iluministas ainda necessitavam de um intenso esforço para se tornarem a base da sociedade ocidental.

Nos dias atuais a liberdade de pensamento é uma realidade no ocidente, a liberdade de iniciativa, a liberdade religiosa, a educação laica, a sociedade e os costumes secularizados já constituem o núcleo fundamental da cultura ocidental, tornando, nessa perspectiva, a Maçonaria uma instituição comum, com participação política e social naturalmente aceitas, mesmo que relativamente estigmatizada pelo fato de manter secretos seus rituais. Essa atual posição da Maçonaria na sociedade aparece, por exemplo, no texto de Gwercman (2005) que, citando trecho da entrevista de H. Paul Jeffers, autor de um livro sobre a Maçonaria, escreve: “Atualmente, a maçonaria mais parece uma tentativa por parte de homens bem intencionados, na maioria brancos e velhos, de entender o sentido da vida.” (GWERCMAN, 2005, p. 59).

Essa afirmação parece ser um exagero, mas as indicações dos sites e das reportagens mostram que, realmente, o que intriga e incomoda os não maçons é o mistério e o imaginário, particularmente as construções negativas que já citamos: satanismo, complôs, etc.

Nas reportagens de revistas que selecionamos para analisar como a Maçonaria aparece atualmente nas publicações, à medida que os livros sobre a Maçonaria que citamos são poucos e provavelmente lidos por um restrito número de pessoas, emergem alguns traços interessantes que devem ser destacados.

Nefontaine (2007), por exemplo, aponta que o segredo ou discrição – como dizem os maçons – é uma condição para manter um dos pontos centrais da organização: a liberdade de pensamento e de busca do conhecimento. Não falando sobre os rituais e sobre as experiências internas que acontecem nos templos, os maçons reservam esse local para a vivência de momentos únicos, voltados para a reflexão e para o debate sobre todos os temas que estão em voga na sociedade, na política, na economia, na ciência e na espiritualidade. Esse autor afirma:

Mas qual a eficácia de ocultar informações? Na França, as lojas maçônicas foram apresentadas como laboratórios de ideias em que novos temas podiam ser explorados com total liberdade, o que contrastava com as tendências naturalmente conservadoras e imobilistas da sociedade. Assim, o segredo permitiu a eclosão e a discussão livre de ideias novas e progressistas, que puderam concorrer para o estabelecimento de legislações sociais e éticas como o descanso remunerado, a liberação do aborto a partir de 1973, a contracepção e o planejamento familiar. (NEFONTAINE, 2007, p. 63)

Outro aspecto que aparece como relevante para a análise sobre a atuação da Maçonaria na atualidade refere-se à suposta proteção social que os maçons recebem da Organização. Gwercman (2005) propõe que a Maçonaria, apesar de não estar mais tão ativa na busca pela influência direta no poder político, permanece atuando nos bastidores para conseguir favores ou alcançar metas que podem ser voltadas tanto para benefícios sociais (hospitais, creches, casas de correção, etc.) como para beneficiar os próprios irmãos. Nesse sentido o autor lança algumas indagações:

Muitos maçons brasileiros adoram listar pessoas importantes que integram a ordem. São empresários, policiais de alta patente, políticos, juízes. Todos unidos pelo compromisso de ajuda mútua – irmão que é irmão nunca deixa o outro na mão. Atualmente, por exemplo, circula entre os maçons paulistas a história de um julgamento recente, parte de um escândalo nacional, que caminhava para a condenação do réu e mudou de rumo após telefonemas entre altos membros do tribunal. Advogados, juízes e o acusado eram iniciados na ordem. Casos assim são frequentemente ouvidos, ainda que na maioria das vezes em tom de boato. E preocupam muita gente. Por mais que os integrantes da maçonaria sejam gente da mais fina estirpe e dotados das melhores intenções, será que têm condições de abandonar os valores e pactos da fraternidade na hora de exercer cargos na sociedade pública? (GWERCMAN, 2005, p. 59)

Esse é um problema que, com certeza, não obterá resposta. Todas as pessoas que ocupam cargos públicos – sejam maçons ou não – podem cometer o mesmo tipo de ato de improbidade, beneficiando parentes, amigos, membros da mesma religião, etc. Não há nenhuma garantia de honestidade quando esses fatores estão em jogo, sendo os casos de honestidade a exceção à regra. Então, esse não é um problema dos maçons, mas – como já afirmamos – do imaginário social que leva grande parte das pessoas a enxergar a Maçonaria sob a ótica que a tem marcado desde o início de suas atividades.

Considerações Finais

A modernidade tardia ou pós modernidade[5] trouxe a necessidade das instituições tradicionais da sociedade ocidental se reinventarem. A não aceitação pura e simples das verdades religiosas ou científicas, por um lado, e a liberdade de investigação e busca por caminhos alternativos de conhecimento e realização pessoal, por outro, redefiniu ou vem redefinindo os papéis e a importância das instituições dentro da ordem social, assim como sua perspectiva de alcançar ou manter o sucesso de suas ideias, crenças, doutrinas e regras.

Ao abordar a Maçonaria como tema de reflexão, nos colocamos diante do fato de que há grande riqueza na história da instituição e também múltiplas interpretações existentes sobre a criação e o desenvolvimento da mesma, assim como sobre seus rituais e sua participação na história de muitas sociedades. Mas entendemos que hoje essa riqueza pode não ser suficiente para a continuidade de suas atividades no nível em que quase sempre se colocou.

No nosso entender, o mito de origem da Maçonaria ainda constitui uma forma de conferir autoridade e reverência aos rituais e conhecimentos que a instituição ensina internamente e defende socialmente. Colocar-se como herdeira da tradição dos grandes construtores da humanidade, conhecedores da arte de erguer monumentos extraordinários – como os egípcios – é se afirmar a partir de conhecimentos imemoriais, que não precisam ser verdadeiros, no sentido que é dado pelo Cristianismo e pela ciência, mas no sentido mítico, como modelos exemplares de conduta e comportamento. Nessa perspectiva, os mitos maçônicos são compreensíveis e conferem sentido à existência de uma instituição como a Maçonaria.

Entendemos também que o imaginário social, construído, como vimos, durante e após a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos, mostra que a instituição lutou por seus ideais como qualquer outra instituição e que o fato de ser uma Ordem iniciática e que mantém seus rituais em segredo, causou maior preocupação nos não adeptos do que o poder real que a instituição possuiu durante sua história. Seus membros fizeram política, procuraram influenciar os destinos das sociedades em que participavam – assim como os cristãos sempre fizeram – mas foram demonizados por não tornarem públicos os seus membros e seus ritos e doutrinas.

A curiosidade, e também o medo, em relação a tudo que é misterioso, emoção comum à maioria dos seres humanos, parece ser o fermento que impulsionou o imaginário antimaçônico, deixando sempre a dúvida sobre se existe mesmo todo o poder que é conferido a essa instituição. De qualquer modo, os maçons continuam mantendo esse imaginário intacto – e talvez se divertindo com ele – porque permanecem fiéis aos segredos da Ordem e continuam atuando sem que a sociedade saiba exatamente onde começa e onde termina sua influência.

Uma questão para ser investigada é se esses mitos e esse imaginário, nas condições do tempo atual, são adequados à manutenção da Maçonaria como uma instituição de peso na sociedade, como aparenta ter sido em outros momentos históricos. Nesse sentido, instituição maçônica não correria o risco – por ter perdido o sentido de sua antiga luta por valores universalistas nos campos político e religioso – de se tornar apenas uma instituição de sociabilidade, que agrega pessoas em torno da manutenção de um status que não representa mais a riqueza da construção histórica e imaginária que a fundamenta?

Autor: André Luiz Caes

Fonte: Revista Sapiência- Sociedade, Saberes e Práticas Educacionais

*Clique AQUI para ler a primeira parte doa artigo.

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Notas

[4] – Podemos citar a Carta Encíclica Humanum Genus, publicada pelo Papa Leão XIII em 20 de abril de 1884, a primeira a não apenas condenar a Maçonaria, mas a apresentar argumentos sobre o posicionamento da Igreja e não apenas acusações. Conferir: http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18840420_humanum-genus.html Acesso em 15/07/2014.

[5] – Não entramos particularmente na discussão desses conceitos, que podem ser melhor compreendidos em diversas obras, das quais citamos: GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991; BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

Referências

ACIOLY, Augusto César. As luzes da Maçonaria sobre Pernambuco. Recife: UFPE,
ANPUH, Anais, Outubro/2004.

AZEVEDO, Célia M. Marinho de. Maçonaria: história e historiografia. São Paulo:
Revista USP (32), Dezembro/Fevereiro, 1996/1997.

BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e Sombras. A ação da Maçonaria brasileira
(1870-1910). Campinas: UNICAMP, 1999.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

BENHAMOU, Philippe. Uma fabulosa indústria de teorias. São Paulo: Ed. Duetto, Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 28 e 29.

BENHAMOU, Philippe. A lenda do complô maçônico. São Paulo: Ed. Duetto, 2009a. Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 30 a 33.

CAES, André Luiz. Da espiritualidade familiar ao espírito cívico: a família nas
estratégias de reestruturação da Igreja (1890-1934). Campinas/Unicamp: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 1995. Dissertação de Mestrado.

CHATENET, Madeleine du. A irmandade faz a América. São Paulo: Ed. Duetto, 2009. Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 37 a 41.

COLUSSI, Eliane Lucia. A Maçonaria gaúcha e a defesa do ensino laico no período da República Velha. Pelotas: Universidade Federal/ASPHE/FAE, História da Educação, nº 7, abril 2000, p. 59 a 73.

CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da religião. São Paulo: Paulinas, 2010.

DARNTON, Robert. Boemia literária e Revolução: o submundo das letras no Antigo Regime. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2007.

ELIADE, Mircea. Ocultismo, bruxaria e correntes culturais: ensaios em religiões comparadas. Belo Horizonte: Interlivros, 1979.

FRANCO JR, Hilário. As Cruzadas. 6ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1989.

GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.

GWERCMAN, Sérgio. A Ordem. São Paulo: Editora Abril, 2005. Revista
Superinteressante
nº 217, set/2005. p. 50 a 59.

LOPES, Reinaldo. Guerreiros de Cristo. São Paulo: Editora Abril, 2006. Revista
Superinteressante nº 223, fev/2006. p. 48 a 57.

MOREL, Marco e SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da Maçonaria: a
história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

NEFONTAINE, Luc. Uma fortaleza inviolável. São Paulo: Ed. Duetto, 2007. Revista História Viva nº 47, Ano IV. p. 60 a 63.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. Belo Horizonte:
Autêntica, 2003.

PINHEIRO, Paulo Sérgio. O Brasil republicano, Sociedade e Instituição (1889-1930) Coleção: História Geral da Civilização Brasileira. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, vol.02.

ROMANO, Roberto. Brasil: Igreja contra Estado. São Paulo: Kairós, 1979.

VIEIRA, David Gueiros. O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no
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Sites:
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http://intellectus-site.com/site2/artigos/maconaria-braco-direito-do-diabo.htm
http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18840420_humanum-genus.html

Maçonaria na modernidade tardia: mitos e imaginários (Parte I)

Cordão Maçonaria traçado A maior Loja de Produtos Maçônicos e Paramaçônicos  do Brasil

A Maçonaria é uma das instituições mais polêmicas existentes na sociedade ocidental. Surgida num contexto de transformações no mundo medieval, como uma associação de artesãos pedreiros e construtores, seu posterior desenvolvimento levou à formação de uma organização iniciática, com rituais secretos e ideias inovadoras, baseadas nos ideais iluministas. Desde o seu surgimento, os maçons procuraram construir um mito sobre sua origem como herdeira de tradições muito antigas e poderosas da antiguidade e da própria Idade Média. Por outro lado, a sociedade ocidental, dominada por muito tempo pelos costumes e pelos ensinamentos cristãos, acabou por construir em torno da Maçonaria um imaginário bastante extraordinário, conferindo a essa Ordem o potencial para mudar a história e para corromper a sociedade através de práticas consideradas satânicas. Neste trabalho, analisamos os mitos maçônicos e o imaginário que envolve a Ordem, procurando refletir sobre a forma como a Maçonaria é vista na sociedade atual.

Introdução

A Maçonaria guarda dentro de si, como instituição, muitos segredos.

Pelo menos é isso que a Ordem deseja que todos pensem, é isso que os maçons transmitem para quem os indaga sobre o que acontece dentro do Templo e é isso que a maior parte das pessoas pensa sobre essa instituição que atrai tanta desconfiança.

O fato é que guardar segredo sobre o que acontece dentro de uma instituição que é pública – porque nunca ficou escondida – parece ser uma situação tão desconcertante para a maior parte das pessoas que faz com que a imaginação faça grandes voos. Pode-se dizer que esses segredos se tornaram a maior força da Maçonaria e também o maior foco das críticas que sempre são feitas à instituição.

Mesmo nesse momento histórico, no qual aparentemente a Maçonaria perdeu parte do interesse pelos seus mistérios, ainda é interessante perceber e refletir sobre seu significado no contexto da diversidade das manifestações religiosas ou espirituais que mobilizam o imaginário social. Para escrever este texto, procuramos olhar justamente para essa questão que envolve a Maçonaria e nosso esforço foi para compreender alguns aspectos dessa construção histórica de uma imagem de instituição poderosa, tanto para o bem como para o mal.

Com esse objetivo, analisamos os mitos e imaginários construídos pela própria Maçonaria sobre si mesma e, também, o imaginário que surgiu por meio dos opositores da Ordem, que procuraram denegrir sua imagem e envolvê-la com objetivos negativos.

Para abordar os mitos sobre a Maçonaria utilizamos as noções sobre o mito dadas por Eliade (2007) e Croatto (2010). Para este último autor, o mito é uma narrativa exemplar, na qual a realidade passa a ter sentido pelo fato de ter sido produzida pelos deuses ou entes sobrenaturais: “como instaurador de uma realidade, o acontecimento mítico lhe dá sentido, pois ela remonta-se, em última instância, à primordialidade transcendente, ideia reforçada pela atuação protagonista dos Deuses” (CROATTO, 2010, p. 218, grifo do autor). Assim, a Maçonaria, ao construir seu mito de origem, buscando no passado muito antigo o surgimento do saber de que é portadora, busca conferir uma qualidade de transcendência às suas ações e sua organização. Os mitos maçônicos fazem remontar o saber maçônico ao saber originário sobre as construções sagradas.

Já sobre o imaginário construído em torno da Maçonaria e sua atuação na sociedade, usamos as noções desenvolvidas por Pesavento (2005, p. 45) que afirma: “entende-se por imaginário um sistema de ideias e imagens de representações coletivas que os homens, em todas as épocas, construíram para si, dando sentido ao mundo”. No nosso entender, a partir das reflexões da autora, o imaginário confere sentido às experiências individuais e sociais, por ser uma construção que tem como um dos objetivos, mesmo partindo do campo da imaginação, integrar o que é difícil de compreender, o que é misterioso e amedrontador. É nessa perspectiva que se pode olhar o imaginário sobre a Maçonaria, instituição que supostamente promove complôs, que se utiliza de conhecimentos ocultos e satânicos para manter seu poder e influenciar o destino da sociedade.

Num segundo momento do texto, procuramos abordar a Maçonaria sob a ótica da história, na qual os mitos e imaginários são desmontados e fica a concepção de que essa instituição sempre se constituiu em ambiente para ideias e ideais inovadores, que seus membros se dedicaram à política com o intuito de defender essas ideias e ideais e que – com o decorrer do tempo e as transformações históricas – a instituição deixou de ter essa importância e passou para outro estágio de atuação, que envolve mais o aspecto social e espiritual do que propriamente o político.

É importante informar que utilizamos para construir nosso relato artigos de revistas de divulgação como Superinteressante e História Viva, além de sites que tratam da Maçonaria, pelo fato de que essas reportagens refletem a curiosidade e as indagações que a sociedade têm sobre a Ordem Maçônica e sobre seus segredos. Essas reportagens informativas e investigativas contribuíram para enriquecer a perspectiva que construímos durante o trabalho.

Entendemos, a partir do estudo, que a Maçonaria é um interessante exemplo de como os mitos e imaginários são fundamentais para a visão que temos do mundo e da sociedade.

Maçonaria: mitos e imaginários

Para tratar do tema “Maçonaria” é necessário analisar os diversos elementos que constituem o que podemos chamar de “mitos” e “imaginários” que foram construídos em torno dessa instituição. Esses mitos e imaginários foram construídos tanto pelos próprios maçons como pelos opositores da Maçonaria, em especial a Igreja Católica e as demais Igrejas cristãs. Esses mitos e imaginários permanecem vivos até os dias atuais, fato que indica a importância de se realizar uma análise mais detalhada sobre o tema.

Começaremos pelos mitos e imaginários construídos pela própria Maçonaria para depois tratarmos das construções efetivadas para tentar denegrir e demonizar essa instituição.

O primeiro aspecto a ser ressaltado sobre a Maçonaria é o seu impressionante investimento na criação de um “mito da origem”. Essa criação ocorreu desde o início das atividades maçônicas, momento que é reconhecido pelos historiadores como ocorrido durante o período medieval. Para Azevedo (1996), citando um historiador especialista na história da Maçonaria: “Segundo Paul Naudon, há entretanto um ponto de concordância entre seus estudiosos quanto à filiação direta da franco-maçonaria moderna (a maçonaria especulativa) à antiga maçonaria de ofício (a maçonaria operativa)”[1] (AZEVEDO, 1996, p. 180).

Assim, entre o surgimento das confrarias de pedreiros (a maçonaria operativa) durante a Idade Média, aproximadamente no século XIV – data dos mais antigos textos que citam essas confrarias (AZEVEDO, 1996, p. 180) e a fundação da primeira Loja maçônica (maçonaria especulativa) em 1717 (BENHAMOU, 2009, p. 28), ou seja, praticamente quatro séculos, aconteceu esse intenso movimento que produziu um passado mítico para a instituição.

Azevedo (1996) propõe que as antigas corporações de ofício, existentes desde a antiguidade e que ressurgiram no auge do período medieval, tiveram como características tanto o aspecto operativo como o especulativo.

Podemos considerar essa afirmação a partir da probabilidade de que havia entre os conhecedores dos ofícios, especialmente o das construções, tanto os indivíduos hábeis com as ferramentas quanto aqueles que se preocupavam com as medidas, as formas e os “segredos” contidos nos cálculos geométricos e matemáticos, isto é, uma ciência que não era acessível a todos os construtores e pedreiros. Portanto, é possível que, dentro desse conjunto de artesãos da construção, tenha havido não apenas a transmissão dos conhecimentos das técnicas, mas também a construção de um “mito de origem” a partir da busca pela origem da ciência das construções.

Sabemos por Eliade (2007) que os “mitos de origem” são fundamentais para o homem religioso e foram fundamentais para todas as culturas. Tanto os mitos da criação do universo, da Terra e da humanidade – as cosmogonias – como os mitos de surgimento das instituições humanas constituem uma das bases para a estruturação das culturas.

O mito é assim mostrado por esse autor:

A definição que a mim, pessoalmente, me parece a menos imperfeita, por ser a mais ampla, é a seguinte: o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “principio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja ela uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. (ELIADE, 2007, p. 11, grifo do autor)

Parece-nos que os antigos maçons, ao construírem o “mito de origem” da Maçonaria, buscaram permanecer dentro dessa estrutura do mito, conforme definida por Eliade. Mais do que isso, eles realizaram aquilo que era um procedimento comum na cultura anterior ao desenvolvimento da ciência moderna, isto é, procuraram pela origem de uma ciência da construção, recuando cada vez mais longe no tempo histórico em busca do evento “fundador” da franco-maçonaria ou freemasons, isto é, da confraria dos pedreiros livres.

Assim, podemos considerar a história da Maçonaria sob duas perspectivas.

Por um lado, do ponto de vista histórico, a franco-maçonaria teve origem numa corporação de ofício com características peculiares no mundo medieval, pois detinha uma liberdade de locomoção e deslocamento que não era comum a outras corporações.

Segundo Azevedo (1996), citando Naudon:

O único poder então existente capaz de conceder tais privilégios, ou seja, as franquias, era a Igreja. E foi sob a sua tutela que se desenvolveram essas confrarias laicas de artesãos privilegiados conhecidos na época como os francs-mestiers. Os textos mais antigos nos quais se faz menção a esses artesãos itinerantes, devotados às mais diversas atividades de construção, foram encontrados na Inglaterra ao tempo em que o francês era a língua oficial, e também a língua dos ofícios. Assim, além do termo francs-mestiers, consta em documento de 1376 o termo ffremason; em 1381, masonfree; em 1396, ffremaceons[2]. (AZEVEDO, 1996, p. 180)

Com essa liberdade de circulação por toda a Europa e com o aval da Igreja, os franco-maçons passaram a organizar sua confraria em termos mais filosóficos e especulativos com a passagem do tempo e o aprofundamento dos ideais renascentistas. A aceitação de membros não profissionais como “filósofos, hermetistas e alquimistas” (AZEVEDO, 1996, p. 180), produziu uma atração entre homens da nobreza e da intelectualidade, desejosos de dar livre vazão às suas reflexões sobre os diversos “mistérios” da natureza e da vida, conhecimentos que, naquele momento, eram controlados pelo poder eclesiástico.

É por esse caminho que a Maçonaria foi se consolidando até surgir oficialmente
na Escócia em 1717, quando se formalizou enquanto instituição, com templo, ritos, doutrinas e organização hierárquica. Portanto, podemos considerar que juntamente com a história da Maçonaria enquanto instituição há também um mito sobre o surgimento do saber sobre a construção, e que a Maçonaria – a confraria dos pedreiros – está ligada a esse saber.

É interessante que Benhamou (2009), em artigo na Revista História Viva nº 71, que se declara maçom e autor de diversos livros sobre a Maçonaria, faça questão de negar e até ridicularizar os mitos construídos em relação à origem da instituição.

Por outro lado, para nosso propósito neste trabalho e independentemente das reflexões de Benhamou (2009), é importante olhar para o elemento mítico que marca a instituição maçônica.

O mito de origem da Maçonaria que nos leva mais longe no tempo refere-se a uma possível filiação dos conhecimentos maçônicos aos construtores das pirâmides no Egito Antigo. Nessa civilização ocorreu a construção de alguns dos maiores monumentos arquitetônicos da humanidade, mostrando a existência, desde tempos muito antigos, de conhecimentos matemáticos, geométricos e arquitetônicos muito profundos, além é claro, do simbolismo intenso que essa civilização construiu sobre suas realizações.

Nesse sentido, Benhamou (2009), contrário a esse mito, propõe:

Seria sedutor imaginar uma maçonaria atravessando os séculos para preservar os segredos dos primeiros construtores de pirâmides. Eis uma ideia bonita, mas nada mais que inventiva. É verdade que papiros datando de 2000 a.C. antes de nossa era (sic) descrevem o que poderíamos chamar corporações, com objetivos definidos: caridade, condições de trabalho, salários, privilégios. As referências maçônicas ao Egito e a seus mistérios, porém, são recentes. Surgiram nos séculos XVIII e XIX, quando a franco-maçonaria se estruturava. Os ritos chamados egípcios, como o Rito de Mênfis-Misraim, se multiplicaram no século XIX. Atualmente, subsiste uma maçonaria egípcia que reivindica uma herança espiritual, mas é preciso refletir sobre o que os maçons do século XIX pensavam sobre o Egito. Para eles, tratava-se do berço dos ritos iniciáticos, o que resultou em uma visão extremamente deformada, que foi bastante explorada pelos escritores românticos […]. (BENHAMOU, 2009, p. 29).

Como podemos observar, houve dentro da Maçonaria, em passado mais remoto ou mais recente, a construção de um mito de origem que indica uma filiação a um conhecimento específico, o dos construtores, como também aos conhecimentos secretos guardados pelos iniciados das escolas de mistérios, que existiram também no antigo Egito.

A nosso ver, a preocupação de Benhamou (2009), conforme apresentada na citação, mostra uma característica da atual fase da Maçonaria, que está se tornando mais pública, abrindo algumas das portas onde se encerravam os mistérios que povoaram o imaginário dos não iniciados durante séculos. Não nos cabe aqui discutir se essa desmistificação da Maçonaria é positiva ou negativa, o fato que constatamos é que esses mitos ainda são muito importantes.

Outro mito de origem da Maçonaria propõe que os conhecimentos maçons surgiram durante a construção do Templo de Jerusalém pelo Rei Salomão. Neste mito, os segredos sobre a construção do Templo teriam sido guardados pelo engenheiro-chefe Hiram Abiff. Essa lenda é contada por Gwercman (2005) em artigo da revista Superinteressante:

A lenda mais famosa conta que a origem da maçonaria está na construção do grande templo de Salomão, em Jerusalém, narrada no Velho Testamento. Durante a obra, Hiram Abiff, o engenheiro-chefe, foi assassinado por 3 de seus pupilos. O motivo do crime é nebuloso, mas envolveria segredos de engenharia guardados por Hiram e uma disputa por promoções de cargo. O fato é que Hiram foi para o túmulo, mas não revelou o que sabia. Além de mártir, virou exemplo de bom comportamento maçônico. (GWERCMAN, 2005, p. 53)

Esse personagem Hiram Abiff, não existe no texto bíblico, entretanto, há na narrativa da construção do templo (I Reis, 7) a presença de um artesão com grande habilidade vindo de Tiro, cujo nome é Hiram, que foi responsável pelo acabamento do templo. Também não há a narrativa do assassinato de Hiram, mas é possível que seja este personagem a origem do mito maçônico sobre o homem que guardou os segredos da construção até a morte, atitude que é exigida dos maçons quando entram para a instituição.

Esse mito de origem da Maçonaria nos traz à reflexão o mais importante aspecto do imaginário que foi também construído em torno dessa instituição; como já dissemos, tanto pelos próprios maçons quanto por seus opositores. Esse aspecto é relativo aos segredos que a Maçonaria guarda para si. Mais à frente vamos falar sobre esse imaginário, por ora vamos ainda tratar dos mitos de origem.

Um terceiro mito que está relacionado ao surgimento e desenvolvimento da Maçonaria é o que liga os pedreiros-livres à Ordem dos Cavaleiros Templários. Essa Ordem surgiu durante as Cruzadas com o intuito de prestar socorro e proteção aos peregrinos que se dirigiam a Jerusalém, após a conquista dessa cidade em 1099 (FRANCO JR, 1989).

A própria Ordem dos Templários é envolta em mistérios. Seu rápido crescimento a partir da criação em 1119, tanto em número como em poder, assim como o rápido enriquecimento, foi motivo para o surgimento de inúmeras lendas. A falta de documentos históricos que facilitem a reconstituição das atividades dos templários nas primeiras décadas de sua existência favoreceu essas criações (LOPES, 2006, p. 51).

Em artigo publicado na revista Superinteressante, Lopes (2006), depois de citar as palavras do historiador Ellis L. Knox em entrevista, fala sobre os tipos de especulação que surgiram a partir da falta de informações:

[…] “os documentos sobre essa fase da história deles são escassos. De 1120 até 1140, tudo é especulativo” diz Ellis “Skip” Knox, da Universidade Estadual de Boise, EUA. Tanto é assim que os mais empolgados falam de uma escavação secreta no terreno do velho templo: Hugo e companhia teriam descoberto algum segredo dos primórdios da cristandade bem debaixo do seu quartel. Só alguns nobres de alto escalão teriam sido informados do “achado” e o acobertaram, em conluio com a ordem. O duro é saber que diabos era o tal segredo, porque cada teórico da conspiração tem seu artefato favorito. Alguns falam das relíquias sagradas do templo judaico; outros, do santo graal; há os que apostam na própria cabeça embalsamada de Jesus Cristo, provando que ele não tinha ressuscitado nem era divino. Os mais modestos sugerem que as ruínas do templo deram à ordem conhecimentos secretos sobre a natureza mística da arquitetura, como forma de criar espaços sagrados e de se comunicar com Deus. Essa sabedoria, depois, teria sido passada à maçonaria, que originalmente era uma confraria de mestres construtores.
(LOPES, 2006, p. 51 e 52)

Essa especulação sobre os segredos dos Templários tornou-se maior ainda com o fim drástico da ordem decretado pelo Papa Clemente V, a partir da perseguição movida pelo rei da França Filipe, o Belo. A morte na fogueira dos principais líderes (no ano 1314) e o mistério que envolveu o desaparecimento dos bens e da riqueza acumulada pela ordem foi fundamental para alimentar a ideia de continuidade da preservação dos segredos templários no interior da Maçonaria.

Para Benhamou (2009) essa suposta continuidade entre os Templários e a Maçonaria se deve ao fato da Ordem dos Templários ter construído muitas igrejas e outros prédios na Europa, dependendo para isso das confrarias de pedreiros. Esse autor afirma:

Assim, durante dois séculos, os Templários e as corporações de ofícios coabitaram. Por isso, é tão tentador imaginar que determinados membros da Ordem do Templo fugiram e encontraram refúgio, em especial na Escócia, junto de organizações fraternais de trabalhadores de pedra. (BENHAMOU, 2009, p. 29)

Para completar sua reflexão, Benhamou (2009) propõe que no processo de consolidação da maçonaria especulativa, a instituição se preocupou em alcançar maior prestígio social para atrair membros que possibilitassem à confraria deixar de ser uma simples organização de trabalhadores e passar a outra forma organizativa. Benhamou afirma:

Andrew Michael de Ramsay, grande orador da Ordem Maçônica da França, encontrou um recurso astucioso: fundou uma nova maçonaria, com base na simbologia das Cruzadas. Ele não se referia explicitamente à Ordem dos Cavaleiros do Templo, ainda condenada por Roma, mas a uma ordem construtora que teria surgido na Escócia. Por meio dessa lenda, construiu o chamado “rito escocês antigo e aceito”, no qual certos graus se referem aos Templários: Cavaleiro do Oriente, Príncipe de Jerusalém, Cavaleiro Rosacruz e Cavaleiro Kadosh. (BENHAMOU, 2009, p. 29).

Por esses argumentos, defendidos por historiadores e maçons e publicados tanto em artigos, como em livros ou em reportagens que misturam investigação histórica e curiosidades sobre mistérios que alimentam o imaginário social, podemos perceber como mito e história estão profundamente enraizados na presença da Maçonaria na sociedade ocidental, possibilitando inúmeras interpretações sobre sua participação nos eventos marcantes da história de diversos países.

O imaginário sobre a maçonaria

Para iniciar a reflexão sobre o imaginário que envolve a Maçonaria vamos abordar um aspecto importante desenvolvido na cultura ocidental durante os últimos séculos: a ideia da existência de uma ciência oculta, alheia às conquistas e conhecimentos da ciência racionalista.

Eliade (1979) em artigo intitulado “O oculto e o mundo moderno” faz uma reflexão sobre a grande valorização das chamadas “ciências ocultas” ou do “ocultismo” e do “esoterismo” durante os últimos séculos, com particular ênfase no século XIX em diante.

Para definir o que é esse “oculto”, esse autor utiliza o texto de Edward A. Tiryakian:

[…] por oculto, eu entendo práticas, técnicas e procedimentos intencionais que: a) fazem uso de poderes secretos ou desconhecidos da natureza ou do cosmos, poderes esses incomensuráveis ou irreconhecíveis pelos instrumentos das ciências modernas; e b) que buscam resultados empíricos, tais como o conhecimento da sucessão dos acontecimentos ou a alteração de seu curso norma… Para se ir mais longe, na medida em que a pessoa que pratica a atividade oculta é alguém que adquiriu conhecimento e habilidades necessárias a tais práticas e, na medida em que tais práticas e habilidades são aprendidas e transmitidas de maneira social (embora não abertas ao grande público), de modo organizado, ritualizado, podemos chamar essas práticas de ciências ou artes ocultas. (TIRYAKIAN apud ELIADE, 1979, p. 57)

A partir dessa definição, Eliade (1979) afirma que essas “crenças, teorias e técnicas chamadas ocultas e esotéricas” (p. 57) já existiam desde a mais alta antiguidade, nas civilizações do Antigo Egito e da Mesopotâmia, assim como nas civilizações grega e romana, e que elas permaneceram vivas durante todo o período medieval – apesar do controle que a Igreja Católica procurou exercer sobre a sociedade. Esses conhecimentos chegaram ao mundo moderno pelas atividades de muitos alquimistas, místicos e instituições com caráter iniciático.

Eliade (1979, p. 63) elenca muitas das influências exercidas pelas ciências ocultas durante o período renascentista e também a importância desse conhecimento para o próprio desenvolvimento da ciência moderna. Copérnico, Giordano Bruno e outros cientistas do período estiveram completamente ligados a essas ciências que tinham sua origem nas culturas antigas. A magia, a cabala, a bruxaria, a alquimia, a astrologia, as práticas xamânicas antigas, são muitas das expressões desse conhecimento que tiveram um valor fundamental para muitos sábios do Renascimento e continuaram sendo difundidas em círculos restritos até serem “redescobertas” pelos intelectuais livres-pensadores do século XIX e XX (ELIADE, 1979, p. 63).

Do ponto de vista deste trabalho, quando se fala em Maçonaria há uma referência natural à mais polêmica das sociedades secretas e iniciáticas do mundo ocidental, justamente porque esta parece guardar – e estimula todos a pensar dessa forma – os mais profundos segredos das ciências ocultas, normalmente definidas pelos inimigos como rituais e conhecimentos satânicos.

Benhamou (2009a) mostra que, desde a Revolução Francesa, foi difundida a crença de que a Maçonaria estaria à frente de um projeto cuja finalidade era modificar radicalmente as estruturas de poder que então existiam na sociedade ocidental. O autor afirma:

Não há dúvida de que a Revolução Francesa foi deflagrada em nome dos valores defendidos pelos maçons no fim do século XVIII. A luta contra o despotismo real e a defesa da liberdade eram temas recorrentes nas lojas francesas da época. Há, no entanto, quem acredite que o levante de 1789 teria sido a primeira etapa de um complô mundial orquestrado pelos maçons para destruir todas as religiões. Inúmeros historiadores já demonstraram quão absurda é essa teoria, mas até hoje ela sobrevive entre os amantes de teorias da conspiração. (BENHAMOU, 2009a, p. 30)

O autor propõe que havia realmente muitos maçons envolvidos no movimento revolucionário, mas que no andamento do processo os adeptos da Maçonaria, em sua maioria “burgueses, aristocratas, militares e, surpreendentemente, eclesiásticos” (BENHAMOU, 2009a, p. 31), foram considerados inimigos da revolução, tendo um de seus grãos mestres “o duque de Orléans, Philippe Egalité” (p. 31) sido guilhotinado em 1793.

O fato, para Benhamou (2009a), é que a publicação de pequenos livretos defendendo a ideia de um complô maçônico acabou por alimentar essa teoria conspiratória que permanece viva no imaginário ocidental até hoje. O autor cita três obras publicadas ainda no período revolucionário cujo impacto pode ter sido bastante grande.

Se pensarmos nessas publicações a partir da ótica apresentada por Darnton (1987) sobre o papel da “baixa” literatura durante o período pré-revolucionário e mesmo durante a Revolução, podemos ter uma noção de como os livretos foram recebidos pela sociedade da época. Segundo as fontes analisadas por Darnton (1987), o grande comércio de livros na França naquele período era constituído por escritos panfletários e populares, contendo informações não comprovadas sobre a vida de nobres e eclesiásticos, sobre a política real e a administração pública, escritos que disseminavam ideias completamente avessas aos textos filosóficos do Iluminismo. Vejamos como Darnton apresenta essa “baixa” literatura:

Tantas foram, e tão boas, as descrições do ápice da história intelectual do século XVIII, que talvez conviesse rumar noutra direção, tentando atingir a base do Iluminismo e mesmo penetrar seu submundo, lá onde ele possa ser examinado como ultimamente se tem feito com a Revolução – isto é, de baixo.
O ato de escavar, na história das ideias, exige novos métodos e novos materiais. Remexam-se arquivos, em vez de contemplar tratados filosóficos. Um exemplo da espécie de detritos que tal escavação pode trazer à luz é a seguinte carta, dirigida por um livreiro de Poitiers a seu fornecedor na Suíça:
Eis uma pequena lista de livros filosóficos que desejo. Favor mandar a fatura antecipadamente:
Vênus no claustro ou A freira em camisola
O cristianismo desvendado
Memórias da Marquesa de Pompadour
Investigação sobre a origem do despotismo oriental
O sistema da natureza
Thérese, a filósofa
Margot, a companheira dos exércitos

Eis, no jargão do comércio livreiro do século XVIII, uma noção do filosófico partilhada por homens cujo negócio era saber o que os franceses queriam ler. (DARNTON, 1987, p. 13 e 14, grifos do autor)

O autor sugere, em sua análise da literatura do período revolucionário na França, que foi muito grande a circulação e importante o papel desses panfletos, à medida que eles constituíam a maior parte dos textos que circulavam popularmente entre os franceses.

Nessa perspectiva, e voltando aos livretos citados por Benhamou (2009a) que falam do complô maçônico, podemos obter certo entendimento do por que essa lenda adquiriu tanta força. Os títulos desses livretos já mostram seus objetivos: “Retirando o véu para os curiosos ou o Segredo da Revolução revelado com a ajuda da franco-maçonaria” (Abade Lefranc, 1791), “Memórias a serviço da história do jacobinismo” (Abade Barruel, 1793) e “A tumba de Jacques Molay ou História secreta resumida dos iniciados antigos e modernos, Templários, franco-maçons, Illuminati” (Charles Louis Cadet de Gassicourt, 1796).

Os três livros tratam do complô maçônico sem apresentar provas concretas, apenas especulações. Dentre eles, Benhamou (2009a) cita:

Assim, foi de Londres que Barruel escreveu suas Memórias a serviço da história do jacobinismo. Um trecho desse livro resume bem a visão do abade: “Nessa Revolução Francesa tudo foi previsto, meditado, combinado, decidido, estabelecido – até os mais espantosos crimes: tudo foi resultado da mais profunda maldade, pois tudo foi preparado, dirigido por homens que tinham como único objetivo as conspirações há muito urdidas em sociedades secretas, e que espreitaram e souberam esperar pelo momento propício para o complô”. (BENHAMOU, 2009a, p. 30)

É importante dizer que essa tese mostrada por Benhamou foi amplamente defendida pelos católicos nos anos após o início da Revolução[3].

Mesmo que a perspectiva apresentada por Benhamou (2009a) procure desmontar a tese da conspiração, o fato é que a participação ativa da Maçonaria no processo de independência dos Estados Unidos, ocorrida em 1776, também ajudou a incentivar o imaginário sobre a influência subterrânea ou explícita dos maçons em movimentos políticos importantes. George Washington, o primeiro presidente norte-americano, aparece frequentemente em trajes maçônicos durante momentos significativos de seu governo, como a cerimônia de assentamento da pedra fundamental do “Capitólio”, em (CHATENET, 2009, p. 37).

Consultando outros textos que tratam da história da Maçonaria (BARATA, 1999 e 2000, MOREL, 2001, AZEVEDO, 1996, VIEIRA, 1999 e PINHEIRO, 1997) podemos constatar que os maçons sempre tiveram um importante papel também na política brasileira, sendo, entretanto, impossível afirmar que a Maçonaria como instituição estivesse à frente e comandando os diversos momentos históricos decisivos em que os maçons participaram.

É nesses limites sutis entre a ativa participação dos maçons e a supervalorização do poder da Maçonaria que o imaginário social é alimentado e desenvolvido.

O fato da Maçonaria, como sociedade iniciática, procurar manter – e conseguir, o que é mais impressionante – o segredo sobre suas atividades internas, faz com que o imaginário sobre ela enfoque tanto o cultivo das ciências ocultas como a prática do satanismo. Por isso, é importante ressaltar alguns pontos sobre a Maçonaria encontrados no texto de Nefontaine (2007):

Diferentemente do que pensa o senso comum, essa organização sempre teve sua existência formalmente conhecida e reconhecida e, logo que surgiu, declarou fidelidade ao poder estabelecido. Ao mesmo tempo, suas lojas imediatamente reivindicaram o direito de se constituir de forma livre e autônoma, o que gerou perseguições e transtornos com a polícia. Embora os locais de reuniões fossem perfeitamente conhecidos pelas forças da ordem, a alegação principal para tal repressão era justamente que os maçons se reuniam em segredo. Na realidade, o juramento de nada revelar do que é dito nesses encontros é o que inquieta e assusta. Diante das acusações e das perseguições, os maçons repetem que não são uma sociedade secreta, mas sim discreta; que seu segredo é inviolável apenas porque não pode ser comunicado; que a não revelação da filiação de outro é sinônimo de preservação da esfera privada para se protegerem de qualquer retaliação externa, em particular no meio profissional; que a prática do sigilo é preciosa em momentos de ressurgimento de totalitarismos, sempre prontos a persegui-los; por fim, que a ocultação é a garantia de liberdade total de expressão dentro dos limites do templo. (NEFONTAINE, 2007, p. 60)

É interessante essa perspectiva porque mostra o poder do imaginário: o fato de uma sociedade manter em segredo seus rituais e suas doutrinas internas, além de outros como a não divulgação do nome dos irmãos, faz com que os não participantes se incomodem, especialmente se o imaginário é movido pelo medo da conspiração ou medo religioso.

Como dissemos acima, o estudo das ciências ocultas atraiu muitas pessoas nos últimos séculos, mas atraiu também muito ódio e perseguições, como se o estudo do que é oculto pudesse, por si mesmo, se constituir numa ameaça à vida das sociedades. Esse medo só foi difundido com tanta eficácia porque esteve sempre envolto com as crenças religiosas cristãs e a partir da ideia de que o que está oculto é das trevas.

Continua…

Autor: André Luiz Caes

Fonte: Revista Sapiência- Sociedade, Saberes e Práticas Educacionais

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Notas

[1] – Conforme citado por Azevedo (1996): Paul Naudon, La Franc-Maçonnerie, Paris, Presses Universitaires de France, 1963, p. 9 -13.

[2] – Paul Naudon, La Franc-Maçonnerie, Paris, Presses Universitaires de France, 1963, p. 20 – 2.

[3] – Para um aprofundamento desse tema, conferir: CAES, André Luiz. Da espiritualidade familiar ao espírito cívico: a família nas estratégias de reestruturação da Igreja (1890-1934). Campinas/Unicamp: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 1995. Dissertação de Mestrado. No primeiro capítulo desse trabalho, como introdução ao tema principal da Dissertação, o autor faz uma reflexão sobre a reação da Igreja Católica em relação à Revolução Francesa, abordando também a tese da conspiração.

A relação entre a Revolução Farroupilha e a maçonaria

A MAÇONARIA E A REVOLUÇÃO FARROUPILHA - PDF Download grátis

A Revolução Farroupilha é considerada um dos episódios mais importantes e simbólicos da história política e cultural do Rio Grande do Sul. Entre os aspectos que frequentemente justificam a sua grandeza está a vinculação com a construção da identidade regional. Os diversos episódios em torno da revolução sustentam as teses, com algumas variações, das diferenças de “ser gaúcho”. Porém, a temática “farroupilha” somente passou a ser foco de estudos mais aprofundados e sistemáticos nas primeiras décadas do século XX. As comemorações do “Centenário da Revolução”, em 1935, inauguraram a entrada da Guerra dos Farrapos no discurso historiográfico e na própria história do Rio Grande do Sul(1).

Os aspectos mais relevantes na descrição e na interpretação da revolução residem na centralidade do descontentamento de setores da elite socioeconômica sul-rio-grandense com a política centralista imperial. Nesse sentido, pretendo propor algumas reflexões que possam contribuir para o debate sobre o papel da revolução na história do Brasil meridional. A abordagem principal focaliza os farrapos e a provável influência da maçonaria no decorrer da guerra. Antecipo meu posicionamento a propósito da questão: tal influência não foi fundamental e nem decisiva. Contudo, frente à complexidade da realidade social do Rio Grande do Sul no contexto, a maçonaria esteve presente e, em alguma medida, contribuiu para os resultados daquele movimento político histórico. 

Considero relevante que não se perca de vista, ao analisar o quadro histórico do Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do século XIX, as suas peculiaridades em comparação ao resto do Brasil. Na conjuntura em que eclodiram os movimentos de contestação ao colonialismo, a Província de São Pedro cumpriu, na minha opinião, um papel coadjuvante. Tal situação não poderia ser diferente, pois a tardia incorporação ao território brasileiro e sua localização de fronteira projetou, em muitos aspectos, uma condição periférica. Os protagonistas do movimento emancipacionista, com forte influência das ideias iluministas e liberais das correntes francesas, residiam ou atuavam próximos aos centros econômicos e políticos de maior envergadura. O processo que culminou com a independência do Brasil teve, evidentemente, a adesão, mesmo que tardia, também da elite política e intelectual sul-rio-grandense. O movimento maçônico, que crescera juntamente com a difusão dessas ideias, chegou ao Rio Grande do Sul três décadas depois que nas regiões centrais do Brasil.(2)

A maçonaria, a Revolução Farroupilha  e as narrativas historiográficas

A historiografia sul-rio-grandense dedicou pouco espaço ao estudo sobre a presença da ordem maçônica na história do Rio Grande do Sul. Sobre as narrativas historiográficas vinculadas ao tema, recorri a um trabalho já realizado anteriormente e específico sobre a maçonaria no Rio Grande do Sul. No referido trabalho, utiliza-se uma classificação das narrativas historiográficas a partir da análise de dois grupos de autores: a historiografia não acadêmica e a historiografia acadêmica. (3) 

Neste texto, darei ênfase apenas às questões envolvendo a maçonaria e a Revolução Farroupilha. A maçonaria frequentemente é mencionada por historiadores não acadêmicos, que quase sempre abordam a temática valorizando, de forma exagerada, a participação maçônica nos acontecimentos relativos à Revolução Farroupilha. É comum que se explique o espírito associativo, as academias e sociedades literárias como tendo sido o berço da maçonaria no Rio Grande do Sul. (4)

Na década de 1830, a elite intelectual gaúcha aderiu mais intensamente e quantitativamente ao pensamento iluminista e liberal, especialmente de origem francesa. Mesmo que alguns autores acreditem haver indícios da existência de atividades maçônicas na província antes da década de 1830, não há, até o momento, comprovação documental dessas atividades. Com base nessa constatação, é possível relacionar Revolução Farroupilha e movimento maçônico pois eles são, no mínimo, concomitantes e conectados no campo das ideias.

Em termos da abordagem encontrada entre historiadores não acadêmicos, destaca-se o trabalho de João Pinto da Silva. Ao tratar do ambiente intelectual do Rio Grande do Sul às vésperas da Revolução Farroupilha, o autor explica a difusão das sociedades e clubes literários e secretos como fundamentais na vida política e cultural da província. As dificuldades econômicas enfrentadas pelo Rio Grande do Sul em razão de sua condição periférica, e de economia voltada para o mercado interno, teriam estimulado a resistência às políticas do poder central. Tal situação coincidia com um ambiente cultural propício à difusão de associações de “lojas misteriosas”. Entre as sociedades secretas, a de maior destaque, na perspectiva da organização maçônica, foi o gabinete de leitura “O Continentino”, instalado na cidade de Porto Alegre. (5)

Na visão da maioria dos autores desse grupo historiográfico, o clima de radicalização política que opunha “caramurus” e “liberais nativistas” havia sido, em muito, intensificado pela ação dos maçons gaúchos. A maior parte dos liberais gaúchos assumira a opção farroupilha em razão dos privilégios centralizadores do Império brasileiro, que desenvolvia uma política econômica vinculada à provável influência da instituição no campo cultural, isto é, na difusão do ideário que mais tarde seria assumido discursivamente pelos líderes farroupilhas. (6)

Um episódio extremamente valorizado por historiadores desse grupo, e que confirmaria a relação entre maçonaria e farrapos é o da fuga de Bento Gonçalves do presídio na Bahia. Walter Spalding dedicou um capítulo de seu trabalho à descrição desse episódio e aos detalhes da articulação maçônica que teria permitido a libertação do líder Bento Gonçalves. (7) Bento Gonçalves foi aprisionado em 1836 e enviado, inicialmente, para o presídio Fortaleza da Lage, no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, foi transferido para o Forte de São Marcelo, na Bahia. 

Interessante em relação ao episódio da fuga do líder farroupilha é a menção que se fez da existência de uma trama maçônica com a finalidade de libertar Bento Gonçalves. Segundo alguns autores, a intervenção maçônica se efetivou a partir do momento em que Bento foi identificado como “irmão”. Com efeito, não se pode deixar de considerar o fato de que, efetivamente e de forma surpreendente, Bento Gonçalves retornou ao Rio Grande do Sul em setembro de 1837. Se tal complô se deveu à ação de maçons ou de liberais simpáticos aos farrapos é, ainda, uma questão em aberto.

Entre os historiadores não acadêmicos encontram-se, também, as obras publicadas por historiadores maçons. Essas narrativas são as que mais divulgaram a ideia de que a maçonaria foi fundamental para a eclosão e para o desenrolar da Guerra dos Farrapos. Deve-se considerar que, quantitativamente, o grupo não produziu um grande número de obras.

Entretanto, deve-se levar em conta que muitos intelectuais maçons integraram instituições culturais importantes, como, por exemplo, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e, dessa forma, direta ou indiretamente, produziram e influenciaram a divulgação de interpretações que valorizaram a temática maçônica. Selecionei dois autores que considero fundamentais para a tentativa de construção de uma história da maçonaria gaúcha. Nos dois casos, a inclusão do tema “Revolução Farroupilha” aparece com destaque.

Morivalde Calvet Fagundes é autor de inúmeros trabalhos sobre a maçonaria gaúcha. Um de seus méritos refere-se ao cuidado de comprovar suas afirmações com evidências documentais. Frequentemente, o autor transcreve parte de documentos por ele localizados, o que sustentaria em muito suas explicações. Um exemplo é quando transcreve documentos do período farroupilha que confirmam a ocorrência de rituais de iniciação maçônica de Thomas Ferreira Valle, em 1839, na cidade de São Gabriel, e de David Canabarro, em 1841, na cidade de Alegrete. Evidentemente que, para o autor, o fato de vários líderes farrapos terem sido maçons confirmaria a influência da instituição naquele contexto. (8) 

O segundo historiador maçom escolhido para este trabalho foi Carlos Dienstbach, autor que publicou uma importante obra sobre a maçonaria gaúcha (9). Entre um grande universo de informações, dados e documentos apresentados pelo autor, destaca-se, também, a questão da influência da maçonaria no processo revolucionário. Entre os documentos que reforçam suas convicções, ele aponta, em especial, um documento que conferia a Bento Gonçalves a missão de regularizar e filiar lojas e maçons nos locais percorridos pelos revolucionários. Muitas lojas maçônicas teriam suas raízes nessa modalidade de instalação. (10)

Quanto ao segundo grupo historiográfico em análise, e que denominei de acadêmico, aparecem poucas obras disponíveis que abordem temáticas relacionadas à participação da maçonaria na história do Rio Grande do Sul. Entretanto, destaco dois trabalhos que tratam do tema deste artigo: o de Spencer Lewis Leitman e o de Moacyr Flores. O primeiro autor explicou a relação entre maçonaria e Revolução Farroupilha com inserções como a que segue: 

“Na fronteira, Bento Gonçalves organizou lojas maçônicas aprendendo rapidamente todos os meandros da organização, e usando o serviço postal maçônico como uma alternativa para sua correspondência secreta. Alguns anos depois, um de seus filhos afirmou que Sucre, o codinome maçônico de seu pai, era prova suficiente de sua intenção de estabelecer uma república antes do dia 20 de setembro de 1835”. (11)

Moacyr Flores tratou dessa questão em capítulo específico de sua obra sobre o modelo político e as ideias que influenciaram os farrapos (12). O autor discorda que a Revolução Farroupilha tenha sofrido influência maçônica. Contudo, debruçou-se sobre algumas questões episódicas e outras de cunho interno da maçonaria. No caso dessas abordagens, considero a obra de Flores exemplar de um modelo historiográfico tipicamente do seu tempo. O autor procurou argumentar seus pontos de vista informando conceitos, informações e explicações de cunho interno da ordem maçônica. (13)

 Será que a maçonaria foi importante para a Revolução?

Não há, por certo, como responder de forma conclusiva a essa questão. As fontes documentais e bibliográficas disponíveis não falam o suficiente para que se chegue a uma conclusão plausível. Levando em conta esse ponto de vista, suspeito que, no caso de ter que se chegar a uma resposta, a Revolução Farroupilha foi mais importante para a maçonaria do que o contrário. Para pontuar essa perspectiva, lembro que as primeiras lojas maçônicas já estavam sendo implantadas em território brasileiro desde pelo menos o ano de 1800.

Por outro lado, somente três décadas depois se tem notícia oficial da instalação de loja no Rio Grande do Sul, a loja Filantropia e Liberdade, fundada em 25 de dezembro de 1831, na cidade de Porto Alegre.

A estreita vinculação entre a primeira loja maçônica e o gabinete de leitura da “O Continentino”, caracteriza uma das primeiras formas de atuação da maçonaria no Rio Grande do Sul. Os integrantes de lojas maçônicas atuavam discretamente em razão do caráter sigiloso da própria instituição. Também buscavam se proteger da perseguição política ou religiosa que por ventura pudesse se desenvolver. (14)

Volto à questão das origens da maçonaria gaúcha salientando que os liberais gaúchos, que já haviam aderido à causa emancipacionista em 1822, ganharam a adesão de setores descontentes com a política centralista da monarquia recém instalada no Brasil. Aliado a isso, havia o descaso para com as necessidades, sobretudo econômicas e fiscais, das províncias periféricas. A abdicação do imperador, em 1831, assim como as primeiras medidas dos governos regenciais, suscitaram um aumento da frustração por parte da elite gaúcha em relação ao governo central, e foram os integrantes dessa vertente política, muitos deles participantes de sociedades secretas, os responsáveis pela organização do movimento revolucionário de 1835. Nesse ponto, podemos, de alguma forma, ligar maçonaria e Revolução Farroupilha, pois as oficinas maçônicas eram, no entanto, um espaço privilegiado de debate e de aglutinação dos liberais radicalizados.

As primeiras lojas foram, certamente, de iniciativa de um pequeno número de maçons, familiarizados com os “segredos” da ordem no centro do país, ou mesmo no exterior, e que criaram ou encontraram espaços de atuação nos clubes ou sociedades de cunho liberal. O exemplo mais expressivo e já mencionado anteriormente foi, sem dúvida, “O Continentino”, cuja ênfase, dada neste trabalho, se deve ao fato de ser o mais bem documentado; com isso, não descartamos que outras sociedades ou gabinetes de leitura tenham sido embriões maçônicos. 

No decurso dos confrontos da revolução não existiam condições regimentais mínimas para que as lojas maçônicas ou prosseguissem com suas atividades ordinárias e extraordinárias. O clima geral de instabilidade política e social tornava difícil a regularidade das cerimônias e a observância sobre a correção que deveria existir para a realização dos rituais e dos procedimentos administrativos previstos nas constituições e regulamentos. Assim, em condições excepcionais, a ordem maçônica buscou alternativas de funcionamento para que a sua incipiente situação não retrocedesse.

Nessa mesma perspectiva, cito duas situações de lojas maçônicas que se posicionaram como aliadas das tropas imperiais: a loja União Geral, situada na cidade de Rio Grande, e que fora fundada no ano de 1840, portanto, em meio à revolução. Foi numa cerimônia no templo maçônico pertencente a essa loja que se deu a iniciação do Marquês do Herval, Manuel Luís Osório. Para que se entenda o posicionamento de Osório é importante lembrar que, na primeira fase revolucionária, ele compunha as forças farroupilhas. Entretanto, suas divergências vieram à tona quando da Proclamação da República Rio-grandense, em 1838, quando então aderiu às tropas imperiais (15).

Outra situação similar ocorreu em São Leopoldo, na loja União e Fraternidade. Um dos maçons de destaque da loja, e que assumiu a posição política favorável às forças centralistas imperiais, foi o líder da comunidade alemã, João Daniel Hillebrand. Entre os aspectos biográficos que credenciam sua figura na história regional estão o fato de ter sido considerado um médico humanitário, presidente da Câmara dos Vereadores de São Leopoldo, fundador da Companhia de Voluntários Alemães e chefe geral da Colônia. Nos dois casos, fica evidenciado que a ordem maçônica não ficava imune aos confrontos e disputas políticas e ideológicas inerentes a cada realidade histórica.

Considerações finais

Esses e outros exemplos historiográficos me fazem acreditar que a Revolução Farroupilha contribuiu decisivamente para a expansão de um tipo de pensamento político que aproximou parcela da elite regional à causa maçônica. Em sentido contrário, essa mesma revolução impediu a expansão maior da maçonaria, pois foi um obstáculo para a consolidação das estruturas administrativas maçônicas. A maçonaria encontrava-se em fase de instalação na província quando eclodiu a revolução. Dessa maneira, dificilmente teria a força, o prestígio, o sentimento conspirativo e liberal necessário para influenciar ou interferir decisivamente num episódio da proporção da Guerra dos Farrapos. Que alguns líderes farrapos tenham sido iniciados na maçonaria no período anterior à eclosão da mesma, ou no transcorrer da guerra civil, não restam dúvidas. Contudo, esse argumento por si só não garantiria sustentação nas teses de que a maçonaria foi fundamental na organização ou desenlace da guerra.

Lembro, ainda, que o debate sobre a questão da identidade regional deve levar em conta que a sociedade gaúcha se encontrava dividida política e ideologicamente. De um lado, lutavam homens identificados com a causa farroupilha e, de outro, os segmentos que combatiam com as tropas imperiais. Assim, importante, nesse contexto, é assinalar a presença de maçons em ambos os lados do conflito. Reitero o meu posicionamento assumido no início deste artigo, qual seja, acreditar que a influência da maçonaria no desenrolar da Revolução Farroupilha não foi fundamental e nem decisiva. Entretanto, a instituição contribuiu, e isso não é pouco relevante, na difusão das ideias liberais no seio da elite política e cultural na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.

Autora: Eliane Lucia Colussi 

Fonte: Estudos – Blog do Bianchi

* A professora Eliane possui graduação em Curso de História pela Universidade de Passo Fundo (1985), mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1993) e doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1998). Tem experiência na área de História, com ênfase em História, atuando principalmente nos seguintes temas: história, maçonaria, política, violência.

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Notas

(1) – A valorização da temática sobre a Revolução Farroupilha deve muito aos intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, que, no caso das comemorações do Centenário Farroupilha, organizaram um importante congresso de estudos e, posteriormente, publicaram na forma de anais o debate ali ocorrido. Ver: Anais do I Congresso de História e Geografia Sul-Rio-Grandense. IHGRGS. Porto Alegre, 1936.

(2) – O presente artigo é inspirado em outro trabalho de minha autoria: COLUSSI, Eliane Lucia. A maçonaria gaúcha no século XIX. 3. ed. Passo Fundo: Ediupf, 2003. 

(3) – Idem.

(4) – Esta constatação confirmaria um fenômeno cultural e político ocorrido em esfera internacional nos séculos XVIII e XIX. O nascimento, divulgação e recepção do pensamento “burguês” ou iluminista e liberal encontrou nessas sociedades literárias um espaço de sociabilidade fundamental. 

(5) – SILVA, João Pinto da. A Província de S. Pedro (interpretação da história do Rio Grande). Porto Alegre: Globo, 1930, p. 121.

(6) – ANTUNES, Deoclécio Paranhos. Os partidos políticos no Rio Grande do Sul: gênese e desdobramento histórico desde a proclamação da independência à república. In: Anais do I Congresso de História e Geografia Sul-Rio-Grandense. IHGRGS. Porto Alegre: Globo, 1936. v. 2. p. 217.

(7) – SPALDING, Walter. Farrapo. Porto Alegre: Sulina, s/d, p. 134. 

(8) – FAGUNDES, Morivalde Calvet. Revelações da história da maçonaria gaúcha. Hoy es historia, Montevidéu, ano 4, n. 20, 1989. p. 42-43.

(9) – Trata-se da obra DIENSTBACH, Carlos. A maçonaria gaúcha: história da maçonaria e das lojas do Rio Grande do Sul. Londrina: A Trolha, 1993. (4. v.).

(10) – Idem, p.479.

(11) – LEITMAN, Spencer Lewis. Razões socioeconômicas da Guerra dos Farrapos: um capítulo da história do Brasil no século XIX. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p. 61.

(12) – FLORES, Moacyr. Modelo político dos farrapos: as ideias políticas da Revolução Farroupilha. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. 

(13) – Idem, p. 40. 

(14) – Sobre esta questão ver o trabalho de MOREL, Marco. Sociabilidades entre luzes e sombras: apontamentos para o estudo histórico das maçonarias da primeira metade do século XIX. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, n. 28, p. 3-22, 2001.

(15) – DIENSTBACH, Carlos. Op. Cit., p. 518-519.

Referências bibliográficas

ANTUNES, Deoclécio Paranhos. Os partidos políticos no Rio Grande do Sul: gênese e desdobramento histórico desde a proclamação da independência à república. In: Anais do I Congresso de História e Geografia Sul-Rio-Grandense. IHGRGS. Porto Alegre: Globo, 1936. v. 2. p. 215-266.

COLUSSI, Eliane Lucia. A maçonaria gaúcha no século XIX. 3. ed. Passo Fundo: Editora da UPF, 2003.

DIENSTBACH, Carlos. A maçonaria gaúcha – história da maçonaria e das lojas do Rio Grande do Sul. Londrina: A Trolha, 1993. (4. v.).

FAGUNDES, Morivalde Calvet. Revelações da história da maçonaria gaúcha. Hoy es Historia, Montevidéu, ano 4, n. 20, p. 41-50, 1989. 

FLORES, Moacyr. Modelo político dos farrapos: as ideias políticas da Revolução Farroupilha. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.

LEITMAN, Spencer Lewis. Razões socioeconômicas da Guerra dos Farrapos: um capítulo da história do Brasil no século XIX. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

MOREL, Marco. Sociabilidades entre luzes e sombras: apontamentos para o estudo histórico das maçonarias da primeira metade do século XIX. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 28, p. 3-22, 2001. 

SILVA, João Pinto da. A Província de S. Pedro (interpretação da história do Rio Grande). Porto Alegre: Globo, 1930. 

SPALDING, Walter. Farrapo. Porto Alegre: Sulina, s/d.

Maçonaria hoje: o antigo e o moderno

Desvendamos todos os segredos e tradições da maçonaria em Jaraguá do Sul

A maçonaria é uma instituição que tem bases antigas e, ao mesmo tempo, gera modernidade. Pode-se dizer que é um atanor onde o antigo e o moderno, se relacionam de uma maneira harmoniosa e natural, baseadas, essas relações, em leis universais que a mente estudiosa, observa, estuda e aprende a usar para a glória do Grande Arquiteto do Universo e para o bem da humanidade. Essas bases antigas, normalmente, se sustentam sobre os chamados bons costumes, assim como sobre as normas que, desde tempos remotos, permitem a convivência entre os seres humanos, sua evolução e desenvolvimento, dentro da maior harmonia, além das diferenças que existem entre todos, incluso, em relação com o ambiente que lhes rodeia.

É assim como, ao longo do tempo, seus membros, indistintamente de sua oficina, rito, idioma, cultura, educação acadêmica e idade, vão criando obras ao serviço dos seres humanos, indistintamente do tempo e o espaço. Obras em quase todas as atividades, desde as ciências até a filosofia. Não há uma atividade relacionada, como as chamadas ciências e artes liberais, que não há sido tocada pela mão, mente e coração de um maçom. Todos os desenvolvimentos, em todas as áreas, estão relacionados ou são produto dos aportes que esses maçons deram à humanidade, juntando o antigo com o moderno em cada uma dessas obras, da forma como a maçonaria ensina, como uma Arte Real, onde o justo e o perfeito se enlaçam, se fundem, se combinam, mostrando as maravilhas produzidas pela harmonia dos elementos que existem tanto acima como embaixo.

Conhecer e dominar isso é parte do trabalho maçônico universal que, nestes tempos, deveria ser parte fundamental em cada oficina. Esse processo de relacionamento entre o antigo e o moderno deve partir do conhecimento das bases fundamentais e da prática delas no dia a dia, em cada circunstância, em cada momento, em cada lugar. O maçom de hoje, com toda a modernidade a sua mão, tem que proceder a preservar essas bases, da mesma maneira que deve proceder a modernizar os resultados.

As antigas maneiras de corromper uma pessoa como a uma sociedade, que hoje destroem nossas repúblicas, podem ser reduzidas a quase zero aplicando princípios muito antigos. Não vamos a inventar a água, mas podemos criar as condições para preservar suas fontes. Não vamos a inventar a amizade, mas podemos manter as condições para que ela se mantenha na cultura da humanidade. Não vamos a inventar a honestidade, mas podemos aprofundar suas bases para que ela seja parte cotidiana na vida das pessoas. Não vamos a inventar a justiça, mas podemos fazer que ela seja a norma da sociedade humana. Não vamos a inventar a liberdade, mas podemos fortalecer a verdade para que ela exista em todos. Não vamos a inventar o princípio da igualdade, mas podemos fazer que esteja na mente e corações de todos para poder ser aplicado sempre. Não vamos a inventar o sistema do respeito, mas podemos educarmo-nos nele e assim viver por sempre. Não vamos a inventar a propriedade, mas podemos defender esse direito natural e fazer proprietários a todas as pessoas. Não vamos a inventar a segurança, mas podemos transmitir e dar a mesma uns aos outros e desfrutar de seus benefícios. Não podemos a inventar o antigo sistema filosófico e político chamado a república (a coisa pública), mas podemos modernizar as condições dela, construindo-a dia a dia da forma como foi criada, para servir aos cidadãos, dentro da antiga lei do amor e do cumprimento dos nossos deveres, esses que temos para com Deus, para com nossos semelhantes e para com nós mesmos. Para a maçonaria de hoje e sempre, o antigo e o moderno podem coexistir e conviver. Se alguma coisa deve ficar para trás, são aquelas que prejudicam a espécie humana e a sua natureza divina, que separam o criado de seu criador, que geram sofrimentos e miséria na humanidade e frustrações em vez de esperanças.

Autor: Henry Díaz M.

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Uma história…uma reflexão

Grande Loja Maçônica de Minas Gerais comemora 92 anos de fundação - Diário  do Rio Doce

Meus caríssimos Irmãos,

No silêncio do final de noite do último domingo do mês de setembro, diante da tela do celular me ponho a pensar.

No dia 25 de setembro a Grande Loja Maçônica de Minas Gerais completou 94 anos de fecunda existência. Um caminho vitorioso, honrando a Maçonaria das Minas dos Ouros, conquistando espaços, representatividade e respeito, não apenas no Brasil, mas no contexto da Maçonaria Mundial, jornada em que todos, cada um a seu tempo, de acordo com os seus conhecimentos, perfil e disponibilidades, deu a sua importante contribuição na edificação desse Templo de moral e de bons serviços.

PARABÉNS, vida longa à nossa Grande Loja, e os nossos respeitos aos Irmãos do passado, do presente e a firme confiança nos Irmãos do futuro, que têm a responsabilidade de continuar a caminhada.

Do dia 25 de setembro do ano de 1927 até os dias atuais, tempos difíceis, desafiadores, mas esperançosos, estamos mostrando ao mundo, com exemplos inspiradores, que a união, o comprometimento e concentração de esforços em torno de objetivos comuns, é que mantém acesa a chama do ideal de “tornar feliz a humanidade“, através do incessante trabalho de “Desbaste da Pedra Bruta” e da “Construção Social”.

E, nesse momento em que celebramos essa rica história de sucesso, lembro-me e quero abordar um assunto que está sendo recorrente nos últimos tempos, e que tem despertado a minha atenção e reflexão.

Muitos Irmãos questionam, outros afirmam categoricamente que a Maçonaria mudou, que não é mais mesma, que vivemos das glórias do passado, que não fazemos nada.

Quando ouço esse tipo de questionamento fico pensando que muitos de nossos Irmãos não entenderam o verdadeiro sentido da Iniciação, o renascer do interior nós mesmos, de redescobrir-nos. Não entenderam que a Maçonaria não transforma o mundo, aprimora o ser o humano, desenvolve o seu espírito e este ser evoluído é que promove as mudanças, as transformações no mundo. A Maçonaria somos nós, e que, onde estiver um Maçom, ali estará representada a Maçonaria, com toda a sua força, conquistas e glórias do passado, que a nós compete dar prosseguimento através de nossas ações.

Respeitando as opiniões divergentes, penso que a Maçonaria não mudou, continua a mesma, com os seus princípios, valores, senso de justiça e objetivos que engrandecem os homens, elevando-os a um patamar de melhor compreensão da nossa responsabilidade social e cidadã. Estamos sim mudando na forma de atuar, e precisamos evoluir cada vez mais, na forma de nossa atuação na sociedade, acompanhando a sua transformação frente às realidades dos novos tempos, às novas demandas.

Penso que muitos maçons é que estão mudando com as suas vaidades exacerbadas e desconhecimento da história e da realidade – vemos muitas cobranças e poucas atitudes positivas – nos perdendo no caminho do desbaste da Pedra Bruta, que infelizmente, ainda, em determinadas situações continua bruta e muitas das vezes brutalizada, como podemos constatar pelas ações destituídas do espírito de FRATERNIDADE que infelizmente assistimos nos últimos tempos. É preciso mudar, e com urgência, esse estado de coisas, com estudos, pensamentos positivos, trabalho e ações construtivas.

De minha parte, prestes a completar 31 anos de Iniciado, regular e ativo na mesma Loja, continuo com a mesma convicção e entusiasmo de quando entrei. Não podemos perder as esperanças e confiar que o caminho da Maçonaria será desenvolvido da forma que quisermos e direcionarmos os nossos trabalhos e esforços. Os nossos destinos são traçados por nós. São as nossas ATITUDES que farão a diferença. Precisamos refletir muito e buscar o exercício de uma liderança inspiradora, motivadora, agregadora, ensinando pelo exemplo através de ações propositivas e realizadoras; sermos construtores de pontes.

O mundo está mudando com muita velocidade e profundidade, sendo recorrente a necessidade de refletirmos muito sobre essa nova realidade e construirmos as novas bases para a Maçonaria do século XXI. O diagnóstico da situação atual já temos, urge tomarmos as medidas apropriadas, o que ao meu sentir, exige união, convergência de esforços, objetivos e propósitos, agindo com inteligência, estratégia, foco e determinação, e, o que falta em muitos, conhecimento real de nossa história e da atuação da Ordem e dos Maçons nos fatos históricos, para não construirmos conceitos equivocados.

Sabemos que os desafios são enormes, e nos tempos atuais, agravados de forma impactante pela terrível pandemia da COVID-19 que afetou a humanidade, e que, para nós que fomos depositários da confiança de nossos Irmãos, ocupando cargos de liderança, e que estamos envelhecendo, temos um outro grande desafio que é evoluir em sabedoria, prudência e bom senso, para podermos ter uma compreensão mais nítida dessa realidade e poder contribuir para a criação de novas perspectivas, sermos “CONSTRUTORES DE PROTAGONISMO“.

Falamos muito nesse pequeno texto em reflexão. Para concluir, deixo uma reflexão sobre a reflexão…

Entendo que uma das nossas grandes faculdades intelectuais é a nossa capacidade de reflexão. A capacidade de refletir, de repensar, retrabalhar ideias e posicionamentos e mudar de visão, opinião, reformulando conceitos à luz de novas informações e conhecimentos, enfim aprendendo e evoluindo como seres humanos.

Nesse sentido lembro-me de pensamentos de dois grandes vultos da humanidade:

  • Alexandre Herculano, pensador, escritor, historiador e jornalista português afirmou que “eu não me envergonho de corrigir os meus erros e mudar de opinião, porque não me arrependo de raciocinar e aprender”;
  • Albert Einsten, cientista alemão disse que: “uma mente que se abre a uma nova ideia, jamais volta ao seu tamanho original”.

Meus Irmãos,

Nós podemos muito… cada oportunidade perdida, cada omissão, cada hesitação nos tornam mais distantes do objetivo de “tornar feliz a humanidade”. Pensemos em nosso papel de Construtores Sociais.

Fraternalmente,

Geraldo Eustáquio Coelho de Freitas – Tataco
Grão-Mestre Ad Vitam da Grande Loja Maçônica de Minas Gerais

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Servidão voluntária: o olhar de Bauman e Huxley sobre a sociedade de consumo

Saramago já nos advertia que estamos cegos da razão. Talvez seja o nosso ego, sempre inflado e se achando o dono do pedaço. Talvez seja pela nossa incessante incapacidade para amar. Podemos dizer que essa cegueira se alastra em função da facilidade. É sempre mais fácil andar sem olhar para o lado. Sem olhar para nós mesmos. Sem olhar para o que somos ou nos tornamos.

Cegos que somos, seguimos a doutrina da sociedade de consumo. Condicionados como bons soldados, não recusamos a missão de esvaziar um Shopping Center. Aprendemos desde cedo, que como partes do todo, devemos manter a ordem e, assim, não devemos transgredir as leis de ouro que tornam a sociedade contemporânea um reino de “felicidade”.

O sistema hegemônico, através da mídia, não nos deixa esquecer a importância de manter o sistema funcionando harmonicamente, e de que como ele é um bom senhor, devemos-lhes obediência e servidão. Servidão esta, construída por meio de chicotes ou força física? Não. Ora, se somos seres desejantes, então, nada melhor do que usar a mídia para nos seduzir.

Somos seduzidos pela promessa de felicidade escondida atrás do consumismo. Somos tentados por todos os sorrisos espalhados nas propagandas. Somos condicionados a acreditar que a felicidade só é possível se e, se somente se, tenho condições de participar da orgia do consumo.

Sendo assim, somos ludibriados por um sistema que nos entorpece e nos torna míopes que só enxergam a realidade pelos óculos que lhes são oferecidos. Tornamo-nos, dessa forma, servos voluntários do sistema, pois embora livres, nos permitimos condicionar e obedecê-lo. Sem espaço para a crítica ou autorreflexão, somos apenas reprodutores de uma cultura aprisionadora que qualifica como tolice qualquer prazer fora do consumo.

“Imaginem que tolice, permitir que as pessoas se dedicassem a jogos complicados que não contribuíam em nada para o consumo. Atualmente, os Administradores não aprovam nenhum jogo novo, salvo se, se demonstrar que ele necessita, pelo menos, de tantos acessórios quanto o mais complicado dos jogos existentes.”

A felicidade, portanto, deve ser comprada, aliás, somente existe se for comprada. Não há espaço para as coisas simples, para o que é “gratuito”. Para que possamos ser felizes e ter prazer, precisamos inexoravelmente consumir. Essa é a servidão voluntária através do consumo, não pela violência ou coerção, mas pela sedução e erotismo produzido nas relações de consumo.

Devidamente seduzidos pelo mercado, não conseguimos sair das suas entranhas. Não precisamos. Tudo é mercadoria. Ouvimos o tempo inteiro a voz do mercado, com seus alto-falantes que denunciam qualquer ato de “tolice” e nos lembram incessantemente a necessidade vital de consumir, pois como bem atenta Huxley: “Sessenta e duas mil repetições fazem uma verdade”.

Todos esses mecanismos de controle social escondem um autoritarismo com o qual nos acostumamos e aceitamos, pela indisposição em ser mais que um pacote de biscoitos e um par de sapatos. Preferimos estar cegos e condicionados que se opor ao sistema. Estamos, assim, mais que cegos da razão, estamos, como diz Bauman, em uma cegueira moral.

Somos subservientes a um sistema que racionaliza as emoções e que transforma a vida em uma longa linha de produção, de modo que não existe outro caminho a uma vida prazerosa sem passar por ela. Somos cegos admirando os caminhos líquidos de um mundo novo.

O admiramos, pois fomos seduzidos pelo encanto e enlace erótico de um mundo que me permite ser um novo a cada dia, em que não se precisa de laços e que, portanto, cada um é um fim em si mesmo. Somos servos voluntários, pois nós mesmos nos fazemos dominar. Entretanto, esquecemos que esse sistema hegemônico através da sedução que nos domina, mantém o status quo de opressão e escravidão.

Como diz Bauman: “A vida desejada tende a ser a vida vista na TV”. Mas, a vida vai além de padrões de comportamento, de cartilhas, senhas e números. Vai além de escravidão e dominação. Vai além de reproduzir as verdades da mídia. Vai além de um cartão sem limites. Vai além de algumas polegadas. Ainda que para enxergar esse além, seja preciso coragem para sair do cinema e visitar a própria vida.

Autor: Erick Morais

Fonte: Provocações Filosóficas

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Consumo x consumismo – Zygmunt Bauman

A desordem do consumismo na sociedade do consumo | by Revista Torta |  revistatorta | Medium

Tentamos achar nas coisas, que por isso nos são preciosas, o reflexo que nossa Alma projetou sobre elas.” Marcel Proust

Consumimos! Desde a aurora de nossa existência, rotineira e ininterruptamente, da hora em acordamos ao momento em que vamos dormir, antes mesmo do nascimento e até após a morte, consumimos.

Mas, uma coisa é o consumo de bens necessários e até indispensáveis à vida e ao bem estar (morar, comer, beber, dormir, saúde, estudos, lazeres… prazeres!); Outra é o consumismo.

Desenfreado, o consumismo excede a necessidade, culminando na profusão de mercadorias, na ostentação do luxo e num portentoso descarte de lixo.

Analisar o fenômeno do consumismo é fundamental para que possamos compreender um aspecto funesto e nevrálgico da sociedade em que vivemos.

Da obra do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “Vida Para Consumo – A transformação das pessoas em mercadoria” trazemos uma breve reflexão sobre o capítulo intitulado “Consumo versus Consumismo”.

Segundo o autor, o fenômeno do consumo “tem raízes tão antigas quanto os seres vivos (…) é parte permanente e integral de todas as formas de vida (…)”.

Mas, enquanto o consumo constitui uma característica e ocupação de todos os seres humanos enquanto indivíduos, o consumismo, alerta o estudioso, é um atributo da sociedade.

Não precisamos de uma lupa superpoderosa para observar que, nos últimos séculos, galopando cada vez mais em mega escala, rumamos a um consumismo vertiginosamente apoteótico: de uma natural necessidade de segurança, conforto e, até sobrevivência mesmo, o que justifica o consumo, ao abismo propulsionado do vício do consumismo.

Governado por nossas ‘vontades’, o consumismo se tornou o propósito de nossa existência quando nossa capacidade de ‘querer’, ‘desejar’, ‘ansiar por’, passou a sustentar a economia (oikós = casa + nomós = norma) mediando o convívio humano.

Bauman afirma que o ‘consumismo’ é um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos rotineiros (neutros quanto ao regime), transformando-os [e transmutando-os] na principal força propulsora e operativa da sociedade.

O ‘consumismo’ chega, diz ele, quando o consumo assume o papel-chave que na sociedade de produtores era exercido pelo trabalho.

Passa a ser central quando “a capacidade profundamente individual de querer, desejar e almejar deve ser, tal como a capacidade de trabalho na sociedade de produtores, destacada [‘alienada’, o termo aqui empregado não em conotação pejorativa] dos indivíduos e reciclada/reificada numa força externa que coloca a ‘sociedade de consumidores’ em movimento e a mantém em curso como uma forma específica de convívio humano, enquanto ao mesmo tempo estabelece parâmetros específicos para as estratégias individuais de vida que são eficazes e manipula as probabilidades de escolha e conduta individuais”.

Ou seja, o coletivo mais que se sobrepõe: dita o modus vivendi/modus operandi do indivíduo que se afoga, ‘engolfado’ pelo ‘Todo’.

A revolução consumista, diz o sociólogo, é uma questão que exige investigação mais atenta, diz respeito ao que ‘queremos’, ‘desejamos’ e ‘almejamos’, e como as substâncias de nossas vontades, desejos e anseios estão mudando no curso e em consequência na passagem ao consumismo.

Equivocadamente, pensamos que os consumistas se empenham pela apropriação e acumulação de objetos pelo conforto e/ou respeito que outorgam a seus donos, mas, embora essa possa ser a principal motivação, na verdade, foi “um tipo de sociedade comprometida com a causa da segurança estável e da estabilidade segura, que baseia seus padrões de reprodução a longo prazo em comportamentos individuais criados para seguir essas motivações” que serviu de esteio para alicerçar a pedra fundamental do consumismo.

Àquela em que Bauman nomeia fase “sólida da modernidade” foi basicamente orientada para a segurança e, norteada por esse anseio, “apostou no desejo humano de um ambiente confiável, ordenado, regular, transparente e, como prova disso, duradouro, resistente ao tempo e seguro…”.

Lícito, sem dúvida, todo esse afã constituiu a matéria-prima convincente e “bastante conveniente para que fossem construídos os tipos de estratégias de vida e padrões comportamentais indispensáveis para atender à era do ‘tamanho é poder’ e do ‘grande é lindo’: uma era de fábricas e exércitos de massa, de regras obrigatórias e conformidade às mesmas, assim como de estratégias burocráticas e panópticas de dominação que, em seu esforço para evocar disciplina e subordinação basearam-se na padronização e rotinização do comportamento individual (…)”.

Assim, afirma o renomado sociólogo, foi-nos incutido que a posse de um grande volume de bens garantiria uma existência segura, imune aos caprichos do destino: “Sendo a segurança a longo prazo o principal propósito e o maior valor, os bens adquiridos não se destinavam ao consumo imediato – pelo contrário, deviam ser protegidos da depreciação ou dispersão e permanecer intactos”.

Não era exatamente pelo desfrute imediato que ansiávamos, ao contrário, esse modelo preconizava que se adiasse (quase indefinidamente) a fruição dos bens arduamente conquistados, acumulados e estocados.

No começo do século XX, o ‘consumo ostensivo’, diz ele, portava um significado bem distinto do atual: “consistia na exibição pública de riqueza com ênfase em sua solidez e durabilidade, não em uma demonstração da facilidade com que prazeres imediatos podem ser extraídos de riquezas adquiridas (…)”.

Bens resistentes e preciosos, como joias e palacetes ricamente ornamentados, “Tudo isso fazia sentido na sociedade sólido-moderna de produtores – uma sociedade que apostava na prudência, na durabilidade (…)”.

Mas o desejo humano de segurança e os sonhos de um ‘Estado estável’ definitivo não se ajustam a uma sociedade de consumidores, alerta Zygmunt Bauman: “(…) o consumismo, em aguda oposição às formas de vida precedentes, associa a felicidade não tanto à satisfação de necessidades (…), mas a um volume e uma intensidade de desejos sempre crescentes, o que por sua vez, implica o uso imediato e a rápida substituição dos objetos destinados a satisfazê-la”.

A insaciabilidade – maldição de Tântalo! –, permeia nosso ambiente líquido-moderno, inóspito ao que é estável, à placidez de um ‘Tempo Eterno’.

O pensador Stephen Bertman cunhou os termos ‘cultura agorista’ e ‘cultura apressada’ para denotar a maneira como vivemos atualmente: “O consumismo líquido-moderno é notável, mais do que por qualquer outra coisa, pela (até agora singular) renegociação do significado do tempo”. Ser feliz? Só se for para já!

Nem cíclico, tampouco linear, o tempo agora é pontilhista[1]: “(…) fragmentado, ou mesmo, pulverizado numa multiplicidade de ‘instantes eternos’ – eventos, incidentes, acidentes, aventuras, episódios –, mônadas contidas em si mesmas, parcelas distintas, cada qual reduzida a um ponto cada vez mais próximo de seu ideal geométrico de não-dimensionalidade”.

Agora, imediatamente. E o motivo da pressa é, em parte, o impulso de adquirir e juntar. Mas o motivo mais premente que torna a pressa de fato imperativa é a necessidade de descartar e substituir, aponta Bauman. Entediante, esse enfadonho ‘viciante círculo vicioso’ gera angústia, melancolia.

Mesmo os que encontram uma real necessidade de algo, “logo tendem a sucumbir às pressões de outros produtos ‘novos e aperfeiçoados’”. Vem-nos à mente a imagem do cão correndo em círculos, a perseguir o próprio rabo.

E, ao “sentir a infinidade da conexão, mas não estar engatado em coisa alguma”, sobrevém sorrateira melancolia, o que Bauman aponta como sendo a aflição genérica do consumidor.

Autora: Luciene Felix

Fonte: Blog Conhecimento Sem Fronteiras 

Nota

[1] – “Fazendo uma analogia com o movimento pontilhista de mestres como Sisley, Signac ou Seurrat, Pissaro ou Utrilo”.

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Diferenças Filosóficas Maçônicas no Século XXI

Empreendedorismo em Tecnologia (TI): 4 caminhos possíveis - Loocalizei

Como editor de uma revista maçônica nacional, recebo muitas cartas ao editor e artigos submetidos para publicação. No meu caso, a maioria deles é sobre Maçonaria, Templários ou Cristianismo. Daqueles sobre a Maçonaria, vários são de Irmãos expressando opiniões sobre a grande controvérsia sobre onde nossa liderança deveria estar nos conduzindo neste momento de crise em nossa Fraternidade.

Enquanto leio e tento entender todo esse diálogo, perguntas vêm à mente. Existe uma crise em nossa fraternidade? Se sim, quais são nossas opções? O que exatamente aqueles oferecendo sugestões querem que façamos? Existe acordo ou até mesmo definição da crise? Como chegamos a esse ponto? Quantas opiniões diferentes existem? Qual lado devo tomar? Como posso ajudar?

Vamos explorar essa situação, tentar determinar quais são os fatos, usar alguma lógica e ver se podemos tentar resolver isso para que possamos tomar algumas decisões inteligentes e conscientes e tomar medidas que beneficiem a Fraternidade. Acima de tudo, vamos ver se podemos alcançar ou restabelecer a harmonia entre a Arte. Existe uma situação ganhar-ganhar a se ter sobre tudo isso?

Agora você provavelmente está perguntando: “qual crise, a qual conflito ele está se referindo? Vamos olhar para a nossa história e ver se podemos definir a crise.

Precedente histórico para desacordo generalizado

A controvérsia não é estranha à nossa fraternidade. Eu lhe pediria que olhasse para trás por um momento, para uma disputa que surgiu há mais de duzentos anos, não muito tempo depois que o sistema da Grande Loja foi estabelecido. Um grupo de maçons percebeu que essa nova entidade chamada Grande Loja havia começado a modificar a fraternidade de maneiras com as quais eles não concordavam. A nova Grande Loja em Londres, a partir de sua perspectiva, estava tentando consolidar as visões e práticas de muitas de suas recém-denominadas Lojas “subordinadas” em uma fraternidade consistente. O grupo que se opunha às ações da Grande Loja se desligou e formou sua própria Grande Loja chamando a si mesmos de “Antigos”, porque eles defendiam voltar ao que eles acreditavam ser os antigos modos de fazer a Maçonaria. Isso, é claro, resultou em a Grande Loja original ser chamada de “Modernos”, embora fosse mais antiga que a Grande Loja dos Antigos. Essa controvérsia se estendeu até os primeiros anos do século XIX, quando suas diferenças foram resolvidas, e mais uma vez se uniram para formar a Grande Loja Unida da Inglaterra. Evidências desta controvérsia são encontradas em toda a Maçonaria Americana, já que algumas de suas Lojas carregam o título de “Maçons Livres e Aceitos”, enquanto outras são conhecidas como “Antigos Maçons Livres e Aceitos” ou até mesmo “Maçons Antigos”. A maioria dos irmãos nos Estados Unidos nem sequer entende de que se tratava o rebuliço, e até há indícios de que algumas lojas tomam uma posição firme contra um lado ou outro, sem perceber que receberam cartas constitutivas do mesmo lado a que estavam se opondo.

 Perspectiva histórica

  • A Grande Loja de Londres 1717-1813: Modernos
  • A Grande Loja Antiga da Inglaterra 1751-1813: “A Grande Loja da Inglaterra de acordo com as Antigas Instituições”
  • A Grande Loja dos Antigos: Antigos
  • A Grande Loja Unida da Inglaterra 1813 – Até hoje

A crise proliferando o desacordo atual

O dicionário nos informa que uma crise é “um estágio em uma sequência de eventos em que a tendência de todos os eventos futuros, especialmente para o melhor ou para o pior, é determinada; ponto de inflexão.” A crise atual pode ser rastreada até um único gráfico e a interpretação de seu significado.

Os neomodernos

Em 1959, o número de maçons nos Estados Unidos chegou ao auge e começou a declinar. Na história conhecida da Maçonaria, pelo menos desde que se vem contando os Maçons, o número de membros em nossa Fraternidade subiu e desceu, mas isso foi, de longe, o maior número de membros que já tivemos. Quando eu falo de Maçonaria, eu incluo a Loja Azul da Maçonaria Simbólica e todas as outras organizações que predicam sua participação na Loja ou estão de algum modo associadas a ela. Eu geralmente me refiro apenas à Maçonaria dentro dos Estados Unidos. A fraternidade havia estabelecido uma infraestrutura interna elaborada e extensa. Cada um dos nossos corpos tinha funcionários em níveis estadual e nacional e muitos em nível local. Além disso, a maioria dos corpos estabeleceu filantrópicas estaduais ou nacionais que empregavam literalmente milhares de pessoas. Tínhamos hospitais, lares de órfãos, comunidades de aposentados, fundações e instituições educacionais. Além das folhas de pagamento, havíamos herdado ou construído um grande número de edifícios. Tínhamos edifícios de Lojas, edifícios de Grande Lojas, Templos de Rito Escocês, Templos de Rito de York, Templos de Shrine, orfanatos, hospitais, museus, bibliotecas e escolas, sem mencionar o espaço de escritório necessário para administrar toda essa infraestrutura. Tudo isso era apoiado financeiramente pelos nossos membros através de taxas, contribuições, esforços de angariação de fundos, e às vezes retornos de investimentos que alguns de nossos predecessores mais sábios haviam feito com essa finalidade.

À medida que o número de membros começou a declinar, nossa liderança enfrentou um problema que nenhum de seus antecessores em sua memória havia enfrentado. Reduzir os custos de infraestrutura ou sobrecarregar os membros. Você percebe que eu não disse, “aumentar o fardo sobre seus membros” porque conforme os números subiam durante os cinquenta anos anteriores, as demandas financeiras sobre cada membro diminuía em termos de poder de compra real a ponto que era uma pequena fração do que uma vez foi. A inflação e o índice de preços ao consumidor continuaram a subir a cada ano e o custo das taxas permaneceu o mesmo ou até mesmo diminuiu em alguns casos. Esta situação foi exacerbada pela natureza de nossas propriedades imobiliárias. Durante a primeira metade do século XX, a Fraternidade tinha construído edifícios elaborados e impressionantes em todo o país, e esses edifícios geralmente não tinham sido bem  mantidos. Eles estavam, em alguns casos, literalmente caindo aos pedaços ao nosso redor e tinham significado histórico não apenas para a Fraternidade, mas também para as comunidades em que estavam localizados.

À medida que a pressão financeira aumentava, os primeiros a tentar resolver o assunto foram compreensivelmente o Rito Escocês da Jurisdição do Sul, o Shrine e, em menor grau, a Grande Loja da Pensilvânia. Por que “compreensivelmente?” Porque eram organizações muito grandes, administradas centralmente e, no caso do Shrine e do Rito Escocês, possuíam vastas propriedades imobiliárias. As decisões difíceis atingiram essas organizações primeiro. Justamente acreditando que a fonte do problema estava nas Lojas Azuis, porque todos os seus membros eram derivados da Loja, o Rito Escocês e o Shrine decidiram tentar envolver a liderança das Grandes Lojas na formulação de uma solução para o “problema”. Eles levaram o problema e o colocaram aos pés da Conferência dos Grão-Mestres da América do Norte. Isso resultou na formação de um “Comitê de Renovação Maçônica”. Esse comitê, percebendo que precisava de mais dados para tomar uma boa decisão, contratou consultores para coletar os dados, analisá-los e fazer recomendações. Deste esforço várias recomendações foram oferecidas. Algum reconhecimento foi feito de que nossos membros deveriam ser melhor educados sobre a fraternidade. Atividades de membros mais populares deviam ser adotadas. Nossos membros existentes deviam encarar o fato de que precisam se posicionar e, como indivíduos, compartilhar uma quantidade maior da responsabilidade financeira, aumentando taxas ou conduzindo mais arrecadações de fundos, mas de longe e acima de tudo, a mensagem mais clara dos consultores e do comitê era que precisávamos aumentar o número de membros ou pelo menos diminuir a perda de “sangramento” de membros a cada ano.

Foi sugerido que a Maçonaria tinha ficado para trás no tempo e não respondia às necessidades da geração atual. Foi anunciado que a perspectiva moderna não estava interessada em ritual e não tinha tempo para passar noite após noite em reuniões de loja por causa das demandas de trabalho e família de nossa sociedade moderna. Foi até dito que parecíamos desencorajar os homens a se tornarem maçons por devido à nossa política de não-convite, nossas exigências de que os iniciados memorizassem e recitassem páginas de palestras e os longos três a cinco meses necessários para completar o processo de iniciação. Assim, as recomendações incluíram propostas para reduzir ou eliminar a necessidade de qualquer memorização, reduzir o tempo e o esforço necessários para se tornar um maçom e até ter aulas de um dia em que um homem pudesse dar o seu dinheiro, participar de uma reunião de meio dia ou de um dia inteiro, observar o que estava acontecendo e, no final do dia ir para casa como um cartão bona fide de Mestre Mason. Além disso, havia recomendações sobre a visibilidade da Fraternidade. Afinal, precisaríamos anunciar para atrair bons maçons em potencial. Daí vieram as recomendações de que nossos edifícios fossem abertos ao público mais do que nunca, que nossas instituições beneficentes e seus benefícios fossem divulgados mais do que nunca e que nossas atividades de arrecadação de fundos para instituições de caridade aumentassem e envolvessem mais participação pública. Para atrair o tipo certo de homens, seria necessário que os conscientizássemos das coisas boas que fazemos.

Neomodernos:

  • Comitê de Renovação Maçônica da Conferência dos Grandes Mestres da América do Norte;
  • Shrine;
  • Rito Escocês Antigo e Aceito;
  • Grande Loja da Flórida;
  • Grande Loja da Pensilvânia.

Agora considerando a definição da palavra “crise” como um momento de mudança significativa, todos em todos os lados desta questão pareciam concordar que havia uma crise. Muitas das Grandes Lojas aceitaram as recomendações do comitê e começaram imediatamente a implementar as sugestões. Outros se rebelaram.

Aqueles que estavam a bordo com as recomendações do comitê começaram a ministrar aulas de um dia, permitir convites a candidatos, relaxar os padrões de memorização e adotar campanhas publicitárias. Eles frequentemente diziam que a família de organizações maçônicas doou mais de dois milhões de dólares por dia para caridade. Open houses e noites “traga um amigo” começaram a surgir em quase toda parte. Essa foi a gênese do grupo que constitui uma das facções do debate sobre aonde devemos nos dirigir no século XXI. Vou chamá-los de “neomodernos” em memória daquela facção dos maçons chamada de “Modernos” na divisão do século XVIII e início do século XIX que ocorreu em nossa Fraternidade.

Havia outros que viam as coisas de maneira diferente. Eles expandiram o gráfico para incluir mais anos e obtiveram a seguinte imagem da situação.

Essa visão expandida levou a duas interpretações diferentes. Uma interpretação é que esse fenômeno de aumento e queda de membros é natural e que há pouco que se possa fazer a respeito, exceto esperar. Existe claramente uma relação entre grandes guerras e o número de membros maçons, mas essa relação não é bem compreendida para se controlar os resultados. Aqueles que assumem essa posição acreditam que não temos controle real sobre a situação e que certamente não queremos destruir a Maçonaria engajando em uma reação radical e instintiva. Eu chamo a esses de “Status-Quos” e falarei mais sobre eles depois.

Outra interpretação dos dados é que esses Status-Quos de alguma forma causaram o problema, e que ele precisa ser resolvido de uma maneira completamente diferente daquela sugerida pelos neomodernos. Essas pessoas estavam de acordo com os neomodernos de que algo precisava ser feito, porque acreditavam que, à medida que os números aumentavam, o caráter, o intelecto e o foco da afiliação diminuíam. Embora os números tenham aumentado, toda a natureza e a finalidade da organização desapareceram. Vamos olhar para essas pessoas a seguir.

Os neoantigos

Mais ou menos na mesma época em que os neomodernos começaram a evoluir, ou talvez um pouco antes, uma Loja na Austrália estava lidando com o mesmo, ou pelo menos um problema similar de declínio de membros e interesse, e em resposta ao seu problema, propuseram um tipo totalmente diferente de solução. Eles decidiram que a razão pela qual o número de membros estava declinando era que seus próprios membros, e portanto o público, realmente não entendiam o que a Maçonaria realmente era, que como resultado, a Loja tinha sido transformada em algo completamente diferente do que pretendia ser, e que os membros e possíveis membros eram apáticos sobre essa “nova” organização chamada Maçonaria, não sobre a Maçonaria em si. Eles notaram que a ênfase havia mudado de companheirismo, estudo filosófico e desenvolvimento espiritual para donuts azedos, roupas casuais e discussões superficiais sobre tópicos mundanos, tal como a maneira como o telhado deveria ser reparado. Eles insistiram que se a Fraternidade retornasse ao que eles acreditavam que uma vez fora, os homens, tanto membros quanto não-membros, seriam atraídos, e o problema se resolveria por si mesmo. Eles insistiram que os homens eram atraídos por coisas que eles consideravam valiosas e que os membros da Loja deveriam ser retratados como sendo de imenso valor a fim de atrair homens que se beneficiariam do crescimento intelectual e espiritual que a Fraternidade oferece. Colocando sua teoria em prática, criaram uma Loja com uma estrutura de taxas de dez a cem vezes maior do que as que estavam pagando. Eles exigiram que os membros se vestissem formalmente e com algum grau de uniformidade. Colocaram ênfase nas discussões intelectuais da filosofia e história maçônicas e reduziram o número de reuniões, eliminando assim muitas oportunidade de se desfazer do custo de seguro do edifício ou de como o teto deveria ser consertado.

Neoantigos:

  • A Fundação de Restauração Maçônica;
  • Lojas de Observância Tradicional;
  • Lojas de Conceito Europeu;
  • Loja Epicureana No. 906 (Victoria, Austrália);
  • Loja Amalthea No. 914 (Victoria, Austrália);
  • Loja Washington-Alexandria Nº 22.

Por todos os Estados Unidos, havia muitos maçons que não estavam realmente felizes com o que estava acontecendo em suas Lojas. Quando finalmente conseguiam se tornar membros da Fraternidade, ficavam desiludidos. Quando viram o que os maçons realmente faziam em suas reuniões, ficaram muito desapontados. Eles tinham esperado cerimônias majestosas e impressionantes; discussões profundas de assuntos que os desafiariam mentalmente; e a oportunidade de aprender sobre grandes mistérios aos quais, de outra forma, não teriam tido acesso. Muitos desses jovens maçons eram DeMolays Sêniores. Eles tinham grande respeito pela Fraternidade antes de apresentarem petições e pelos homens que conheciam como Maçons, mas faltava alguma coisa. Em vez disso, viam Mestres conferindo graus vestidos com chinelos, bermudas e uma camiseta com buracos, anunciando cerveja. Eles eram ridicularizados se usassem uma gravata para ir à Loja, apesar de terem visto seus avós colocarem uma gravata antes de cada reunião da Loja. Eles viram cerimônias que poderiam ou deveriam ter sido mais impressionantes, lidas em um livro por um membro da loja que lia mal e não entendia algumas das palavras, muito menos o significado dos rituais. Eles viam homens assumindo obrigações solenes de fazer todo tipo de coisas elevadas e, em seguida, prontamente se comportando como se não tivessem feito aquilo. Quando eles perguntavam “por quê?” Sobre partes das cerimônias ou dos rituais, eles eram instruídos a memorizar corretamente as palavras, que ninguém sabia por que eles diziam o que faziam. Eles viam homens discutindo incessantemente se deveriam gastar pequenas quantias de dinheiro para consertar um banheiro na Loja, que esses mesmos homens não hesitariam um segundo em a ter reparado em suas casas. Eles olharam para os edifícios decadentes, mal conservados e às vezes apenas sujos, e se perguntaram: “Em que eu me meti? Não há algum lugar melhor onde eu quero gastar meu tempo?

Muitos desses homens se afastaram da Fraternidade, perdidos e desiludidos. Alguns, no entanto, tiraram um tempo para aprender o ritual, ler a literatura, pensar sobre o que a Maçonaria deveria ser e decidiram que isso precisava retornar à instituição que eles percebiam que uma vez ter sido. Eles viram o que o pequeno grupo na Austrália tinha feito. Eles aprenderam que esta Loja Australiana agora tinha uma lista de espera de homens querendo se tornar membros, e eles perceberam que essa era a Maçonaria que eles haviam negociado e, por Zeus, eles a teriam. Fora disso, cresceu um movimento relativamente novo nos Estados Unidos, de estabelecimento de Lojas de “Observância Tradicional”, ou “Lojas de Conceito Europeu”.

Essas lojas geralmente têm uma estrutura de taxas mais elevadas, vestem-se mais formalmente, se reúnem com menos frequência, são mais exigentes com seus membros e discutem assuntos mais esotéricos e filosóficos. Algumas também enfatizam a excelência na experiência iniciática transmitida por um ritual bem feito e impressionante. Embora existam diferenças sutis nesses tipos de Lojas, elas se enquadram no guarda-chuva que alguns chamam de “Restauração Maçônica” e, de fato, tem havido uma organização estabelecida para promover esses ideais. Eu chamarei essas pessoas de “neoantigos” em homenagem aos “Antigos” que rivalizaram com os “Modernos” duzentos anos atrás. Lembre-se de que ambos os grupos estão tentando mudar o status quo em resposta ao que acreditam ser uma situação de crise. Naturalmente, muitos dos membros que não olham olho no olho com essas pessoas estão horrorizados, se rebelaram e tentaram suprimir esse movimento. Esses Neoantigos são frequentemente vistos como “elitistas”, especialmente pelos Status-Quos.

Percepções e Posições

Na realidade, tanto os Neomodernos quanto os Neoantigos estão reagindo contra as práticas do Status-Quos. Eles apenas discordam sobre como o status quo deveria ser radicalmente alterado.

Vejamos as percepções de cada um desses grupos e como isso influencia as posições que eles assumem. Eu começo com os Status-Quos. Existem realmente dois subgrupos sob os Status-Quos, os “ativos” e os “inativos”. Embora os inativos não sejam atores importantes no drama que está se desdobrando, eles terão alguma influência e não podem ser ignorados. O inativo é membro da Fraternidade há quinze a cinquenta anos, mas paga suas taxas todos os anos, embora raramente compareça às reuniões. Ele contribui para as instituições de caridade da Fraternidade quando solicitado e pode até aparecer e ajudar nas atividades de levantamento de fundos. Ele tem orgulho do que os maçons fazem pela caridade e se orgulha de fazer parte dela. Ele acredita que os maçons são bons homens e se orgulha de estar associado a eles. Ele não está interessado em fazer rituais ou dar palestras de ensino, mas tem grande respeito por aqueles que fazem essas coisas bem. Ele acha que seu filho deveria se tornar um maçom e fica intensamente orgulhoso se o fizer. Ele não está ciente de que há uma crise e não entende que existe discordância entre os neomodernos e os neoantigos. Ele está muito feliz com o nível de seu envolvimento e não vê razão para mudar nada. Porque ele está acostumado com a atual estrutura de taxas em vigor durante toda a sua carreira maçônica e porque ele não está recebendo nada mais tangível para suas contribuições além de um cartão de papelão de 2x 3 polegadas e talvez um pin de 50 anos, ele é um tanto resistente a qualquer aumento nas taxas anuais. Ele não tem um voto na sessão da Grande Loja e não compareceria se tivesse. Mais importante, ele compreende cerca de oitenta por cento dos nossos membros atuais.

O outro segmento dos Status-Quos consiste nos “ativos”. À medida que eu os descrevo, lembre-se de que eles são apenas os Status-Quos ativos. Quase todos os Neomodernos e Neoantigos são ativos.

Esses Status-Quos são as pessoas que mantiveram nossa fraternidade viva nos últimos cinquenta anos. Eles respeitam, acima de todos os outros, aqueles que podem fazer o ritual de maneira precisa e impressionante, embora menos de dez por cento deles realmente faça isso. Eles são institucionalmente orientados e geralmente não perguntam por que fazemos as coisas que fazemos. Eles se orgulham de ser membros de uma fraternidade que incluiu tantos presidentes, heróis e outras celebridades. Eles têm uma visão firme da origem e da história da ordem e, embora possam discordar uns dos outros sobre essas coisas, eles não os consideram suficientemente importantes para discutir. O importante é que as contas sejam pagas, o prédio permaneça habitável, as instituições de caridade sejam financiadas e a associação pare de declinar. Eles acreditam que os inativos são a chave para a sobrevivência financeira da Loja e temem muito que elevar as taxas produzirá um êxodo em massa de inativos, arruinará a Loja e significará o fim da Maçonaria. Eles acreditam que o ofício maçônico é primariamente uma recompensa pela assistência fiel e pelo trabalho árduo, e sentem que o principal dever da liderança é servir à irmandade exaltando as virtudes da Maçonaria, principalmente para os irmãos. Eles veem o atual declínio em números como temporário e parte da natureza cíclica da Fraternidade. Eles certamente não querem se envolver em nada que possa ser chamado de “oculto” e provavelmente não conhecem a palavra esotérico. Eles não acreditam que o relaxamento de qualquer tipo de padrão beneficiará a Fraternidade, mas sim que, pela introdução de materiais ruins, isso irá destruí-la, transformando-a em algo completamente diferente do que pretendia ser. Eles veem os Neoantigos como “elitistas” que acreditam que são melhores do que qualquer outra pessoa e temem que o estudo da filosofia leve a fraternidade pelo caminho da heresia e ignoram a proibição da discussão da religião na Loja. Eles  veem os neomodernos tentando descartar o ritual e diminuir os padrões de caráter requeridos para o ingresso. Eles veem um desastre iminente, mas acreditam que ainda é possível convencer os inativos a se tornarem ativos e que os Neos de ambas as variedades irão embora ou simplesmente desistirão e se demitirão. Eles continuam a aconselhar novos iniciados dos males dos neoantigos e dos neomodernos, mas com sucesso decrescente. Ao mesmo tempo, lembre-se de que, na maior parte, esses são os homens que estão realmente mantendo a Fraternidade junta neste momento.

Percepções e Posições
Status-Quos
Baixas taxas– Ênfase em inadimplências
O ritual é rei– Educação maçônica sem ênfase
Vestimenta casual– O problema desaparecerá
Neomodernos
Aulas de um dia– Exigir mais votos para rejeitar
Menores requisitos de memorização– Mais caridade pública
Recrutamento– Focado em dinheiro
Vestimenta casual– Estrutura de taxas marginalmente mais altas
Neoantigos
– Estrutura de taxas muito mais elevada– Excelente ritual
– Vestimenta formal– Ênfase em “experiência iniciática”
– Ênfase em filosofia– Educação maçônica

Então, onde se colocam os neomodernos e por quê? Essas pessoas são homens de negócios. Eles entendem o valor da linha de resultados e são homens de ação. Se algo está quebrado, você conserta. Eles acreditam que as duas coisas que estão quebradas sobre a Maçonaria é que nós não temos membros suficientes para apoiar nossas instituições de caridade e infraestrutura, muito menos influenciar a sociedade fora de nossa organização e que não temos dinheiro suficiente para pagar nossas contas. Eles acreditam que a abordagem ativa dos Status-Quos às finanças de simplesmente cortar o orçamento a cada ano está minando os propósitos da fraternidade e acabará fracassando. Eles acreditam firmemente que aumentos substanciais de taxas para compensar a perda de números expulsarão a galinha dos ovos de outro dos Status-Quos inativos e significarão o fim da Fraternidade. Seu principal objetivo é preservar a existência da Maçonaria a todo custo. A única opção que resta, portanto, é aumentar o número de membros de volta ao nível necessário para sustentar nossas instituições de caridade e infraestrutura. Provavelmente será necessário sacrificar alguns dos nossos edifícios elaborados e grandiosos ao longo do caminho. Eles são homens práticos. Então, como aumentamos os números? Os neomodernos acreditam que existem muitos homens bons por aí que fariam bons maçons, pelo menos bons o suficiente para serem aceitáveis. Se conseguirmos que esses homens ingressem, para pagar as contas e um número suficiente deles se tornar ativos em atividades de loja que sejam atraentes para ainda mais homens, poderemos perpetuar a Fraternidade indefinidamente.

Eles acreditam que a Fraternidade sempre evoluiu e deve evoluir à medida que a sociedade em que vivemos continua a mudar. Eles concordam com os Status-Quos de que devemos continuar a relaxar os requisitos de vestimenta para que os homens se sintam confortáveis quando vierem à Loja. Eles acreditam que devemos incluir mais atividades familiares, porque o jovem de hoje é muito mais interessado em gastar a quantidade limitada de tempo de lazer que ele tem com sua jovem família do que em se relacionar com outros homens. Devido aos estilos de vida cada vez mais urbanos e suburbanos, nosso possível membro não tem mais tempo para passar noite após noite na Loja e incontáveis horas aprendendo palestras. Ele será atraído para a ordem em parte por causa de seus bons trabalhos, por isso devemos continuar no nível atual e anunciar cada vez mais nosso envolvimento para que os melhores homens sejam atraídos. Ele não concorda com os Neoantigos e Status-Quos que os homens atraídos e iniciados desta forma seriam inúteis ou mesmo prejudiciais porque afinal de contas, eles estariam pagando taxas e apoiando as instituições de caridade, e alguns até se interessariam pelo ritual e por perpetuar a fraternidade.

Além disso, se ficarmos sem ritualistas, agora temos a capacidade moderna de gravar a coisa toda e mostrá-la a centenas de cada vez. Afinal, o homem moderno agora aprende com vídeos, não livros, e certamente não de um indivíduo sentado sozinho, de boca a orelha; isso é muito ineficiente, e os jovens não são mais treinados para aprender assim. Eles não têm mais esse tipo de paciência. O ritual inteiro não está publicado em algum lugar na internet, então qual é o dano em gravá-lo? Esta é a posição daqueles que eu chamo de Neomodernos, e embora algumas dessas pessoas tenham tentado essa abordagem e determinado por resultados medidos que não tiveram sucesso, essas pessoas parecem estar suplantando os Status-Quos em posições de liderança em vários de nossas Grandes Lojas e alguns dos corpos adjuntos, notavelmente o Shrine. O Shrine já relaxou seus padrões para eliminar a exigência de pertencer a um dos ritos. Esta posição do Shrine é completamente compreensível. A organização tem apenas dois propósitos declarados, apoiar as instituições de caridade e a irmandade. Além disso, eles estão entre os mais atingidos pelo declínio dos números de membros e o custo de seus hospitais está aumentando.

E onde essa nova galera, os Neoantigos, se colocam sobre tudo isso? Em primeiro lugar, embora apreciem os Status-Quo por preservar a Fraternidade durante todos esses anos, eles sentem que fomos longe demais nos Estados Unidos com essa coisa “no nível”, estendendo-a aos profanos. Os bons maçons permitem que um “homem marginalmente bom” se torne um membro na expectativa confiante de que a exposição à Fraternidade polirá suas arestas. Este homem traz alguém que é marginalmente “menos bom” do que ele, com a esperança de que a Maçonaria o “torne melhor”. Eventualmente você tem uma situação em que estamos tendo julgamentos maçônicos para tentar nos livrar daqueles que estão prejudicando a reputação da Fraternidade e destruindo sua harmonia, homens que obviamente não têm o caráter para cumprir suas obrigações ou talvez o entendimento de saber o que eles são. Pior ainda, não estamos tendo esses julgamentos, mas sim tolerando esse tipo de comportamento. Nossos iniciados entram na Loja e ficam apropriadamente impressionados com nossas obrigações solenes, apenas para descobrir que, apesar de todos esses elevados e sonoros princípios, muitos de nossos membros estão se comportando abertamente como se nunca os tivessem ouvido. Somos, então, classificados como hipócritas pelo iniciado de qualidade e descartados como os remanescentes de algo que já foi, com certeza, uma grande instituição. Você vê, o jovem que peticiona em nossas Lojas hoje é bem diferente do que ele era dez anos atrás. Ele viu todos os filmes e pesquisou na internet procurando e encontrando informações sobre a fraternidade. Ele pode até ter lido alguns dos livros. Embora as informações que ele adquiriu possam ser verdadeiras ou falsas, ele tem uma opinião favorável sobre a fraternidade, porque solicitou afiliação mesmo que não conheça realmente um maçom. Ele tem grandes expectativas de ser recebido em uma instituição com uma história antiga e muitos mistérios a revelar que irão melhorar sua reputação e satisfazer sua curiosidade intelectual. Ele não espera que esse esforço seja fácil ou barato. Nada fácil e barato poderia ser tão valioso. Ele espera ter que estudar e trabalhar pelo que recebe, e espera que valha a pena. Ele espera que seus novos irmãos sejam como ele, apenas melhor informados. Ele quer fazer parte de uma irmandade mística que veio de eras passadas e que está engajada em grandes e importantes empreendimentos, importantes não apenas para ele, mas para a civilização como um todo.

Ele certamente não está esperando algum tipo de clube cívico superficial em que os homens finjam ser profundos e sábios e ainda assim não se comportem melhor do que qualquer outra pessoa que ele conheça. Os neoantigos querem encontrar e iniciar este homem. Eles acreditam que o respeito pela instituição exige que um irmão que esteja participando de uma reunião maçônica se vista com as melhores roupas que possua, se possível. Por outro lado, se as circunstâncias realmente ditarem que se trata de uma camisa branca e um macacão, ele é bem-vindo entre eles. Esses Irmãos acreditam na excelência no ritual, assim como os Status-Quos, mas eles insistem na parte de excelência e acreditam que o sujeito que a entrega deve saber o que significa e dize-lo quando disser. A ignorância do simbolismo, da história e da filosofia é tolerada, mas a apatia em relação a eles não é. Eles simplesmente preferem não gastar seu tempo comparecendo à Loja com aqueles que não estão interessados ​​nesses assuntos. A irmandade é importante para esses neoantigos, mas frequentemente em um ambiente mais formal e envolvendo uma maior qualidade de alimentos e arredores. Eles estão dispostos a pagar por essas coisas.

Ao contrário da opinião dos Status-Quos, eles não acreditam que sejam melhores que os outros irmãos, mas eles acreditam que deveriam poder formar Lojas para que possam se associar primariamente a irmãos de interesses similares. Esses neoantigos têm padrões de conduta muito altos para a consideração de futuros maçons. Eles acreditam que só porque um homem parece ser de bom caráter, ele necessariamente não tem “direito” a ser membro de sua Loja, e que se ele não se encaixa bem em suas opiniões e interesses, como um membro, ele pode atrapalhar harmonia da Loja. O número de membros nestas Lojas é normalmente limitado, porque os membros desejam cultivar um relacionamento muito próximo com todos os outros membros da Loja. Eles acreditam que isso seria difícil de fazer com um grande número de membros. Por outro lado, esses Irmãos acreditam que, se você não estiver suficientemente interessado em participar de todas as reuniões da Loja, pode ter sido motivado a ingressar por motivos com os quais eles não concordam. Não deve haver maçons inativos.

Embora eles concordem com os neomodernos que a mudança é necessária, eles diferem deles de várias maneiras significativas. Eles acreditam que a experiência iniciática, incluindo o ritual, é extremamente importante. Eles acreditam que os homens são atraídos por instituições como a nossa, não pelo baixo custo ou pela facilidade de se tornarem membros, mas que exatamente o oposto é verdadeiro. Quanto mais difícil é obter algo, mais valioso parece. Eles também acreditam que a instituição deve cumprir suas promessas, fornecendo associações de qualidade e informações intelectualmente estimulantes, para não mencionar boa comida. Esses irmãos estão dispostos a pagar por essa experiência, muitas vezes várias vezes o que pagam por taxas em outra Loja Status-Quo. A abordagem dos neomodernos parece para aos neoantigos estar pervertendo o que eles percebem como a missão da fraternidade e transformando-a em algo completamente diferente do que originalmente era, apenas para preservar o nome “Maçonaria”.

Este artigo não pretende tentar persuadi-lo a assumir um lado ou outro sobre o debate em curso, embora, seja claro que eu já decidi a minha posição. Ele pretende conscientizá-lo de que existe um diálogo contínuo em escala nacional e que muitas Grandes Lojas já estão realizando ações como resultado da influência de um lado ou de outro. Para saber mais sobre essa controvérsia, recomendo os seguintes sites. Eles descrevem com algum detalhe o que é proposto pelos neomodernos e também pelos neoantigos. Lembre-se de que esses termos são meus e não podem ser encontrados em nenhum lugar da web.

Autor: Sir Knight John L. Palmer
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Recursos para mais informações

Restauração Maçônica – (Neoantigos)

http://www.masonicrestoration.com/

http://traditionalobservance.com/

http://www.freemasons-freemasonry.com/masonic_education.html

Observando o ofício por Andrew Hammer

Renovação Maçônica – (Neomodernos)

http://www.masonicrenewal.org/

http://www.pagrandlodge.org/gmaster/renaissance.html

A Maçonaria e o abismo geracional: uma proposta de discussão

O abismo entre o dizer e o amar. - Psicóloga Danielle Vieira

Um espectro ronda a Maçonaria. O espectro do abismo geracional.

Mas o que é o abismo geracional? Grosso modo, seria a distância nas diferenças de opinião entre uma geração e outra no que tange às crenças, à atitude política e valores[1]. Na Maçonaria ela é perceptível – apesar da ausência de trabalhos, no Brasil, que aprofundem esta questão – nas diferenças de visão entre os maçons mais jovens e os maçons mais velhos.

Crises decorrentes de diferenças de visão de mundo não são exatamente de uma novidade. A maçonaria especulativa moderna, em seus mais de trezentos anos, já passou por outros conflitos ideológicos fortes, como, por exemplo, o conflito entre os Moderns e os Antients na maçonaria inglesa na segunda metade do século XVIII, entre os racionalistas e os místicos também no século XVIII, entre teístas e ateus no século XIX, entre revolucionários e conservadores em vários períodos históricos.

Haveria, então, uma diferença entre aquelas crises e a atual?

Os primeiros a chamar a atenção para essa questão (para variar) foram nossos irmãos do Norte. A Maçonaria norte americana se viu entre dois extremos do fim da Segunda Guerra Mundial à virada do Milênio. A greatest generation, que cresceu sob a depressão econômica e venceu os nazistas afluiu em massa para espaços de sociabilidade como a Maçonaria. Os seus filhos – os Baby Boomers – entretanto, não demonstraram nenhum interesse para tal, preferindo a via da contestação do que viam como “velhos valores”

Jay Kinney, em sua obra “O Mito Maçônico” (Record, 2010), destaca o que considera os obstáculos mais óbvios:

  • O declínio das famílias nucleares;
  • O desaparecimento gradual das esferas sociais separadas para homens e mulheres;
  • O aumento na exigência de horas de trabalho;
  • A perda da influência da religião organizada;
  • A informalização da sociedade;
  • A balcanização dos grupos de idade (pp. 327-328)

Colocando em bom português: hoje as pessoas têm menos tempo livre, menos referências intrafamiliares ou sociais e menos disposição para atividades formais, preferindo ficar em casa assistindo TV ou jogando Pokemon Go.

O desafio que existe nos EUA é, também, perceptível aqui.

A última década assistiu a um aumento considerável – falo sem conhecimento de estatísticas, partindo apenas da minha vivência – do ingresso de jovens na Maçonaria. Esta geração, nascida no fim dos anos 70 e no início dos anos 80 (Geração X) parece ser em boa medida formada por jovens que viveram na Ordem DeMolay nos anos 90 e 2000. Só que essa geração é uma de transição. Conviveu com as tecnologias analógicas e digitais. Com a Enciclopédia Barsa e com a Wikipedia. O desafio, agora, consiste em preparar a Maçonaria para a chegada de uma nova geração, aquela nascida nos anos 90 e 2000 (geração Y), já sob o signo da sociedade da informação.

Vejam como reside o problema. A Maçonaria pode ser percebida como um sistema de moralidade, velado por símbolos e ilustrado por alegorias. Porém, o debate que esta geração propõe ocorre em outros termos. Enquanto as lições da Maçonaria giram em torno de Virtudes Teologais (Fé, Esperança, Caridade) e Virtudes Cardeais (Temperança, Fortitude, Prudência e Justiça), da boca da geração Y saem palavras que denotam outra linguagem moral: homofobia, machismo, gordofobia, preconceito, consciência social, politicamente correto [e incorreto].

Enquanto aquelas estão cada vez mais escamoteadas do debate público (a não ser quando ligadas às novas), essas ocupam espaço, adquirem significado (ainda que camaleônico), possuem valor e força compulsória.

Quando este dois sistemas de linguagem se encontram, instaura-se um legítimo diálogo de surdos e o conflito é inevitável. Os primeiros campos de batalha serão, provavelmente, as Ordens Paramaçônicas Juvenis (Ordem DeMolay e Ordem das Filhas de Jó), justamente as fontes de renovação da vida maçônica da última década.

E este campo de batalha, o do debate público, é precisamente aquele para o qual a Maçonaria deixou de se preparar.

E o saldo pode ser bastante negativo, já que a Geração Y vem adquirindo uma expertise cada vez maior no linchamento virtual coletivo[2].

“Ora, mas quem se importa se esses meninos mimados xingam muito no Twitter?”. Bem, nós deveríamos, se pretendemos que a Maçonaria sobreviva a nós (senão podemos começar a encomendar um novo lema: “Après nous le déluge”).

É preciso romper, antes, com dois preconceitos.

O primeiro é o preconceito contra a juventude, de achar que a nova geração é sempre um lixo em comparação com um passado idealizado. Desde os tempos de Sócrates[3], a geração mais antiga é pessimista com a geração mais nova.

O segundo é o preconceito contra a velhice, de achar que a juventude é “a época da rebeldia, da independência e do amor à liberdade”, e que, portanto, devemos confiar o futuro ao discernimento dos jovens como observou, mordazmente, o filósofo Olavo de Carvalho[4].

É bem verdade o que escreveu o filósofo José Ortega Y Gasset:

“O fato da rebelião [das massas] apresenta um aspecto ótimo; já o dissemos: a rebelião das massas é a mesma coisa que o crescimento fabuloso que a vida humana experimentou no nosso tempo. Mas o reverso do mesmo fenômeno é tremendo: vista deste ângulo, a rebelião das massas é a mesma coisa que a desmoralização radical da humanidade”[5]

Não é, portanto, uma tarefa fácil. É o trabalho de construir pontes entre as gerações. Só que as pontes são sempre vias de mão dupla, de forma que, se as coisas boas passam de um lado para o outro, o lixo também pode passar, em ambos os sentidos.

As Ordens Paramaçônicas serão vitais nesta nova realidade. Nelas os Maçons poderão aprender a linguagem dos jovens, para poder melhor transmitir o seu legado para a construção de um futuro e a defesa dos valores perenes sustentados na Ordem.

Isso não acontecerá, todavia, enquanto os maçons permanecerem imersos num mundo paralelo, desconectado do mundo real e recheado de mistificações autocongratulatórias com o seu passado, ressentimento com o presente e pessimismo com o futuro.

P.S.: Sugerimos a leitura dos artigos “The Millennial Generation and Freemasonry” (aqui a Parte 1 e a Parte 2) e “Millennial masonry: How those in their twenties and thirties are changing the Craft

Autor: Edgard da Costa Freitas Neto

Fonte: York Blog

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Notas

[1] – https://en.wikipedia.org/wiki/Generation_gap

[2] – Cf. JONSON, Ron. Humilhado. Como a era da Internet mudou o julgamento público. São Paulo: Bestseller, 2015

[3] – http://blogs.oglobo.globo.com/luciana-froes/post/conflito-de-geracoes-496043.html

[4] – http://www.olavodecarvalho.org/textos/juvenil.htm

[5] – ORTEGA y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Rio de Janeiro: Bibliex, 2006, p. 147

A Maçonaria é ainda relevante?

Por uma Igreja Relevante | Cetem – SOU

A questão de se a Maçonaria ainda é relevante em nossa sociedade em constante mutação é frequentemente colocada em fóruns maçônicos e por profanos. Isso indica que é de importância a muitos, a maioria Irmãos. Além disso, a questão é frequentemente colocada quando se discute as condições nas quais nossas Lojas estão atualmente; talvez até mesmo um desespero ante o que parece ser o futuro da Maçonaria. Na minha opinião, esse é um aspecto um tanto limitado de “relevância,” isto é, a habilidade de contribuir positivamente à solução dos problemas ou entraves defrontados pela Maçonaria e pelos Irmãos, como tais, em suas vidas diárias.

O dicionário Webster define “relevante” como:

“Etimologia: Latim medieval relevant-, do latim, particípio presente de revelare alçar. 1. Ter suporte significativo e demonstrável no assunto em questão 2. Suprir evidências tencionando provar ou desprovar qualquer assunto em debate ou sob discussão <testemunho relevante> 3. Ter relevância social 4. A qualidade ou estado de ser relevante; pertinência; aplicabilidade.”

Para os propósitos deste trabalho, eu enfatizaria as últimas duas definições. Apesar de tudo, queremos nos certificar de que o que fazemos vale nossos esforços!

Tentarei lidar com essa questão principalmente de seus aspectos morais. No entanto, seria quase impossível apresentar um tratado completo em artigo. Uma discussão completa necessita provas de toda alegação ou opinião, o que está além do escopo de minhas presentes reflexões. O que permanece é um esforço para apontar brevemente diversos ângulos possíveis de “relevância” e deixar para os leitores desenvolverem essas questões.

Quando discutindo a “relevância” em nossas vidas de sermos maçons, devemos distinguir entre quatro aspectos principais:

  • A Maçonaria é relevante para minha vida diária?
  • Outras pessoas consideram o fato de eu ser maçom como afetando minhas atitudes e ações, o que prova sua relevância a mim?
  • Tem a Maçonaria, como uma organização, qualquer relevância às sociedades atuais, da forma que ela existe?
  • A sociedade considera nosso corpo maçônico como relevante para resolver os problemas presentes ou futuros da sociedade humana?

No texto a seguir tentarei lidar apenas com o primeiro aspecto acima. Parece-me que aquilo que as outras pessoas pensam acerca de nós como maçons ou de nossa organização não causa dúvidas sobre nossa relevância entre irmãos. Somos nós quem temos de nos convencer de que pertencer à Maçonaria é de valor para nós como indivíduos.

A maioria de nós nos defrontamos com expressões de dúvidas ou mesmo de ridículo quanto à Maçonaria. Às vezes, podemos também duvidar da relevância de nosso Ofício Antigo à nossa célere e mudadiça sociedade. Quando usamos a frase “um peculiar sistema de moralidade”, consideramos os ensinamentos morais de nosso sistema como relevantes para nossas vidas e para os julgamentos morais que temos de fazer, ou é tudo passeé? A fim de responder essas questões, devemos voltar aos nossos ancestrais, que se encontravam para espiritualizar ou moralizar, como costumavam chamar seu filosofar. Parece que nós temos de nos fazer quatro perguntas:

  • A necessidade de socializar do homem com os outros mudou?
  • A necessidade de sentimentos fraternais próximos deu completamente lugar à necessidade apenas de conquistas pessoais?
  • A necessidade de se discutir ou ponderar sobre questões morais deixou de existir?
  • Todas essas mudanças necessitam de uma alteração de nossos princípios morais?

Vamos tentar examinar essas quatro questões.

A necessidade do homem de socializar

Quanto à primeira pergunta, espero que você concorde comigo em que a necessidade do homem de socializar certamente não desapareceu. Os motivos podem ter mudado, talvez os propósitos para socializar com os outros servem para outros fins também, mas a necessidade real do indivíduo ainda existe. O homem continuou um animal social e, a despeito dos meios de comunicação modernos, ainda precisamos de contato humano direto.

Ao mesmo tempo, devemos entender que as implicações da ênfase de sermos uma fraternidade, de reter relações fraternais. Sem uma longa discussão de significados sociológicos, pode-se seguramente dizer que tal relacionamento é baseado em um laço emocional. Jaz na esfera das inter-relações familiares e apenas pode existir quando há envolvimento pessoal. Quando encontramos um estranho pela primeira vez, todos sabemos o que sentimos assim que descobrimos que esse estranho é um Irmão. Pense em quanto logo nos abrimos um para com o outro, trocando experiências. Em minha visão, isso é uma prova da importância que vinculamos ao pertencer à nossa fraternidade antiga e ao seu sistema de princípios morais.

Competitividade versus fraternidade

Sem dúvida, nas democracias modernas ocidentais vivemos em uma sociedade competitiva, uma sociedade orientada à conquista. Espero que concorde comigo em que esses aspectos de nossa vida moderna não anulam, de modo algum, nossa necessidade de socializar. A sociedade moderna fez-nos mais competitivos e com uma necessidade clara de provar a nós mesmo aquilo que fazemos. No entanto, devemos nos perguntar se conquistas pessoais se tornaram, em todos os casos, mais importantes do que o contato (emocional) pessoal. Tornou-se predominante em nossas atividades diárias, sobrepassando todo o resto? Em minha visão, a resposta é: NÃO. Ainda temos a necessidade de nosso lugar.

Ao mesmo tempo, devemos entender que quando usamos o termo “Irmão” queremos dizer uma ligação emocional, típica de grupos pequenos como nossa célula familiar. Sem investigar exaustivamente as teorias sociológicas acerca de grupos pequenos[1], espero estar sendo claro a todos, por suas experiências pessoais, que, em tais grupos sociais pequenos, forças aumentando a coesão são entendidas como legítimas e devem ser reforçadas, enquanto que a competição dentro de tal grupo pequeno é considerada ilegítima e é fortemente censurada. Não só é considerada ilegítima, mas também origina antagonismos emocionais muito fortes. Segue que, tão logo haja duras competições entre irmãos dentro de uma Loja, elas originarão reações emocionais muito fortes. Pode-se reduzir uma Loja a migalhas. Uma característica típica de grupos pequenos é que eles são monolíticos e não permitem diversidade. Em oposição a isso, nossa sociedade moderna é baseada na diversidade. Por que motivo pregamos tolerância e moderação? Certamente esperamos que os irmãos deixem seus antagonismos do lado de fora das portas da Loja, para que se conserve a harmonia.

Do que eu acabei de dizer devemos perceber que aí existe uma tensão inerente entre nossa competitividade e nosso comportamento orientado à conquista fora da Loja e o envolvimento fraterno entre nós como Irmãos na Loja e como maçons.

No mais, ela pode indicar porquê competições dentro de nossas Lojas frequentemente originam tensões fortes e porquê é oposta ao que consideramos relações fraternas.

A necessidade de se discutir assuntos gerais

Apesar de nos comprometermos não discutir política e religião (fé) nas Lojas, parece-me que a troca de visões acerca de questões morais é ainda uma necessidade do homem moderno. Pode até ser uma das atrações da Maçonaria. Moralizar, como nossos ancestrais o fizeram.

O que parece a mim ser de extrema importância é que entramos em uma Loja, e na Maçonaria, para satisfazer outras necessidades. Um neófito Iniciado geralmente sente que ele tem oportunidades suficientes para competir fora da Maçonaria e da Loja. Parece que quando tudo é dito e feito, depois de cuidarmos de nossas necessidades materiais, depois de garantirmos todas as nossas necessidade pessoais e familiares, ainda precisamos satisfazer nossas necessidades sociais e espirituais. É isso que temos como objetivo atingir nos tornando irmãos desse laço místico. Tornando-nos Maçons.

Em minha visão, um dos fatores influenciando a força ou a fraqueza da Maçonaria hoje é nossa percepção de que devemos satisfazer essa necessidade ou fazer perder o interesse de muitos Irmãos jovens. Aqueles que vêm buscando relações intelectuais – pelo menos como fator adicional – desapontar-se-ão e logo saem. Esse é o motivo pelo qual considero satisfazer as necessidades intelectuais como uma parte importante de nossas Lojas.

Devemos mudar nossos princípios de moralidade?

Vamos nos voltar à questão de princípios morais e se eles, também, mudam rapidamente no ritmo em que sociedade moderna muda. Começemos concordando que não apenas a sociedade humana muda ao longo do tempo, mas que o grau de mudança aumentou imensamente, criando novas condições e novos problemas. A situação a qual chamamos de “A Vila Global,” com seus meios modernos de comunicação, sem dúvida mudou muitos aspectos de nossa vida. Entretanto, espero que concorde comigo em que os princípios básicos de moralidade permaneceram inalterados, mesmo que suas utilizações possam ter mudado ao longo do tempo.

Consideremos dois exemplos. A questão da igualdade é o primeiro princípio que vem à minha mente. No século XVIII, “todos os homens nascem iguais” significava apenas a nobreza. Então, se incluiu a burguesia e, finalmente, todos os homens foram incluídos, apesar de mulheres não serem consideradas “iguais”, foram as últimas a ser incluídas.

É mais provável que nós fomos os originadores do direito à autodeterminação, que se tornou lentamente aplicável aos direitos nacionais no século XIX e seguinte, e o direito das nações influenciaram a questão das minorias e de seus direitos. Como podemos ver, o princípio começou aplicável apenas a uma parte da sociedade e lentamente se ampliou para englobar todos os seres humanos.

Esses são apenas dois exemplos. O princípio da igualdade fora discutido em Lojas maçônicas e adotado por reformistas sociais. Começou com a igualdade de direitos (políticos e judiciais), mas é agora aplicado como igualdade de oportunidades a todos, sem considerar raça, religião e sexo. A ideia do estado de bem-estar social é uma descendente direta dos princípios morais adotados primeiramente por maçons. Agora, como maçons que se “encontram no nível,” acreditamos que ele se aplica apenas a nossos irmãos, ou aceitamos a aplicabilidade mais abrangente do princípio da igualdade?

Como maçons, temos algo a dizer sobre a desigualdade na sociedade fora de nossa Loja? Temos o que dizer sobre abusos dos direitos da minoria? Isso não é relevante para nós como cidadãos?

Espero que concordem comigo em que o que acabamos de dizer significa que a necessidade de se discutir questões morais com os outros permaneceu inalterada. Eu dou um passo mais além e digo que há uma necessidade de se avaliar constantemente os princípios de si mesmo e os ajustar quando necessário para novas situações. Em outras palavras: quando falamos do princípio do governo da maioria, também predominante na Maçonaria, estamos na verdade discutindo princípios morais maçônicos que tipificam qualquer sistema democrático de vida. É a necessidade constante de um cidadão democrático conferir os limites de sua liberdade contra aqueles do seu próximo; os direitos dele contra aqueles de outros; os limites que devem ser colocados sob o governo da maioria. Então, também aqui, devemos concluir que os princípios de nosso “peculiar sistema de moralidade” ainda são válidos como o eram há décadas. Nosso sistema é “peculiar” no modo pelo qual é ensinado através de símbolos e alegorias. Essa é a única peculiaridade de nosso sistema.

Então, a Maçonaria ainda é relevante?

O que foi escrito acima tem alguma relação com a Maçonaria? Tudo! A Maçonaria é um sistema de moralidade que nos ajuda a nos reformar de acordo com princípios morais ideais. Fazer o que Sócrates chamou de “viver a boa vida”, significando: a única vida que vale ser vivida, uma vida de acordo com os princípios morais de si mesmo. Temos todos sucesso? Certamente não! Sendo seres humanos normais – pelo menos espero que sejamos -, temos nossas fraquezas humanas. Nem sempre conseguimos o que esperamos, mas ao menos nos empreendemos a tentar chegar o mais próximo a esse objetivo. Não é melhor assim, mesmo se somente um pouco?

É interessante que a Maçonaria floresce em sociedades na quais homens têm crenças arraigadas e um senso de compromisso. Uma atmosfera na qual alguém tem como seu dever lutar pelas causas nas quais ele acredita. A Maçonaria não pode florescer em uma sociedade na qual haja uma atmosfera de apatia devido à visão de que nada pode ser feito para alterar injustiças, nem da qual o homem se sinta alienado.

Deve-se talvez perceber que novos movimentos de extremistas políticos e religiosos, de fundamentalismo, têm crescido por todo o globo e estão tentando obter supremacia. O que nós, como maçons, temos a dizer sobre isso, baseado em nossos princípios morais?

Preciso dizer mais? Parece-me que em toda sociedade moderna a Maçonaria pode contribuir para uma melhor atmosfera social e uma maior sensibilidade às necessidades de todos os membros dessa sociedade. Especialmente os fracos e os necessitados. Como maçons, devemos nos orgulhar disso.

Como organização, nós nos abstemos de nos envolver em assuntos políticos e religiosos, mas maçons – como pessoas físicas – são parte de uma fraternidade internacional de homens que expressaram seu compromisso com certos princípios morais e com sempre os conservar, de homens que poderiam influenciar a sociedade dando bons exemplos. Não pregamos nem damos publicidade a nossas contribuições. Por outro lado, empreendemo-nos em nos certificar e recertificar constantemente, e tentar ser dignos do título “homo sapiens”.

Estamos prontos para ser – ao menos em parte do tempo – mais atenciosos com os outros e mais críticos de nós mesmos, e não dos outros? Nossa própria vida se tornará mais rica como resultado de sermos maçons em ações e em pensamentos?

Bem, deixo para que cada um de vocês reflita sobre isso.

Autor: Daniel Doron
Traduzido por: Rafael Rocca dos Santos

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Nota

[1] – Ver qualquer livro sobre pequenos grupos sociais, em particular as obras de Emile Durkheim.

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