“Quanto menos desejos você tem, mais perto está dos deuses”: a atualidade de Sócrates

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A morte de Sócrates (Jacques-Louis David – 1787)

Sócrates é um formidável remédio contra a presunção. Quando você está se achando o rei do universo, quando você olha para o espelho e admira apaixonadamente o que vê, quando você começa a acreditar que é uma prova viva da existência de Deus, bem, é tempo de pensar em Sócrates. Maior de todos os filósofos, grande mestre de gênios como Platão e Aristóteles, ídolo de todos os pensadores relevantes que vieram depois dele pelos séculos afora, Sócrates pronunciou a maior frase contra a arrogância da história da humanidade: “Tudo o que sei é que nada sei”.

Sócrates (470-399 a.C.) mudou a história da filosofia. Deu a ela um inédito caráter prático, moral e ético. Com ele a filosofia se transformou como que num manual para tornar melhor a vida de todos nós. Para nos ajudar a enfrentar as adversidades. Para nos aprimorarmos interiormente. Pensador nenhum se igualou a ele, e no entanto Sócrates jamais escreveu um único livro. Suas ideias e atitudes foram transmitidas à humanidade sobretudo pelas obras de Platão, seu discípulo. Sócrates é o personagem principal dos textos de Platão (428-348 a.C.).

Ele reuniu um número extraordinário de virtudes. Tinha uma vida simples. “Quanto menos desejos você tem, mais perto está dos deuses”, disse ele. Sêneca, o estoico romano, escreveu com reverência que Sócrates não se deixava perturbar pelos bens materiais: desfrutava deles se os tinha. Abstinha-se deles sem sofrimento se os perdia. Foi corajoso na vida e na morte. Combateu em algumas guerras de Atenas, a cidade que o fez ser o gigante que foi e depois o matou. Recebeu condecoração por bravura. Há registros de resistência invulgar em seus dias de guerreiro: andava de pés descalços e sem casaco sob temperaturas baixíssimas.

Tinha além do mais senso de humor. “Case-se”, recomendava ele a todos. “Ou você encontra uma boa mulher e vira um homem feliz ou acha uma megera e se transforma num filósofo”. Xantipa, sua mulher, era reconhecidamente insuportável. Com ela teve três filhos.

Na maior parte da vida de Sócrates, Atenas estava em seus dias de esplendor. A Guerra do Peloponeso, em que Atenas foi derrotada por Esparta, selou a sorte de Sócrates. Atordoada, humilhada, a cidade procurou culpados por sua derrocada. Sócrates foi acusado de corromper a juventude com suas ideias. Um tribunal condenou-o a tomar cicuta. Seus discípulos armaram uma fuga, mas Sócrates recusou. Ele agiria como um covarde, e então seu exemplo não teria valor para a posteridade. Para ser Sócrates ele sabia que tinha que pegar o copo que seu carrasco lhe passaria e tragar seu conteúdo com gloriosa tranquilidade.

A morte de Sócrates está registrada num clássico da literatura universal: Fedon, de Platão. Sócrates consolou os discípulos, devastados. Lembrou a um deles que tinha uma dívida que devia ser paga. Pediu instruções ao homem incumbido de dar-lhe veneno, para evitar problemas na execução. Pronunciou, prestes a tomar a cicuta, palavras que o jovem Platão tornaria eternas:

“Chegou a hora de partir, vocês para a vida, eu para a morte. Qual dos dois destinos é melhor, só os deuses sabem.”

Autor: Paulo Nogueira

Fonte: Diário do Centro do Mundo

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Pensar é perigoso; não pensar é mais perigoso ainda

Mente vazia, oficina do diabo: entenda o profundo significado dessa frase -  Portal

“A minha convicção”, escreveu Hannah Arendt, “é que o pensamento nasce de acontecimentos da experiência vivida e que deve continuar-lhes ligado como aos guias que servem para nos orientarmos.” [1]

Sem dúvida, na vida de Arendt a experiência vivida quintessencial para determinar os rumos de seu pensamento foi sua condição como judia alemã perseguida pelos nazis.

Obrigada ao exílio em 1933, ano do incêndio do Reichstag e do início do III Reich hitlerista, Arendt emigrou para a França. Ali, em 1937, perderia sua cidadania alemã, tornando-se uma apátrida, categoria que depois teria presença tão forte em sua obra.

Os apátridas, já que foram despidos do escudo protetor da cidadania – que ela definia como “o direito a ter direitos” -, adentram numa zona perigosa da condição humana, onde são considerados por poderes totalitários como seres matáveis, sub-humanos.

Arendt, tratada como pária pela Alemanha que expulsou esta filha de seu ventre, na França chegou a ponto de ser encarcerada no campo de concentração de Gurs em 1940. [2]

Libertada em maio de 1941, emigrou para os EUA, em uma época em que já se desenrolava o mecanismo fatal da Solução Final: o extermínio em massa de judeus nos campos de concentração como Auschwitz, Treblinka e Birkenau:

“Eis os fatos: 6 milhões de judeus, 6 milhões de seres humanos foram arrastados para a morte sem se poderem defender… Não há história mais difícil de contar em toda a História da humanidade. E, no entanto, nós precisamos desesperadamente, para o futuro, da história verdadeira desse inferno construído pelos nazis. Não só porque tais fatos alteraram e envenenaram o próprio ar que respiramos, não só porque povoam os nossos pesadelos e impregnam os nossos pensamentos dia e noite, mas também porque se tornaram a experiência fundamental da nossa época e a sua angústia fundamental.” [3]

O totalitarismo, como grande catástrofe do século XX, torna-se central para o pensamento de Arendt, filósofa devotada a compreender como foram possíveis as atrocidades e os horrores totalitários. Sintetizando as conclusões arendtianas, Catherine Vallée pondera:

“o mal extremo infiltra-se no mundo quando os cidadãos abandonam o espaço público-político para se refugiarem na segurança e no aconchego dos valores privados; quando aceitam cumprir ordens que desaprovam, lavando daí as mãos; quando desistem de pensar por si mesmos para irem na onda. Existe uma única defesa contra o totalitarismo: saber desobedecer, ousar pensar pela própria cabeça, nunca desistir de si. Não desertar do espaço público, pensar por si mesmo, ousar desobedecer: estas exigências conduzem Hannah Arendt a voltar-se para Sócrates como para alguém de quem a atualidade ainda tem muito que aprender.” [4]

Sócrates, que defendia que uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida, representaria para Arendt um emblema de vida filosófica dedicada àquela reflexão ajuizada que ela enxergava como antídoto salutar contra o totalitarismo. Vale lembrar que toda a reflexão sobre Adolf Eichmann, no livro-reportagem que Arendt escreve em 1961 a convite da revista The New Yorker, versa sobre as consequências funestas e atrozes da irreflexão:

“Eichmann representa o exemplo-tipo daquilo a que hoje chamamos ‘os criminosos de gabinete’ ou ‘os funcionários do mal’. Se ele nunca participou diretamente nas execuções, nem por isso deixou de ser o organizador eficaz e zeloso da Solução Final. O que Arendt descobre em Jerusalém é que esse homem capaz de crimes tão monstruosos não tem nada de um monstro: é descrito como normal, não tem tendências para o assassinato; também não é um ideólogo fanático, nem mesmo um anti-semita convicto. A noção de ‘banalidade do mal’ procura portanto revelar esse mal novo que não tem raízes nem motivos, que faz somente parte do ofício como se se tratasse de uma tarefa vulgar, e onde se unem num incompreensível paradoxo o caráter tão pouco ‘malvado’ do criminoso e o caráter tão monstruoso dos crimes que, apesar disso, ele cometeu.

Como se sabe, o único traço marcante de sua personalidade… é que ele se mostra ‘incapaz de pensar’. Não quer isto dizer que seja estúpido, mas repete fórmulas já gastas, estereótipos; e que se mostra totalmente desamparado quando se lhe apresenta uma situação nova para a qual não dispõe de uma banalidade de catálogo. Recusar-se a pensar é o mesmo que dizer, sobretudo, que Eichmann nunca se interrogou sobre o sentido das suas ações: ‘lavou as mãos’ da Solução Final que ele próprio organizou, demitindo-se de toda a responsabilidade e recusando-se a qualquer juízo pessoal.” [5]

Se a irreflexão, a idiotia, a incapacidade de assumir responsabilidade por seu próprio juízo e por suas próprias ações, acaba levando-nos ladeira abaixo rumo aos horrores totalitários, então é evidente que o só há remédio na difícil arte de pensar com coragem e autonomia, com senso crítico sempre alerta e vigilante, ousando dizer “não” àqueles que nos ordenam que façamos algo que julgamos, através de nossa faculdade de discernir entre Bem e Mal, como um mal evidente. É o que Arendt resumiu com a bela expressão: “pensar sem corrimão”.

Ainda que viver sem refletir seja plenamente possível, e não faltam exemplos em nosso cotidiano daqueles que parecem atravessar a terra como sonâmbulos, aplicando à suas mentes a perigosa lei do mínimo esforço, segundo Arendt “fracassa em fazer desabrochar sua própria essência – ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente viva.” [6]

Demitir-se da tarefa de pensar por si mesmo, recusar o peso da responsabilidade própria, é o atalho mais rápido para que nos tornemos os cordeirinhos obedientes dos poderes mundiais que transformam os seres humanos em supérfluos e que, por escassez de amor ao mundo e à pluralidade a ele inerente, praticam as hecatombes de diversidade de que o século XX foi o palco sem precedentes.

Sócrates, o pensador-dialogante, agindo no espaço público através de suas provocações questionadoras, praticando a maiêutica (o parto das ideias) no coração da polis, poderia ser visto como símbolo da conduta daquele que não deseja permitir que o povo não pense.

Ainda que seja xingado por seus detratores, apelidado de mosca irritante, Sócrates é aquele que não dá permissão para a preguiça do pensamento. Sua ação política, ainda que ele não tenha sido governante nem tenha ocupado cargos públicos, tem a ver com esta presença no espaço público, em que ele toma a iniciativa de instaurar zonas de diálogo onde o pensamento é exercitado em comum, entre a multiplicidade dos humanos.

Como conciliar esta imagem de Sócrates, o cidadão que dissemina a reflexão pelo corpo social, com a imagem platônica, veiculada pela obra “A República” (Politeia), onde o socratismo se tinge de dogmatismo, ou mesmo de tirania, através da doutrina do filósofo-rei?

Para Arendt, Platão teria traído o Sócrates real, ou melhor, haveria no corpus platônico dois tipos de diálogos: os primeiros, veículo do Sócrates autêntico, são aqueles que conduzem a aporias e são verdadeiras máquinas de demolição do dogmatismo, que fazem o pensamento fluir, ainda que ele não chegue a descansar no remanso tranquilo das certezas indubitáveis; os segundos, veículo de um Sócrates inventado por Platão, seriam mais dogmáticos e revelariam uma figura arrogante, prepotente, que pensa poder impor à polis o governo monárquico do filósofo-rei, superior a quaisquer outros governantes devido à perfeição moral de seu ascetismo existencial e de sua cognição que ascende ao transcendente.

Arendt apoia-se, para realizar esta divisão da obra platônica em duas metades, no helenista G. Vlastos, que defende: “Nas diferentes partes do corpus platônico, encontram-se dois filósofos com o nome de Sócrates. O indivíduo continua a ser o mesmo, mas em grupos de diálogos diversos vemos ele praticar filosofias tão diferentes que é impossível terem sido descritas em coabitação constante no mesmo cérebro, a menos que se tratasse do cérebro de um esquizofrênico.” [7]

Filiando-se ao legado do primeiro Sócrates, o cidadão-pensante, a mosca na sopa da irreflexão, o parteiro de diálogos que movem o pensamento, Arendt afirmará que a pluralidade é a lei da terra, que “nenhum homem é uma ilha” (John Donne), e que a quintessência da política está aí: no fato de sermos indivíduos que participam de uma comunidade e por isso são inextricavelmente ligados aos outros por responsabilidades. Pensar é também uma responsabilidade, assim como respeitar a pluralidade que é inerente à condição humana.

“Arendt não é Lévinas. A ‘responsabilidade pelo outro’ enraíza-se, para Lévinas, no encontro do rosto do outro, necessariamente então no singular; e uma tal responsabilidade é por essência ética. A responsabilidade arendtiana é ‘responsabilidade pelo mundo’, é uma responsabilidade política que reclama um combate por direitos iguais para todos. Há pois um cuidar dos outros no plural, próximos e afastados, que encontramos ou que ficarão para sempre sem rosto, responsabilidade para com aqueles que vivem, mas também para com aqueles que hão-de viver. Arendt está, quanto a este ponto, muito próxima de seu amigo Hans Jonas: a responsabilidade pelo mundo é sempre responsabilidade pelo seu futuro.” [8]

Temos a responsabilidade de pensar, assim como devemos estar alertas quanto à arrogância de crermos que chegamos na verdade, que possuímos o conhecimento irrefutável do real. O pensamento se paralisa no sujeito que acredita demais que já sabe de tudo, e liberta-se quando conseguimos ir além de nossas crenças e opiniões, num processo de auto escrutínio e auto sondagem que cada eu tem a responsabilidade de fazer em meio à comunidade plural em que vive.

“Arendt destaca o lado ‘demolidor’ de Sócrates, que arrasa ‘os preconceitos e as crenças mal fundadas’, isto é, ‘as regras de uma sociedade dada numa época dada’, regras que pouco a pouco se tornam costumes e deixam de ser compreendidas por não serem interrogadas, são aplicadas de maneira mais ou menos mecânica, e que por isso deixam de ter sentido mesmo para quem as aplica. O conteúdo da regra pode então ser excelente, má é a relação que aquele que obedece mantém com a regra.” [9]

A adesão acrítica, impensada, a normais sociais reinantes em um dado momento histórico de uma sociedade específica, nunca poderá estar entre as práticas de um pensador que deseja pôr seu pensamento no exercício contínuo da avaliação da existência. O sabichão, que parou de estudar pois crê que tudo já aprendeu, é justamente o interlocutor preferencial de Sócrates, demolidor de pseudo-sábios, questionador infatigável dos seus concidadãos, e que segundo Arendt não visava ao saber definitivo, engessado, que conectamos ao termo Verdade e do qual Platão fez um ídolo perigoso.

Sócrates foi traído por Platão pois este quis pintá-lo, na República ou nas Leis, como um dogmático pregador de Verdades Transcendentes, quando o Sócrates de carne e osso havia sido um pensador em exercício interminável de seu juízo e que não aderia aos diktats / ditames da época em Atenas. O pensamento deve explorar de modo audaz o processo interminável do exame crítico, que começa pela relação do eu consigo mesmo, o auto diálogo reflexivo que instaura a travessia do autoconhecimento.

A distinção entre pensar conhecer ganha então extrema importância: o pensamento é uma atividade que não visa o repouso final na tranquilidade de um conhecimento ganho de uma vez por todas.

Pensar de verdade é sempre soltar o corrimão e pensar além do que se conhece. 

Aquilo que Sócrates admitia, sua própria ignorância, não é um vazio, um oco, um nada, mas sim a plena ciência de que não conhecemos clara e distintamente quase nada; a admissão de ignorância é positiva, abre um espaço de liberdade, onde o juízo se exercitará em público, com os outros, na pluralidade da esfera pública onde, na democracia ateniense, a persuasão devia valer mais que a violência.

Duas atividades humanas são essencialmente políticas, e Sócrates não as separava: “ação e palavra”, que “supõem diretamente a relação entre os homens e portanto a pluralidade, “formam um todo”, pois “a ação política cumpre-se pela palavra; a palavra é, em política, uma das formas privilegiadas da ação… Para Arendt, ‘viver numa cidade [polis] significava que todas as coisas se decidiam pela palavra e pela persuasão e não pela força nem pela violência.’ Ao despotismo que caracteriza a vida privada da família, onde o dono da casa [despotes] exerce um poder absoluto, opõe-se a experiência não violenta da cidade onde tudo se faz pela persuasão.

Temos dificuldade, diz Arendt, em compreender hoje a força da persuasão [peithein] grega, cuja importância política é indicada pelo fato de Peithô, a deusa da persuasão, ter um templo em Atenas… Os atenienses tinham orgulho em resolverem, ao contrário dos bárbaros, os seus assuntos políticos pela palavra e sem o recurso à coerção; consideravam a retórica, arte da persuasão, a mais alta e verdadeira arte política.’ Persuadir é propor argumentos à razão de um interlocutor, é ‘cortejar o consentimento de outrem’; não é, portanto, nem coagir nem pressionar, é essencialmente deixar livre… Segundo Arendt, a prática do diálogo é a maneira socrática de ser cidadão e de fazer política.” (VALLÉÉ: 1999, p. 46) [10]

Se a política se diferencia da guerra, é porque a política baseia-se no intercâmbio persuasivo e a guerra na coerção violenta, mas além disso a política está na dependência do exercício do pensamento, enquanto a guerra triunfa no solo nefasto da estupidez.

Pensar de verdade, com os outros, no espaço público, é uma força política sem a qual vamos chafurdando no totalitarismo, reinado total de uma falsa opinião (a de que a pluralidade humana deve ser sacrificada, ou seja, seres humanos supérfluos devem ser exterminados em prol de uma unidade homogênea, como aquela que motivou o delírio genocida dos nazis e seu “arianismo”, racista e eugênico). Dialogar de modo civilizado, com mútua disposição para o aprendizado, é o que torna a convivência política passível de dar bons frutos quando se traduz em ação conjunta:

O diálogo socrático – travessia do pensamento, sem ter como destinação o remanso lago das certezas indubitáveis (tanto é assim que a maioria deles acaba em aporia, ou seja, numa situação embaraçosa, onde o mistério permanece… – tem um alcance político, e não só para a antiga Atenas; nós também, mais de 2.500 anos depois, ainda carecemos de compreender o quanto a política e o diálogo estão imbricados.

Mestre da arte dialogal, Sócrates não se limitou às conversações privadas entre um Eu e um Tu; seus bate-papos não se desenrolam dentro de casa, com parentes fechados no oikos. O diálogo rompe com as paredes da idiotia reinante e vai para o meio da fervilhante pluralidade humana:

“O objeto do diálogo socrático não é nem tu, nem eu, mas o mundo que está entre nós: a coragem, a justiça, a piedade… Há sempre espectadores para os diálogos de Sócrates, os quais podem, se o desejarem, tomar a palavra. Na linguagem de Arendt, o espectador é sempre ao mesmo tempo um juiz. Quando Sócrates interroga, quando alguém lhe responde para dizer o que lhe parece, são todos os que ali se encontram que aprendem a ver o mundo do ponto de vista de um outro, adquirindo assim uma ‘mentalidade alargada’, que permite julgar e que é a função política por excelência.” [11]

Autor: Eduardo Carli de Moraes

Fonte: A Casa de Vidro

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Notas

[1] – ARENDT, H. A Crise do Homem Moderno (1958), apud Vallée, p. 14.

[2] – AUSCHWITZ STUDY GROUP (ASG). “Hannah Arendt, the Prisoner of Gurs Camp”. http://auschwitzstudygroup.com/56-english/projects/the-forgotten-camps/445-gurs-3

[3] – ARENDT, H. Auschwitz e Jerusalém (1941-1966). Agora: 1993, apud Vallée, p. 13.

[4] – VALLÉÉ, C. Hannah Arendt: Sócrates e a Questão do Totalitarismo. Lisboa: Piaget, 1999, p. 14.

[5] – Idem, p. 19.

[6] – ARENDT, H. A Vida do Espírito. Citada por Revista CULT: https://www.facebook.com/blogacasadevidro/posts/2481619525197691.

[7] – VLASTOS, G. “Sócrates Contra Sócrates Em Platão”. In: Socrate: ironie et philosophie morale. Aubier, 1994, p. 70. Apud Vallée, p. 24.

[8] – VALLÉÉ, C. Op Cit, p. 26.

[9] – Idem, p. 39.

[10] – Idem, p. 46

[11] – Idem, p. 48.

Você.

TEXTOS FILOSÓFICOS – Rev. Padre Jorge Aquino +

Viver como Sócrates?

Fazer arte como os Beatles?

Escrever como Cervantes?

 

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Mito da caverna: um convite permanente à reflexão

Mito da caverna - abstracta - Filosofia, Sociologia e Psicologia

Mudanças bruscas tendem a assustar e é natural que vários de nós estejamos apreensivos com as notícias que chegam como prenúncio de um futuro que, para muitos, não existirá. Cada um tem se equilibrado na sua corda bamba para não sucumbir diante de uma realidade tão dolorosa. Eu, por exemplo, recorri à leitura e à Filosofia, que sempre foram meus alicerces, sobretudo, em momentos como este, propício a reflexões.

Nesta primeira etapa da quarentena, lancei um olhar mais aprofundado para o Mito da Caverna de Platão e gostaria de compartilhar com vocês algumas questões. Mas antes, os motivos da minha escolha. O primeiro ponto é que o filósofo grego que viveu entre o século III e IV antes de Cristo é um pensador atual e estamos imersos na mesma realidade descrita por esse mito 2.400 anos atrás. É, no mínimo, curioso que ele traga questões muito apropriadas à situação particular da atual política brasileira.

Em “A República” (o mito está no capítulo VII, também chamado de livro VII, parte em que ele discorre sobre o conhecimento), quando Platão discute as formas de governo, da decadência política, parece que ele leu os jornais de hoje.

O que diz o Mito da Caverna?

O diálogo travado entre Sócrates, personagem principal, e Glauco, seu interlocutor, trata da teoria platônica sobre o conhecimento da verdade e a necessidade de que o governante da cidade tenha acesso a esse conhecimento.

Segundo a alegoria, alguns prisioneiros são mantidos desde a infância em uma caverna, no seu nível mais profundo, onde estão acorrentados e virados de costas para uma pequena parede com uma fogueira acesa e, por detrás dela, está a saída. Por ali passam homens transportando objetos que se transformam em sombras projetadas na parede em frente aos prisioneiros, que sequer têm noção de sua condição de confinamento. Estas sombras e o eco dos sons produzidos pelas pessoas de cima são todo o conhecimento que eles têm do mundo.

O caminho natural seria ali permanecerem por toda a vida. Porém existem coisas dentro de nós que ultrapassam a razão e isso é um mistério da condição humana. Lá pelas tantas, algo dentro de um dos prisioneiros começa a dizer que a vida não pode ser só aquilo. “Intuo que deve ter algo mais profundo para fazermos na vida”. É um “clique interno” que não tem explicação, mas pelo qual todos nós já passamos. Então certo dia ele se liberta.

Quando esse jovem arrebenta a corrente e olha para trás, percebe que tudo o que ele até então havia tomado como realidade eram sombras, uma mentira. Ao olhar para cima, ele vê uma luz lá no fundo, pequenina, muito mais forte que a fogueira. Pensa: “Se a luz dessa fogueira provocou tudo isso, aquela ali é que deve ter a verdade”. Não desiste até chegar lá. Cai mil vezes, levanta mil e uma e consegue sair com muito sacrifício e esforço. Ele se libertou por mérito próprio.

Acostumado com a escuridão, a luz do sol não o permite enxergar num primeiro momento.  Mas à medida em que vai se acostumando com a luminosidade, ele começa a perceber a natureza e a infinidade do mundo exterior. Esse homem não tinha tudo para ser feliz? Porém ele não pode usufruir dessa felicidade sabendo que toda a humanidade sofre e ele não fez nada. Ele é um homem e a virtude fundamental do ser humano é a fraternidade. Ele retorna.

O percurso íngreme faz com que ele caia várias vezes até chegar novamente ao estágio inicial, todo arranhado e machucado. Ao contar aos seus parceiros de uma vida toda o que havia acontecido e o que ele encontrara fora da caverna, ninguém acredita. “Se você voltou de lá assim, eu é que não quero conhecer esse lugar. Você só pode estar louco!”.

Se uma pessoa não está nem desconfiada que o esquema da caverna é uma ilusão, nada que se fale fará com que ela acredite, porque falta esse “clique interno”, não tem como ser imposto por outra pessoa. Quem está curtindo o espetáculo é capaz de agredir e destruir quem pensa de forma diferente, como fizeram com muitos filósofos ao longo da História.

Na visão de Platão, esse homem que se libertou, quando busca a sabedoria para si, é um filósofo. Quando ele tem necessidade de trazer consigo a humanidade e deixar pegadas, ele se torna um político verdadeiro, que na expressão pura, é um homem que conquistou tal nível de consciência que, para ajudar a humanidade, ele tem que descer. E só faz isso por uma única razão: compaixão.

Se uma pessoa deseja um posto no governo é porque estava abaixo do que é exigido para merecer esse posto. Isso significaria ganho para ela. O político verdadeiro não tem esse desejo, tem “sacro-ofício”. Ele abre mão da sua posição e desce até a caverna para conduzir a humanidade, porque sabe que se ele não o fizer, a humanidade vai ficar perdida ou vai ser explorada por alguém. Quer um posto de governo? Deseje estar abaixo.

Tudo que você leu até aqui sobre o Mito da Caverna é um resumo do que explica brilhantemente a professora Lúcia Helena Galvão em suas aulas. A partir de agora, compartilho um pouco do efeito desse conhecimento sobre minhas reflexões e vivências.

Uma ostra que não foi ferida não produz pérolas

Vocês já devem ter ouvido essa frase, que traduz exatamente como me sinto. As pérolas são resultado da entrada de uma substância estranha ou indesejável no interior da ostra, como um parasita ou um grão de areia. Ou seja, as pérolas são produto da dor.

Fazendo um paralelismo com a minha realidade, essa substância que, de tão recorrente, não tem sido tão estranha assim, se chama cortisona, o hormônio do estresse. Eu ando sentindo muita raiva e dor – no coração e na alma -, como a ostra sendo invadida por um corpo estranho. Já havia estudado o Mito da Caverna na faculdade de jornalismo. Desde então, recorri a ele algumas vezes e, nesses dias de isolamento social, comecei a assistir a palestras sobre filosofia, o que me fez produzir algumas reflexões que são a minha produção de pérolas.

Muitas informações contidas nessa alegoria denunciam a alienação humana, presente naqueles que insistem em negar a gravidade do momento em que estamos atravessando. Até quando alguns escolherão o fundo da caverna? Será que é uma pré-disposição ao engano ou puro comodismo? Sim, manter-se na ignorância é muito mais confortável do que buscar o conhecimento, que implica em muito sacrifício.

Diversas vezes já ouvimos dizer que a voz do povo é a voz de Deus. Isso quer dizer que, se tudo mundo pensa de tal forma, eu devo estar errado, como o prisioneiro que se atreveu a se libertar das correntes e conhecer o mundo lá fora. Seus parceiros o acusaram de estar louco, porém, na Idade Média todo mundo acreditava que a Terra era plana e estavam todos errados, só não Galileu Galilei e Giordano Bruno, como lembra muito bem Lúcia Helena em sua aula.

É impressionante que ainda hoje existam os terraplanistas, que contestam o que a Ciência já comprovou há séculos. É estarrecedor que a voz do povo queira desafiar o que vários cientistas e especialistas no mundo inteiro recomendam quanto às medidas que se devem adotar para combater o novo coronavírus. Ainda que não acreditem, contra fatos não há argumentos. Pessoas estão morrendo nos quatro cantos do planeta e, se não fosse a imprensa informando, já estaríamos – todos nós – condenados à morte.

“Em diversas épocas, não foi a maioria quem fez História. Sócrates era um só, Platão era um só, Galileu era um só”, ressalta a professora. No mesmo caminho parece estar indo […] tantos cientistas que neste momento trabalham, cada um, para encontrar uma vacina que nos tire desse algoz. Devo lembrar que os cortes de investimento na área de ciências, que começaram no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff (PT), seguiram na gestão de Michel Temer (MDB) e se acentuaram com Jair Bolsonaro (sem partido), impediram a continuidade de pesquisas. Quem encontrar a cura para a doença responsável pela maior pandemia do século entrará para os anais da história. Será uma pessoa, não manada.

Vivemos tempos sombrios e só o verdadeiro conhecimento será capaz de nos libertar das amarras da ignorância. Não se iluda. Esse caminho é solitário e sair da caverna vai exigir muito esforço próprio, porque o verdadeiro conhecimento está acima do senso comum. Não na mensagem falsa que você recebe no seu WhatsApp e passa para frente. Não está naquele “influenciador digital” que vai para o seu canal e expressa sua opinião construída em cima de sombras.

Mas sempre valerá a pena lutar pela sabedoria, pois a recompensa é muito valiosa. Com ela, você aprende a formular seu pensamento, a ter senso crítico e, a partir do momento em que isso acontece, você deixa de fazer parte da grande massa de manobra. Você se liberta! A crítica pela crítica todo mundo sabe fazer, já a crítica fundamentada em bons argumentos é rara. E você será capaz de fazê-la. Lembre-se: conhecimento é a luz que vai te guiar em todas as suas decisões, que precisam ser, no mínimo, racionais. Hoje vivemos o tempo da paixão cega. Você saberá distinguir o que é falso do que é verdadeiro e vai ser mais consciente nas próximas eleições.

“Mitos são atemporais porque falam do homem, não de um tempo passado. Por isso, qualquer um que o ler se encontra lá dentro e sabe exatamente o momento em que ele está vivendo dentro daquela narrativa. Enquanto o homem for homem e lutar contra as mesmas sombras, aquele mesmo mito funcionará”, finaliza a professora Lúcia Helena Galvão, sempre generosa ao compartilhar conosco seus conhecimentos.

Por fim, um conselho. Não podemos cair na armadilha das paixões. Raiva, revolta e tristeza são emoções recorrentes neste momento. Pare, reflita, busque informações em fontes credíveis. Produza  a sua pérola verdadeira. O opinionismo raso não vai mudar em nada a realidade.

Autora: Diana Leiko

Fonte: Congresso em foco

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Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes e Rousseau

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Essa animação é uma ótima contribuição da UNIVESP TV.

Excelente oportunidade para entender um pouco sobre da vida e obra desses grandes homens.

Assista que vale o tempo investido!

“Quem não é geômetra não entre!” Geometria, Filosofia e Platonismo

Imagem relacionadaA Academia de Platão, artista desconhecido, mosaico, Pompeia, c. séc. I a. C.

O objetivo deste artigo é analisar, a partir dos textos de Platão e de comentadores, a apresentação de argumentos a favor da utilização da matemática e da geometria como propedêutica à aprendizagem da filosofia, bem como investigar as reverberações da ontologia e da epistemologia platônicas nesse programa pedagógico. Pretende-se, ainda, apontar comparativamente similaridades entre crises nos fundamentos da matemática e seu impacto na concepção de racionalidade, tanto no universo grego antigo como na contemporaneidade.

“Dois e dois são três” disse o louco.
“Não são não!” berrou o tolo.
“Talvez sejam” resmungou o sábio.
Skepsis, José Paulo Paes2

Introdução

Gostaríamos de começar este artigo com uma crônica de nossos dias. A revista Carta Capital, em sua coluna Brasiliana, de setembro de 2006, comenta o sumiço do “Professor”. Trata-se de uma história da Praça XV, no centro de Florianópolis, onde vivem diversos moradores de rua. Entre eles, o “Professor”:

Se autodenominava revolucionário e falava português, inglês, espanhol, francês, italiano, alemão, holandês, ao todo sete idiomas. Antes de ter ido embora, ensinava estas línguas aos colegas, logo depois do almoço, a divisão dos restos dos pães doados pelo padeiro do outro lado da  rua.3

Falava também de Marx e Weber, e suas aulas acabavam em longas discussões oportunamente regadas à cachaça de R$1,50. Os amigos contam que pouco antes de seu desaparecimento, havia feito uma revelação a todos: retirando de sua sacola uma pasta cinza, teria mostrado papéis com números, desenhos, uns triângulos de ponta-cabeça. Eram esboços de sua autoria – havia esclarecido, e concluíra enfático: “Aqui está a equação matemática, cuja solução será capaz de explicar… tudo nesta vida!”4

Sim, a equação matemática capaz de explicar tudo… Apesar de infinitamente distante da Praça XV, o mundo para o qual olharemos, aquele das relações entre geometria e filosofia na época clássica, parece ter alojado a mesma tensão gnoseológica: aqui, a brincadeira é aquela de achar, na matemática, a explicação “de tudo nesta vida”. Certamente, essa ambição de compreender o mundo descobrindo seus números e as relações entre eles é antiga e não está reservada, exclusivamente, àquele âmbito da cultura que costumamos chamar de ocidental.5 Hoje, nós a pensamos bastante influenciados, ainda, pelo paradigma da ciência moderna, aquela fundada por Galileu, que via a natureza como um livro, encontrando nela um léxico matemático,6 e teorizada por Descartes ao falar de mathesis univesalis, uma ciência geral relativa à ordem e à medida.7

A relação entre matemática e natureza (phýsis) tornou-se particularmente diferente, a partir do momento em que foram publicados, em 1638, os Discorsi e dimostrazioni matematiche intorno a due nuove scienze.8 Uma das razões principais foi o fato de Galileu romper com a tradição aristotélica que separava o trabalho do físico daquele do geômetra, pois enquanto o primeiro examinava coisas reais, o segundo examinava razões em função de abstrações – os métodos de cada um não podiam ser os mesmos, dentre outras coisas, porque o espaço vazio da geometria seria incompatível com a ideia de lugar natural e de cosmos.9 O “caso Galileu” é, ainda, objeto de muita pesquisa, e alguns trabalhos recentes mostram as conexões complexas entre o que, hoje, chamamos física, astronomia, matemática e ontologia. Ao retomar certos pressupostos platônicos sobre a constituição matemática da matéria, Galileu teria, inclusive, dado margem a acusações de que suas pesquisas sobre o movimento possuíam implicações teológicas que ultrapassavam, sobremaneira, o campo da física.10 Que Galileu tenha herdado de Platão o estilo dialógico ou certos pressupostos metafísicos, como a circularidade do movimento dos astros, é fácil de ser constatado, mas o atomismo e o projeto de uma geometrização da natureza dependem de um esclarecimento que tentaremos fazer, aqui, por meio de um comentário do renomado helenista Gregory Vlastos. Com sua ajuda, faremos esse salto de, aproximadamente, dois mil anos, mergulhando no período que nos interessa nesse momento, a saber, aquele universo em que floresceu Platão.

Vlastos,11 partindo do pressuposto aristotélico de que a teoria da estrutura da matéria de Platão é uma variante da hipótese atômica de Leucipo e Demócrito,12 analisou o modo como Platão adaptou a concepção atomista ao propor que os átomos fossem suscetíveis de dois tipos de alterações: a primeira, relativa à existência de variedades de cada um dos tipos primários de matéria (éter e neblina são, por exemplo, variedades de ar)13; a segunda, relativa à mudança de um tipo de matéria em outro, como no caso dos átomos de fogo, ar e água, devido a eles terem faces idênticas, isto é, triângulos equiláteros. Lembremos que o Demiurgo imprimiu uma forma estereométrica regular à matéria, ao transformá-la de caos em cosmos; fogo, ar, água e terra são constituídos de tetraedros, hexaedros, octaedros, icosaedros, respectivamente.14 Esse atomismo geometrizado será aquele retomado por Galileu, que, defendendo a matematização da natureza como método para a elaboração de uma nova ciência, deu, como observou Alexandre Koyré, “uma prova experimental do platonismo”.15

Desnecessário lembrar que a exclamação no título deste artigo “Quem não é geômetra não entre!” se refere à famosa advertência que se podia ler no portal da Academia de Platão.16 Advertências análogas eram comuns nas entradas de templos e santuários antigos, nos quais, no lugar da geometria, eram requeridas pureza e outras qualidades, funcionando como uma “senha” para iniciados. De maneira análoga, iremos utilizá-la ao longo do ensaio, para indicar-nos o lugar que a matemática e a geometria assumem em um momento de grande importância na definição do pensamento ocidental e da filosofia em seu nascer: aquele da “descoberta” de um “método científico”, entre o V e o IV séculos a.C.17 “Quem não é geômetra não entre!”, portanto. Partiremos, daqui, para compreender a importância do diálogo entre a filosofia, a matemática e a geometria na construção desse método. Partiremos de Platão, lembrando que a palavra matemática vem do verbo mantháno, que significa, aprender, compreender, e esse saber (máthema) pode ser relativo à ideia (suprema) de Bem (República 505a). Hé mathematiké é o que concerne à ciência da matemática;18 as matemáticas são os conhecimentos que se apreendem em um corpo de disciplinas que se constitui de aritmética, geometria em duas dimensões, geometria em três dimensões, a astronomia e a harmonia dos sons (República 525a-531d), e que são fundamentais na formação do filósofo.19

Desse modo, uma sentença como a do frontão da Academia encaixa-se muito bem naquela que devia ser a prática das ciências matemáticas no interior da escola de Platão. Um entre muitos, podemos ficar com o testemunho de Proclo:

Platão (…) deu um imenso impulso a toda a ciência matemática e em particular à geometria, pelo apaixonado estudo que a isso dedicou e que divulgou quer recheando seus escritos de raciocínios matemáticos, quer despertando em toda parte a admiração por estes estudos naqueles que se dedicam à filosofia.20

Sobre o papel que Platão teria exercido como matemático, os estudiosos discordam, tendendo mais a considerá-lo um formador de jovens matemáticos do que um descobridor de novos métodos ou teorias. É o que afirma, por exemplo, Boyer: “Platão é importante na história da matemática principalmente por seu papel como inspirador e guia de outros e talvez a ele se deva a distinção clara que se fez na Grécia Antiga entre aritmética (no sentido de teoria dos números) e logística (a técnica da computação)”.21

A distinção a que se refere Boyer, sem oferecer maiores detalhes, é importante para nos dar a medida da preocupação platônica e mesmo de sua presença, ainda hoje, nos debates sobre a natureza da matemática. No Filebo (56d-e), Sócrates faz distinção entre a aritmética do homem comum e a do filósofo, com base na diferença dos “objetos” a que se dirige cada um: enquanto o primeiro opera com unidades que são distintas (ao contar dois exércitos, sabe-se que eles são diferentes), para o segundo, as unidades são todas indistintas (números são coleções de unidades puras).22 A rigor, a aritmética (como a geometria) do filósofo aplica-se apenas ao mundo do ser.23 Um problema decorrente dessa visão da aritmética e, também, da geometria é o de explicar como essas disciplinas se aplicam ao mundo físico. Uma tentativa será feita no Timeu, no qual temos uma teoria especulativa da construção geométrica do mundo, interligada ao realismo epistemológico e ontológico de Platão.24

Acrescente-se, ainda, que, independentemente das atividades de Platão como matemático, textos como o Mênon e o Teeteto mostram o quanto as questões matemáticas estão presentes na discussão sobre os critérios para a aquisição de conhecimento verdadeiro e sobre impasses gerados devido a problemas internos à geometria e à aritmética. Desde o famoso artigo de F. Cherniss, Plato as a mathematician,25 à recente obra de P. Pritchard, Plato’s philosophy of mathematics,26 tornou-se claro como a relação entre matemática e filosofia é estreita, e um primeiro momento de crise ocorre exatamente aqui, na Academia de Platão. É desse momento que falaremos a seguir de uma crise que é ocasião de “afinar os instrumentos” para a ciência antiga e para a filosofia dos séculos V e IV, de maneira especial. Uma crise que, em seu momento final, levará Aristóteles a sair “batendo a porta” e – numa imagem um pouco naïve e pela qual desde já nos desculpamos – derrubando, teoricamente, a famosa escrita no frontão. No entanto, para podermos compreender essa crise, será preciso recuar, observando como se desenhou a relação entre filosofia e geometria, ao longo de anos de fecunda simbiose, desde aqueles que a mitologia das origens da filosofia designou como ponto inicial, por meio de um “fundador”, Tales de Mileto.

Considerações sobre a relação entre a geometria e a filosofia que nasce

Galeno conta uma anedota que ilustra muito bem qual é a imbricação cultural das ciências matemáticas (e, de maneira especial, da geometria) no mundo grego: Aristipo teria sido jogado durante um naufrágio numa praia desconhecida, e vendo desenhadas na areia algumas figuras geométricas, teria ficado aliviado, pois, naquele momento, sabia não ter caído em terras bárbaras, e sim em terras gregas.27 Encontrava-se, de fato, na costa da Sicília, próximo da cidade de Siracusa. É verdade que Tales de Mileto, segundo o testemunho de Proclo, no Comentário ao primeiro livro dos elementos de Euclides, provavelmente retirado do sumário da mais antiga História da geometria de Eudemo, teria ido ao Egito estudar exatamente a geometria, que aqui nasceu para responder a necessidades práticas: “Foi o primeiro que, tendo ido ao Egito – trouxe de lá esta doutrina e a introduziu na Hélade, e ele próprio fez muitas descobertas e, de muitas, deixou uma ideia aos seus sucessores, abordando alguns problemas de modo mais geral, e outros de modo mais prático” (In Eucl. 65, 3).

Na medida em que o Egito é geralmente considerado o berço da civilização grega, “o reconhecimento da origem egípcia não era outra coisa senão o corolário da certeza de que a geometria era um traço essencial da identidade cultural helênica”.28 Entre outras descobertas de Tales, a tradição informou-nos sobre o famoso teorema, pelo qual o ângulo inscrito em um semicírculo é um ângulo reto, que parece ter sido o primeiro teorema de geometria demonstrado de forma dedutiva.29 Com Tales, um dos sete sábios já segundo Platão (Protágoras, 343a), a matemática insere-se em um programa maior, que poderíamos chamar de organização racional do conhecimento e do mundo, que passava pela astronomia, pela política e – sobretudo – pela conduta humana, isto é, pela ética. Esse programa não é invalidado mesmo se concordarmos que algumas célebres “proezas” atribuídas a Tales sejam de cunho até anedótico, como a de ter conseguido determinar a distância de um barco a partir da costa (D.L. I, 27) ou a altura de uma pirâmide (PLÍNIO, N.H. 36, 82). Elas são, claramente, anacrônicas, pois pressupõem o uso do conceito de proporção (analogía, lógos), um dos conceitos que nos interessa neste artigo, e que parece ter sido descoberto somente no âmbito pitagórico – posteriormente, portanto.30

De fato, tanto o desenvolvimento teórico da matemática como a aproximação entre ciência (em geral e, especialmente, a geometria) e ética aparecem de forma ainda mais significativa no pitagorismo,31 constituindo-se como o primeiro momento daquele que Boyer chamava de “período heroico da matemática”:

Praticamente não existem documentos matemáticos ou científicos até os dias de Platão no quarto século a.C. No entanto, durante a segunda metade do quinto século circularam relatos persistentes e consistentes sobre um punhado de matemáticos que evidentemente estavam intensamente preocupados com problemas que formaram a base da maior parte dos desenvolvimentos posteriores na geometria.32

É no interior do complexo e multifacetado movimento pitagórico que teriam sido cunhados os termos-chave de nossa discussão: “filosofia” e “matemática” (aquilo que se aprende, como dissemos antes).33 Os termos indicam os interesses fundamentais da escola, articulados no sentido daquele que, para Platão, era o grande objetivo da historía, da pesquisa pitagórica: um trópos tou biou, um estilo de vida, uma ética, uma conduta humana que dizia respeito, ao mesmo tempo, a preocupações religiosas e práticas ascéticas ligadas a uma concepção da imortalidade da alma reencarnacionista e a preocupações políticas. Uma geometria, digamos, aplicada à vida, mas em um sentido diferente daquele técnico ao qual estamos acostumados. É novamente Proclo a nos impedir de pensar nas pesquisas matemáticas dos pitagóricos como em algo simplesmente “funcional”: “Pitágoras fez do estudo da geometria um ensino liberal, subindo aos princípios com a investigação e estudando seus problemas sob um ponto de vista puramente abstrato e teórico. Deste modo foi ele que descobriu o tratamento dos irracionais e a construção da figuras cósmicas”.34

Desde o teorema de Pitágoras até todas as outras “descobertas” geométricas que Proclo, Euclides e outros atribuem aos pitagóricos, como também o fazem autores como Eudemo e Aristóxeno com relação ao desenvolvimento por estes da teoria musical (relações harmônicas de quarta, quinta e oitava)35 e ao campo da astronomia,36 a filosofia pitagórica tem uma intenção e uma acepção claramente teóricas, mesmo fazendo parte de um quadro geral filosófico e ideológico, em que as diversas disciplinas e interesses se compunham. Boyer, também, realça essa característica: “No mundo grego a matemática era aparentada mais de perto à filosofia do que a negócios práticos, e este parentesco permaneceu até hoje” (1974, p. 48). Ao que parece, a aritmética torna-se disciplina intelectual antes do que cálculo técnico (logística), já com os pitagóricos, o que é atestado por Aristóteles ao afirmar que aqueles “foram os primeiros a se dedicar às matemáticas e a fazê-las progredir” (Met. 985b24). Mas, ao mesmo tempo, diz Aristóteles, dedicaram-se à natureza (phýsis), no sentido do trabalho filosófico pré-socrático de determinar quais seriam os princípios (archai) ontológicos e epistemológicos da realidade. Dessa forma, “nutrindo-se das matemáticas, pensaram que os princípios delas fossem princípios de todos os seres”, concluindo, assim, que “o universo inteiro é harmonia e número” (Met. A 5, 985b25-26).

Vai além dos limites deste ensaio uma análise, ainda que breve, da contribuição pitagórica à história da matemática e da geometria, ou melhor, da aritmogeometria – célebre expressão de Abel Rey –, como se costuma chamar esse conjunto ainda indistinto de teoremas e teorias que a tradição nos transmite dos estudos do movimento pitagórico.37Concedemos à paciência historiográfica somente mais duas obervações. Primeiro, que seria melhor falar não de uma aritmogeometria, e, portanto, de uma correspondência entre números e figuras geométricas, mas de uma correspondência mais generalizada (cosmológica) entre número e todas as entidades constitutivas da realidade. Se é verdade que o número um é o ponto, o dois é a linha, o três é o plano, é também verdade que Eurito pensava poder indicar os números do cavalo e do homem, e Filolau o número que correspondia à memória, ao éros, a certas divindades.38 Segundo, que é oportuno lembrar uma outra vertente matemático-filosófica pré-platônica não pitagórica, na qual poderiam estar autores eleatas, como Zenão, e outros, como Anaxágoras e Demócrito. No entanto, a economia destas páginas não nos permite um tratamento adequado do tema.39Estamos interessados, no momento, em mostrar que o conhecimento sobre o princípio (arkhé) da filosofia pitagórica, o arithmos, o número indivisível, inteiro, que é a base da geometria e da filosofia pitagóricas (Met., 985b, 990a, 1078b, 1092b), entra em crise, na metade do século V. É, novamente, Boyer a introduzir muito bem os termos da questão:

Os diálogos de Platão mostram que (…) a comunidade matemática grega fora assombrada por uma descoberta que praticamente demolia a base da fé pitagórica nos inteiros. Tratava-se da descoberta que na própria geometria os inteiros e suas razões eram insuficientes para descrever mesmo simples propriedades básicas.40

Trata-se, provavelmente, de uma crise que acontece no âmbito pitagórico: Hipaso seria seu autor, pela descoberta das grandezas incomensuráveis (asýmmetronou sýmmetroi; álogos).41 A anedótica da história da filosofia conta-nos que, por esse motivo, teria sido expulso da escola pitagórica.42 A “ciência normal” de kuhniana memória já fazia aqui, provavelmente, sua primeira vítima. É uma crise grave nos fundamentos do conhecimento matemático, e não somente uma questão periférica, uma aporia secundária da geometria. O incomensurável irrompe no céu puro e imaculado das figuras e dos números racionais e de seus axiomas e princípios evidentes, dos quais procede a rigorosa cadeia de conseqüências necessárias. A crise atinge os próprios alicerces epistemológicos, tanto da matemática como da geometria.

Como já foi observado, frente aos problemas com a incomensurabilidade, muitas demonstrações perderam seu poder de convencimento, sendo reduzidas a raciocínios plausíveis. Como números significam, na época, “números racionais”, originou-se o que é chamado hoje “álgebra geométrica dos gregos”, por exemplo, “o retângulo de lado a e b” era usado em vez de “a vezes b“. Coube a Eudoxo (século IV a.C.) a tarefa de fornecer fundamento sólido para a matemática.43 Semelhante reação crítica e busca de rigor só ocorreriam, novamente, no século XIX, aparecendo, aliás, em um nível de maturidade filosófica semelhante ao de Eudoxo, que, com sua teoria das proporções, formulou uma primeira abordagem satisfatória dos números irracionais. Lembremos como Dedekind, para fundamentar a Análise (que é um desdobramento do cálculo diferencial e integral), seguiu métodos semelhantes aos de Eudoxo. Outras crises, entretanto, surgiram ligadas, principalmente, à Teoria dos Conjuntos, de Cantor, cujos pressupostos metafísicos (dentre eles, a existência de infinitos atuais) levaram, em certos contextos, a intrincados paradoxos. Um depoimento eloquente sobre a situação e suas implicações na própria possibilidade do conhecimento humano é dado por Hilbert:

O objetivo de minha teoria é estabelecer de uma vez por todas a certeza dos métodos matemáticos. Essa é uma tarefa que não foi realizada mesmo durante o período crítico do cálculo infinitesimal (…) Nós agora chegamos à mais estética e delicada estrutura da matemática, isto é, a análise (…) em certo sentido a análise matemática é a sinfonia do infinito (…) O estado atual das coisas, em que nos chocamos com os paradoxos é intolerável. Apenas considerem as definições, os métodos dedutivos que cada um aprende, ensina e usa em matemática, o modelo da certeza e da verdade conduzindo a absurdos. Se o pensamento matemático é defeituoso, onde encontraremos verdade e certeza?44

Nessa afirmação de um dos maiores matemáticos dos séculos XIX e XX, constatamos o eco das propostas tanto platônica como cartesiana do que compreendemos como mathesis universalis. Resultados de Gödel mostraram que o sucesso do programa de Hilbert é muito improvável, se não impossível. O debate, ao menos no terreno filosófico, continua. Temos, deve-se destacar, os que mostram como é possível aceitar a existência de contradição dentro de um sistema de pensamento, sem trivializá-lo ou torná-lo irracional, como na lógica paraconsistente – o que não deixa de refletir, ainda, a intenção de uma forma lógica, a coexistência da racionalidade com a contradição.45Temos, ainda, o apelo para que a filosofia reavalie a “aversão contumaz à irracionalidade” existente no mundo científico e em si própria.46 Tais considerações sobre o período contemporâneo permitem-nos ver, ainda que superficialmente, o impacto das questões filosóficas relacionadas à lógica e à matemática, em um projeto de salvar a racionalidade e um critério seguro de conhecimento. Tendo isso em mente, voltemos ao ambiente grego e, por analogia, compreendamos o impacto de certos problemas no projeto pitagórico-platônico de alicerçar uma epistemologia e uma ontologia em bases matemáticas.

Crise nas matemáticas

Os testemunhos de Arquitas,47 Platão48 e Aristóteles49 parecem concordar sobre o fato de que a preocupação fundamental, e a matriz da pesquisa dos pitagóricos, é a música, no sentido da investigação da natureza do som e dos princípios que subjazem à produção dos acordes.50 A vida de Pitágoras, de Jâmblico, está repleta de referências a esse interesse de Pitágoras. Deve ter sido exatamente essa experimentação musical a sugerir aos pitagóricos que são as relações (lógoi) numéricas simples que determinam a harmonia dos acordes. A passagem da harmonia musical à geometria é quase obrigatória: serão as mesmas relações a reger as proporções das figuras geométricas. Da mesma forma que os acordes musicais podem ser reproduzidos em instrumentos e escalas diferentes, obtendo-se a mesma harmonia e agradando ao ouvido, assim, as formas dos corpos geométricos que obedecem a relações numéricas simples geram um efeito harmônico semelhante na vista e podem ser reproduzidas.51 Por isso, provavelmente, o grande interesse de Pitágoras pelos triângulos, especialmente aqueles casos particulares de triângulos retângulos cujos lados mediam 3, 4 e 5: é, aqui, que nasceria a primeira formulação de lógos, de razão, de proporção: todos os triângulos (de qualquer tamanho) que tivessem a relação (o lógos) 3-4-5 seriam iguais.

É necessária, aqui, uma observação terminológica com relação à utilização do termo lógos, no sentido de proporção, de razão geométrica. O termo é utilizado na expressão tôn autôn lógon ékhein, isto é, “ter a mesma proporção”. Como bem sabemos, lógos significa, fundamentalmente, palavra, mas uma palavra diferente do épos, que se quer representado na fala, a realidade. O lógos é a palavra (ou um conjunto discursivo de palavras) penetrante, que aponta para a tentativa de expressão da natureza da coisa. Nesse sentido, conhecer o lógos, a proporção do triângulo 3-4-5, é compreender sua razão, seu sentido mais profundo.52 Mas, com a descoberta das proporções, ocorreu a descoberta da incomensurabilidade: se a simples relação entre a diagonal e o lado de um quadrado não pode ser expressa por um conjunto de números inteiros, então, o número inteiro e indivisível não pode ser considerado como o arkhé da realidade (Met., 983a15).

A crise é, portanto, uma crise que se instaura entre os números (que, até Aristóteles, são considerados monadikói, inteiros, indivisíveis, não sendo possível pensá-los diferentemente) e os lógoi, as proporções. O ponto de partida não discutido é a proposição pitagórica de que “a mônada é indivisível”, o que de fato corresponde a um Axioma de Peano: “1 não é sucessor de nenhum número”. Isso significa que o número 1 não tem predecessor e, portanto, é a arkhé absoluta, é o início de tudo.53 Não há, também, número menor do que 1, e, portanto, 1 é indivisível.54 A aritmética pitagórica assume a contradição conscientemente e encontra – aparentemente – uma solução: aquela de separar números (aríthmoi) de lógoi, afirmando estes últimos não serem números, e, sim, pares ordenados de números, díades (dyás) finitas. Apesar de Aristóteles se distinguir dos pitagóricos, na medida em que estes insistiam que as unidades têm extensão espacial, confundindo a unidade aritmética e o ponto geométrico (Met. 1080b16-20),55 é de Aristóteles a melhor definição do que foi a solução pitagórica: “Os lógoi não são definidos como números, e sim como relações numéricas e afecções do número” (Met. 1021a 8-9). Poderíamos dizer que “a matemática científica e com ela a filosofia recorreram ao ostracismo”.56Entre outras palavras, aquelas de Imre Toth:

Os pitagóricos perceberam a intolerabilidade desta contradição lógica entre as duas proporções axiomáticas e (…) Platão compartilhava plenamente essa opinião. O monstro lógico do folclore matemático, o número fracionário, foi expulso da teoria superior dos números. Entretanto o povo vivia feliz nessa desprezível promiscuidade lógica, e, sem preocupar-se com nada, continuava a fazer cálculos com números fracionários: pela simples razão de que, com toda maravilha, a presumida intolerável contradição lógica não levava a nenhum erro no curso dos cálculos, enquanto as teorias dos savants, logicamente imaculadas, só podiam tornar insuportavelmente difíceis esses cálculos. De sua parte o povo achava as aflições lógicas de consciência dos pitagóricos – com as quais tornavam deliberadamente difícil a vida – não só inúteis, mas, sobretudo, extremamente “ridículas”.57

Como demonstra a comédia aristofânica, satirizando posições filosóficas, o povo continuava a usar proporções e frações para calcular o preço do pão e outras trivialidades (Aves, versos 903-1020; Nuvens, versos 607-620). No entanto, não é só o povo, pois os próprios matemáticos, em determinados momentos de crise, ignoram os problemas ligados aos fundamentos. Por meio da seguinte afirmação, feita pelo genial Paul Cohen, comentando o comportamento dos matemáticos, em função da “crise dos fundamentos” na virada do século, podemos constatar que as questões radicais de teor metafísico sobre a natureza da matemática e sua relação com o conhecimento humano não parecem extrapolar, seja na Antiguidade, seja hoje, o espaço da “Academia”, e mesmo dentro dela encontram uma solução que consiga passar entre Cila e Caríbdis:

A posição realista [isto é, platonista] é a que a maior parte dos matemáticos gostariam de adotar. Somente quando se torna consciente de algumas das dificuldades da teoria dos conjuntos é que o matemático começa a questioná-la. Se estas dificuldades o inquietam particularmente, ele correrá para o abrigo do formalismo [grosso modo, este afirma que a matemática é uma combinação de símbolos sem sentido e que, portanto, seus enunciados não podem ser verdadeiros ou falsos, pois não se referem a coisa alguma no mundo] enquanto que sua posição normal será em algum ponto entre as duas, tentando desfrutar o melhor dos dois mundos.58

Retornando ao contexto da matemáticas na Grécia, observemos que se a crise aritmética é gerada e, de alguma forma, “resolvida” no interior do movimento pitagórico, a crise da geometria, que é uma crise de sua fundamentação axiomática, parece ser toda acadêmica, isto é, interior à escola de Platão. Ao que sabemos, pelo próprio Aristóteles, o tema da fundamentação axiomática da geometria era discutido com vivacidade na Academia.59 O que os acadêmicos percebem é que muitas das proposições fundamentais da geometria são utilizadas como se fossem teoremas demonstrados, sem, todavia, terem sido demonstrados. A essa situação é aplicada uma metodologia de demonstração, já utilizada em muitas outras questões filosóficas: a via da negação, da contradição, já apontada no Parmênides (136a) da seguinte forma: “Não deves considerar as conseqüências que emergem da hipótese de que cada coisa exista, mas deves também supor que essa mesma coisa não exista”. Assim, os filósofos-geômetras da Academia exploram o campo dos axiomas e de suas conseqüências, para tentar provar a verdade deles. No entanto, eles tropeçam, com o método negativo, exatamente, naquilo que não queriam encontrar, que queriam refutar: uma geometria oposta, “onde as paralelas se encontram, as diagonais são comensuráveis e as retas curvas”.60 Claramente, Platão oporá um “outro método” (álle méthodos), para alcançar aquilo que cada coisa “é” (hò estín), e tal método está além daquele da geometria e áreas que decorrem dela, as quais, quanto à apreensão do “ser” (tò ón), têm apenas “sonhos” (República 533b8), pois não conseguem chegar a alguma demonstração de que sejam verdadeiras as hipóteses de que partem – nas demonstrações geométricas, pode-se ter uma cadeia coerente de conseqüências a partir de uma premissa falsa (Crátilo 436c-438d).

Resposta de Platão

A essas crises Platão, e depois Aristóteles, antes de Euclides, respondem como filósofos. Eles vislumbram, na explicação metafísica, a possibilidade de resolver o irracional e o incomensurável, fundamentando, para além da matemática e da geometria, seus postulados. Partamos de um conhecimento geral da estrutura da epistemologia e ontologia platônicas – tanto do “raciocínio a partir das ciências” (lógos ek tôn epistemôn), pelo qual toda ciência tem como seu objeto um objeto único e idêntico, como a própria Teoria da Ideias. Segundo esta última, o objeto do conhecimento verdadeiro, da ciência, não pode ser particular, sensível (todos os quadrados que existem, todos os sons que existem), pois, dessa forma, seria um objeto móvel (pois a realidade é móvel). Portanto, objeto da ciência poderão ser somente outras realidades, isto é, as idéias desses mesmos objetos, pois elas sim são imutáveis.61“Pois das coisas que são sujeitas a perene fluxo não há ciência” – dirá, também, ainda que em outro contexto, Aristóteles (Met. 1078 b 17). Com relação à geometria, no fr. 3 do De ideis, diz: “Se a geometria não é ciência deste determinado igual e desse determinado comensurável, mas do que é simplesmente igual e do que é simplesmente comensurável, então haverá o igual em si e o comensurável em si: e estas são as Ideias”.62

As ciências matemáticas, portanto, têm como objeto realidades imóveis, idênticas a si mesmas, não sensíveis. Surge, naturalmente, uma pergunta, a essa altura: Isso significa que esses objetos da matemática são Ideias? Isto é, pertenceriam ao mundo inteligível? Platão responde que não. E responde num dos lugares centrais de seu pensamento, que é o Livro VI da República. A resposta constrói-se com uma famosa metáfora, a “metáfora da linha”: Sócrates, para explicar para Glauco a distinção entre mundo sensível e mundo inteligível, convida-o a “dividir uma linha (grammèn) em duas partes desiguais (ánisos)” – trabalho de geômetra, portanto – e a dividi-la novamente em duas, “segundo a mesma proporção (tòn autòn lógon)”.63 A linha é uma linha plasticamente epistemológica, que distingue, tanto na parte do inteligível (nooménou) como na parte do visível (oroménou), “imagens” e “modelos destas imagens” a serem apreendidos. Frente à dificuldade de compreensão que Glauco expressa (oukh hikanôs émathon), Sócrates desenvolve uma das páginas mais lúcidas de Platão sobre a epistemologia da matemática de seu tempo:

Suponho que sabes que aqueles que se ocupam da geometria (geometrias), da aritmética (logismoùs) e de coisas deste tipo (pragmateuómenoi) supõem (hypotémenoi) o par e o ímpar, as figuras, três espécies (eíde) de ângulos, e outras irmãs destas, segundo o método (méthodon) de cada uma. Essas coisas dão-nas por sabidas (eidótes) e fazendo-as como hipóteses (hypothéseis), nenhuma palavra (lógon), nem a si nem aos outros consideram mais necessário prestar conta, como se fossem evidentes (phanerôn) a todos; e partindo destas e passando ao que resta, caminhando coerentemente atingem ao que tinham se proposto a alcançar (República 510 c2-d2).64

Da mesma forma, os geômetras:

Servem-se de figuras visíveis (oroménois eidesi) e fazem raciocínios (lógous) sobre elas, pensando (dianooúmenoi) não nelas, mas naquilo com que se parecem (éoike), raciocinam com respeito ao quadrado mesmo e à diagonal mesma, mas não ao quadrado, à diagonal, ou aquela que desenham, e semelhantemente quanto às outra figuras. Estas mesmas que estão fazendo ou desenhando, das quais há sombras e imagens na água, eles usam agora como imagens, buscando ver aquilo mesmo que alguém não pode ver exceto pelo pensamento (diánoia) (República 510d4-511a1).

Glauco, finalmente, compreende. Sócrates está se referindo “à geometria e às artes (tékhnai) afins a ela” (511b 3-8), não à dialética das ideias, ciência suprema. De fato, Sócrates confirma a distinção entre a parte superior da linha (a potência heurística da filosofia) e aquela das ciências matemáticas:

Aprende então o que quero dizer com a outra parte do inteligível, aquela que o raciocínio mesmo atinge com o poder da dialética (dialégesthai), fazendo das hipóteses não princípios, mas hipóteses mesmo – um tipo de acesso, de apoio, para chegar ao não hipotético (anupothétou), ao que é princípio de tudo. Alcançado isso, retorna, atendo-se a cada resultado, de tal modo que desça até a conclusão, sem fazer uso de nada visível, movendo-se das ideias (eídesin) umas às outras, terminando na ideia (eide) (República 511 b3– c1).

Assim, a matemática, no interior da metáfora da linha, é ciência, e uma ciência que está na linha na metade do caminho (metaxú) entre o mundo sensível (pístis, crença e eikasía, conjetura) e o mundo inteligível. Mas, a bem ver, é ciência apenas analogamente à ciência mesma, à dialética (dialetikè méthodos), aquela que diz respeito às ideias, destruindo as hipóteses e arrastando, aos poucos, os olhos da alma do lodo bárbaro (borbóro barbarikó)65em que ela se encontra. Tanto que Platão faz Sócrates afirmar que, relativamente à matemática e à geometria: “Sobretudo por costume (éthos) as chamamos com frequência de ciências, (epistéme), mas é necessária outra denominação, mais clara que opinião e mais obscura que ciência: nesse sentido antes a definimos como entendimento (diánoia)” (República 533 d1). Algo que seja “metade do caminho entre opinião e intelecto” (hós metaxú tes doxés te kaì nou tén diánoian) (República 511d). Diánoia, ou seja, conhecimento mediado.

Especialmente na geometria, Platão entrevê uma profunda ambiguidade ou, melhor, duplicidade, que é, ao mesmo tempo, seu ponto de força: sua irresistível aproximação ao sensível, sua contaminação com as imagens reais, permite-lhe ser ponte entre o inteligível e o sensível. Assim, a matemática torna-se, epistemologicamente, uma “terra de meio” lugar mediano, necessário de ser atravessado no caminho das Idéias, das verdades não hipotéticas. Ecoa, aqui, o frontão da Academia “Quem não é geômetra não entre!”. A geometria é a porta, a conexão, entre os dois mundos.

Conexão que se expressa na metodologia do caminho desenhado pela linha: das hipóteses até os princípios primeiros, e vice-versa. Em um caminho ascendente e descendente, que é típico da epistemologia platônica (no Banquete, a erótica é esse caminho de mão dupla, embora seja, muitas vezes, muito mal-interpretada, sendo apenas lida na visão de uma ascese, de uma ascensão em direção à alma, um abandono do corpo). No caso da ciência matemática, ela é o caminho, não a meta, pois seus pressupostos não são demonstrados, e, sim, remetem para um caminho ulterior, até sua fundamentação na plenitude das idéias. É nesse sentido que a matemática procede analogicamente: síntese dos dois mundos, as verdades matemáticas e geométricas são capazes de representar todo o ser, mas apenas em chave analógica. Pois é no ser inteligível que elas encontram, ainda, seu fundamento último.

Conclusão

Consideramos pertinente fazer duas observações finais. A primeira diz respeito a como Aristóteles compreende a solução de Platão. Não podemos nos dedicar à solução aristotélica da mesma crise por óbvios motivos de economia do texto. A reclamação dele, na Metafísica (992a33-b1), dirigida contra “os filósofos de agora, para os quais as matemáticas tornaram-se filosofia”, refere-se, claramente, a Platão e à Academia. O erro de Platão seria aquele de ter considerado a matemática como parte integrante e indistinta da metodologia da ontologia: a crítica de Aristóteles é dirigida à “linha” e sua continuidade, portanto. Para Aristóteles, é inconcebível que o objeto da matemática seja algo “fora do sensível”: a metafisicização da matemática é o seu problema. O objeto de matemática (figura e número) está dentro da realidade, não fora dela, aproximando, sob certos aspectos, sua posição àquela dos pitagóricos.66

Uma segunda e última observação diz respeito à expressão “platonismo”, utilizada na filosofia contemporânea da matemática para indicar, grosso modo, a crença de que objetos matemáticos existem independentemente de nós e que, com eles, não temos nenhuma interação causal; podemos descobri-los, mas não criá-los. Um importante registro do termo aparece em uma conferência de Paul Bernays, de 1934.67 Ao tratar da axiomatização da geometria por Hilbert, comparando-a à de Euclides, Bernays destaca que, enquanto o segundo fala da “construção” de figuras, o primeiro assume a existência delas, mostrando “uma tendência de ver os objetos como desvinculados de qualquer ligação com o sujeito pensante”, à qual Bernays chama de platonismo.68 Embora o termo tenha surgido aqui, a tendência era mais antiga, como vemos pelo que dizia Russell num ensaio de juventude (1901, na revista Mind): “A aritmética deve ser descoberta exatamente no mesmo sentido em que Colombo descobriu os índios do Oeste, e nós não criamos os números, como ele não criou os índios…”.69Nossa observação diz respeito ao fato de Platão ser não “platonista”, nesse sentido acima descrito. Acreditamos que o platonismo descreva, somente de forma limitada, a “filosofia da matemática” de Platão, que tem objetivos e ambições bem maiores: aqueles de fundamentar a matemática no interior de um caminho epistemológico que permita a esta chegar ao princípio de toda a realidade. Ambições epistemológicas, portanto, mais do que simples afirmações ontológicas. A matemática e a geometria são portas e, como tais, abrem-se e fecham sobre a verdade e seus possíveis caminhos dialéticos.

Autores: Gabriele Cornelli e Maria Cecília de Miranda N. Coelho

Fonte: Kriterion – Revista de Filosofia

A ignorância é o princípio da sabedoria

Imagem relacionadaAlcibiade recevant les leçons de Socrate – François-André Vincent (1746-1816)

Nietzsche disse que “a sabedoria é um paradoxo”, já que “o homem que mais sabe é aquele que mais reconhece a vastidão de sua ignorância”. O pensamento do filósofo alemão corrobora com a máxima socrática do “só sei que nada sei”, isto é, com a ideia de que a ignorância é o princípio do conhecimento e que, portanto, é necessário estar aberto à reflexão constante para que se possa atingir o mínimo de conhecimento e sabedoria.

Em um contexto como o nosso, em que há uma grande carga de informações, sobre os mais diversos temas, disponível, a ideia que correlaciona ignorância e sabedoria parece não fazer tanto sentido. O que se observa é a formação de um conjunto enorme de pessoas que se coloca como possuidor das verdades últimas sobre as coisas, ainda que essas verdades possam mudar constantemente e rapidamente de acordo com a melhor conveniência de quem as define.

Dessa forma, cria-se um ambiente inóspito para que o conhecimento possa se desenvolver, haja vista a sacralização feita pelos indivíduos das coisas que eles julgam como sendo verdadeiras e, por conseguinte, a impossibilidade de questionamento e de debate sobre certas coisas, dogmatizadas. Isso não significa que as pessoas não possam acreditar em algo com veemência ou que não exista uma verdade sobre as coisas, mas até mesmo quando acreditamos em algo, precisamos estar abertos ao novo, o que só é possível se estivermos abertos à reflexão e ao diálogo.

Em outras palavras, é preciso estar aberto a outras formas de pensar, para que problematizações possam surgir, a fim de ratificar aquilo que acreditamos (com mais embasamento e mais espaço discursivo) e/ou para que possamos observar, analisar e seguir novas perspectivas, até então desconhecidas. Nesse sentido, percebe-se que o outro, que pensa de forma antagônica à nossa, passa a ser considerado, o que estimula a interação entre situações contraditórias a partir de uma perspectiva dialética, ou seja, de abertura para o novo que possa surgir por meio do encontro estabelecido.

Essa relação dialética que se instaura com gênese no reconhecimento da ignorância, isto é, da compreensão da não completude sobre o conhecimento de todas as coisas, permite que o sujeito possa crescer intelectualmente, já que passa a possuir um horizonte com maior amplitude de alcance, além de evitar o enrijecimento dos conhecimentos e convicções, bem como, o desenvolvimento do individualismo, impeditivo para a compreensão, o respeito e o diálogo com cosmovisões e crenças diferentes das que possuímos.

Fechar-se em si mesmo e acreditar que não há nada a ser aprendido não denota convicção do que se acredita, mas antes, ignorância, pois – como falava Paulo Freire – “Onde quer que haja mulheres e homens, há sempre o que fazer, há sempre o que ensinar, há sempre o que aprender”. Assim, para que consigamos atingir o mínimo de sabedoria é imprescindível que consideremos e busquemos a sabedoria que está no mundo, do qual não somos todo, mas apenas, parte.

Autor: Erick Morais

Fonte: Genialmente Louco

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A Paideia

Paideia: educação e sociedade -

Ligada a uma concepção de formação educacional para o exercício de todas as potencialidades do cidadão, entenda o conceito de Paideia, suas raízes na filosofia antiga e seus significados na sociedade contemporânea.

A ideia grega de Paideia estava ligada a um ideal de formação educacional, que procurava desenvolver o homem em todas as suas potencialidades, de tal maneira que pudesse ser um melhor cidadão. Definir o que significa esse termo é uma tarefa ingrata e sua interpretação tem variado com o passar do tempo, se vinculando ao tipo de sociedade que se quer desenvolver (ou preservar).

Hoje vivemos em um mundo cada vez mais integrado economicamente, assim, é muito importante questionar os aspectos totalitários presentes no conceito clássico de Paideia que aparecia junto com a divisão de gregos (os que eram considerados iguais e tinham direitos políticos, já que eram reconhecidos como cidadãos) e os bárbaros (que eram excluídos e tomados como inferiores).

Se a educação está estritamente vinculada aos valores que uma sociedade sustenta, seus preconceitos aparecerão na organização de seu currículo, no sistema educacional, na própria arquitetura dos espaços destinados à educação etc. Isso nos traz diversas questões: o que é privilegiado nas escolas e nos conteúdos educacionais como natural/ normal? “Quem” é privilegiado? Por quê? Como esses privilégios se perpetuam? Qual a relação desses privilégios com a manutenção da estrutura de poder e autoridade na sociedade?

As “fronteiras da civilização” não deixaram de existir em nossa sociedade e aceitar algum ideal de homogeneização normatizadora é algo que pode trazer resultados nefastos. Neste texto vamos descrever três perspectivas acerca da Paideia grega e sua posição em relação à educação; a seguir, vamos tentar desenvolver um olhar panorâmico sobre como esse conceito se desenvolveu ao longo da história e, por fim, questionar como ele pode ser útil em nossa sociedade atual.

Três visões da Paideia na Grécia antiga

O filósofo japonês Morimichi Kato[1] descreve três perspectivas diferentes em relação ao ideal de Paideia grega e, a partir delas, desenvolve uma narrativa para pensar o significado desse termo em relação à verdade e à educação do homem. Essa divisão é utilizada por ele não para pensar esse termo em uma perspectiva histórica, mas sim, para desenvolver um questionamento sobre sua dimensão filosófica.

Heráclito e Parmênides fundariam uma primeira perspectiva em relação à Paideia, marcada pelo autoritarismo de quem defende uma ideia de verdade absoluta e atemporal, que só poderia ser alcançada por alguns poucos homens. Esses sábios teriam a capacidade de distinguir o que é aparência e o que é Realmente Real (Parmênides), ou alcançariam um saber em relação à razão que superaria a mutabilidade e a luta de contrários (Heráclito). A autoridade que possui o saber, então, pode dizer/ensinar a Verdade.

A segunda perspectiva, mais “democrática“, foi desenvolvida pelos sofistas. Pensadores como Górgias e Protágoras ridicularizaram a ideia de Parmênides de uma verdade absoluta, atemporal e imutável. A ideia de que “o homem é a medida de todas as coisas”, desenvolvida por Protágoras, apontaria para uma posição relativista na qual existiriam tantas verdades quanto perspectivas humanas. Com os sofistas teríamos o desenvolvimento de um aspecto pragmatista da Paideia, já que a tarefa dos educadores seria a de ensinar as verdades que trariam maiores vantagens para os estudantes em suas comunidades.

A visão dialógica desenvolvida por Sócrates seria a terceira forma de percepção da Paideia. Ela surgiu em confronto com a visão relativista dos sofistas e apareceu nos primeiros diálogos de Platão e em parte de seus escritos de meia idade. Esses diálogos são chamados de aporéticos[2] (por não apresentarem nenhuma teoria de modo afirmativo). Diferente do caminho individual para a verdade descrito por Parmênides, a proposta socrática seria interpessoal, dialógica e não tem como objetivo alcançar um tipo de verdade atemporal. A perspectiva dialógica socrática teria três pressupostos:

  • a verdade é um solo comum entre os homens;
  • ela não pode ser revelada completamente aos homens; e
  • no entanto, ela é parcialmente acessível ao homem. A Paideia socrática consistiria, então, em uma busca intersubjetiva.

A Paideia ao longo da história

A metáfora central da Filosofia Ocidental é a Alegoria da Caverna descrita por Platão em sua República, mostra Richard Rorty[3] no texto “Freud nocauteia Platão”. A influência cada vez maior de Parmênides sobre Platão o levou a desenvolver sua teoria das formas e do sumo bem, desprezando o caminho dialógico socrático em favor de uma concepção que busca redenção em uma verdade absoluta e atemporal. A ideia do filósofo como alguém que tem um acesso especial à verdade e que deve/pode corrigir o olhar dos demais foi aperfeiçoada por Agostinho, Espinosa, Hegel etc. Resumindo: uma perspectiva autoritária foi a matriz de fundamentação de nossa visão de saber/poder.

A perspectiva da educação medieval foi marcada por essa visão autoritária que delegava o saber para autoridades estabelecidas: Aristóteles, os pais da Igreja, a Bíblia. Comentar essas obras e tentar as entender (sem questioná-las) era o modo em que se desenvolvia a educação. Com o Renascimento, esses “livros sagrados” e sua autoridade incontestável entraram em questão, no entanto, a busca por uma verdade absoluta continuou sendo preservada assumindo diferentes formas.

Somente no século 19, quando Nietzsche anunciou “a morte de Deus” a procura por uma verdade redentora foi colocada em questão. Nietzsche diagnosticou nessa busca o ressentimento dos oprimidos que teriam na posse da sabedoria atemporal uma forma de poder. Depois disso, cada vez mais se desenvolveu uma perspectiva relativista em relação à educação e à verdade.

Kato pondera que sua descrição é demasiadamente genérica e deixa de mencionar muitas e importantes exceções, contudo, tem por objetivo destacar que a ideia de uma Paideia dialógica nunca conseguiu ser hegemônica depois de Platão. Ela só volta a acenar no século 20, na visão hermenêutica de Gadamer[4], que toma o diálogo socrático como modelo para estender nosso entendimento acerca de diferentes textos e culturas.

A Paideia na sociedade contemporânea

A imposição de uma perspectiva global e a multiplicação de fronteiras e lugares tomados como estando “fora da civilização”, aumenta a tendência para camuflar com o relativismo posições que repõem a divisão grega entre cidadãos civilizados e bárbaros sem direitos. A percepção das diferenças e a guerra entre os lugares abrem espaço para que o etnocentrismo xenófobo pareça uma posição justificada. Isso acontece tanto nas fronteiras das grandes cidades, quanto em presídios à margem da legalidade (Abu Graib, Guantánamo etc).

Para se construir uma comunidade global é necessário retomar a Paideia dialógica como esboçada por Sócrates. Só assim poderemos aprender a respeitar as diferenças e aceitar o diálogo como caminho para fundir horizontes culturais e aumentar nossa identificação moral.

Nesse sentido multicultural, é interessante a observação de Kato de que o conceito confuciano de aprendizagem (xue), como um processo interminável de alargamento de nossos horizontes, poderia ser comparado de modo frutífero com a Paideia socrática. Contudo, lembra Kato, que essa perspectiva foi reificada como um saber livresco que se tornou autoritarismo, justificando a manutenção da hierarquia social.

Outra observação importante é a de que, ao negarmos espaço para a ideia autoritária de verdade absoluta, não negamos automaticamente os saberes platônicos e neoplatônicos, que podem ser tomados em uma dimensão conversacional e continuarem sendo interessantes. Nesse sentido, a ideia de dignidade humana presente no conceito de amor cristão pode ser útil na construção de diálogos multiculturais. Da mesma forma, a narrativa de Kato deixa de lado certas características que podem ser encontradas no discurso socrático, como a aversão a estrangeiros, a identificação de virtude e conhecimento e a possibilidade de certo tipo de introspecção que nos daria a medida para julgar a nós mesmos e aos outros. Esses aspectos “iluministas” encontrados na perspectiva socrática deveriam ser deixados de lado.

Para Kato, uma perspectiva socrática deve destacar a importância de ouvir o que o outro diz. Tanto para os autoritários, quanto para os relativistas, falar seria mais importante do que ouvir. Os primeiros consideram que quem ouve é imaturo e se coloca na posição de discípulo. Os segundos tomam a fala como meio de impor retoricamente seu ponto de vista como melhor que o dos demais. Ouvir o outro não é uma atividade passiva, já que faz parte de uma interação na qual ambos tentam conjuntamente aumentar a coerência entre suas crenças, na medida em que existe interesse em compreender o outro.

A Paideia socrática nos traz uma perspectiva que aceita a finitude e a incompletude, com um “profundo reconhecimento de nossas limitações culturais e humanas (que deve ser aceito como um fato) e a fé em um solo comum que abriga diferentes credos culturais (o que, embora seja impossível de se provar logicamente, torna-se plausível em uma procura comum), nos quais nos abrimos para outras vozes, que nos fazem, antes de tudo, ouvintes e aprendizes”.

Autor: Marcos Carvalho Lopes

Fonte: Revista Filosofia

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Notas

[1] – Filósofo nascido no Japão, Morimichi Kato com formação pela Universidade de Tokohu e especializado em filosofia da educação e da renascença.

[2] – Neles, Sócrates emprega um método de perguntas e respostas chamado de elenchus, através do qual os que dialogam colocariam suas crenças em jogo, tentando conseguir uma maior coerência entre si. Em sua forma característica (descrita por Gregory Vlastos): “Sócrates extrai uma resposta A para uma questão que ele coloca para um interlocutor, Sócrates então extrai admissões posteriores do interlocutor que acarretam a falsidade de A. A implicação é aceita por ambos, e (quase sempre) ambos concordam que isto mostra (ou até mesmo prova) que A é falsa” (Davidson, Donald. O conceito socrático de verdade). Kato não menciona a ideia de elenchus em sua narrativa por considera-lo demasiadamente vago como método, mas parece pressupor sua estrutura.

[3] – Filósofo pragmatista, Richard Rorty (1931-2007) nasceu em Nova Yorque, EUA. Publicou, entre outros, Filosofia e o Espelho da Natureza (1979). Defendeu doutorado na Universidade de Yale, mas sempre teve fortes discordâncias com o mundo acadêmico. Só assumiu uma cátedra universitária na Universidade de Princeton, nos anos 1980.

[4] – Hans-Georg Gadamer (1900-2002) foi um filósofo alemão autor de Verdade e Método (1960) cujos volumes foram publicados no Brasil pela editora Vozes e um dos expoentes da hermenêutica. Foi assistente de Martin Heidegger (1889-1976) nos anos 1920.

A Morte de Sócrates

David - A MORTE DE SÓCRATES - VÍRUS DA ARTE & CIA.
A Morte de Sócrates –  (Jacque-Louis David / 1787)

Condenado à morte pelo povo de Atenas, Sócrates, rodeado por um grupo de amigos desolados, prepara-se para beber uma taça de cicuta. Na primavera de 399 a.C., três cidadãos atenienses instauraram um processo contra o filósofo. Acusavam-no de não venerar os deuses da cidade, de introduzir inovações religiosas e de corromper os jovens de Atenas. A gravidade das acusações era de tal ordem que exigia pena capital.

Sócrates reagiu com serenidade absoluta. Apesar de, durante o julgamento, lhe ser dada a oportunidade de renunciar às suas ideias, ele preferiu manter-se fiel à busca da verdade a assumir uma conduta capaz de o tornar benquisto entre seus inquisidores. Segundo o relato de Platão, ele desafiou o júri com as seguintes palavras:

“Enquanto eu puder respirar e exercer minhas faculdades físicas e mentais, jamais deixarei de praticar a filosofia, de elucidar a verdade e de exortar todos que cruzarem meu caminho a buscá-la […] Portanto, senhores […] seja eu absolvido ou não, saibam que não alterarei minha conduta, mesmo que tenha de morrer cem vezes.”

Testemunha silenciosa da injustiça cometida, Platão está sentado ao pé da cama do mestre. A seu lado, uma pena e um rolo de pergaminho. Platão contava 29 anos quando Sócrates foi executado, mas David o retratou como um ancião circunspecto e grisalho. No corredor ao fundo, carcereiros conduzem Xantipa, a mulher de Sócrates, para fora da cela. Sete amigos apresentam graus variados de consternação. Críton, seu companheiro mais chegado, está sentado a seu lado e contempla o mestre com devoção e preocupação. Mas o filósofo, cujos torso e bíceps são de um atleta, mantém-se ereto e altivo, sem que se perceba qualquer sinal de apreensão ou arrependimento. O fato de ter sido acusado de loucura por um grande número de atenienses não abalou suas convicções.

David havia planejado pintar Sócrates no ato de beber o veneno, mas o poeta André Chenier sugeriu que o efeito dramático seria bem maior se ele fosse retratado no momento em que terminava um argumento filosófico e, ao mesmo tempo, recebia com tranquilidade a taça de cicuta que daria fim à sua vida, simbolizando, dessa forma, tanto um ato de obediência às leis de Atenas como um compromisso de fidelidade à sua missão. Estamos testemunhando os últimos momentos edificantes de um ser extraordinário.”

Trecho da obra “As Consolações da Filosofia” de Alain Botton

Esta pintura de Jacque-Louis David, e o texto descrevendo-a, retratam de maneira fiel a imagem que temos do primeiro filósofo de grande nome, e que é reverenciado até hoje, e sempre representará a filosofia e sua essência.

Sócrates podia ter fugido, mas não o fez, preferiu morrer mas deixar vivo seus ideais. Um ato raro em qualquer época.

Fonte: A Filosofia

Postado por Caio Mariani

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Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo X

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Comparando temas platônicos e maçônicos

Tendo entendido a maneira como a Maçonaria se desenvolveu a partir do modismo cultural do filohelenismo – uma moda que era moeda corrente ao longo do século XIX, estamos agora em melhor posição para estudar temas paralelos emergentes dos escritos de Platão e o nosso próprio ritual.

Mérito

Um dos temas mais duradouros que percorremos três graus da Maçonaria Simbólica, e até mesmo no ritual de instalação do próprio Venerável Mestre, é o de atingir qualquer das distinções que conseguimos na vida como um resultado de nossos próprios esforços, habilidade e aplicação … em outras palavras – por nossos próprios méritos.

A República tem como a base de sua plataforma – uma crença permanente em que ninguém – homem ou mulher – tem qualquer direito a nomeação, promoção ou avanço dentro de sua sociedade, exceto como resultado de seus talentos, habilidades, indústria exclusivos e, mais importante de tudo, seu caráter.

Reis-filósofos representam o maior pool de talentos em qualquer sociedade e, portanto, recebem o mais alto nível de treinamento para incentivar o mais alto padrão de pensamento e comportamento.

Esse mesmo princípio está impregnado em todo o nosso ritual, conforme demonstram os exemplos a seguir.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
… elevado a eminência por mérito …

A Cerimônia de instalação do Mestre-Eleito / pág. 23

… o incentivo discriminador de mérito …

A Cerimônia de instalação do Mestre-Eleito / pág. 41

… Não temo dúvidas de que o sua futura conduta será tal a merecer a estima dos irmãos.

A Cerimônia de instalação do Mestre-Eleito / pág. 43

Estes Segr., no entanto, são comunicados aos candidatos, não indiscriminadamente, mas de acordo com mérito e capacidade.

Primeiro Grau / pg. 81

Você deve incentivar a indústria e premiar o mérito …

Segundo Grau/Pg. 144

… mérito tem sido o seu título aos nossos privilégios…

Terceiro Grau / pg. 194

Homens e mulheres que demonstraram o mérito visível devem se qualificar para todas estas homenagens, sem distinção de sexo.

As Leis/802a/Saunders

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E se queremos uma descrição breve e moderna de seu tipo de sociedade, meritocracia gerencial é talvez o mais próximo que conseguimos chegar.

A verdadeira questão é que o que ele (Platão) quer é uma aristocracia de talento. E. M. Rieu, Introdução à sua tradução de A República – (edição Penguin Classics).

Preparação para a morte

As lições do primeiro e do segundo graus nos preparam para disciplinar nossas mentes para manter a perspectiva da morte como uma influência moderadora sobre nosso comportamento. Ela nos ajuda a conseguir uma perspectiva equilibrada sobre a vida, enquanto que nos permite viver a vida com paixão animação e entusiasmo.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos  Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Ela prepara você através de contemplação, para a hora de fecho da existência e quando, por meio daquela contemplação, ela o conduziu através dos intrincados meandros desta vida mortal e, finalmente, ela instrui você sobre como deve morrer.

Terceiro Grau / pg. 175

As pessoas comuns parecem não perceber que aqueles que real e verdadeiramente aplicam-se no caminho certo para a filosofia estão diretamente e por conta própria, preparando-se para morrer e para a morte.

Phaeton/64a/Tredinnick

Os verdadeiros filósofos fazer de morrer a sua profissão.

Phaeton/67e/Tredinnick

Você está enganado meu amigo, se acha que um homem que vale alguma coisa, deveria gastar seu tempo pesando as perspectivas de vida e morte. Ele só tem uma coisa a considerar ao realizar qualquer ação; é se ele está agindo justa ou injustamente; como um homem bom ou um homem mau.

Apology/8b/Tredinnick

Pois, deixe-me dizer aos senhores que ter medo da morte é apenas outra maneira de pensar que se é sábio quando não se é; é pensar que se sabe o que não se sabe. Ninguém sabe no que se refere à morte, se não é a maior bênção que pode acontecer a um homem, mas as pessoas a receiam, como se fosse o maior mal…

Apology/29a/Tredinnick

Nosso dever para com nossos pais

Nós já discutimos a importância do conceito de mérito em A República de Platão. Por extensão, nossos pais, ou aqueles que nos proporcionaram nossa educação, ou aqueles que são predominantes em nosso desenvolvimento pessoal são merecedores de manifestações especiais de respeito. Por seu comportamento, eles mereceram o nosso respeito. Do ponto de vista de Platão, esta demonstração de respeito é um dos principais blocos construtivos de uma sociedade bem-ordenada e, da mesma forma, é um bloco de construção principal do ensino maçônico.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Seu dever para com seus pais é suportar o calor e o cansaço do dia, do qual eles, por sua idade, devem ser isentos; auxiliá-los na hora da necessidade e, assim, tornar os seus dias finais felizes e confortáveis. ..

Primeiro Grau / pg. 109

 

Devemos considerar que o objeto mais precioso de adoração de um homem pode ter é seu pai … frágil com a idade, ou sua mãe em situação semelhante, porque quando ele os honra e os respeita, Deus está encantado.

As Leis/913d/Saunders

Ele deve servi-los … e assim dar aos idosos o que eles precisam desesperadamente em virtude de sua idade …

As Leis/717o/Saunders

… depois de uma era gasta em obediência às leis, o curso da natureza o levará ao fim de sua vida.

As Leis/958d/Saunders

Os jovens também devem ceder seus assentos aos mais velhos, levantar-se quando eles entram em uma sala e cuidar de seus pais.

República/425b/ Waterfield.

Fidelidade à nossa terra natal

O papel principal do rei-filósofo de Platão é o de defesa. O filósofo-governante defende não só as leis, mas os costumes, cultura, história, língua, ideais e princípios da comunidade na qual eles servem em uma função de liderança. Estendendo este tema para além das páginas de seus escritos, os autores do Ritual de Emulação tomaram o pensamento de Platão e o transformaram na pedra angular da filosofia maçônica.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
E, acima de tudo, por nunca perder de vista a fidelidade devida ao soberano de sua terra natal, sempre lembrando que a natureza implantou em seu peito um apego sagrado e indissolúvel a esse país onde você nasceu e recebeu sua nutrição infantil. República/503a/Waterfield Primeiro Grau / pg. 98

 

… Eles precisam demonstrar o amor de sua comunidade enquanto são testados tanto em circunstâncias agradáveis quanto penosas, e deixar claro que não vão deixar de lado o seu patriotismo qualquer que sejam as provas ou medos com que se deparem…
Ao nunca propor ou absolutamente não tolerando qualquer ato que possa ter uma tendência para subverter a paz e a boa ordem da sociedade; dedicando a devida obediência às leis de qualquer Estado que possa, durante algum tempo, se tornou o lugar de sua residência ou estendeu-lhe sua proteção …

Primeiro Grau / pg. 98

Todo homem que é bom deve denunciar o conspirador às autoridades e levá-lo ao tribunal sob a acusação de violência e ilicitamente derrubar a Constituição As Leis/856o/Saunders

Viver respeitado e morrer lamentado

Se um dos princípios pelos quais vivemos nossas vidas é fazer das realizações de nossa vida, um monumento eterno (mesmo na morte), então este foco nos dará um sentido de equilíbrio que não só nos ajudará a navegar em nosso caminho por momentos de teste na vida, mas também nos fornecerá uma boa base para uma partida confiante desta vida.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
… chegando à eminência por mérito, você viverá respeitado e morrerá lamentado.

A Cerimônia de instalação do Mestre-Eleito / pág. 28

… Ele está contente se puder encontrar uma maneira de viver a sua vida aqui na terra, sem se tornar manchado por atos imorais ou injustos, e partir dessa vida com confiança e sem raiva e amargura.

Republica/496d-e/ Waterfield.

O autoconhecimento e auto entendimento

A base da filosofia de Sócrates não era nada mais ou nada menos que uma verdadeira compreensão de nós mesmos. Esse entendimento leva em consideração a amplitude da nossa personalidade, incluindo nossos pontos fortes e talentos (mas não ignorando nossos pontos fracos e áreas de autodesenvolvimento). Do ponto de vista grego antigo, você e eu somos um reflexo do próprio grande cosmos; portanto, cada ação das nossas vidas afeta o equilíbrio do cosmos – tanto o universo maior do qual os planetas, estrelas e galáxias existem, mas bem no universo interior do nosso coração, mente e carne. O autoconhecimento é o cabresto através do qual refreamos nossos apetites e restauramos o foco e o equilíbrio. O autoconhecimento é o meio pelo qual contemos nossos defeitos de caráter.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Deixe os emblemas da mortalidade que se encontram diante de você levá-lo a contemplar seu destino inevitável e orienta-lo em suas reflexões para aquele que é o mais interessante de todos os estudos humanos, o estudo de si mesmo.

Terceiro Grau / pg. 180

Estou refletindo, respondi, e descobrir que a temperança ou a sabedoria, se é uma espécie de conhecimento deve ser uma ciência e uma ciência de alguma coisa.

Sim, ele disse, a ciência do próprio homem. Charmides/1650/Jowett

Porque eu diria que o autoconhecimento é a própria essência da temperança, e nisso eu concordo com quem dedicou a inscrição: “Conhece a ti mesmo” em Delphi. Essa inscrição, se não me engano, está lá como uma espécie de saudação que o deus dirige àqueles que entram no templo …

Charmides/165a/Jowett

O conhecimento do Bem e do Mal

Em seu nível mais básico, a moralidade é a realização de um equilíbrio na vida, entre os extremos da escuridão e luz, entre a dor e o prazer, entre o bem e o mal.

Mas, em muitas situações da vida, nossas decisões não são tão fáceis como aquelas entre extremos. Nossas decisões são mais difíceis – elas também são associadas a zonas cinzentas de sombra e penumbra. Muitas vezes, não temos o luxo de fazer escolhas entre o bem e o mal, mas entre o menor entre dois (ou mais males) ou a maior entre dois ou mais bens. A capacidade de tomar essas decisões com confiança e bem, exige mais que uma mera compreensão superficial da moralidade. Ela exige algo mais profundo – uma compreensão da natureza humana.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Tendo definido para a nossa instrução, os limites do bem e do mal…

Terceiro Grau / pg. 191

Para realizar uma investigação rigorosa sobre a natureza, tanto do bem quanto do mal.

Republica/368c/Waterfield

… A competência e conhecimento com que distinguimos uma vida boa de uma ruim.

Republica/618c/Waterfield

A vida (… expressa como uma viagem náutica)

Desde as primeiras histórias de Jasão e seus Argonautas, assim como Ulisses (e seus 10 anos de jornada para casa depois da Guerra de Troia), uma das imagens mais impressionantes que apelam à nossa mente é o da vida como uma viagem náutica. Quer se trate de um timão de retidão ou uma quilha do caráter, a imagem é clara. É uma imagem de foco ou talvez (mais apropriadamente), uma de manutenção de um rumo preciso em nossas vidas.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Manobrar o barco dessa vida pelos mares da paixão sem abandonar o timão da retidão é a maior perfeição que a natureza humana pode alcançar …

Segundo Grau/Pg.

Estou dando a devida atenção à forma como devemos tentar viver – à “quilha do caráter” que precisamos estabelecer se vamos navegar através desta viagem da vida com sucesso.

As Leis/803b/Saunders

Metais e valores

O termos aristocracia significa literalmente “governo dos melhores”. Os “melhores” eram muitas vezes julgados pelo padrão da riqueza – por quantos metais finos ou objetos de valor eles possuíam. Para Platão, a riqueza não era o fator determinante dos melhores. De sua perspectiva, “os melhores” eram (como já compreendemos) aqueles com o melhor nível de competência. Os “melhores” eram aqueles que eram disciplinados na forma como pensavam e que demonstravam a moralidade vivendo as Virtudes Cardeais.

A partir desta perspectiva, era importante selecionar o novo tipo de líder-filósofo através da total ausência de metais e objetos de valor – aqueles antigos padrões de determinação de quem era melhor para liderar a comunidade.

Um dos primeiros princípios que regem a norma pela qual um governante-filósofo deveria viver, era criar um tabu contra a posse de metais e objetos de valor. É, portanto, de se admirar então que a primeira instrução que um Iniciado ouve quando ele se coloca no canto nordeste, é demonstrar que ele não tem metais ou objetos de valor em seu poder?

A importância com a qual isso é tratado em nosso Ritual é incrível. Esta é a única ocasião em que uma sanção real (e não simbólica), seria utilizada. Nosso Ritual nos lembra que se o Candidato à Iniciação tiver metais ou objetos de valor em sua posse, ele seria obrigado a ser retirado do recinto da loja e a cerimônia recomeçaria desde o início somente depois desses metais e objetos de valor terem sido descartados enquanto durar a cerimônia.

Se repensarmos o nosso ritual a partir da perspectiva de ser ele uma expressão da filosofia de Platão, então, sem dúvida – de todas as lições, instruções, encargos e exortações que um Iniciado ouve – certamente não há símbolo mais elevado do nascimento de um novo filósofo-rei, do que este que ocorre no Canto Nordeste.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Você estava despido de tudo valioso antes de entrar na loja?

Primeiro Grau / pg. 89

Em segundo lugar, demonstrar aos irmãos que você não tinha nem metais, nem objetos de valor consigo, porque se você tivesse a cerimônia de sua iniciação até então deveria ser repetida.

Primeiro Grau / pg. 90

Você foi despojado de todos os metais e objetos de valor. Isto se referia ao fato de que na construção de Templo do Rei Salomão, (pois é sobre as circunstâncias relacionadas com a construção daquela magnífica estrutura que a maioria de nossas cerimônias são baseados), não se ouviu nenhum som de martelo ou implemento de ferro .. .

Primeiro Grau / pp. 92 – 93

Assim, diferentemente de alguns de nossos concidadãos, não se lhes permite ter qualquer contato com o ouro e a prata; eles não devem estar sob o mesmo teto que o ouro ou a prata, ou usá-los sobre seus corpos … Esses preceitos garantirão a sua própria integridade…

República/418a/ Waterfield.

Tendo sido educado assim, eles nunca devem olhar para ouro ou prata ou qualquer outra coisa como sua propriedade particular.

Timaeus/18/Lee

Nós não temos nenhum uso para ouro e prata; é tabu para nós (isto é, reis-filósofos), embora não seja para você.

Republica/422d/ Waterfield.

Agora, nossas observações, há pouco tempo atrás, não nos convenceram de que o ouro e a prata, os deuses da riqueza não deviam ter nem templo, nem casa em nosso Estado?

As Leis/801b/Saunders

 

Inovação

Na filosofia de Platão, o curso de educação para um aspirante a “filósofo-rei” usando as artes liberais e ciências para aumentar as faculdades intelectuais, e as Quatro Virtudes Cardeais para traçar os limites do comportamento adequado e realmente honrado aceitável era o ideal. Ele não exigia qualquer outra inovação. O que era necessário dizer tinha sido dito. Nenhum filósofo-governante tinha autoridade para fazer inovações sob seu próprio capricho.

Da mesma forma, durante a Cerimônia de Instalação de um Venerável Mestre, este novo rei-filósofo é lembrado da mesma coisa. Existem métodos pelos quais as mudanças podem ser incorporadas aos Regulamentos, mas isso não pode acontecer por um capricho ou por ações de uma facção ou grupo particular.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Você admite que não está no poder de qualquer homem ou grupo de homens fazer a inovação no corpo da Maçonaria.

Obrigações de um Maçom / Maio 1995/pg.

Eles devem estar em guarda contra inovações que transgridam nossos regulamentos…

República/424b/ Waterfield.

Submissão e obediência

Um dos princípios definidores comuns tanto dos ensinamentos de Platão quanto da Maçonaria é que o mundo (ou o cosmos) é estruturado sobre o governo e liderança corretos, e sua ordem é colocada em equilíbrio delicado pela habilidade das pessoas que são julgadas competentes para governar com justiça.

Este equilíbrio no cosmos é o oposto do conceito grego de caos (ou em termos modernos) anarquia.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Irmãos, tal é a natureza da nossa Constituição que, como alguns têm necessidade de governar e ensinar, outros devem, naturalmente, aprender a se submeter e obedecer …

A Cerimônia de Instalação do Mestre-Eleito / pág. 52

Agora entendo que os estados devem conter algumas pessoas que governam e outras que são governadas?

As Leis/6890/Saunders

… o que temos em mente é a educação desde a infância em virtude, uma formação que produz um profundo desejo de se tornar um cidadão perfeito – que sabe como governar e ser governado como a justiça exige.

As Leis/6430/Saunders

 

Luz

A imagem da luz como um símbolo de conhecimento e compreensão é universal. É somente durante parte da Cerimônia de Iniciação em que o candidato está com os olhos vendados, simbolizando “seu estado de escuridão”. Uma vez que a venda tenha sido removida, ela nunca mais é reaplicada em qualquer outro Grau da maçonaria simbólica. Platão usa a imagem da luz no que é, sem dúvida o seu mito mais celebrado. Ele é conhecido como O Mito da Caverna. Nesta história, os homens estão acorrentados abaixo do nível do solo e incapazes de virar suas cabeças, compreender que a “realidade” nada mais é do que as sombras projetadas nas paredes da caverna pela luz por trás deles. Depois de terem entendido que as suas noções de “realidade” eram falhas, eles nunca mais podem voltar a viver suas mesmas vidas novamente. Eles foram iluminados. Esta é a base da iniciação, mas possivelmente podemos também dedicar algum pensamento que o processo de iniciação não é apenas algo que acontece em uma noite. Ele pode ser algo que continua durante todo o restante dos dias que nos foram reservados.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
VM. Tendo sido mantido por um tempo considerável em um estado de escuridão, qual é o desejo predominante em seu coração?

Candidato A Luz

VM. Irmão Segundo Diácono, ao meu sinal, deixe aquela bênção ser restaurada para o candidato.

Primeiro Grau / pg. 79

A reorientação de uma mente de uma espécie de crepúsculo para a verdadeira luz do dia – e esta orientação é uma ascensão da realidade, ou em outras palavras – verdadeira filosofia.

Republica/512c/Waterfield

 

Sabedoria e força da mente

Em ambos os trechos citados abaixo, fica evidente que a compreensão e saber o que fazer nos ajudam a chegar só até certo ponto. Na verdade, ter a força da mente para superar as barreiras mentais que às vezes se colocam em nosso próprio caminho é que nos pode ajudar a atingir nossos objetivos.

Estas barreiras mentais são, na maioria das vezes, nossos preconceitos naturais que Platão caracteriza como desejos e apetites.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
… No governo da loja, você deve combinar a sabedoria, a força da mente e as belezas da persuasão eloquente.

A Cerimônia de instalação do Mestre-Eleito / pág. 28

.. e deve manter a virtude como um todo em mente, mas sobretudo e por excelência, a virtude que encabeça a lista – o julgamento, a sabedoria e a força da mente de tal forma que os desejos e apetites sejam mantidos sob controle.

As Leis/688b/Saunders

 

As vantagens da educação social

Educação não é só “saber” coisas. A maior parte da educação é a capacidade de se adequar e contribuir significativamente para a comunidade da qual fazemos parte.

Compreender e ser capaz de demonstrar competências sociais, tais como boas maneiras, etiqueta e respeito pelos outros, nos ajuda a nos expressar e aceitar a expressão dos outros – (mesmo quando os outros pensam de forma totalmente diferente do ponto de vista que temos).

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
O cinzel aponta as vantagens da educação, que cultiva nossas mentes e nos torna melhores membros da sociedade

Primeiro Grau / pg. 95

Não é a extrema importância da educação cultural, devida ao fato de que o ritmo e a harmonia afundam-se mais profundamente na mente do que qualquer outra coisa? Para alguém a quem é dada uma educação correta, o produto é a graça; mas na situação oposta, é deselegância.

República/ 401 d /Waterfield

Regulando nossos amores e ações

De acordo com Platão e nosso ritual, a finalidade de se levar uma vida moral, é tornar-se equiparado a Deus.

Embora nunca possamos nos tornar semelhantes a Deus, podemos nos esforçar para fazer o nosso melhor para nos aproximarmos da essência que é Deus.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
O esquadro nos ensina a regular nossas vidas e ações de acordo com a linha e regra maçônicas, e assim harmoniza nossa conduta nesta vida, para nos tornar aceitáveis ​​àquele Ser Divino, de quem toda fluem toda a bondade e a quem devemos prestar contas de nossas vidas.

Segundo Grau/Pg. 139

 

O ponto é que os deuses nunca negligenciaram qualquer pessoa que esteja disposta a se dedicar a se tornar moral e praticar a virtude para assimilar-se a deus, tanto quanto seja humanamente possível. República/613e/ Waterfield.

Preservando nossa consciência

Ambas as passagens abaixo estão relacionadas com uma coisa – os meios que precisamos usar para apoiar-nos em nossas relações com Deus, assim como todas as pessoas que encontramos em nossas vidas diárias.

Somos instruídos a guardar nossos pensamentos e palavras. Estes dois são o assunto a partir dos quais nossos hábitos se desenvolvem.

Nosso objetivo na vida é desenvolver a aretê ou excelência habitual em nossos pensamentos, sentimentos, palavras e ações.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Irmãos, simbolicamente, a espada nos ensina a colocar uma vigilância sobre a nossa língua e observar a entrada de nossos pensamentos, excluindo todo pensamento, palavra e ação desqualificada, e se esforçando para preservar uma consciência livre de ofensa a Deus e ao homem.

A Cerimônia de instalação do Mestre-Eleito / pág. 52

Hábitos sólidos e ideias verdadeiras… as sentinelas e guardiães que melhor protegem o espírito dos homens que encontram a graça diante dos olhos de deus.

República/560b/ Waterfield.

… você não percebeu como se a representação repetida contínua muito depois da infância ela se torna habitual e arraigada e tem um efeito sobre o corpo, voz e mente de uma pessoa “?

República/395d/ Waterfield.

Nossa conduta

A instrução que nos é dada é clara: quando estamos envolvidos em assuntos sérios, precisamos adotar uma atitude séria.

Isso não é nada fora de uma resposta adequada.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Como a solenidade de nossas cerimônias exige uma postura séria, você deve estar particularmente atento ao seu comportamento em nossas reuniões. Segundo Grau/Pg. 143 Mas, se temos a intenção de adquirir virtude, mesmo em pequena escala, não podemos ser sérios e também cômicos , e isto é a razão pela qual devemos aprender a reconhecer a palhaçada …

As Leis/816e/Saunders

Os ensinamentos de Pitágoras

Os ensinamentos de Pitágoras foram o pano de fundo para a filosofia de Platão. Sabemos disso por meio dos escritos de Platão, assim como dos escritos de Agostinho de Hipona.

Nosso ritual deixa bem claro que ele está em dívida também com Pitágoras.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
O sistema de Pitágoras era baseado em um princípio semelhante.

Primeiro Grau / pg. 102

Isto é o que aconteceu com Pitágoras; ele não só era tido em grande conta por seus ensinamentos durante sua vida, mas seus sucessores mesmo hoje chamar seu modo de vida de Pitagoreano e, de alguma forma, parece, se destacar de outras pessoas.

República/600b/ Waterfield.

 

A bênção de Deus sobre nossos empreendimentos

Nossas reuniões maçônicas seguem a prática adotada por Sócrates e Platão, em que a bênção de Deus deve ser buscada em tudo que fazemos na vida.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
VM. O loja estando devidamente composta antes que seja declarada aberta; invoquemos a benção do GADU em todos os nossos empreendimentos. Primeiro Grau / pg. 41 Sim, Sócrates, é claro que todos com o mínimo de senso apela a Deus no início de qualquer empresa, grande ou pequena.

Timaeus/27/Lee

Os céus

Tanto na filosofia grega quanto em nosso ritual, entendemos que a imensidão do universo é um reflexo do seu Criador.

Não é uma prova da existência de um Ser Supremo, mas é algo que fala à nossas mentes e corações sobre algo por trás do ato de criação.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Os céus Ele estendeu um teto, a terra que Ele plantou como escabelo aos seus pés. Ele coroa Seu templo com estrelas assim como como um diadema e as Suas mãos ampliam seu poder e glória.

Primeiro Grau / pg. 104

Ele acreditará que esse Artesão dos céus as colocou e tudo o que neles há, da forma mais bonita possível para tais coisas.

República/530a/ Waterfield.

O supervisor do universo organizou tudo com um olho em sua preservação e excelência.

As Leis/903b/Saunders

 

Autodisciplina

Uma das imagens que Platão usou em um diálogo chamado Fedro foi a de um cocheiro dirigindo seus cavalos. Os cavalos pode querer ir em direções diferentes, mas o papel do cocheiro é orientá-las em uma única direção.

O cocheiro é um símbolo de nossa mente racional e os cavalos são símbolos das nossas paixões e desejos. Através da aplicação de um som, a mente bem-educada sobre nossos desejos e apetites, nós os colocamos sob nosso controle.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
E para si mesmo, por tal prudente e bem regulado curso de disciplina que possa melhor conduzir à preservação de suas faculdades corporais e mentais em sua máxima energia.

Primeiro Grau / pg. 98

Em vez disso, ele regula bem o que é realmente seu, regula a si mesmo, coloca-se em ordem, torna-se seu próprio amigo e harmoniza os três elementos …então e só então ele deve voltar-se para a ação … nessas áreas, ele considera e solicita apenas ação justa e fina que preserve a harmonia interior e ajude a alcançá-la, e o conhecimento e a sabedoria que fiscalizam tal ação; e ele considera injusto e chama de injusta tal ação que destrói esta harmonia.

Republica/443d-e/ Waterfield.

A convicção de que nos impele em direção à excelência é racional e o poder através do qual a dominamos, chamamos de auto controle …

Fedro/238/Hamilton

Boa gestão

Comum aos ensinamentos de Platão e aos da Maçonaria é o princípio de que o bom governo/gestão/liderança é a expressão externa de uma mente bem ordenada.

É por essa razão que Platão coloca tanta ênfase na educação correta.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
A honra, reputação e utilidade desta loja dependerá substancialmente da habilidade e da assiduidade com que você gerencia suas preocupações …

A Cerimônia de instalação do Mestre-Eleito / pág. 37

 

Portanto, a gestão e autoridade inevitavelmente serão tratadas mal por um espírito ruim, enquanto que uma boa mente fará bem todas essas coisas. República/353d/ Waterfield.

O centro e o círculo

Sobre o pavimento mosaico de qualquer loja que pratique o Ritual Emulação (ou uma variante dele) está um dispositivo ou representação de um “ponto dentro de um círculo”. Um volume da Lei Sagrada repousa sobre um travesseiro, que é suportado por este dispositivo e o conjunto é uma representação simbólica de Deus.

Na filosofia de Platão, a forma geométrica mais perfeita é a esfera do círculo.

É por este motivo que Deus criou o mundo como uma esfera (… sim… acreditava-se nisso e foi provado cientificamente pelos antigos gregos, séculos antes de Colombo). Como toda a criação é uma expressão externa de Deus, Platão via a esfera circular como um símbolo, vital e pulsante do Ser Supremo.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
VM. O que é um centro?

SV. Um ponto dentro de um círculo a partir do qual cada parte do círculo é equidistante.

Terceiro Grau / Pág. 162

Por isso, Ele a transformou em uma forma arredondada esférica, com os extremos equidistantes em todas as direções a partir do centro.

Timaeus/33/Lee

… e “círculo”, a definição seria “a coisa cujas extremidades, em todas as direções são equidistantes de seu centro”.

A Sétimo Letra/342/Hamilton

Porque, desde que o universo é esférico todos os pontos de extremas distâncias do centro são equidistantes dele, e assim todos “extremos” igualmente, enquanto que o centro, sendo equidistante dos extremos é igualmente “oposto” a todos eles.

Timaeus/62/Lee

Que todos os homens de boa vontade devem colocar Deus no centro de seus pensamentos.

As Leis/803c/Saunders

A responsabilidade da alma

Um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria é que você e eu somos totalmente responsáveis e totalmente responsabilizáveis ​​por nossos pensamentos, sentimentos, palavras e ações.

Em uma expressão muito poética da filosofia de Platão, nosso ritual se baseia na imagem de nossa alma (ou “princípio vital”), tendo que prestar contas de suas ações durante a nossa vida breve, após a morte.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
…e harmonizar nossa conduta nesta vida, para nos tornar aceitáveis ​​àquele Ser Divino, de quem toda fluem toda a bondade e a quem devemos prestar contas de nossas vidas.

Segundo Grau/Pg. 139

…mesmo neste quadro perecível reside um princípio vital e imortal…

Terceiro Grau / pg. 180

 

O nosso verdadeiro eu – nossa alma imortal, como é chamada – se afasta, como a lei ancestral declara, para os deuses para prestar conta de si mesma.

As Leis/959b/Saunders

A crença em um Ser Supremo

A primeira pergunta ao candidato com os olhos vendados para a Iniciação na Maçonaria é que ele confirme sua crença em um Ser Supremo. A crença em um Ser Supremo é a base da Maçonaria.

Se Deus é nosso Pai, você e eu somos irmãos.

A crença em um Ser Supremo é (coincidentemente) o alicerce dos ensinamentos de Platão, em suas duas obras mais importantes – A República e As Leis.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
VM. Em todos os casos de dificuldade e perigo, em quem você coloca sua confiança?

Candidato Em Deus.

VM. Estou feliz em descobrir que sua fé é tão bem fundamentada.

Primeiro Grau / pg. 74

É extremamente importante ter em conta … a existência dos deuses e a medida óbvia de todos os seus poderes.

As Leis/967b/Saunders

Nunca devemos escolher como Guardião das Leis qualquer um que… não tenha trabalhado duro na teologia, ou permitir que a ele sejam concedidas distinções por virtude.

As Leis/967d/Saunders

A importância da Iniciação

Uma das marcas da iniciação, comum tanto aos escritos platônicos quanto ao Ritual maçônico é uma valorização maior da beleza. A beleza é o reflexo e imagem de Deus em toda a criação e em todos os eventos de nossas vidas.

Cerimônia Ritual Maç. Simb. / Número da página Constituição Sul-Australiana 13ª Edição, 2004 Escritos platônicos Diálogo / Paginação de Stephanus / Tradução
Concede Tua ajuda Pai Todo-Poderoso e Supremo Governador do Universo conceda este candidato à Maçonaria que ele possa assim dedicar e dedicar sua vida ao Teu serviço, e se tornar um irmão verdadeiro e fiel entre nós. Reveste-o com tal competência da Tua Divina Sabedoria que assistida pelos Segredos de nossa Arte Maçônica, ele possa desdobrar melhor as belezas da verdadeira Divindade, para honra e glória do Teu Santo Nome.

Cerimônia de iniciação, pp. 73-74

Agora o homem que não teve sua iniciação recentemente, ou que tenha sido corrompido não faz rapidamente a transição da beleza na terra para a beleza absoluta …

Fedro/250/Hamilton

Mas, o recém-iniciado que teve uma visão celestial completa, quando contempla um rosto com face de deus ou uma forma física que verdadeiramente reflete a beleza ideal, antes de tudo ele treme e experimenta algo do temor que a visão em si inspirou …

Fedro/250/Hamilton

Continua…

Autor: Stephen Michalak
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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