Solstício de Verão – 2020

Feliz dia de Solstício de Verão! | Reiki em Portugal

“Quando as pessoas são felizes, não reparam se é Inverno ou Verão.” (Anton Tchekhov)

No ano que se encerra, navegamos por mares turbulentos. 2020 teve seus percalços, com vários tropeços, crises quase apocalípticas, como as queimadas, tempestades, deslizamentos, o ciclone bomba que atingiu o sul do país e a COVID-19, a mais grave pandemia da era moderna, que pegou a todos desprevenidos, com impactos na economia global, de vidas que se foram e o isolamento social (“fique em casa”), inédito nos tempos modernos, evocando sentimentos de perplexidade, inquietação, sensação de vulnerabilidade, de finitude e até de medo.

Tempo suspenso, portas trancadas, cortinas cerradas, famílias separadas, mortes transformadas em números, rituais de despedida suspensos, sistema global econômico e de produção paralisados. Novas formas de administrar o espaço físico doméstico, de suprir a casa e conciliar atividades profissionais. De outra sorte, água suja se limpando, poluição diminuindo e pássaros retornando aos locais de onde tinham desaparecido.

A natureza abriu a “Caixa de Pandora” e deu o seu recado. Tudo temperado com fake news, o cheiro desagradável do esgoto das redes sociais, fortes emoções, porém com algumas conquistas e desafios superados.

Que vontade de dizer agora, ufa, passou! Mas, surge uma chamada “segunda onda” e os cuidados e angústias se redobram. Parece que um melhor cenário se vislumbra, pois já existe uma vacina chegando por aí. Por ora, testemunhamos o quase fim do mundo e sobrevivemos a ele. Sairemos certamente mais fortes e com outra visão de mundo. Mas a que custo? Ficam as lições assimiladas na dura experiência. “Quem tem ouvidos, ouça”.

Hoje, e ainda bem que estamos aqui, soa sempre como mais do mesmo: adeus ano velho, feliz ano novo. Calendário quase chegando ao fim. Verão se aproximando. É momento de deixarmos que as cargas negativas virem cinzas ou ainda vamos querer falar durante algum tempo sobre a pandemia? A expectativa da virada engendra reflexões. Repensar os modos de vida, fazer o balanço de erros e acertos, rever escolhas e focar em onde melhorar e restaurar as resoluções de início de novo período. Enfim, garimpar novidades ou, para muitos, tentar voltar ao ponto em que nos encontrávamos antes do vírus dar as caras, resgatar o sabor da liberdade e de convivência harmônica e festiva.

Alheia a tudo isso, na natureza é tempo de muita luz para que a energia gerada renove seu ciclo. Nova época, uma nova estação. Fertilidade e prosperidade! O verão desperta energias. É o simbolismo da vida que se renova e ganha força dentro de cada ser. Mas, será só isso mesmo?

Na dura realidade, e presente alguma incerteza em relação a 2021, difícil não defrontar novamente com as constantes ameaças de explosão de gastos com as inevitáveis despesas de início de ano: IPVA, IPTU, matrículas escolares, férias, reajustes de preços e, como sempre anunciado no retrato do verão, mais do mesmo em termos de tragédias, que poderiam ser evitadas caso as políticas públicas fossem efetivas e não apenas promessas e mais promessas.

No simbolismo da virada de ano uma série de projetos da vida pessoal, fracassados ou suspensos na última temporada, se revigoram, como mudanças de hábitos alimentares, fuga do sedentarismo, planos de exercícios físicos regulares, projetos de montar um negócio próprio, recuperação da liberdade perdida, as festas, os encontros presenciais, poupança para um futuro tranquilo, ser mais tolerante, manter a calma custe o que custar, dentre outros sonhos.

Avaliações e construção de narrativas sobre o que não foi possível realizar no ano que se encerrou muito antes de seu fim ou dos quais desistimos mesmo antes de tentar, são sempre condescendentes e justificadoras dos fracassos colhidos, mas não impedem a expectativa de que tenhamos sucesso na nova temporada que se abre, pois o que não nos falta é Fé, Esperança, Amor e Gratidão pelas conquistas realizadas, pelas lições aprendidas.

É importante ressignificar compromissos e ter consciência sobre nossas limitações, mas, torna-se imprescindível potencializar nossas capacidades e manter o otimismo em relação ao porvir, sendo realistas sobre nossas possibilidades, as boas e não tão boas que podemos criar. As transformações que almejamos dependem somente de nós mesmos.

Sem medo de ser repetitivo, depois de tudo que passamos é até agradável repetir a tradição de renovar os votos de um Feliz Ano Novo, pois o sentimento que sempre se anuncia nesse período é a esperança, alimentada pelas inúmeras oportunidades que a vida nos oferece. Deixar para começar depois do carnaval, que esperamos aconteça, costuma ser um pouco tarde, pois o novo ano já terá adquirido o seu ritmo e as mudanças novamente restarão adiadas.

Para começo pode parecer pouco, mas procuremos deixar para trás a lógica do confronto, em especial das cruzadas ideológicas, e pratiquemos a tolerância, o respeito à diversidade e a colaboração onde for necessário. E busquemos, na espiritualidade, o equilíbrio das energias que melhor direcionem e inspirem nossas ações para sermos construtores de uma sociedade mais justa. E que as oportunidades a serem exploradas amenizem a trágica herança deixada pela pandemia e que ela não deixe vestígios em nossos corações.

Afinal, é bom aproveitar esse breve momento de pura reflexão. Depois volta tudo ao normal, às velhas atitudes, à sempre saudosa e reconfortante rotina da qual éramos tão críticos. E que saudades daqueles dias! A roda da vida segue girando, neste “País abençoado por Deus e gigante pela própria natureza”.

Na expectativa de que a Palavra Semestral da tradição maçônica, sempre atualizada na passagem dos solstícios, sirva de inspiração para a jornada que logo recomeça.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida e da Academia Mineira Maçônica de Letras.

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O círculo, o ponto e as paralelas tangenciais

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1 – Introdução

Na profusão da edição de rituais e instruções maçônicas no Brasil, muitas questões têm se apresentado que ainda clamam por uma solução ou explicação satisfatória nesse particular, sobretudo pela inserção de instruções que não pertencem a esse ou aquele Rito e sua correspondente doutrina iniciática, levando-se em conta à vertente na qual pertença o costume maçônico.

É o caso, por exemplo, de uma questão que envolve, dentro da simbologia maçônica, o conjunto composto pelo Círculo, pelo Ponto e pelas Paralelas Tangenciais e ainda no contexto acrescido do Livro da Lei e da Escada de Jacó. Indiscriminadamente esse conjunto alegórico, em não raras vezes, tem habitado as instruções para o Aprendiz emanadas em alguns rituais brasileiros do Rito Escocês Antigo e Aceito como o exemplo do que segue:

“Em Loja Maçônica Regular, Justa e perfeita, existe um ponto dentro de um circulo, que o verdadeiro Maçom não pode transpor. Este círculo é limitado, ao Norte e ao Sul, por duas linhas paralelas, uma representando Moisés e outra o rei Salomão. Na parte superior deste círculo, fica o Livro da Lei Sagrada, que suporta a Escada de Jacó, cujo cimo toca o céu. Caminhando dentro deste círculo sem nunca o transpor, limitar-nos-emos às duas linhas paralelas e ao Livro da Lei Sagrada, e, enquanto assim procedermos, não poderemos errar”.

O conteúdo acima foi motivo de consulta perpetrada por um Respeitável Irmão da COMAB, no que assim se manifestava naquela oportunidade: “Este texto tem gerado inúmeras discussões em Loja sem jamais chegarmos a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico”.

2 – Comentários

2.1 – Vertente inglesa da Maçonaria

Embora o Círculo entre as Paralelas Tangenciais seja um conjunto simbólico eminentemente genérico na Maçonaria universal, a sua composição com o Altar, com a Escada de Jacó e com o Livro da Lei Sagrada, além da menção aos personagens bíblicos de Moisés e de Salomão, é um conjunto alegórico pertencente à Tábua de Delinear[1] inglesa do Primeiro Grau, portanto não são componentes do Painel do Grau de Aprendiz do Rito Escocês Antigo e Aceito, rito esse de vertente francesa, a despeito de que em se tratando do conteúdo simbólico de ambos (da Tábua e do Painel), aparecem significativas diferenças.

Devido à existência dessas distinções litúrgicas e ritualísticas entre os dois principais sistemas doutrinários maçônicos (embora o escopo seja único – o de reconstruir e aprimorar o Homem) – surgem então às anfibologias e as incompreensões sobre esse conteúdo, sobretudo quando pertinente às instruções e catecismos maçônicos se equivocadamente generalizados.

Na concepção inglesa (teísta), por exemplo, esse conjunto no momento em que é composto pelas paralelas tangenciais, pelo círculo e pelo ponto, dentre outros, representa também a Lei (do patriarca Moisés) e a Sabedoria (do rei Salomão).

À bem da verdade, esse conjunto simbólico é fruto haurido da Moderna Maçonaria e sacramentado através das Lições Prestonianas (William Preston[2]), além de outras interpretações relacionadas à mencionada alegoria, efetivamente a partir do primeiro quartel do Século XIX, inclusive quanto à alusão aos personagens bíblicos do Antigo Testamento, Moisés e Salomão, já que os nomes dessas personalidades se dariam em substituição aos tradicionais santos patronais João, o Batista e João, o Evangelista devido à decisão da Grande Loja em transformar a Maçonaria em uma instituição não sectária na Inglaterra, nesse particular sob o ponto de vista religioso[3].

Naquela oportunidade então é que seria recomendado, na medida do possível, que as novas Tábuas de Delinear não contivessem símbolos associados ao Cristianismo. Nesse sentido, por exemplo, é que o título Bíblia seria designado simplesmente como o “Volume das Sagradas Escrituras”. Essa aparente descristianização dos catecismos maçônicos seria um dos motivos principais que levaria às escaramuças entre os Antigos e os Modernos relativos às duas Grandes Lojas rivais à época na Inglaterra.

Obviamente que ao longo desses acontecimentos, longe da unanimidade, muitos símbolos cristãos ainda assim permaneceriam como integrantes desse corolário alegórico particular à Maçonaria Inglesa. É o caso da Cruz que identifica a Fé como virtude teologal, colocada no primeiro lance da Escada de Jacó em direção ao céu, sobejamente conhecida na composição do “Tracing Board” (Tábua de Delinear) do primeiro Grau do Craft inglês nos Trabalhos de Emulação (equivocadamente chamado no Brasil como Rito de York).

Nesse conjugado alegórico o Círculo entre as Paralelas Tangenciais é exposto na Tábua de Delinear aparecendo como uma espécie de base, alicerce ou arrimo que dá apoio ao Volume da Lei Sagrada que, por sua vez, é o sustentáculo da Escada de Jacó.

Dentre outras exegeses pertinentes para esse conjunto alegórico, a mais comum encontrada é a que se destaca a seguir:

O Círculo entre as paralelas expressa os limites impostos pela Sabedoria daquele que cumpre a Lei. Essa é a base (Altar) onde descansa o código de moral e ética (Volume das Sagradas Escrituras), cujo caminho avulta a ascensão do Obreiro ao aperfeiçoamento. É o que sugere a Escada em cujo topo aparece uma Estrela de Sete Pontas (sete – a Fé, Esperança e Caridade somadas à Justiça, Prudência, Temperança e Coragem). O interior do Círculo representa o espaço limitado pelos ditames da obediência à Lei exarada no Volume da Lei Sagrada. Em linhas gerais denota que aquele que segue os ditames da Lei, não pode errar.

Para ilustrar essa interpretação, também fica aqui transcrito um trecho do livro Master Key de autoria de John Browne datado de 1802 com perguntas e respostas pertencentes à Primeira Preleção com base Prestoniana que serve de apoio para justificar de onde fora retirado o conteúdo textual mencionado no ritual da COMAB citado na introdução desse arrazoado e que é o motivo principal desses apontamentos. Esse mesmo texto também pode ser encontrado no livro Simbolismo na Maçonaria, de Colin Dyer, publicado no Brasil pela Madras Editora, São Paulo, 2006.

Perg: Qual é o primeiro ponto da Maçonaria?

Resp: O joelho esquerdo despido e dobrado.

Perg: No que incide esse primeiro ponto?

Resp: Na posição ajoelhada me foi ensinado a amar o meu Criador. Sobre o meu joelho esquerdo nu e dobrado eu fui iniciado na Maçonaria.

Perg: Existe algum ponto principal?

Resp: Sim, o de podermos fazer um ao outro feliz e ainda transmitir aquela felicidade para outro.

Perg: Existe algum ponto central?

Resp: Sim, um ponto no interior do círculo, do qual o Mestre e os Irmãos não podem materialmente errar.

Eis aí então a origem dessas citações nas instruções maçônicas, lembrando sempre que elas realmente se adequam aos catecismos da vertente inglesa da Maçonaria.

Ilustrando ainda mais, segue a sequência do texto mencionado nesse catecismo conforme a mesma obra citada:

 – Explicai esse ponto no interior do Círculo.

R. Nas Lojas regulares de Francomaçons existe um ponto no interior de um círculo, ao redor do qual o Mestre e os Irmãos não podem materialmente errar. O círculo é limitado ao Norte e ao Sul por duas linhas perpendiculares paralelas: a no Norte representa São João Batista, e a do Sul simboliza São João Evangelista. Nos pontos de cima destas linhas e no perímetro do circulo, está colocada a Bíblia Sagrada, sobre a qual se apoia a Escada de Jacó, que alcança as nuvens do céu. Aí também estão contidos as Ordens e os Preceitos de um Ser que é Infalível, Onipotente e Onisciente, de tal forma que, enquanto estivermos no seu interior e obedientes a Ele, como foram João Batista e João Evangelista, seremos levados a Ele e não nos decepcionaremos nem O frustraremos. Portanto, ao nos mantermos assim circunscritos será impossível a que venhamos errar materialmente”.

Como se pode notar, o texto tem a intenção de explicar a instrução onde o termo “circunscrito” representa o limite imposto pelo Círculo, cujo “ponto central” é a origem donde o Maçom por primeiro dobrou o joelho esquerdo apoiando-o no chão e se sujeitando no ato à “obrigação” (também conhecida na vertente latina como juramento) de cumprir os deveres impostos e à promessa perpetrada – o Livro da Lei é o Código de Moral e Ética; o Círculo é o limite; o Ponto é a origem e a Escada o caminho para o aperfeiçoamento[4]. Assim, isso significa que se bem observada a Arte e ressalvados os limites da Lei, o Maçom não pode errar.

Ainda em relação ao texto acima mencionado, há que se notar também que à época ainda era citado na Inglaterra a Bíblia Sagrada, assim como os nomes dos santos patronais cristãos, muito embora já no primeiro quartel do Século XIX não tardariam esses títulos a serem substituídos – a Bíblia seria denominada como o Volume da Lei Sagrada, e cada santo padroeiro passariam a ser um dos personagens bíblicos do Antigo Testamento – Moisés e Salomão.

2.2 – REAA – Vertente francesa da Maçonaria

Dadas essas considerações, entra finalmente na questão o Rito Escocês Antigo e Aceito que, embora até possua em muitas das suas características influências históricas anglo-saxônicas (o título Antigo, por exemplo), sobretudo porque o seu simbolismo sofrera influência direta das Lojas Azuis norte-americanas que praticam o Craft oriundo da Grande Loja dos Antigos da Inglaterra, vale a pena lembrar que mesmo assim o Rito Escocês é historicamente originário da vertente francesa da Maçonaria.

Sob essa óptica, o arcabouço doutrinário francês de Maçonaria, principalmente aquele relativo ao simbolismo do Rito Escocês Antigo e Aceito, nele envolve o aperfeiçoamento humano que é simbolicamente representado pela alegoria da ressurreição e morte da Natureza, bem como a sua constante renovação (cultos solares da Antiguidade).

Assim, o simbolismo do Rito Escocês aborda e encena a evolução da Natureza. Nesse particular teatro iniciático aparecem representados na sua liturgia e ritualística os solstícios e os equinócios, os ciclos Naturais ou as estações do ano, as Colunas Zodiacais, as Colunas Solsticiais B e J (marcam a passagem dos trópicos de Câncer e Capricórnio), assim como as Colunas do Norte e do Sul que são separadas no Templo pelo eixo imaginário do Equador.

Nesse particular, o REAA por ser um Rito de origem francesa, não usa o título distintivo de Tábua de Delinear, entretanto faz uso no seu lugar do nome de Painel da Loja que fica situado e exposto originalmente em Loja aberta no centro do Ocidente. Entretanto, se faz mister observar que no conteúdo simbólico desse Painel da Loja do REAA não existe a figura da Escada de Jacó e nem aparece o Círculo com o Ponto ao centro entre as Paralelas Tangenciais, daí não combinar qualquer instrução que porventura possa fazer menção a esses símbolos relacionados ao franco maçônico básico do escocesismo – essa conduta doutrinária, se por acaso mencionada, além de equivocada não faria mesmo qualquer sentido.

Devido a não observação correta desses particulares – já que nem tudo o que reluz é ouro – é que, em busca do significado simbólico, ainda existem referimentos como:

“Este texto tem gerado inúmeras discussões em Lojas sem jamais chegarmos a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico.”

Desse modo, infelizmente, é verdadeiro comentar que alguns autores e ritualistas brasileiros, talvez por mera falta de atenção, ainda insistem inadvertidamente em misturar procedimentos de vertentes maçônicas distintas nas suas instruções.

Assim, se explica que a falta de sentido dessa inferência é que faz com que jamais se chegue a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico (é a queixa de muitos).

Essas ilações ainda são o sustentáculo para a propagação, através de certos autores imaginosos, de verdadeiras pérolas do faz-de-conta, geralmente suportadas por palavras bonitas que em superficial análise acabam por não fazer sentido algum – palavras mais palavras e palavras… vazias ao vento.

Não obstante a toda essa aleivosia histórica e ritualística, ainda existe outra classe – a daqueles que “acham bonito”, ou que simplesmente “copiam” rituais anacrônicos imaginando-os como fontes primárias e fidedignas. É o caso, por exemplo, do enxerto da Tábua de Delinear, que é da doutrina inglesa, no Rito Escocês que possui sabidamente preceito francês.

Daí, como se o Sol pudesse ser tapado com a peneira e na tentativa de se justificar toda essa aberração se utilizando a lei do menor esforço, identificou-se o intruso objeto como o tal do “Painel Alegórico”, o que só fez aumentar ainda mais a cinca, oferecendo absurdamente para o escocesismo simbólico a existência equivocada de “dois painéis” – um legítimo (o da Loja) e o outro como produto de enxerto oriundo de outra vertente maçônica (o tal justificado como Alegórico).

Ora, isso evidentemente não existe e é produto de mera enxertia imposto por “achistas”, já que o Rito Escocês genuinamente possui apenas o Painel da Loja no centro do Ocidente e não mais outro painel que, ainda por cima, seja denominado de “alegórico” (sic).

Para que não pairem dúvidas, evidentemente o estudante de Maçonaria deve conhecer o Painel da Loja (sistema Francês) e a Tábua de Delinear (sistema Inglês). Em linhas gerais, no grau de Aprendiz, o primeiro é aquele que, dentre outros símbolos, destaca-se por apresentar um pórtico ladeado pelas Colunas B e J (vide ritual do GOB, edição 2009, por exemplo). Enquanto que a segunda (a Tábua) é aquela que destaca dentre outros símbolos, três Colunas, tendo ao centro uma Escada em direção ao firmamento em cujo topo se apresenta uma Estrela Heptagonal (vide ritual de Emulação).

Nesse sentido, quando misturados os conteúdos simbólicos, a mixórdia acaba por trazer consigo instruções inglesas para dentro da doutrina francesa de Maçonaria. Aliás, esse é um fator deveras importante que todo o estudante da Ordem precisa saber distinguir: existem duas vertentes principais de Maçonaria – uma inglesa e outra francesa. Embora o objetivo da Sublime Instituição seja um só, os métodos doutrinários se diferem conforme a respectiva vertente – tanto pela visão social, quanto pela visão cultural.

Retomando essa questão, embora nos três Graus simbólicos do Rito Escocês cada respectivo Painel da Loja não apresente literalmente o símbolo do Círculo entre as Paralelas Tangenciais, a doutrina por si só ao mencionar a alegoria da evolução da Natureza, de modo abstrato acaba, sem mostrar os símbolos, por se referir ao Sol (Círculo) e aos trópicos de Câncer ao Norte e Capricórnio ao Sul (limites solsticiais).

Explica-se: como as datas solsticiais de 24 de junho e 27 de dezembro aludem respectivamente aos solstícios de inverno e de verão no hemisfério Norte (origem do Rito) ainda, por extensão, coincidem por influência da Igreja com as datas comemorativas a João, o Batista (verão no Norte) e com João, o Evangelista (inverno no Norte).

Assim, essa alegoria maçônica no Rito envolve toda a evolução da Natureza associando-a as etapas da vida humana – Primavera, Verão, Outono e Inverno, ou o nascimento, a infância, a juventude, e a maturidade, tudo distribuído de modo iniciático nos Graus de Aprendiz (puerícia), Companheiro (puberdade) e Mestre (maturação).

Por assim ser, mesmo de modo oculto, o Círculo entre as Paralelas Tangenciais pode representar também o Sol entre os Trópicos indicando que, conforme os solstícios, o Astro Rei, sob o ponto de vista da Terra, estando mais ao Norte ou mais ao Sul nunca ultrapassará na sua eclíptica anual o limite indicado pelos os trópicos.

Sob essa óptica, não significa de maneira alguma que esses símbolos careçam estar literalmente expostos no Painel relativo ao arcabouço doutrinário francês.

Simbolicamente, no Templo o Sol também é o centro (onde existe a circulação) que fica entre as Colunas do Norte e do Sul, cujo limite deste deslocamento, seja ele austral ou boreal, está representado pela marcação da passagem abstrata (sem base material) dos trópicos de Câncer e Capricórnio. Daí as Colunas B e J, também conhecidas como “solsticiais”, serem os marcos toponímicos que marcam a passagem dos aludidos Trópicos no Templo – sob o ponto de vista da porta de entrada para o Oriente, ao centro está a linha imaginária do Equador, à esquerda, marcada pela Coluna B, está a linha imaginária correspondente ao Trópico de Câncer e à direita, balizada pela Coluna J, a correspondente ao Trópico de Capricórnio.

O Sol, ao tangenciar o limite de Câncer (solstício de verão no Norte), corresponde à data comemorativa ao santo padroeiro João – o Batista, enquanto que ao tangenciar o limite de Capricórnio (solstício de Inverno no Norte), corresponde à data comemorativa ao Santo padroeiro João, o Evangelista.

Essa alegoria sugere no Rito em questão que a consciência do Homem, limitando-se tal qual às Leis da Natureza, é inviolável, já que ele, o Homem, é também parte integrante dessa Ordem Natural perpetrada pela Criação (um conceito deísta).

No escocesismo, a Loja simbolicamente representa um segmento do globo terrestre situado sobre o Equador, cuja largura vai do Norte ao Sul ou vice-versa e o seu comprimento de Leste para o Oeste ou vice-versa. A sua altura vai da Terra (Pavimento Mosaico) ao Céu (Abóbada).

É sobre esse espaço (Oficina) que a Terra simbolicamente fica viúva do Sol uma vez por ano (inverno). À bem da verdade, é o processo da evolução da Natureza a partir do seu renascimento na Primavera até a sua morte no Inverno para novamente renascer na Primavera (Lenda de Hiran). Assim, comparativamente e de modo iniciático, tal como a Natureza que morre para renascer como a fênix revivida, também o Homem profano fenece para renascer iniciado na Luz – da câmara de Reflexão à Exaltação do Mestre (a senda iniciática).

3 – Considerações finais

Em linhas gerais essas são as interpretações que envolvem a alegoria composta pelo Círculo entre as Paralelas Tangenciais nos dois sistemas de Maçonaria abordados. Todavia, somente ficam passíveis de uma explicação racional se devidamente separadas conforme as suas tradições, usos e costumes nos diversos rincões terrenos onde se apresenta a Sublime Instituição – cada coisa no seu devido lugar ou haverá o caos no Canteiro.

É oportuno aqui mencionar uma contradição que não raras vezes aparece no escocesismo quando muitos Irmãos, de modo anacrônico, ainda insistem em comparar a evolução dos Graus com os “degraus da Escada de Jacó” que, diga-se de passagem, nem mesmo aparece como elemento simbólico na doutrina do Rito Escocês.

Pior ainda é querer definir o número de degraus que formam essa Escada quando nem mesmo na Bíblia, essência da doutrina moral como Livro da Lei, essa quantidade é mencionada.

É o caso, por exemplo, quando alguém congratulação menciona o ultrapassado jargão: “parabéns por teres conseguido alcançar mais um degrau da Escada de Jacó”.

Ora, sem apelar para o preciosismo, não existe nada mais contraditório do que comparar a ascensão aos Graus com os degraus de uma escada que nem mesmo é parte integrante da doutrina simbólica do escocesismo.

Diferente do Círculo e das Paralelas que, mesmo de modo abstrato, chegam a fazer sentido no corolário doutrinário do Rito Escocês, a Escada, nem mesmo em caráter contemplativo, é mencionada na alegoria dos Painéis do verdadeiro escocesismo.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

Notas

[1] – O Painel na Inglaterra denomina-se Tabual de Delinear ou de Traçar (Tracing Board). Já na França é denominado como Painel do Grau. O conteúdo simbólico entre ambos aparecem sensíveis diferenças. Alguns autores acreditam que o nome “Tábua de Delinear” se derive como uma corruptela do antigo “cavalete” (tressel) ou Prancha de Traçar (Tracel ou Tracing Board) geralmente usada nas Lojas no final do século XVIII que objetivava apresentar os hieróglifos maçônicos, cuja Prancha ou Tábua muitas vezes nas Lojas ficava disposta sobre um cavalete no centro.

[2] – Willian Preston (1.742 – 1.818) – Nascido em Edimburgo na Escócia, foi iniciado em Londres no ano de 1.763. De carreira maçônica fecunda e brilhante assumiu o veneralato da Loja Antiquity nº 1 (atualmente nº 2) considerada à época como “Loja dos Tempos Imemoriais”. À Preston e dado o título simbólico de ter sido ele o primeiro professor de Maçonaria, permanecendo ainda ligado aos seus Ilustrations of Freemansonry (Esclarecimentos sobre a Franco-Maçonaria), cuja primeira edição data de 1.772. Essa importante obra teve dezessete edições, das quais doze durante a vida do autor. Falecido em 1.818 foi sepultado na Catedral de São Paulo em Londres. Os Ilustrations of Freemansonry se constituem de uma coletânea de conferências eruditas e de alto valor literário para uso das Lojas. É devida ainda a William Preston a autoria das famosas Prestonian Lectures (Lições Prestonianas) que permanecem atuais e são base para conferência de notáveis sobre assuntos instrutivos de interesse maçônico. A coletânea das Lições Prestonianas é publicada pela Quatuor Coronati Lodge, 2.076 de Londres. As dissertações sobre o conteúdo das Tábuas de Delinear inglesas se baseiam nas mensagens Prestonianas. O termo “Prestoniano” deriva-se em homenagem a Preston.

[3] – Além da disposição contrária ao sectarismo religioso, a Grande Loja se posicionava também contrária ao sectarismo político. Essa é a origem da proibição de discussões que envolvam política e a religião nos Templos e em nome da Maçonaria presente até os dias atuais na imensa maioria das Constituições das Obediências Maçônicas.

[4] – A ascensão ou subida dos degraus dá a ideia de evolução e aperfeiçoamento.

Referências

DYER, Colin – Simbolismo na Maçonaria, Editora Madras, São Paulo.

CARVALHO, Francisco de Assis – Símbolos Maçônicos e Suas Origens, Volumes I e II, Editora Maçônica A Trolha, Londrina – Pr.

LOMAS, Robert – O Poder Secreto dos Símbolos Maçônicos, Editora Madras, São Paulo.

MELLOR, Alec – Dicionário da Franco Maçonaria e dos Franco Maçons, Editora Marins Fontes, São Paulo.

JUK, Pedro – Exegese Simbólica para o Aprendiz Maçom – Tomo I, Editora Maçônica A Trolha, Londrina, Paraná.

JUK, Pedro – Topografia e Simbolismo do Templo REAA, Ensaios, Diário JB NEWS, Florianópolis, Santa Catarina.

JUK, Pedro – São João e os Solstícios na Maçonaria, Ensaios, Diário JB NEWS, Florianópolis, Santa Catarina.

O Solstício de Verão

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Como as questões práticas referentes ao solstício de verão, e suas interpretações pelos povos da antiguidade, já foram muito bem abordadas em artigos anteriores, sendo o último de autoria de nosso querido irmão Márcio Gomes por ocasião das comemorações de 2016[1], neste texto iremos tratar de como nós, maçons, podemos ver e comemorar esse acontecimento tão especial.

Lembremo-nos que, certa vez, cada um de nós foi apresentado como “aquele que estava desejoso de ver a Luz”. Alguém então pediu a Luz em nosso favor. E a Luz foi feita. E a Luz nos foi dada.

Mas compreendemos todos o significado dessa Luz? Aprendemos a enxergar com essa Luz? Permitimos que a Luz ilumine nossos caminhos?

A Luz que nos foi dada é o símbolo do conhecimento e da busca pela realização criadora. Iluminados pela quintessência que nos foi presenteada pelo Divino somos construtores no microcosmos. Como construtores, homens-deuses que trabalham para que seu templo interior esteja sempre iluminado, devemos lutar para que a sociedade em que estamos inseridos não mergulhe nas trevas da ignorância.

O irmão Anatoli Oliynik, em palestra ministrada em 2002, disse que é preciso que tenhamos “capacidade de pensar sistematicamente, de ver o todo, de abstrair, de criar e inovar, de chegar à essência das coisas, de fazer acontecer, de se comunicar, de se relacionar, de iniciar mudanças, de energizar pessoas, de observar, de ler, entender e extrair.”

Vivemos tempos difíceis, queridos irmãos. Como também difíceis já foram em outras oportunidades. Mas a Luz prevaleceu. E para que ela prevaleça novamente temos como obrigação, moral e ética, compartilhar conhecimento, inspiração e sabedoria, com nossos pares e com toda a sociedade.

Voltemos nossa atenção para o que nos cerca, olhemos ao nosso redor! Como disse Willyan Johnes, “um povo sem cultura não se levanta. Se ajoelha.”

Recorrendo novamente ao nosso irmão Anatoli, ele diz que “a maçonaria se debate no seu culto às realizações do passado e não tem encontrado caminhos para realizações atuais e nem mecanismos para se relacionar, efetivamente, com a sociedade. ”

Nós temos um compromisso com a sociedade, meus irmãos. Podemos, e devemos, nos relacionar com ela. Nossas lojas não são bolhas onde nos encontramos imunes aos efeitos dos males que afligem o planeta. Não é possível nos contentarmos com o status quo, aceitando-o passivamente.

João Anatalino, em seu texto intitulado A Maçonaria e o Mito Solar, escreve que “a função da mente do homem é justamente dar ordem ao caos da materialidade, identificando e catalogando todas as realidades que saem do útero cósmico. Por esse motivo nos foi dada a capacidade de pensar para conhecer. E essa, precisamente, é a razão pela qual a sabedoria nos aparece como sendo um fenômeno luminoso produzido pela ação da nossa consciência sobre o objeto que ela se propõe conhecer. Por isso a metáfora ‘lançar luz sobre as coisas’ designa exatamente essa propriedade da mente humana de revelar o que está oculto nas sombras da ignorância, nas trevas da obscuridade, na impenetrabilidade do quarto escuro, onde os mistérios do universo aguardam o foco de luz que a lanterna da inteligência humana projetará sobre eles para serem revelados. Isso é o que, na Maçonaria, significa pôr Ordem no Caos (Ordo ab Chao).”

Que, tendo em mente o Solstício de Verão, em que a luz do dia suplanta as trevas da noite, trabalhemos, todos, para que a Luz que recebemos em nossa iniciação possa iluminar não apenas os nossos passos, mas sim os de toda a Humanidade, em um caminho justo e perfeito.

Autor: Luiz Marcelo Viegas
ARLS Pioneiros de Ibirité, 273 – GLMMG

Nota

[1] – Clique AQUI para ler o artigo de autoria de Márcio Gomes.

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O Solstício de Verão

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Solstícios são os pontos que a órbita elíptica da Terra descreve num ano em torno do Sol quando este está em sua máxima distância ao sul ou ao norte da linha imaginária do Equador. Duas vezes por ano, nos meses de junho e dezembro, acontecem os solstícios, variando o dia e a hora.

No verão, a duração do dia é a mais longa do ano, ocorrendo o contrário no inverno, quando a noite é a mais longa do ano. Tudo isso graças à inclinação de 23,4 graus do eixo de rotação da Terra que, combinado com o movimento de translação, permite que a incidência desigual dos raios solares sobre os dois hemisférios defina as quatro estações do ano, fazendo com que a Natureza cumpra seus ciclos de nascimento e ressurreição.Os equinócios e solstícios receberam o nome de portas do céu ou das estações do ano.E se a Terra não tivesse a Lua, a inclinação do eixo em relação à vertical teria variação caótica, comprometendo a vida complexa, tornando-a inabitável.

Enquanto passamos pelo solstício de verão, aqui no hemisfério sul, marcando o início dessa estação, os habitantes do hemisfério norte enfrentam a entrada do inverno. O solstício de verão é sempre previsto para o dia 21 ou 22 de dezembro, de acordo com cálculos astronômicos, quando a radiação solar incide verticalmente, o Sol está no seu zênite ou está “a pino”, sobre o Trópico de Capricórnio.No solstício de verão do hemisfério norte, que ocorre no dia 21 ou 22 de junho, os raios solares incidem perpendicularmente à superfície da Terra no Trópico de Câncer.

Em 2016, o solstício de verão está previsto para as 10h44min UTC – 8h44min (horário de verão em Brasília), do dia 21 de dezembro. A diferença de tempo entre a hora local e UTC (do inglês, Tempo Universal Coordenado), também conhecido como horário Zulu, é de menos 3 horas(-180 minutos). No horário de verão, que começou em 16 de outubro e vai até o dia 19 de fevereiro de 2017, diminui-se uma hora nessa diferença, nas regiões onde é adotado.O sistema de horário de verão, aplicado por decreto nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste,visa aproveitar a maior incidência da claridade desses dias mais longos e economizar energia elétrica.

Por sua vez, os equinócios são pontos da órbita da Terra ao redor do Sol, quando este corta o equador na sua marcha aparente do hemisfério sul para o norte e em seu regresso do norte para o sul, e a sua luz solar incide de maneira igual e exatamente na linha imaginária que corta os dois hemisférios.Por isso, diz-se que é equinócio de outono para o hemisfério que está indo do verão para o inverno e equinócio de primavera para o hemisfério que está indo do inverno para o verão.

No passado, esses fenômenos astronômicos tinham grande importância para a agricultura e as religiões dedicavam cultos especiais para marcar as transformações que se esperavam.O ciclo do Sol e da Lua à volta da Terra sempre esteve ligado ao ciclo de cultivo de alimentos.Antigas civilizações elevaram o Sol, como fonte de luz e calor, à condição de soberano do mundo e rei dos céus, detentor dos poderes divinos que criam Vida, imaginando os solstícios como aberturas opostas do céu, como portas, por onde o Sol entrava e saía, ao terminar o seu curso, em cada círculo tropical.Tanto os Maias, como os Incas, Egípcios, Romanos e Gregos adoravam o sol e tinham os seus cultos a ele dedicados. Muitas dessas tradições foram conservadas e adaptadas pelos povos no curso da história.

Também a Maçonaria especulativa, absorvendo as tradições da Maçonaria operativa, incorporou aquelas comemorações e celebra as festas equinociais e as solsticiais, reconhecendo-as no seu simbolismo. Assim, tradicionalmente, a nossa Assembleia Geral Plenária reúne-se ordinariamente quatro vezes ao ano, nas semanas em que os equinócios e solstícios ocorrem, conforme previsto nos artigos 47 – II e 49 da Constituição da GLMMG, com um pequeno ajuste em dezembro, com vistas a não comprometer as festas de final de ano.

Nos nossos Templos Maçônicos, as Colunas “B” e “J” representam os solstícios de Inverno, ao Norte, presidido por São João Batista, e o solstício de verão, ao Sul, presidido por São João Evangelista, ambos os Patronos da Maçonaria. É tradição em várias Lojas a realização de Banquete Ritualístico ou Ágape Maçônico, também conhecido como Loja de Mesa, nos meses de junho e dezembro, em honra aos santos, tratando-se, portanto, de Festas Solsticiais. Essas celebrações têm um caráter de saudação e de confraternização, evocando os laços que unem os irmãos.

No próximo dia 21 (quarta-feira), no auge da maturidade do Sol, estaremos recepcionando o tão esperado Verão, sempre ligado a festas, férias, viagens e novas vibrações. Época também de avaliação da colheita quase amadurecida do ano que se encerra e elaboração de projetos para um novo ciclo que se reinicia com a chegada de um novo ano e novas preocupações ou velhas restauradas. Mas, apesar de todos os agitos que a vida insiste em impor-nos a cada dia, não podemos perder a sensibilidade para os ciclos que a natureza preserva através do equilíbrio das forças que a movimentam. Precisamos também buscar esse equilíbrio, aproveitando os ares de um novo ano e praticarmos a introspecção e o autoconhecimento, essenciais para que estejamos preparados para encarar de forma corajosa os desafios diários que sempre se renovam.

Enfim, nessa nossa provisória solidão cósmica, enquanto únicos seres conhecidos se questionando sobre o mundo, que tenhamos todos um feliz solstício de verão e uma próspera nova órbita nos preciosos 365 dias e seis horas que continuaremos nossa viagem a bordo desta nave de massa/peso equivalente a 5,9 sextilhões de toneladas, medindo 510 milhões de km², que se desloca a uma velocidade média de 1.675 km/h em torno de seu eixo e a uma velocidade orbital média de 107.266 km/h, conforme estabelecido pelo Grande Arquiteto do Universo.

Um “Pálido Ponto Azul…um grão de pó suspenso num raio de sol” (Carl Sagan)

“Isso é tudo o que temos.” (Al Gore)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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A Conexão Januária

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Para uma Ordem que respeita as religiões, mas que se pretende equidistante de todas elas, as menções a São João nos rituais maçônicos poderiam parecer, ao observador desatento, controversas e incongruentes. Mas não o são! A exemplo das diversas representações que a maçonaria didaticamente adota, as referências a São João têm um caráter iminentemente simbólico, embora de origem um tanto nebulosa. No entanto, a análise histórica das culturas que serviram de berço para a civilização ocidental – onde a maçonaria especulativa foi concebida – nos dá uma série de pistas e permite compor um quadro geral, ainda que com algumas lacunas, sobre os caminhos que levaram a Ordem a estabelecer vínculos com São João. Um desses caminhos, que aqui expomos e ao qual decidimos chamar, por sua relação com o deus romano Jano, de Conexão Januária, oferece uma versão consistente para esta questão, embora não a encerre, já que acreditamos que suas raízes podem remontar a um passado muito mais distante e que ainda há muito a se estudar sobre elas.

Considerações

É razoável deduzir que a simbologia construtiva tenha começado a se desenvolver a partir do momento em que os hominídeos primitivos empregaram sua engenhosidade para criar abrigos. É possível concluir também que, sem que tenha havido qualquer notória interrupção, essa simbologia veio, através dos tempos, agregando conhecimentos, ampliando conceitos e internalizando valores de inúmeros povos, sempre preservando sua meta mais importante: proteger e dignificar a vida e contribuir para que o homem cumpra seu sagrado papel na Criação. Atravessou milênios desta forma e foi assim que passou a fazer parte dos mistérios de diversas religiões, mesmo quando escamoteada sob signos alheios. E embora nos séculos mais recentes seus fundamentos exotéricos tenham sido transferidos para o mundo profano sob a forma de ciência e sofrido as interferências próprias desse meio, seu precioso arcabouço esotérico, talvez o mais sublime legado da humanidade, tem sido preservado, apesar da intolerância e das guerras e catástrofes que permeiam a evolução do homem.

Um dos pontos críticos enfrentados por este conhecimento milenar foi a introdução, em Roma, da fé cristã como prática oficial de estado. No afã de difundir sua crença e propagar seus valores por todo o mundo romano, o cristianismo, já então estruturado como catolicismo, agiu em várias frentes:

  • num primeiro momento, tomou conta dos templos pagãos, transformando-os em igrejas;
  • transferiu os atributos altruístas das divindades existentes para seus vultos mais expressivos, de modo que os fiéis pudessem, por algum tempo, continuar executando suas práticas rituais com pouca ou nenhuma mudança, apenas aceitando um novo nome para o objeto de seu louvor. Criaram-se assim os santos
  • dedicou-se a desconstruir as antigas religiões pagãs, associando seus deuses e semideuses às práticas do mal, catástrofes, violências etc.

A medida se demonstrou eficiente e foi responsável pela conversão de milhões de súditos do império que, a rigor, além de adotar os sacramentos cristãos, tiveram apenas que aceitar um novo nome para suas antigas divindades[1].

O caso particular que vamos tratar neste artigo é o do deus Jano, um dos mais antigos e importantes para os romanos.

Jano, o deus das passagens

Segundo os historiadores mais antigos, Jano[2] foi introduzido na religião romana trazido da Etrúria, onde, por sua vez, teria sido concebido por influência de deuses mesopotâmicos ou egípcios ancestrais[3]. Suas primeiras versões parecem caracterizá-lo como um deus do Sol que trazia a luz do amanhecer. Dizia-se que era o criador das moedas e dos barcos[4] e, neste particular, é possível estabelecer-se um vínculo bem claro entre ele e o deus Ra egípcio[5], embora isso, por si só, não seja uma garantia de hereditariedade.

Suas imagens mais frequentes apresentam-no com duas faces olhando para lados opostos. É chamado, neste caso, de Jano Bifronte, sendo algumas vezes retratado com um dos rostos jovem e o outro idoso, indicando que olhava para o futuro e para o passado. Portava uma chave numa das mãos e um bastão na outra. Em número menor, mas da mesma forma importantes, são suas versões com quatro faces, chamadas de Jano Quadrifronte, que parecem estar ligadas às quatro estações do ano e aos quatro pontos cardeais.

Consta de sua teologia que era o “deus de todos os inícios[6]“ e, portanto, das iniciações. Com o tempo, passou a ser responsabilizado pelo sucesso das inaugurações, admissões, aberturas, passagens e transições. Portas, pórticos, portais, portões, janelas, corredores, arcos, pontes, túneis e passadiços estavam nos domínios de Jano. Por extensão, tornou-se responsável pelos limiares, umbrais e fronteiras, e assumiu o papel de guardião dos limites ou de zelador[7] da entrada e saída dos locais, fossem casas, lugares públicos ou cidades, tendo a manutenção da paz entre suas incumbências. Talvez o fato de um dia ter simbolizado o Sol é que lhe tenha valido o comando dos solstícios[8],[9], inaugurando o inverno e o verão romano. Associavam-no também ao Nascente e ao Poente e aos ventos Boreal e Antiboreal. Representava o marco limítrofe entre o dentro e o fora, o início e o fim, o passado e o futuro, caracterizando o presente absoluto. É o instante atemporal e adimensional e, neste particular, lembra muito o ponto dos geômetras. Nas liturgias romanas, seu nome era sempre invocado em primeiro lugar.

Por todas estas características, tornou-se um deus muito importante, a ponto de rivalizar-se com Júpiter. Isso lhe valeu uma homenagem por parte dos romanos, que batizaram um mês com o seu nome, chamando-o de janeiro.

Certamente foi por seu perfil iniciador ou iniciático que os artesãos romanos o adotaram como padroeiro, sendo que os pedreiros e construtores ainda com maior razão, já que sob a proteção de Jano estavam o que se costuma chamar de “obras de arte” na área da construção civil, ou seja, as pontes, viadutos, arcos etc., estruturas complexas, com a função de passagem, e que exigem muito conhecimento, engenhosidade e perícia para serem erigidas.

Os Collegia Fabrorum

Collegia Fabrorum era a denominação que os romanos davam às corporações de artesãos ou colégios de artífices. Consta que foram criados por Numa Pompílio, sucessor imediato de Rômulo e, portanto, segundo rei de Roma. As leis romanas estabeleciam que artífices de um mesmo ramo de atividade poderiam se associar para, juntos, praticarem seu ofício. Isso os obrigava ao respeito a regras e normas definidas pelos próprios associados.

A história mostra que havia Collegia Fabrorum dos mais variados ofícios: saboneiros, sapateiros, ourives, cunhadores de moedas etc. Embora não tenhamos encontrado menção explícita a pedreiros ou cantoneiros[10], certamente existiam Collegia que agrupavam estes tipos de profissionais, pela importância que têm em qualquer sociedade.

Por tipificar a iniciação, Jano era o patrono informal de todos os artífices, pois a aceitação do indivíduo como membro de um ofício era precedida de um processo iniciático. Este patronato, no entanto, não impedia que os Collegia fabrorum tivessem um padroeiro associado às peculiaridades do ofício que exerciam. O colégio dos alfaiates, por exemplo, cultuava Marte, o colégio dos médicos, Asclépio e Hígia, e assim vários outros.

As corporações de artesãos foram de fundamental importância para o desenvolvimento e expansão do Império Romano. O fomento à sua criação acabou proporcionando o aprimoramento dos ofícios e a criação de novos métodos para realização de suas atividades. Os membros mais experientes transmitiam seu conhecimento aos demais, gerando uma corrente altruísta que induzia o aperfeiçoamento individual e a formação de quadros cada vez mais bem preparados.

Porém, com a queda do Império Romano do Ocidente e o caos que a sucedeu, a figura formal dos Collegia fabrorum parece ter se dissipado, embora o conhecimento sobre a maioria dos ofícios pareça ter avançado pela Idade Média e chegado ao Renascimento senão incólume, pelo menos forte o suficiente para produzir bons frutos através das guildas medievais. E, ao que tudo indica, a influência de Jano continuou a se fazer sentir.

As Guildas Europeias

Há uma grande discussão entre os estudiosos sobre se e como o conhecimento das corporações romanas de artesãos influenciaram as guildas medievais. Não obstante, e a despeito de tudo o que se escreveu até hoje sobre o assunto, uma pergunta talvez traga em si mesma a resposta a esta questão: de onde mais, a não ser dos antigos, as guildas extrairiam a base das artes que praticavam?

Não se pode imaginar que a queda de Roma tenha apagado por completo todo o saber que a humanidade havia acumulado até então. Primeiro, porque a cultura por ela emanada continuou evoluindo, vigorosa, no Império Bizantino[11]. Depois, porque houve partes do império que foram menos afetadas pelas invasões das hordas bárbaras e, portanto, puderam manter, com razoável fidelidade, as práticas romanas. De toda forma, mesmo que tenha sido apenas transmitido de boca a ouvido, de mestres para discípulos, o fato é que este conhecimento subsistiu. Se nas guildas – às quais o clero por vezes chamava de conjurações – ou em qualquer outro tipo de associação, é irrelevante. O uso do nome guilda neste artigo é, portanto, apenas uma identificação genérica para as diversas formas de associação sob a égide das quais se reuniam, na Idade Média, os praticantes de um mesmo ofício.

Na área da construção em pedra, que é aquela que nos interessa mais de perto, as guildas erigiram, durante o período medieval, mosteiros, fortificações, cidadelas, moradias, templos e castelos por toda a Europa. Se, com raras exceções, até o final do primeiro milênio não apresentavam a sofisticação, a grandiosidade e a perfeição das mais importantes obras romanas, é porque não havia concentração suficiente de riquezas que permitisse gastos com opulência e refinamento arquitetônico. Só mais tarde, com a unificação de feudos, expansão das rotas comerciais e aumento do poder da Igreja é que as obras mais elaboradas e equiparáveis às romanas tornar-se-iam viáveis novamente.

As guildas de pedreiros eram formadas para fazer frente à demanda por mão-de-obra qualificada para realização das construções, onde quer que fossem necessárias. A exemplo dos colégios romanos de artífices, tinham, em geral, regras de conduta rígidas e mantinham fundos de amparo e auxílio funeral para seus membros. Tudo indica que os novos integrantes eram admitidos através de iniciação e que guardavam para si os segredos e mistérios da profissão, que eram transmitidos gradualmente aos demais segundo sua proficiência e habilidade, ao longo de períodos variáveis. Pelo menos em parte da Europa, na noite de 26 para 27 de dezembro, dia de S. João Evangelista[12], faziam entre si juramentos de sigilo e de união. Promoviam, então, imensos banquetes onde comiam e bebiam até se fartar.

Ainda que toda a literatura analisada não apresente evidências materiais de uma possível transmissão de conhecimentos[13] – e valores – das corporações romanas de artífices para as guildas, é muito provável que estas sejam as sucessoras naturais daquelas, com todas as implicações que possam advir disso. Afinal, é difícil imaginar que as guildas de pedreiros possam ter herdado o uso de ferramentas e as técnicas construtivas utilizadas pelos romanos, sem que, junto com elas, lhes tenham sido transferidos também os saberes, costumes, tradições, ritos, lendas e mitos que envolviam o ofício de construir.

Desde o ano de 590 – portanto, pouco mais de 100 anos após a queda do Império Romano, há documentos que comprovam a existência de guildas de construtores na Itália. A dos mestres comacinos, por exemplo, possivelmente originária da Lombardia, primava pela mútua proteção e desenvolvimento de seus integrantes. Outro exemplo de que os conhecimentos romanos permaneceram vivos nos é dado pelo bispo Wilfrido de York que, em 598, associou-se ao abade de Wearmouth para mandar enviados à França e Itália, pedindo que os pedreiros retornassem e retomassem as construções “de acordo com a maneira romana”.

A indicação da existência de pedreiros-livres aparece pela primeira vez em manuscritos dos séculos XII e XIII, quando são chamados de Sculptores lapidum liberorum[14] ou Latonii vocati fremacconi[15].

É neste contexto que surgem as lojas de São João.

As Lojas de São João

Coerente com a implantação do cristianismo no Império Romano, suspeita-se que a escolha das datas de 24 de junho e 27 de dezembro para as festas em homenagem a S. João Batista e S. João Evangelista, respectivamente, deva-se ao fato de que elas são próximas dos solstícios, cujo patrono em Roma, como já foi visto, era Jano. A razão para isso, embora possa parecer banal, deve ter sido a pronúncia em latim de ambos os nomes, Jano e João, que é muito semelhante. Tal identidade fonética certamente colaborava para a transferência das devoções dos fiéis de Jano para os santos católicos. No caso de São João Batista, em particular, esta transferência deve ter sido até mais fácil, pois existe um vínculo simbólico entre os dois, já que João Batista iniciou Jesus através do batismo e que Jano era o patrono das iniciações[16].

De qualquer forma, é possível identificar três motivos que teriam levado os trabalhadores da construção a adotar um ou outro João, ou ambos, como padroeiros:

  • O vínculo com Jano e os solstícios;
  • A associação do Batista com a iniciação e do Evangelista com o amor fraternal e a solidariedade[17];
  • A escolha do patrono de uma cidade como protetor de uma guilda[18], o que era muito frequente;

Há muitas provas de que os construtores medievais tinham apreço pelas datas solsticiais.[19] Se isso, de fato, era decorrente da adoção de Jano como seu padroeiro, é difícil saber, porque numa época em que a Igreja era fundamentalista e implacável, não seria razoável externar o culto a um deus pagão. Desse modo, mesmo que a reverência ao deus romano tenha prosseguido após a queda do império, deve ter permanecido cifrada nos mistérios do ofício. E assim se encontraria até hoje, velada pelos Sãos Joões.

A associação de João Batista com as iniciações e a importância destas para os ofícios é óbvia. Quanto à importância de João Evangelista – considerado o apóstolo do amor – para os construtores, é preciso ter em conta a relevância da solidariedade e da fraternidade entre os integrantes das guildas de pedreiros. Aqueles artífices, não raro, exerciam o ofício em lugares ermos e distantes de suas cidades, e, a exemplo dos colégios romanos, a ajuda mútua e o auxílio às famílias em caso de acidente ou falecimento eram fundamentos rigidamente obedecidos por todos e tratados como pontos de honra.

A guilda medieval de pedreiros e carpinteiros vinculada à catedral de Colônia, na Alemanha, adotava João Batista como padroeiro. Já os obreiros da Loja de Edimburgo[20], na Escócia, trabalhavam, no século XV, sob a proteção de João Evangelista, como era comum para boa parte das guildas de construtores escocesas.

Desde a época das Cruzadas, João Batista era reverenciado como padroeiro da Ordem de São João de Jerusalém, de grande destaque na realização de obras arquitetônicas. Esta ordem, também chamada de Ordem dos Hospitalários, foi a primeira instituição cristã de caridade especializada. Estabelecida na Palestina por volta de 1080 – portanto pouco antes da Primeira Cruzada – tinha por objetivo o apoio e a assistência médica aos peregrinos cristãos que se dirigiam à Terra Santa. Após a Cruzada, o fluxo de romeiros para a região aumentou enormemente e a Ordem de São João, administrada por leigos, enriqueceu, expandindo-se pelas rotas de peregrinação, onde construiu inúmeras fortalezas. Uma das remanescentes é a de Krak dos Cavaleiros, perto de Homs, na Síria, considerada Patrimônio Mundial pela UNESCO.

A adoção de São João como patrono daquela ordem decorreu do fato de que o seu primeiro abrigo foi construído próximo à Igreja de São João Batista, na Cidade Santa, onde os hospitalários faziam suas orações. Embora neste caso pareça não haver qualquer relação direta com o deus Jano, a hipótese de que essa relação exista, ainda que de difícil comprovação, não pode ser sumariamente descartada, pois a cultura do Oriente Médio está impregnada de referências solsticiais.

No século XVIII, quando a nossa Ordem ainda tinha muitas referências cristãs, São João Batista e São João Evangelista eram tidos como santos patronos da Maçonaria inglesa. Dos dois, São João Batista era considerado o principal. Seu simbolismo é tão importante que a primeira Grande Loja, formada em 1717, escolheu seu dia como data de fundação. Por outro lado, antes mesmo da formação da Grande Loja Unida da Inglaterra, em 1813, era costume as Lojas instalarem os Veneráveis a cada seis meses, e o faziam em 24 de junho (dia de São João Batista) e 27 de dezembro (dia de São João Evangelista). A antiga Grande Loja da Inglaterra, em particular, sempre realizava suas instalações no dia 27 de dezembro.

De lá para cá, as referências maçônicas aos dois Sãos Joões têm sido mantidas. Muitas Lojas de vários países se assumem dedicadas a ambos os santos. No Rito Sueco, os três primeiros graus são conhecidos como graus de São João. No começo do século XIX, algumas Lojas francesas abriam seus trabalhos em nome de São João da Escócia, mas, a despeito do que possa parecer à primeira vista, não há um santos escocês de nome João, de onde presume-se que esta tenha sido uma maneira indireta de reverenciar o padroeiro das guildas escocesas, S. João Evangelista. O Rito de York Antigo, mais ou menos na mesma época, dedicava a Loja aos dois Sãos Joões. No R.E.A.A., até hoje, todos se dizem oriundos de uma Loja de S. João, em honra do qual os trabalhos são abertos e fechados.

Conclusão

Ainda haveria muito a se falar de Jano, colégios de artesãos, guildas e Lojas de São João. Existe uma vasta literatura a respeito, parte da qual é apresentada na bibliografia a seguir. Não obstante, e como sempre acontece com as pesquisas sobre simbologia maçônica, alguns vazios permanecem, dada a carência de fontes quando nos aprofundamos no passado. De todo modo, esperamos que este trabalho motive outros Irmãos a preenchê-los com seus estudos.

Não há dúvida de que, desde os primórdios, o homem se preocupa em entender a natureza. Poder antever as alterações climáticas provocadas pela mudança das estações e, com isso, preparar-se para o plantio, colheitas e caça, e proteger-se das intempéries, era uma questão de sobrevivência e garantia da manutenção da prole. Passaram-se dezenas de milhares de anos até que ele pudesse identificar os solstícios, e foi buscando perpetuar este conhecimento que passou a registrá-lo em pedra. Inúmeros templos e construções trazem em si esta sabedoria primordial, que só chegou aos dias atuais porque encontrou pedreiros dispostos a traduzi-la pela ação de seus maços e cinzéis. No Templo de Salomão, eram representados pelas colunas J e B, e, no império romano, através das portas solsticiais, estavam associados a Jano, de onde vieram até chegar aos dias atuais personificados pelos dois São João.

Esta tese, evidentemente, está aberta a contestações. Ainda assim, é preciso considerar que na tradição cristã não existe qualquer ligação desses santos com os ofícios construtivos, nem há indicação de que seu patronato seja fruto de imposição ou preferência religiosa. Ou seja, ainda que a maçonaria não fosse equidistante das religiões, do ponto de vista da hagiologia[21] cristã – e exceto pela fraternidade apregoada pelo Evangelista – não haveria porque ter qualquer dos São João como patrono. Quanto à hipótese de que a adoção dos santos pela maçonaria seja uma mera homenagem ao padroeiro de alguma cidade medieval, carece da ancestralidade característica dos símbolos maçônicos e, por isso, mesmo que não se possa refutá-la, é pouco provável que seja verdadeira.

Os hermetistas associam o solstício de verão à “porta dos homens” e o de inverno à “porta dos deuses”[22], que são as portas zodiacais de Câncer e Capricórnio. São os momentos a partir dos quais há, respectivamente, diminuição e aumento da intensidade da luz solar, reproduzidos simbolicamente na vida do maçom da iniciação em diante, conduzindo-o das trevas à luz. Diz a antiga filosofia que a alma humana descia dos céus e passava pela Porta dos Homens para encarnar na terra. Na morte, após deixar o corpo, ela passava pela Porta dos Deuses e retornava aos céus. E era Jano quem detinha a chave que abriria estas portas.

Ao olharem para os solstícios, as duas faces de Jano estão, portanto, zelando para que o ciclo da existência se cumpra e permitindo, com isso, que o homem se torne partícipe da criação. Se uma das faces pode ser associada a São João Batista e a outra a São João Evangelista, sob o aspecto estritamente simbólico isso talvez não seja tão relevante. Os símbolos são importantes pelo que representam, não pelo nome que se dê a eles. E os solstícios continuarão a existir independentemente de como os chamemos.

O passado é só uma lembrança e o futuro ainda não chegou. Jano, transfigurado nos Sãos Joões, continuará a nos remeter ao aqui e agora, que é o tênue e fugaz momento que estabelece a ponte ou a passagem entre o que já foi vivido e o que ainda resta viver. Ou, se preferirmos, o olhar sobre o que já foi plantado e colhido e a incerteza se haverá um novo plantio e uma nova colheita.

Ele já nos abriu uma porta. Em vão esperaremos que tenha perdido a chave da outra…

Autor: Sérgio Koury Jerez

Fonte: BIBLIOT3CA

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Notas

[1] – Só num momento seguinte, já bem mais tarde, uma nova iconografia seria criada para proporcionar aos devotos uma representação “palpável”, e as estátuas das divindades romanas foram substituídas por imagens de santos para os quais eles podiam canalizar suas orações e súplicas.

[2] – Do latim Dianus (com a mesma raiz de dies – dia) ou Ianusou Janus.

[3] – Jano pode ser um eco longínquo do acádio Usmu ou do egípcio Nehebkau.

[4] – As moedas romanas mais antigas trazem de um lado a efígie de Jano e, do outro, a proa de um barco. Ao tirarem cara ou coroa os romanos diziam capite aut navim (cabeça ou barco, em latim)

[5] – Uma moeda é, em última análise, uma representação do círculo solar, que, na mitologia egípcia, era identificado com Ra, cuja barca fazia o Sol se mover no firmamento.

[6]deus omnium initiorum, em latim.

[7] – Em vários países adota-se a palavra janitor para identificar os responsáveis por zelar pelos edifícios ou propriedades em geral e que, por isso, detêm suas chaves.

[8] – Do latim sol sistere, que significa parada do sol ou sol estático.

[9] – No templo de Salomão, as colunas J e B indicariam a posição do sol nos dois solstícios.

[10] – Pelo menos nos documentos consultados pelo autor.

[11] – Também chamado de Império Romano do Oriente.

[12] – Data onde também ocorria a festa do deus nórdico Jul.

[13] – Ao contrário, alguns autores refutam esta hipótese.

[14]Escultores de pedras emancipados, em tradução livre do latim.

[15] – Latonni (Cultuadores de Apolo ou Diana) chamados de pedreiros-livres, em tradução livre do latim.

[16] – Do ponto de vista de iconografia, no entanto, dois dos principais símbolos de Jano, que eram a chave e o barco, passaram, curiosamente, a ser associados a S. Pedro, que, como o deus romano, é o patrono católico dos construtores de pontes.

[17] – Entre os séculos XV e XVIII, em Paris, existiu uma guilda de impressores e livreiros, chamada de Guilda de São João Evangelista, dedicada quase que exclusivamente à ajuda mútua e benemerência.

[18] – Florença, na Itália, considerada o berço do Renascimento e, portanto, mantenedora da mais importante guilda de construtores da Europa Ocidental na época, tinha São João Batista como padroeiro desde o começo do segundo milênio.

[19] – Um exemplo é a catedral de Chartres, na França, construída no século XII. No solstício de verão, os raios de Sol atravessam o vitral de São Apolinário e projetam um círculo de luz sobre uma estrutura de metal no piso da igreja.

[20] – Nos manuscritos Edinburgh Register House, de 1696, eChetwode Crawley, de 1717, que são reconhecidos como exemplares dos Antigos Deveres, os aprendizes diziam jurar por Deus e São João, pelo Esquadro e Compasso…

[21] – Estudo os santos.

[22] – Diz a antiga filosofia que a alma humana descia dos céus e passava pela Porta dos Homens para encarnar na terra. Na morte, após deixar o corpo, ela passava pela Porta dos Deuses e retornava aos céus.

Bibliografia resumida

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Tyerman, C., The Hospitallers: Knights of St John, Oxford, Inglaterra, Hertford College pp. 491-492.

Solstício de Inverno

Este domingo é o solstício de Inverno - o dia mais curto do ano - ZAP
Para todos os efeitos, o Solstício de Inverno marca a noite longa do ano. É o apogeu do inverno, o ponto culminante da escuridão e do frio que afasta a vida.
 
Como todo apogeu, marca também o início da decadência.
 
Se este é o apogeu da sombra, ela agora entra em decadência, e temos então o retorno da luz.
 
Gradualmente, a noite começa a encolher, começa a durar menos, até que, no Solstício de Verão, os papéis se invertam na eterna gangorra que determina o equilíbrio da natureza.
 
Vivendo no Hemisfério Sul, onde as estações do ano são invertidas com relação ao Norte, estamos atravessando agora em junho os últimos momentos do outono – a estação da colheita – que nos leva ao inverno.
 
Afinal, é um período que marca um ciclo da Terra Viva e de sua relação com o Sol – independente da religião adotada, um Solstício de Inverno é sempre um Solstício de Inverno…
 
Mas quais são os significados deste momento?
 
As culturas europeias do neolítico atribuíam grande importância a este período, como atestam as muitas construções megalíticas a ele relacionadas.
 
Dentre estas, a mais conhecida é Stonehenge –  um verdadeiro computador para calculo de solstícios e equinócios. Mas seguramente a mais impressionante é Brú na Bóinne, na Irlanda – também conhecida como Newgrange.
 
Essa enorme estrutura, erguida pelos habitantes da Irlanda neolítica há mais de 4500 anos, é uma obra prima da engenharia pré-histórica. Trata-se de um monte artificial erguido sobre uma câmara em forma de cruz que penetra mais de 24 metros no interior do monte. Lá dentro, escuridão total e silêncio. A não ser durante três dias por ano: o Solstício de Inverno e os dias imediatamente antes e depois dele.
 
Atualmente, com o auxílio de computadores e cálculos de precisão, é possível determinar com exatidão o ponto exato no horizonte oriental em que o Sol nasce num determinado dia, mas naquela época, em 2500 a.C., seriam necessários muitos anos de observação e conhecimento da movimentação da Terra e dos astros para definir com precisão esse momento celeste.
 
Isto por si só já mostra claramente que o Solstício de Inverno é uma data importante para a humanidade desde há muito tempo.
 
Mas tem mais: nenhum povo dedicaria tanto esforço físico e mental para construir tamanha estrutura se não fosse por um motivo muito forte.
 
Mas qual seria este motivo?
 
As pesquisas arqueológicas indicam que, no interior da câmara subterrânea de Newgrange, eram depositados os corpos e as cinzas dos mortos daquela cultura ancestral. Permaneciam, intocados, durante a escuridão que ali reinava durante praticamente todo o ano.
 
Ma nos três dias próximos ao Solstício de Inverno, um milagre: entram na câmara os primeiros raios do sol nascente, o Novo Sol que voltará a crescer depois do inverno, trazendo consigo a certeza de que, após o frio invernal, sem dúvida virá o brilho e o colorido da Primavera e da vida que renasce.
 
Pois esse é o tema de Brú na Bóinne.
 
A entrada dos raios solares somente no Solstício de Inverno – o Novo Sol – ilumina todo o interior da câmara interna, num espetáculo disputado a peso de ouro pelos neo-pagãos da Europa e de todo o mundo.
 
Só quem já entrou em Brú na Bóinne é capaz de descrever o maravilhamento causado poe esse fenômeno. Ao iluminar o interior da câmara, os raios de sol – um verdadeiro falo celeste – penetram no útero da Terra, onde as cinzas dos mortos haviam sido depositadas, fecundando-as novamente, e assim garantindo a continuidade da vida após a morte.
 
Esse é o tema do Solstício de Inverno: a união do Sol (masculino) com a Terra (feminino) é o milagre do renascimento e a preservação da vida.
 
É essa união em equilíbrio que traz a certeza de que a Primavera retornará, e com ela a alegria, a fertilidade e o amor da Terra e de suas criaturas.
 
Desenvolvendo seus mitos através dos tempos, a humanidade sempre fez o Solstício de Inverno o momento de nascimento de deuses e heróis: Arthur, Dionísio, Mithra, Átis, Osíris, entre outros.
 
Nós que vivemos no Hemisfério Sul, no paraíso de Hi-Brasil, temos o privilégio de viver junto a uma natureza mais amena e menos hostil do que na Europa. Por aqui, é bom que se diga, o deus sol nunca morre, nem mesmo no Solstício de Inverno.Mas com certeza nós sentimos nesse período que algo está mudando – a natureza, em sua imutável (posto que é eterna) transformação, dá prosseguimento à sua ciclicidade.
 
Podemos sorrir felizes, pois nossos invernos são mais brandos do que os dos outros; e sorrimos ainda mais com a certeza de que, a partir de 13h38  do dia 21 de junho, o retorno do Sol nos trará de volta a alegria da Primavera em setembro.
 
Essa certeza nos ajuda – como ajudava os povos da Antiguidade – a suportar os rigores do inverno que se anuncia, enchendo-nos de esperança e de energia para aguardar a próxima estação.
 
É simples assim…E é por ser simples que é belo.
 
Para a Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, em especial, a celebração desse Solstício marca mais um ciclo na administração, oportunidade em que o novo Grão-Mestre e seus Grandes Vigilantes tomam posse. É o momento em que as Lojas e Irmãos se unem no compromisso institucional de se fazerem presentes, lembrando que a Sublime Ordem é formada por todos nós e que ninguém faz nada sozinho. O trabalho vindouro é árduo, mas exequível, sendo de suma importância nossa participação nos projetos como formadores de opinião e construtores sociais.
 
Que como o Sol, que a partir de agora se fará mais presente, tenhamos o mesmo vigor em expressarmos o nosso de “De Pé e a Ordem”.
 
Bom Solstício de Inverno, e que a Roda jamais pare de girar.
 
Pesquisa realizada pela Biblioteca Mário Behring – GLMMG

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São João, nosso Patrono

Imagem relacionadaDecapitação de São João Batista – Caravaggio (1607-08)
Resultado de imagem para san juan apóstol y evangelistaSão João, o Evangelista – Valentin de Boulogne (1622-23)

Quando os trabalhos são declarados abertos, há referência a São João, dito nosso patrono. Porém, qual o São João? São muitos, na Igreja Cristã, os santos com o nome de São João “disso e daquilo, etc.” Os regulamentos maçônicos recomendam se festejar a dois: a São João, “o Batista”, e a São João, “o Evangelista”.

O Batista

São João Batista, também dito “o Precursor”, era filho de Isabel, prima da Virgem Maria e, por conseguinte, também parente de Jesus. Ele ganhou o epíteto de “batista” porque, no rio Jordão, “batizava” as pessoas, derramando -lhes água sobre as cabeças, assim limpando-os espiritualmente (batismo significa banho ). Era também conhecido por viver no deserto, alimentando-se de mel e gafanhotos, vestindo apenas com uma pele de carneiro, andando assim meio nu, meio vestido. Seguramente, pertencia, entre os judeus, ao grupo dos essênios, que vivia em Quram, perto do mar Morto. Local onde, em 1947, foram encontrados alguns documentos de sua época. Tinha vários seguidores, mas se dizia Precursor de Alguém Maior que ele, e de quem não era digno sequer de Lhe desatar as sandálias. Vituperava a Herodes Antipas ¾o rei imposto pelos romanos aos judeus ¾ , porque Antipas mandara matar a seu meio-irmão para ficar com a sua esposa. Antipas mandou decapitar a João Batista, atendendo o pedido de Salomé, sua enteada, filha de seu meio-irmão, acima referido.

O dia 24 de junho foi estipulado pela Igreja Católica como o de sua comemoração.

O Evangelista

O outro São João, o Evangelista, era apóstolo de Jesus. Chamam-no de Evangelista porque, além de pregar os ensinamentos do Mestre, foi o autor do 4º Evangelho, de três epístolas e do famoso Apocalipse. Essa palavra quer dizer “revelação”. Nele, João relata as revelações que teria tido sobre o fim dos tempos e dos caminhos para a salvação. Por falar nos fins dos tempos, catástrofes, guerras, pestes, castigos, a palavra “apocalipse” ganhou a conotação de “algo ruim, apavorante, cataclismático, terrificante”. A linguagem é extremamente simbólica, de difícil compreensão.

Seu dia é comemorado em 27 de dezembro.

Maçonaria Operativa

Na verdade, porém, como vem registrado no item XXII, dos Regulamentos Gerais das Constituições de Anderson, de 1723, e com elas publicados, o dia que os maçons operativos do passado tinham escolhido para a reunião anual era o de São João Batista, em 24 de junho, ou, opcionalmente, no dia de São João Evangelista, em 27 de dezembro. Mas, com ênfase ao primeiro. Aliás, notar que a fundação da Grande Loja de Londres, em 1717, ocorreu precisamente nesse dia, 24 de junho. Veja-se como vem redigido esse cânone dos Regulamentos Gerais, aprovados, pela segunda vez, no dia de São João, 24 de junho de 1721, por ocasião da eleição do Príncipe João, duque de Montagu, para Grão-Mestre:

“XXII. Os Irmãos de todas as Lojas de Londres e Westminster e das imediações se reunirão em uma COMUNICAÇÃO ANUAL e Festa, em algum Lugar apropriado, no Dia de São João Batista, ou então no Dia de São João Evangelista, como a Grande Loja pensa fixar por um novo Regulamento, pois essa reunião ocorreu nos Anos passados no Dia de São João Batista: Provido(…)”

Razões Esotéricas

Só por uma segunda opção a reunião e festa ocorreria,portanto, no dia 27 de dezembro, na festa do outro São João. Mas, por quê? O porque dessa alternativa tem uma explicação esotérica, que remonta às prováveis origens da Maçonaria, aos Collegia Fabrorum dos romanos. A esses colégios de artesãos, de diferentes ofícios, pertenciam também os da construção. Eles acompanhavam as tropas romanas, para o trabalho de reconstrução e instalação da administração imperial, nas terras conquistadas e colonizadas. E com eles ia a sua religião ou religiões, para ser mais exato, ainda que entre os romanos a predominante fosse a da adoração à Mitra, que era representado por uma figura humana. No lugar da cabeça, um Sol.

Havia muitos outros deuses, notadamente, o de Janus, uma figura de duas cabeças coladas e opostas, cada uma olhando em sentido contrário a da outra, e que simbolizavam: uma, o solstício da entrada do verão (21 de junho, hemisfério norte); a outra, o solstício da entrada do inverno (21 de dezembro, hemisfério norte). Esses solstícios estão sempre presentes nas festas pagãs, vinculadas à Natureza. É aí que encontramos uma provável explicação histórica para os festejos juninos e os natalinos, a que a nova religião romano-cristã, não podendo desenraizar dos costumes populares, o mínimo que conseguiu foi a substituição. Todavia, no seio da maçonaria operativa, mesmo sob tal disfarce, ambas as datas sobreviveram, em face do conteúdo esotérico de seus significados. Não esquecer que os colégios, principalmente, os dos construtores, seriam depositários dos conhecimentos e mistérios de antiquíssimas sociedades iniciáticas, todas praticantes de ritos solares.

Autor: Bruno Calil Fonseca

Fonte: Usina das Letras

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A Maçonaria e a celebração dos solstícios e equinócios

Nossa Ordem, como detentora de milenares tradições de natureza espiritual tem como uma de suas práticas mais antigas e tradicionais a celebração dos Solstícios e Equinócios. Estas celebrações remontam a outras também antigas tradições esotéricas e iniciáticas que foram ensinadas aos humanos por seres de natureza superior.

Nos Solstícios e Equinócios toda a natureza, na forma de animais, vegetais e também minerais, celebra as mudanças de estação, o magnífico e necessário ciclo da vida. É uma verdadeira festa e os humanos mais antigos, orientados e sensíveis a este ambiente festivo, resolveram também participar dele.

A origem desta tradição se perde nas brumas de um passado longínquo. A celebração dos solstícios e equinócios pode ser encontrada junto a povos e culturas como os celtas e os egípcios e ainda outros povos. Se nos permitirmos pesquisar o assunto na Internet encontraremos que a celebração da passagem das estações é uma tradição pagã. É importante salientar que conforme o cristianismo de Saulo de Tarso, tudo o que não seja o seu próprio cristianismo é chamado de pagão. Só isso, nada mais. Ou seja, uma prática pagã não é necessariamente algo demoníaco, perverso ou contrário à ordem e ao desenvolvimento.

Mas, talvez o maçom se pergunte, o que temos nós maçons a ver com tradições ou celebrações pagãs comuns à bruxaria e ao esoterismo medieval? Bem, existe um importantíssimo elo entre o mundo maçônico e os cultos ancestrais: o Rei Salomão. Devemos lembrar que Salomão viveu na Mesopotâmia, o berço tanto da civilização quanto da cultura terrena e mais ainda dos principais conceitos relativos à espiritualidade universal.

Historicamente Salomão se uniu à riquíssima e poderosa Rainha de Sabá (conhecida pelos etíopes como Makeda e na tradição islâmica como Balkis) e juntos chegaram a ter um filho Menelik I, que foi o primeiro rei ou imperador da Etiópia. Os arqueólogos apontam evidências de que a Rainha de Sabá rendia culto às tradições primitivas da Mesopotâmia, principalmente à Sóthis (a estrela Sírius para os egípcios) e à deusa egípcia Sopdet (deificação de Sóthis – uma referência ao brilho de Sirius).

Na arte, Sopdet é descrita como uma mulher com uma estrela de cinco pontas sobre a cabeça. Sopdet é a consorte de Sah , a constelação de Órion, e o planeta Vênus era por vezes considerado seu filho. A figura humana notável de Orion foi eventualmente identificada como uma forma de Hórus , o deus do céu para os egípcios.

Na antiguidade as civilizações estavam totalmente alinhadas com os ciclos da vida representados pelas estações do ano e os solstícios e equinócios. A vida daquelas civilizações dependia 100% do movimento da Terra em torno do Sol, tanto no plano da agropecuária quanto social e principalmente espiritualmente. A Rainha de Sabá e seu povo perpetuando as mais antigas tradições mesopotâmicas certamente também celebrava os Solstícios e Equinócios.

Sob o antigo palácio de Menelik I, em Axum, em maio de 2008, o arqueólogo alemão Helmut Ziegert encontrou os restos da casa da Rainha de Sabá e junto a eles encontrou também evidências que indicam forte probabilidade de que por um longo tempo lá tenha ficado a tão procurada Arca da Aliança de Moisés, com os Dez Mandamentos. Fica então evidente a possível troca de práticas entre ela e Salomão em um verdadeiro ecumenismo espiritual e religioso, sem preconceitos, tabus ou dogmas limitantes. Fica também evidente que muito provavelmente a relação entre Salomão e a Rainha de Sabá não foi coisa passageira, trivial ou superficial como se pode supor. Para que um rei hebreu tirasse a Arca da Aliança de dentro do Tabernáculo e levasse para um templo ou palácio de outra cultura e religião, seria necessário haver uma razão muito importante.

Se nossa Maçonaria tem sua origem em Salomão, se Salomão se envolveu não somente com a Rainha de Sabá, mas também com sua religião e espiritualidade, fica claro e evidente a justificativa da presença até os dias atuais da celebração dos Solstícios e Equinócios em nossa liturgia. Se atentarmos para a nossa atual Celebração Litúrgica dos Solstícios, perceberemos evidentemente elementos tidos como pagãos, não tocados pelo cristianismo de Saulo de Tarso.

O exemplo disso são as libações aos Sete Planetas e à tudo aquilo que eles representam na Criação e na vida de todos nós. A própria comida também sempre esteve presente nas passagens das estações, pois a Deusa Natureza está em festa, assim como todos os demais seres que Nela habitam. A humanidade tem papel determinante nesta celebração. Nestas ocasiões festivas eram servidas comidas da época, abundantes pela colheita recente, bem como as bebidas tradicionais e muita música e dança.

A Deusa primitiva sempre foi sinônimo de alegria, paz, harmonia, saúde, descontração e prazer. Na chamada Idade das Trevas, de uma forma preconceituosa e despótica Ela foi amaldiçoada e retratada como bruxa demoníaca, conceito que a humanidade traz até os presentes dias. A antiga tradição original informa, Poderosos e Amados Irmãos, que na ocasião dos Solstícios e Equinócios a “distância” entre os mundos físico e espiritual é reduzida e assim está facilitada a transição ou o acesso entre elas. Ou seja, no exato momento em que nosso Logos Solar cruza a Eclíptica ou atinge seus pontos máximos e que marcam os Solstícios e Equinócios temos a oportunidade de tanto receber quanto enviar mensagens de natureza espiritual evolutiva.

É interessante observar que nossos rituais são abertos e fechados citando-se exatamente a movimentação solar. Além disso, as Colunas Zodiacais aludem aos Doze Signos Astrológicos por onde o Sol passa ao longo de seu ciclo anual. Nossa Ordem, meus Irmãos, é uma Ordem Solar. Nossa Ordem, que tradicionalmente atua na sociedade visando “tornar feliz a humanidade”, evidentemente não poderia deixar de se “alimentar” das mais elevadas energias e consciências espirituais que nos vêm dos planos superiores exatamente nos Solstícios e Equinócios. Mais ainda, se nosso mister é “tornar feliz”, é exatamente na Deusa Natureza que encontraremos nossa fonte para recarregar as forças. É na natureza, Poderosos Irmãos, que podemos encontrar Deus em sua forma Manifesta. É onde Ele está próximo e “tangível”.

Se abnegarmos a divindade da Natureza estaremos nos condenando à orfandade de Pai e de Mãe e somente a desesperança, a insegurança, a incerteza e a falta de rumo serão nossas realidades. Lembremo-nos do exemplo do Antigo Egito, onde seu deus maior, Osíris, era reconhecido e reverenciado, mas não estava presente.A regência espiritual do Antigo era da deusa Ísis a quem seus súditos recorriam. Da mesma forma, nosso G∴A∴D∴U∴ é inacessível para nós. Porém podemos encontra-Lo na Natureza, Sua manifestação e Obra Maior.

Lembremo-nos que muitos autores maçônicos estabelecem uma relação direta entre nossa Ordem, a Maçonaria, com a deusa egípcia Ísis, a viúva de Osíris. Abençoadas as Sagradas Oficinas que celebram nossos Banquetes Solsticiais Maçônicos e reverenciam as manifestações e origem das Sete Leis Universais.

Esse é o Solstício de Inverno, a noite mais longa do Ano. A partir desse dia, a luz do Sol passa a iluminar e aquecer cada vez mais a Terra, e a escuridão e o frio do inverno ameaçam ir embora. É quando a Deusa dá à luz seu novo filho, o Deus renovado e forte, ainda bebê, a “criança prometida”. Ou seja, é quando “nasce” anualmente o Cristo Solar.

O deus Mithra, da Pérsia, nasceu de uma virgem no Solstício de Inverno, teve 12 discípulos e praticou milagres, e após a sua morte foi enterrado, e 3 dias depois ressuscitou, também era referido como “A Verdade”, “A Luz”, entre muitos outros. Curiosamente, o dia sagrado de adoração a Mithra era a um Domingo. Outro mito solar se refere a Hórus: consta que Hórus nasceu no Solstício de Inverno da virgem Ísis-Méris. O seu nascimento foi acompanhado por uma estrela a Leste, que por sua vez, foi seguida por 3 Reis em busca do salvador recém-nascido.

Baco ou Dionísio da Grécia também nasce de uma virgem no Solstício de Inverno. Átis, deus da Frígia/Roma também nasceu de uma virgem no Solstício de Inverno, foi crucificado, morreu e foi enterrado, tendo ressuscitado no terceiro dia. Hércules nascido da virgem Alcmena, e seu nascimento é comemorado no Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Na mitologia hindu Krishna (um avatar, personificação ou encarnação de um deus, do Deus nasceu no Solstício de Inverno de uma virgem, Devaki (“Divina”) e uma estrela avisou a sua chegada.

Em 274 o Imperador Aureliano proclamou o dia 25 de dezembro (Solstício de Inverno no hemisfério norte), como “Dies Natalis Invicti Solis” (O Dia do Nascimento do Sol Inconquistável). O Sol passou a ser venerado. Buscava-se o seu calor que ficava no espaço muito acima do frio do inverno na Terra. O início do inverno passou a ser festejado como o dia do Deus Sol. A comemoração do Natal de Jesus surgiu de um decreto. O Papa Júlio I decretou em 350 que o nascimento de Jesus o Cristo deveria ser comemorado no dia 25 de Dezembro (Solstício de Inverno no hemisfério norte), substituindo a veneração ao Deus Sol pela adoração ao Salvador Jesus Cristo. O nascimento de Cristo passou a ser comemorado no Solstício do Inverno em substituição às festividades do Dia do Nascimento do Sol Inconquistável.

Segundo a tradição esta celebração solsticial chama-se Yule. Foi a primeira festa sazonal comemorada pelas tribos neolíticas do norte da Europa. É até hoje considerado o início da roda do ano por muitas tradições, inclusive a chinesa. Daí surge a simbologia do Natal. Certamente os Irmãos estranharão se falar de Natal em junho, mas a simbologia do Natal ou de Yule ocorre no Solstício de Inverno, que no hemisfério norte ocorrem em dezembro e aqui no hemisfério sul ocorrem agora em junho.

Conforme a Tradição, em Yule é tempo de reencontrarmos nossas esperanças, pedindo para que os Sete Deuses Mitológicos rejuvenesçam nossos corações e nos deem forças para nos libertarmos das coisas antigas e desgastadas. É uma excelente oportunidade “recarregarmos” nossas energias pessoais com os sete arquétipos divinos e perfeitos, aferindo nossa conduta e vivência.

Um feliz e alegre renascimento a todos!

Autor: Juarez de Fausto Prestupa
Membro da Loja Maçônica de Pesquisas Quatuor Coronati “Pedro Campos de Miranda

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