O homem e o seu Caminho

A Emancipação do Homem:. Do Humanismo ao Pós-modernismo | by Rafael Schier  Granado | Medium

I

O Homem abeirou-se do Sábio e perguntou-lhe:

– Como encontrarei a Luz no Caminho da minha Vida?

O Sábio respondeu-lhe:

– No Caminho da tua Vida encontrarás três Portais. Lê as regras escritas em cada um deles e cumpre-as. E agora vai! Segue o teu Caminho!

– O Homem seguiu o seu Caminho. Em breve deparou com um Portal onde estava escrito:

Muda o mundo

O Homem pensou que, na verdade, se havia algumas coisas no Mundo que lhe agradavam, havia muitas outras que eram objeto do seu desagrado. E começou a sua primeira luta: os seus ideais, o seu ardor e o seu poder levaram-no a confrontar-se com o Mundo, para corrigir, para conquistar, para mudar a realidade de acordo com os seus desejos. Nisso encontrou o prazer e a volúpia do conquistador, mas não trouxe Paz ao seu coração. Conseguiu mudar algumas coisas, mas muitas outras resistiram aos seus propósitos.

O Sábio perguntou-lhe então:

– Que aprendeste no teu Caminho?

O Homem respondeu:

– Aprendi a distinguir entre o que está ao meu alcance e o que se lhe escapa, o que depende e o que não depende de mim.

O Sábio retorquiu:

– Isso é bom. Usa as tuas capacidades para agires no que estiver ao teu alcance e esquece o que estiver para além delas

II

Pouco depois, o Homem encontrou o segundo Portal. Nele estava escrito:

Muda os outros

O Homem pensou que, realmente, os outros tanto podiam ser fonte de alegria, de prazer ou de satisfação, como de dor, amargura ou frustração e rebelou-se contra tudo o que lhe pudesse desagradar nos outros. Tentou moldar as suas personalidades e corrigir os seus defeitos. Esta foi a sua segunda luta. Fê-lo com persistência, mas nunca conseguiu remover as suas dúvidas sobre a real eficácia dos seus esforços de mudar os outros.

O Sábio perguntou-lhe então:

Que aprendeste no teu Caminho?

O Homem respondeu:

– Aprendi que os outros não são a causa nem a fonte das minhas alegrias ou das minhas tristezas, da minha satisfação ou dos meus desaires. São apenas oportunidades para todos se me revelarem. É em mim que tudo tem raízes.

O Sábio retorquiu:

– Tens razão. Os outros revelam-se-te na medida do que acordam em ti. Agradece aos que fazem vibrar em ti as cordas da Alegria e da Satisfação. Mas não odeies os que te causam sofrimento ou frustração, porque, através deles, a Vida ensina-te o que te falta aprender e qual o Caminho que ainda te falta percorrer.

III

Então o Homem encontrou o terceiro Portal, onde se lia:

Muda-te a ti próprio

O Homem pensou que, se na realidade era ele próprio a fonte dos seus problemas, então era em si próprio que teria de trabalhar. Começou então a sua terceira luta. Tentou moldar o seu carácter, lutar contra as suas imperfeições, acabar com os seus defeitos, mudar tudo o que lhe desagradava em si próprio, tudo o que não correspondia ao seu ideal. Teve algum sucesso, mas também alguns fracassos e duvidou das suas reais capacidades.

O Sábio perguntou-lhe então:

– Que aprendeste no teu Caminho?

O Homem respondeu:

– Aprendi que há em mim aspectos que consigo melhorar e outros que não consigo alterar.

O Sábio retorquiu:

– Isso é bom!

Mas o Homem prosseguiu:

– Sim. Mas começo a ficar cansado de lutar contra tudo, contra todos, contra mim próprio. Isto nunca terá fim? Nunca terei descanso? Quero poder parar de lutar, desistir, abandonar tudo…

O Sábio prosseguiu:

– Essa é a tua próxima lição. Mas antes de prosseguires, volta-te para trás e observa bem o Caminho que percorreste.

IV

Olhando para trás, o Homem viu à distância o terceiro Portal e reparou que, no lado de trás, estava escrito:

Aceita-te a ti próprio

O Homem surpreendeu-se por não ter visto a inscrição quando passara o Portal no sentido contrário e pensou que, quando se luta, fica-se cego para tudo o que esteja para além da luta. Reparou então em tudo o que deixara cair, que deitara fora, enquanto lutara contra si próprio: os seus defeitos, as suas sombras, os seus medos, os seus limites, tudo antigas preocupações suas. Aprendeu então a reconhecê-los, a aceitá-los, a conviver com eles. Aprendeu a amar-se a si próprio sem voltar a comparar-se com os outros, sem se julgar, sem se repreender.
O Sábio perguntou-lhe então:

– Que aprendeste no teu Caminho?

O Homem respondeu:

– Aprendi que odiar ou repudiar uma parte de mim próprio é condenar-me a nunca estar de acordo comigo mesmo. Aprendi a aceitar-me a mim próprio, total e incondicionalmente.

O Sábio retorquiu:

-Isso é bom! Essa é a primeira regra da Sabedoria. Agora regressa ao segundo Portal.

V

Ao aproximar-se deste, o Homem leu, nas suas traseiras:

Aceita os outros

Reparou então em todas as pessoas com quem tinha estado em toda a sua vida, quer nas que tinha amado ou com quem tinha tido amizade, quer nas que lhe tinham desagradado. Naqueles que tinha apoiado e naqueles contra quem tinha lutado. Mas a sua maior surpresa foi que se apercebeu que agora nem notava as suas imperfeições nem os seus defeitos, que antes tanto o incomodavam.

O Sábio perguntou-lhe então:

– Que aprendeste no teu Caminho?

O Homem respondeu:

– Aprendi que, estando em paz comigo mesmo, já nada me incomoda nos outros, nada neles temo. Aprendi a amar e a aceitar os outros, total e incondicionalmente.

O Sábio retorquiu:

– Isso é bom! Essa é a segunda regra da Sabedoria. Regressa agora ao primeiro Portal.

VI

Aproximando-se deste, o Homem leu a tardoz a inscrição:

Aceita o mundo

O Homem pensou que também não vira estas palavras quando ali passara no sentido contrário. Olhou à sua volta e reconheceu o Mundo que tentara conquistar, transformar, mudar. Ficou estupefato pelo Brilho e pela Beleza de tudo, pela sua Perfeição. No entanto, era o mesmo Mundo de antes. Que mudara? O Mundo ou a sua percepção dele?

O Sábio perguntou-lhe então:

– Que aprendeste no teu Caminho?


O Homem respondeu:

– Aprendi que o Mundo é o espelho da minha alma. Que a minha alma realmente não pode ver o Mundo, que se vê a si própria nele. Quando a minha alma está alegre, o Mundo parece-lhe alegre. Quando está triste, assim lhe parece o Mundo. O Mundo em si não é alegre nem triste: Está lá. Existe, é tudo. Não era o Mundo que me perturbava, mas a ideia que eu tinha dele. Aprendi a aceitar o Mundo sem o julgar, a aceitá-lo total e incondicionalmente.

O Sábio retorquiu:

– Essa é a terceira regra da Sabedoria! Estás agora em consonância contigo próprio, com os outros e com o Mundo.

Um profundo sentimento de Paz, de Serenidade, de Plenitude, encheu o Homem. Dentro dele, o Silêncio substituiu todo o fragor das lutas que travara.

E então o Sábio concluiu:

– Agora, estás pronto para, quando chegar o momento, passares em paz o último e desconhecido Portal, aquele que vai do Silêncio da Plenitude para a Plenitude do Silêncio.

Autor: Rui Bandeira

Adaptação de um texto de autor anónimo lido no blog Southern Knight .

Fonte: A Partir da Pedra

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Equinócio da Primavera

Primavera - Guia Estudo

Solstícios e Equinócios marcam o início das estações do ano e estão relacionados à incidência dos raios solares e à inclinação da Terra. A estação da primavera é marcada por uma maior incidência de floração com o desabrochar das flores. Também na primavera os animais que hibernaram no inverno saem de suas tocas e as abelhas, bem como as borboletas, ficam mais ativas.

A vida também é marcada em ciclos. O rei Salomão chegou a relacionar a juventude com a primavera da vida e podemos pensar que o processo de envelhecimento nos leva a passar pelo verão com a maturidade, pelo outono com relativa baixa no vigor físico e pelo inverno com o embranquecimento dos cabelos, com a perda de apetite e, por fim, com o romper do fio de prata. Mas assim como as estações se repetem ano após ano, vários ciclos são abertos e fechados no curso da vida.

Segundo Freud, somos seres marcados pela repetição e a organização da vida em ritos, rotas e rotinas é um bom exemplo disso. Infelizmente, a maior parte das pessoas demora muito tempo para aprender que não há coincidências na vida, nem mesmo nas circunstâncias do nascimento ou da morte. A grande questão é se teremos um papel ativo ou passivo nos diversos ciclos da vida.

No dicionário os termos expectativa e perspectiva são sinônimos, mas do ponto de vista da vida psíquica são posições subjetivas antagônicas. A expectativa equivale a uma posição subjetiva passiva, uma posição na qual o expectador da vida torce ou reza para que a vida melhore, mas ele ficará passivamente esperando e deixando a vida o levar. A perspectiva equivale a uma posição subjetiva ativa na qual o sujeito muda o seu ponto de vista, muda o seu jeito de olhar e assim passa a ver algo que antes não se via na outra posição.

Muitos vivem de expectativas e não percebem que a grande virada na vida é assumir o risco de uma nova perspectiva.

Não é porque se encara algumas situações na vida como tragédias que elas sejam, de fato. Quando se escolhe encarar as tragédias como oportunidades de crescimento descobre-se que elas são também desafios necessários para que haja mudança e novos ciclos na vida

Seja lá quantas primaveras já se tenha vivido, ao se olhar para trás, não para os dias belos, claros e coloridos de primaveras e verões, mas para aqueles dias mais difíceis, cinzas, em vários ciclos de outono e inverno que se experimentam na vida, é possível perceber que são justamente estes dias mais difíceis que fazem tornar-se a pessoa que se é hoje.

Os ciclos vêm e vão, portanto, nenhuma doçura será eterna e nenhum amargor será perene. Os dias coloridos da primavera fazem valer os dias cinzas do inverno. Quando a
abelha produz o mel vale o tempo que ela não voou. É preciso aprender a receber, aceitar e viver com intensidade os variados ciclos. A primavera traz a oportunidade do descobrir e do gostar, o verão abre as portas do aventurar, no outono vem a possibilidade de melhor se conhecer e o inverno é a época de se proteger. Todo dia, seja de qual ciclo for, é dia de viver para ser tudo o que puder ser, seja lá o que for.

A vida não nos apresenta garantias, mas riscos. É como o desbastar de uma Pedra Bruta: Você pode se lascar ou sair polido. Como então podemos melhorar a perspectiva sobre a vida?

Voltando a Freud, o desejo fundamental das pessoas é sentir-se amado. Tudo o que se deseja ou teme é porque anseia-se por amor, tem-se a expectativa de ter mais tempo para sentir-se amado e teme-se a morte e o fim do sentir-se amado. Podemos, então, medir a vida observando o amor, o tempo e a morte.

Quer se sentir amado? Mude de atitude, comece a viver! O amor está em tudo e dentro de todos.

O amor está na luz e na escuridão, na bonança e na tempestade, no sorriso e na dor.

Quer goste ou não disso, não tente viver sem amor. Não se pode escolher a quem se ama e nem quem fará sentir-se amado, mas não se deve abrir mão do desejo de amar-se a si mesmo. Excelente obra almeja quem ama o seu próximo, nem por isso deve deixar de amar a si mesmo. O desejo de sentir-se amado pode começar a ser realizado tornando-se amado.

Segundo Einstein, o criador da teoria da relatividade, o tempo é uma ilusão, embora teimosamente persistente. O tempo não vai do meio dia à meia noite, nem de janeiro a dezembro. Essas são percepções limitadas e por isso muitos reclamam que não têm tempo suficiente, que a vida é curta, que os cabelos estão ficando brancos ou caindo. O tempo é abundante, é um presente! O tempo transforma o cinza das dores do inverno em cores na primavera, mas ele também transforma as cores em cinzas. Talvez o tempo seja outro nome para o que chamamos de vida…

Por fim, a morte. Ela causa dor, inspira medo, enfim, é implacável, mas também é simbólica e representa o fim de ciclos que podem ser trágicos ou transformadores, a depender da perspectiva. A morte da larva também é a transformação da borboleta. As pessoas são como larvas em casulos de borboletas. O casulo é o que se vê no espelho e quando este casulo sofre algum dano físico ou psíquico, pode-se ver uma tragédia, mas poder-se-á também ver a libertação da borboleta.

As pessoas que vivem vida plena, que experimentam o amor e aproveitam o tempo, jamais terão medo da morte. A morte pode ser a maior realização que nos aguarda, destarte, se deseja viver bem a vida, pense na morte. Não se preocupe com a morte, mas com as escolhas que faz na vida. Se cuidar hoje do abrir e fechar ciclos na vida, então ter-se-á uma experiência incrivelmente feliz no momento da morte. Parafraseando Freud, pouco valerá saber se não experimentar o que se sabe.

Eis que chega mais um Equinócio da Primavera. Finda-se um ciclo de inverno em que muitos perderam, vários choraram e alguns se perderam. Com a primavera boas novas andam pelos campos e pelas ruas. O que vai brotar, crescer e colorir a vida é o que se semeia também nos dias cinzas, nos dias difíceis. Quem tem o ideal de tornar feliz a humanidade deve aproveitar os ventos da tempestade para semear amor e usar o tempo para inventar algo que venha trazer a luz da primavera.

Faço votos de que neste ciclo da primavera você possa trazer à memória aquilo que dá esperança, não se esquecendo das folhas tristes do outono e das noites frias do inverno, para apreciar o perfume das flores e fazer brotar as lições sobre a vida que já se sabe de cor, mas que resta aprender!!!

Autor: Júlio César Mendes Pereira

*Júlio César é Mestre Maçom da ARLS Águia das Alterosas, Nº 197 – GLMMG, oriente de Belo Horizonte.

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Protegido: A Iniciação Real e a Morte do Ego – Parte II (exclusivo para os apoiadores do blog no Apoia.se)

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A Maçonaria por trás de uma tela

Como se tornar um maçom - YouTube

No momento, parece que as reuniões presenciais neste ano de 2020, na maçonaria, estão seriamente ameaçadas. Os obreiros mais pessimistas já apostam que um dos legados da pandemia do Coronavírus será a adoção das videoconferências como solução perene para o impasse entre as restrições impostas pelas autoridades de saúde quanto às aglomerações que envolvam pessoas pertencentes aos grupos de risco.

Por que o impacto na maçonaria seria diferente quando comparada às demais atividades? Afinal, estamos em guerra contra um inimigo invisível que não escolhe vítimas. Gostemos ou não, a dura realidade está determinando uma nova forma de viver, que definitivamente não será mais a mesma.

O que parecia ser especulação para um futuro distante, a pandemia já encurtou os caminhos. Várias áreas já sentem os efeitos e novos hábitos estão sendo rapidamente incorporados. O sistema de ensino, que já dava passos largos no ensino a distância (EAD), estuda meios híbridos com incorporação de tecnologia envolvendo instrumentos de conteúdo presencial e digital, vistos como complementares ao processo de aprendizagem. O maior obstáculo a ser vencido envolve as condições de acesso à internet e as desigualdades sociais.

No mundo empresarial, o trabalho remoto já é uma realidade e começa a ser incentivado por uma série de razões. Os escritórios até então considerados caros e improdutivos ganham conceito de ineficientes, que apenas contribuem para satisfazer vaidades corporativas, com ambientes muitas vezes superlotados, barulhentos e com distrações que desvirtuam o foco do essencial para a produtividade nos trabalhos e motivo para as maçantes reuniões sem resultados efetivos, além de infraestruturas que geram despesas desnecessárias. As vantagens do horário flexível, da economia de tempo gasto em deslocamentos no trânsito e com o vestuário já compensam essa opção, que terá seu foco na entrega de resultados por tarefa.

Todos os ramos de atividades já trabalham com novos cenários. Da consolidação do comércio eletrônico à telemedicina, até os tradicionais cartórios que já realizam casamentos por videoconferências e registros eletrônicos de venda de imóveis. Algumas Igrejas oferecem assistência espiritual online, inclusive com batismos virtuais. Isso para não falar em festas de aniversários, encontros familiares, formaturas e outros eventos que ocupam espaço e já lotam agendas. O porvir será vivido por trás de uma tela, é o que parece, pelo menos no que podemos especular por ora.

Frente a tragédias e acontecimentos desagradáveis, negar os fatos costuma ser uma primeira reação de defesa, assim como a primeira opinião que elaboramos sobre determinado assunto torna-se difícil de ser revista, mesmo frente a argumentos e dados incontestáveis. A Covid-19 é uma realidade e a ciência ainda não tem uma resposta definitiva. Segundo um princípio do estoicismo, “palavras são opiniões, não fatos. Ação é a única verdade”.

No momento não há razões de fato para a flexibilização das nossas sessões presenciais sob o argumento de que a maçonaria somente se pratica em Loja. Qual o motivo da pressa? Isso não quer dizer que nossa força e vigor estarão comprometidas. Na realidade, as reuniões em Loja têm como objetivo estimular a meditação e revigorar o ânimo, além da salutar troca experiências e informações necessários à consolidação de um arcabouço moral e intelectual, que no momento está sendo suprido de uma nova forma. O verdadeiro trabalho maçônico é fora da Loja e se dá na interação com o mundo que nos cerca. É nele que devemos aplicar os talentos que recebemos em forma de dons, habilidades e oportunidades. Os valores que cultuamos precisam ser praticados e não apenas estampar rituais reluzentes.

Entretanto, precisamos refletir sobre a realidade de alguns irmãos que resistem a participar das reuniões em videoconferência, que normalmente são aqueles mesmos que não são assíduos em Loja ou desaparecem ou se isolam sem declarar os motivos, deixando os demais inquietados, pois esses ausentes estão perdendo uma grande oportunidade de aprendizado e ensino, vez que essas apresentações estão expandindo e multiplicando os Templos, fazendo acontecer uma revolução em centenas de Lojas virtuais a integração de maçons de todas as Potências, de uma forma até então impensável, envolvendo Oficinas de todos os rincões do Brasil, inclusive do exterior.

Nesse contexto, mesmo que todos já o saibam à exaustão, permitimo-nos relembrar que no simbolismo da Maçonaria, ganha realce logo nas primeiras instruções aos Aprendizes a fábula do grego Esopo (séc. VI a.C), denominada “O Feixe de Varas”, com o objetivo de demonstrar em seus ensinamentos o entendimento de que a união faz a força.

Diz a alegoria que um homem tinha muitos filhos que viviam brigando uns com os outros. Não logrando êxito nas suas tentativas de pacificação, um dia ele pegou um feixe de gravetos e pediu que cada um tentasse partir o feixe com toda a força mesmo com o joelho. Todos tentaram e não conseguiram. Então o pai desamarrou o feixe e deu os gravetos um por um pedindo que os quebrassem. Ninguém teve dificuldades. Então lhes disse: se vocês se mantiverem unidos não haverá inimigo que os possa vencer. Brigando e separados, só podem perder.

Na mesma linha de raciocínio, outro exemplo sempre lembrado para valorizar trabalhos em equipe e a necessidade de participação, conhecido como “A lição do fogo”, adaptado do livro “As mais belas parábolas de todos os tempos”, de autoria de Alexandre Rangel (Vol. II. Belo Horizonte: Leitura, 2004), vira e mexe é recontado e ambientado em nosso meio maçônico, com variações para o visitante ora na figura do Hospitaleiro ora do Venerável Mestre ou de um Mestre Instalado.

Diz o conto que um obreiro se afastou sem justificativas do convívio em Loja e das atividades de companheirismo. Tempos depois o tal sumido recebeu a visita de um irmão que o encontrou em casa sozinho, sentado diante da lareira, onde ardia um fogo brilhante e acolhedor. Pelo cenário pode se deduzir que se tratava de irmão do sul do Brasil ou do hemisfério norte. Se bem que temos irmãos proprietários de imóveis rurais que adoram um fogão a lenha. De repente pode ser um mineiro mesmo durante um inverno daqueles.

Desconfiado do motivo da visita e antevendo um puxão de orelha, o irmão recebeu o visitante com um fraterno abraço e o convidou a sentar-se em uma cadeira próximo à lareira e ficou quieto, só espiando e esperando o sermão. O irmão visitante sentiu o clima e ficou na dele, como se estivesse hipnotizado pelo movimento cintilante das chamas e o crepitar do braseiro.

Passado um tempinho, o visitante aproximou-se do fogo e com a ajuda de um galho que ainda não tinha queimado, afastou uma brasa, colocando-a longe do fogo. Logo, logo, a brasa começou a apagar e foi assim devolvida ao fogo, voltando a arder novamente.

Aproveitando que já estava de pé, o visitante se dirigiu à saída e despediu-se do irmão, que a essa altura já estava perplexo e constrangido. Então o sumidão disse: meu irmão, obrigado pela visita e pela mensagem simbólica. Conte comigo na próxima sessão! Que o GADU o acompanhe!

Desnecessário tecer maiores reflexões já recorrentes sobre a importância de participar, marcar presença, ou daquela expressão de quem não é visto não é lembrado, mesmo em reuniões virtuais. Cabe apenas aos dirigentes de nossas Lojas zelarem por manter acesa a chama e não deixar ao relento a ovelha desgarrada ou que, no caso vertente, ainda não tenha sido seduzida pela malha tecnológica, carecendo apenas de uma ajuda dos universitários.

Na mensagem bíblica, um pastor é alegoria para um Mestre. Onde estão os Mestres? (ver artigo Onde estão os Mestres? – clique AQUI para ler o texto). Segundo uma sábia expressão hermética, “quando tudo parece perdido é quando tudo será salvo”, portanto, não era o que nós queríamos, é o que temos para o momento! Ou no popular mesmo, façamos do limão uma limonada, preservando as nossas tradições, nossa união e de olho no futuro.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Fraternidade

Grandes Mestres da humanidade, como Buda, Platão e Cristo, pregaram a fraternidade de todos os homens. 
 
Sêneca dizia que “A natureza fez de nós uma família” e Marco Aurélio que “O universo é como uma cidade“.
 
Ama o teu próximo como a ti mesmo”, é a grande lição deixada por Jesus, o Cristo.
 
Muitos séculos se passaram e o homem ainda não conseguiu entender os preceitos dessa lei divina, e continua a transgredir o que não é de sua autoria, e sim, uma expressão real de uma particularidade cósmica.
 
O resultado dessa transgressão, ao longo do tempo, vem desencadeando graves problemas sociais. As drogas, a violência, a impunidade, o poder, a fome, o descaso com a saúde, a precariedade da educação e do conhecimento, são frutos do egoísmo dominante que se opõe à fraternidade.
 
Onde não se cultua a fraternidade, impera a desigualdade e a escravidão.
 
Depreende-se, pois, que teoricamente, a Fraternidade é um conceito de filosofia em consonância com a Igualdade e a Liberdade.
 
Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, o primeiro artigo afirma que “todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade
 
Fraternidade – do latim fraternitate – significa “irmandade” ou “conjunto de irmãos”. Exprime simplesmente o sentimento de afeição recíproca entre irmãos. 
 
Victor Hugo asseverava que “Liberté, c’est um droit; Égalité, c’est un fait; Fraternité, c’est un devoir“.(Liberdade é um direito; Igualdade é um fato; Fraternidade é um dever).
 
Nenhuma instituição humana oferece oportunidade para a prática da fraternidade como a Maçonaria. No entanto é preciso que o maçom tenha consciência do papel que deve desempenhar, quer na sua Loja, no seio de sua família, no seu trabalho ou onde se encontrar, agindo como verdadeiro artífice na consolidação da fraternidade.
 
Fundamentada no Amor Fraternal e preocupada com o bem-estar da Humanidade, a Maçonaria prepara o homem para participar, efetivamente, na construção de uma Sociedade mais justa e equilibrada.
 
A Maçonaria ensina que o mais sublime dos deveres do maçom consiste na prática da solidariedade ou fraternidade maçônica, traduzida no socorro aos Irmãos em suas aflições e necessidades; no encaminhamento dos Irmãos na senda da Virtude, desviando-os da prática do Mal; no estímulo a praticarem o Bem, dando exemplos de Amor, Tolerância, Caridade, Justiça e respeito à liberdade individual, reconhecendo no Irmão e em todos os seres humanos, como seu semelhante”. 
 
Optar pela renúncia à prática da Solidariedade e da Fraternidade é uma atitude que revela o quanto o iniciado ainda se encontra distante de ser um homem de bem e, por conseguinte, um verdadeiro maçom.
 
A verdadeira fraternidade é um reflexo do caráter e da personalidade do ser humano. Conectemos o nosso cérebro às ondas mais elevadas do conhecimento superior e teremos como consequência ações cada vez mais voltadas para o bem geral.
 
Assim, renovemos a esperança com Amor a Deus, à Pátria, à Família e ao próximo; com Tolerância, Virtude e Sabedoria; com a constante e livre investigação da Verdade; com o progresso do Conhecimento Humano, das Ciências e das Artes, sob a tríade – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – dentro dos princípios da Razão e da Justiça, para que o mundo alcance a Felicidade Geral e a Paz Universal.
 

Autor: José Airton de Carvalho

Zé Airton é Mestre Instalado, membro da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, presidente da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati Pedro Campos de Miranda, e um grande incentivador do blog.

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Os fracos não têm vez na Maçonaria

Como preparar um “novo” normal?

Preliminarmente, que fique claro que a presente reflexão não tem nada a ver com a trama de “Onde os fracos não têm vez”, um misto de “western” e “film noir”, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2008, e enseja uma mensagem no sentido de que, para sobreviver naquela loucura, fraqueza é algo que realmente não poderia ser demonstrada.

No cenário pós-pandemia do novo coronavírus, certamente a rotina de distanciamento social deverá ser atenuada, com restrições, permitindo o retorno aos nossos trabalhos e encontros sociais, com mudanças comportamentais que certamente impactarão hábitos já consagrados. Possivelmente, não teremos de volta a vida de antes. Difícil mesmo vai ser superar o vício das videoconferências e lives que parecem ter vindo para ficar (N.B: clique AQUI para ler o artigo “TFA e Pós-Pandemia”).

É certo que alguns ajustes relativos à higiene e interação pessoal se farão necessários até que a tão aguardada vacina contra a Covid-19 esteja disponível para todos. Muitas medidas hoje adotadas em nome do controle sanitário e novas formas de vigilância poderão surgir de acordo com cada faixa etária. Mesmo o Brasil terá que se submeter a um processo de reconstrução do tipo pós-guerra. Não podemos nos esquecer da nossa responsabilidade pelos riscos que podemos representar para as outras pessoas com o nosso comportamento.

Essa vontade quase incontrolável de retornar ao “normal” não pode se basear na irresponsável certeza de que nunca seremos atingidos pelos males que afetam os outros, ignorando as lições desastrosas que são evidenciadas diuturnamente nas publicações jornalísticas.

Em recentes discussões já se especulava sobre o futuro distante da maçonaria à luz dos avanços da inteligência artificial, com “iniciações” cibernéticas, em cenário abrangendo lojas virtuais (algumas já são realidade), com hologramas dos obreiros projetados nos respectivos cargos e posições ritualísticas, e outras tecnologias ainda a se tornarem realidade e muito mais (N.B: clique AQUI para ler o artigo “Especulações a respeito das iniciações no futuro”). Ocorre que esse tempo foi acelerado pela pandemia do coronavírus que motivou a realização de reuniões com os recursos de videoconferência, que vêm suprindo o impedimento de reuniões presenciais frente às restrições impostas pelas autoridades de saúde.

Quanto à continuidade dessa prática já exsurgem resistências, em especial de um grupo pouco afeito à tecnologia e agarrados a tradições que entendem não podem ser submetidas a novas leituras, em face da força avassaladora da modernidade. Não se pode descontinuar o uso de reuniões virtuais. Não temos como voltar atrás. Ainda mais inconcebível descartar as reuniões presenciais, pois a proximidade física, a fraternidade entre os irmãos, é imprescindível por se constituir na verdadeira razão de ser da Ordem. É certo que obstáculos sempre existirão, mas não são intransponíveis, dependendo da forma e da motivação com a qual os encaramos. O importante é que seja mantido o equilíbrio entre as tradições e o uso das atuais ferramentas tecnológicas.

Outro cenário que se vislumbra em nossas Oficinas envolve o agravamento da evasão de obreiros, em especial dentre aqueles com mais de 60 anos, enquadrados no grupo de risco da pandemia. Argumenta-se que muitos hoje sofrem pressões de familiares para redobrar os cuidados, considerando-se que já se fala que o novo coronavírus veio para ficar, constituindo-se em perigo permanente, mesmo na iminência do desenvolvimento de um antídoto. A comunicação nessa área ainda não está clara. Tiroteios de palpites vêm de todos os lados.

Tal perspectiva leva em conta o argumento de que as condições ambientais de nossas Lojas, na sua maioria, podem se enquadrar como insalubres, dado que o espaço é reduzido, com proximidade física entre jovens e idosos, e sem ventilação natural, com sistemas de ar condicionado capengas e sem manutenção periódica. Não se discute que essas condições podem ser revistas e um controle mais rígido de manutenção possa ser planejado e executado com responsabilidade pelos gestores.

Por outro lado, especula-se que esse pode ser um argumento para aqueles de diferentes idades maçônicas que já vislumbravam a possibilidade de abandonar a Ordem e que essa seria uma boa oportunidade de afastamento, dispensando-se maiores justificativas. Se tal avaliação procede, pode-se concluir que esses possíveis desertores não foram objeto de uma sindicância mais aprofundada ou que decepções podem ter comprometido as expectativas criadas anteriormente.

Quando a saída não é atribuída a algum conflito de compromissos ou dificuldades financeiras, a frustração pode ser consequência de interesses pessoais não atendidos, pois a aceitação do convite para integrar a Ordem tinha como objetivo tirar algum proveito pessoal, servir de meio para atingir interesses na área profissional ou o candidato imaginava participar de um clube social ou, apenas e tão-somente, conquistar novas amizades, desfrutar do seu status ou conquistar algum cargo de relevo com os contatos que se abrem no mundo profano.

Maçons de raiz entendem que os insatisfeitos devem mesmo pedir para sair, pois a Maçonaria é para cidadãos conscientes, livres pensadores, otimistas em relação à vida, sonhadores, abnegados e comprometidos com os estudos, onde os fracos nesses quesitos não têm vez, principalmente em tempos difíceis. Esses sinais de fraqueza podem ser observados dentre aqueles obreiros que demonstram intolerância constante, com uma arrogância e um nervosismo desproporcional, manifestada durante os trabalhos ou especialmente nos grupos de WhatsApp das Lojas, quando saem por qualquer discordância, retornam mais tarde e voltam a se desligar novamente, num vaivém interminável.

Como diz um veterano obreiro que se destaca pela autoproclamada sabedoria “pai d’égua”: “eles se acham os bacanas e nós não os reconhecemos como tal”. Ainda segundo ele, muitos dos que se acham os “reis da cocada preta” e consideram-se figurões da Ordem se melindram quando têm seus posicionamentos questionados ou não conseguem emplacar suas ideias. Alguns se ausentam sem justificativas ou desaparecem sem se despedir. Que sejam felizes!

Enfim, os que se orgulham de pertencer à Ordem e comungam com os seus princípios e fundamentos, e se constituem nas colunas da sabedoria, da força e da beleza, garantidoras da continuidade dos trabalhos, não se deixam abalar com as vicissitudes, honrando com vigor os compromissos assumidos. Portanto, com ou apesar das incertezas, sigamos em frente!

“Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito” (Martin Luther King)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Liberdade e desigualdade no Brasil – Uma reflexão maçônica durante a pandemia

Como os super-ricos aprofundam a desigualdade social no mundo ...

“Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança” (Benjamin Franklin)

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, fruto do Iluminismo e aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte da França revolucionária em 1789, resume no primeiro artigo que “os homens nascem e são livres e iguais em direito”. A crítica que se faz é que a liberdade e igualdade ali referenciadas eram restritas às pessoas do sexo masculino, cidadãos possuidores de interesses, ficando de fora os pobres, os empregados, os escravos e as mulheres.

Em dezembro de 1948 foi promulgada “A Declaração Universal dos Direitos Humanos”, que delineia os direitos humanos básicos, adotada pela Organização das Nações Unidas, como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações. O que poucos sabem é que a influência da maçonaria é que permitiu a sua codificação.

Desde a primeira Declaração permanece em moda a discussão sobre o que é ser livre e ser igual. As sociedades que souberam trabalhar melhor e equilibrar esses conceitos são consideradas as mais prósperas.

O Brasil carrega uma dívida decorrente da Lei Áurea de 1888 que libertou juridicamente os escravos, mas não lhes proporcionou as condições de liberdade de consciência e de ter uma vida verdadeiramente livre, com o exercício da cidadania plena, que permita às pessoas exercerem todas as suas potencialidades legítimas. Na Constituição de 1891 foi negado o direito de voto aos analfabetos. Daí a se concluir que a chave da liberdade se dá com a melhoria da qualidade da educação, que emancipa, forma pensamento crítico, proporciona esperanças e é a mais efetiva via de acesso ao desenvolvimento de uma nação. É a educação que prepara o ser humano para o exercício consciente da cidadania.

Promulgada em 1988, um ano antes da queda do muro de Berlim, quando ainda imperava a crença de que o socialismo seria a solução para superar a pobreza e a desigualdade, e com um viés estatizante e quase anticapitalista, a atual Constituição Federal ampliou direitos ao permitir o acesso dos mais pobres aos serviços públicos. O Capítulo II, artigos 6º e 7º, definem com muita clareza os Direitos Sociais, com o destaque do art. 6º:

“São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência ao desamparado.”

Representam conquistas do povo, mas é preciso vigilância, pois aquilo que se conquista pode também se perder ou nem chegar a ser implantado.

Políticas como o Bolsa Família, as cotas sociais nas universidades, o salário mínimo, as ações do SUS e fundos constitucionais (Fundef/Fundeb), produziram seus resultados. O Fundeb corre o risco de ser extinto em 2021, caso não seja prorrogado. Essa rede de assistência social criada ao longo dos anos pós-Constituição é que permite ao Estado amenizar o sofrimento das classes menos favorecidas. Mas, poucos são os assistidos e a qualidade deixa a desejar, em especial quanto ao ensino nas escolas públicas e as dificuldades de marcação de consultas, exames e atendimentos hospitalares. Isso para não falar nos problemas ligados a segurança, transporte público, habitação, violência e acesso à cultura.

No campo dos direitos civis, ações como o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Código de Defesa do Consumidor e o Estatuto do Idoso se constituíram em grandes conquistas. Quanto aos direitos políticos, os avanços se deram a partir da permissão do voto do analfabeto e maiores de 16 anos, atendimento a demandas da população indígena, dos movimentos negro, feminista, LGBT e demais grupos minoritários.

Mas, privilégios em determinadas áreas ainda são mantidos. Esses direitos não deveriam ser bandeiras de grupos de pressão ou de partidos políticos, mas uma missão do Estado brasileiro. O País continua desigual porque o orçamento público sempre destina recursos aos grupos mais influentes, à elite burocrática e a quem efetivamente não precisa. Pequena parcela chega aos mais vulneráveis, como o Bolsa Família e a renda mínima aos maiores de 65 anos (Benefício de Prestação Continuada criado pela Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS – de 1993). A solução passaria por uma reforma profunda do Estado.

As grandes dimensões territoriais do Brasil representam um fator dificultador, com desigualdades regionais, de renda e de elevado nível de violência. Essas desigualdades sociais e a injustiça persistem e são dolorosas. Mesmo entre os mais pobres existe diferença entre graus de pobreza. Como agravante, destacam-se o saneamento escasso e falta de urbanização em comunidades carentes, a precariedade da rede de proteção social, as diferenças entre os sistemas público e privado de saúde, com estimados 40% dos trabalhadores na informalidade, além de milhões de desempregados e pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza.

O surgimento do coronavírus, que atinge com sua força destrutiva indistintamente ricos e pobres, evidenciou o fosso social brasileiro, demonstrando que a desigualdade deixa claros seus efeitos em catástrofes naturais ou em pandemias, ensejando a urgente necessidade de socorro à população mais vulnerável e de um novo pacto social, com políticas públicas e econômicas mais progressistas. Especialistas afirmam que essa crise é a maior enfrentada pelo mundo desde o desastre econômico gerado pela Grande Depressão dos anos 30 e pós Segunda Guerra Mundial, sabendo-se ainda muito pouco de seus efeitos na sociedade e no corpo humano, em particular. A corrida armamentista da biologia está no seu auge.

As autoridades brasileiras durante a crise deixaram claro que são competentes para lidar com os incluídos, aqueles que pagam impostos e são, portanto, visíveis, mas extremamente ineficaz quando tem de lidar com os excluídos, aqueles não integrantes da sociedade de consumo, em especial os que não têm endereço fixo, os “desbancarizados” (sem conta em banco), sem telefone celular e acesso à internet, não detentores de um CPF ou com os mesmos bloqueados. O governo não sabe onde estão e quem são eles. Como falar em isolamento social em comunidades com famílias amontoadas em becos, muitas sem água encanada em casa, em uma convivência confusa entre as pessoas? São, portanto, invisíveis e muitos vivem ou sobrevivem em condições desumanas.

A classe carente e esquecida sempre esteve presente na cena diária, como os moradores de rua, os catadores de lixo, os mendigos, os vendedores e acrobatas de cruzamentos, dentre outros. Acrescentem-se os que vivem na informalidade e de biscates, sem garantias trabalhistas, os autônomos, os trabalhadores sem registro, que não têm poupança e precisam de rendimentos diários para sustentar suas famílias e dos poucos assistidos do programa Bolsa Família. E, por derradeiro, ainda sofrem com o menosprezo de autoridades de relevo em face das perdas com mortes de entes queridos vitimas da pandemia.

Assim como foi desafiadora a libertação dos escravos no século XIX, assim o é a superação da miséria nos tempos atuais. Os devastadores impactos da crise planetária da Covid-19 lançaram luzes nesse campo, e o Brasil se viu diante de um número gigantesco de desassistidos à míngua de uma renda mínima que garanta a sobrevivência, tendo o governo que adotar um auxílio emergencial para superar o grave momento vivido, que inicialmente tem a previsão de 3 meses, mas podendo ser vislumbrada a possibilidade de tornar-se perene. E sabe-se que esses recursos voltam imediatamente para a economia sob a forma de consumo. É sangue direto na veia.

O tamanho e a complexidade do País dificultam a escolha de um caminho ideológico para solução das desigualdades, ainda historicamente restrito ao grupo de centro-esquerda. Aqueles posicionados na centro-direita apostam na competição e enfatizam os valores da concorrência como condição para a promoção do desenvolvimento, para que o setor privado gere prosperidade, mas adota ações sociais focadas para o combate da pobreza e desigualdade, quando as contas públicas o permitem.

Um tema recorrente entre esses grupos é o combate à corrupção (sempre atribuída ao outro lado) como agenda prioritária, tema esse bastante explorado pelos meios de comunicação de massa, que acaba ocultando a questão da desigualdade. Ambas as correntes chegam aos extremos do espectro, com discursos bem polarizados e desviam o foco do essencial. O que se espera é que não haja retrocessos em função dessa polarização, com perda do que foi até aqui conquistado, e que as lideranças políticas do país sirvam a todos indistintamente, e não apenas ao seu grupo de iguais.

O dilema é ainda maior quando se fala em igualdade em um cenário de milhões de empregos a serem extintos pelo uso da inteligência artificial. Não se pode olvidar a nova tendência do “home office”, que se tornou alternativa viável durante a pandemia do coronavírus, acelerando mudanças de comportamento, vislumbrando-se um caminho sem volta, pois as empresas reduzem custos e os profissionais conciliam tempo e outros afazeres, além dos ganhos dos grandes centros em termos de movimentação de pessoas e veículos e melhoria do clima, com o destaque para as operações “on-line” que afetam a formatação das lojas físicas.

Mesmo não nos deixando influenciar pelo sentimento de angústia quanto ao futuro, difícil não pensar em um mundo mais desigual decorrente desta crise sanitária, com as implicações negativas em todas as áreas, como a econômica, política e, sobretudo, a social. Já se especula que essa pandemia possa ter as mesmas consequências para o Liberalismo do que representou a queda do “Muro de Berlim” para o Comunismo. Chegou a hora da verdade: é pagar para ver? Como ensina a sabedoria popular, o imprevisível é realmente muito difícil de prever.

O cenário da evolução tecnológica e o pós-crise ensejam novas preocupações na medida em que grande parte da força de trabalho desatualizada enfrenta concorrência das máquinas inteligentes com o aumento das condições de desigualdade. Mais uma vez, a solução está na educação e em políticas que protejam os direitos dos trabalhadores e apoio às empresas que geram empregos.

Entretanto, no momento, a única certeza é a de que as consequências da atual crise terão reflexos em políticas protecionistas e nas cadeias produtivas globais e serão absorvidas exclusivamente pelas empresas do setor privado, com quebras já no horizonte e o desemprego. O Brasil como um todo certamente sairá mais pobre, com déficit e dívida pública agravada e coesão social comprometida. Segundo os economistas, a solução passa pelo crescimento do Produto Interno Bruto, que dará suporte aos gastos públicos e à geração de empregos.

No contexto pré-crise, parte significativa do contingente de desempregados já não estava preparada para ocupar espaço na economia do futuro, por falta de mão de obra qualificada e carência de profissionais, inclusive para enfrentar os dias atuais. Muito tempo foi perdido com lorotas e populismo. E a sociedade assiste a tudo apenas dizendo-se esperançosa e confiante. Em quê ou em quem? Então, a solução passa por um alinhamento de todas as instituições agindo em uma só direção, com as diferenças colocadas de lado em nome do bem comum. Difícil de acreditar quando já se fala em sucessão no governo e grupos políticos reiniciam os tradicionais conchavos.

Mais difícil ainda reconhecer a ideologia social de que somos todos iguais e de que não existem seres piores ou melhores. Nosso País precisa desenvolver políticas públicas visando ao fortalecimento das instituições democráticas e superação da desigualdade e da violência. Por ser um dos mais injustos do mundo, o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. E justiça pressupõe dar a cada um o mínimo que lhe cabe, evitando privilégios e exclusões sociais. Sem justiça não há paz.

Por sua vez, a liberdade é motor do empreendedorismo e de transformações tecnológicas, que decorrem de projetos e sonhos. A área da Economia demanda um Estado bem organizado e uma sociedade consciente e mobilizada. Compete ao Estado criar as condições que viabilizem o desenvolvimento sustentado, em especial nos setores de saúde, educação, meio ambiente e ciência e tecnologia.

Segundo o artigo de Karen Franklin (CESCON, Paulo; Nodari, César. Filosofia, ética e educação: por uma cultura da paz. São Paulo: Paulinas, 2011),

“Toda sociedade democrática necessita de cidadãos comprometidos com o respeito aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Contudo, a conquista desse comprometimento não é natural e espontânea, ela precisa ser forjada no interior dos sujeitos e da sociedade, enfim, ela necessita ser educada.”

Mas, há uma corrente que vê isso como uma ameaça, dado que a formação de massa crítica e a consciência cidadã incomodam alguns dirigentes políticos que perdem espaço de dominação.

A discussão sobre a liberdade evoca um dilema repisado por vários analistas:

“devemos aceitar uma ditadura, com restrição às liberdades individuais, em troca de um contrato social de melhoria coletiva do padrão de vida?”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve uma fala citada na Revista VEJA (Edição 2682, ano 52 – nº 16, de 15.04.2020, p. 26), prevendo a ascensão dos países orientais, menos presos às ideias de liberdade, após a pandemia da Covid-19:

“O povo não quer nem saber o que é liberdade e individualismo. Quer saber se tem emprego, tem comida, tem transporte, tem saúde. E, se eles derem isso, vão nos dar um banho.”

Esse posicionamento conflita com o pensamento contido na abertura desta prancha e merece reflexão.

No mesmo diapasão sente-se que a liberdade de expressão não é mais um valor cultuado ao se constatar que não se pode mais pensar de forma diferente sem sofrer a condenação de tribunais virtuais e ver ameaçadas as relações sociais e até mesmo o sagrado convívio no lar. Tempos muito estranhos!

Ainda sobre o direito à privacidade, uma nova ferramenta gerada pela revolução tecnológica passou a ser motivo de questionamentos, como ficou evidenciado na pandemia do coronavírus, com a possibilidade de rastreamento de pessoas doentes por intermédio dos telefones celulares. Essa estratégia poderia ser utilizada também por governos autoritários para controlar seus habitantes. O que precisa ser definido é como aplicar essas ferramentas sem desrespeitar as liberdades individuais.

A geração atual ainda não tinha passado pela experiência de confinamento social, com restrições de liberdades. Ainda não é possível avaliar as consequências de como as pessoas se portarão com a continuidade da quarentena e das perdas percebidas em cada situação, em especial na saúde mental, e notadamente quando iniciarem-se o relaxamento por setores da economia e houver um sentimento de tratamento desigual. Certamente teremos uma referência no tempo deste segundo decênio como o real marco do início do século XXI, antes da Covid e depois da Covid (a.c e d.c – com todo o respeito, com o “c” minúsculo).

No que tange à igualdade é imprescindível que criemos consciência de que dependemos um do outro para vivermos, não havendo espaço para o egoísmo que submete as pessoas ao nosso redor em situação de fragilidade. E, como cidadãos, devemos manter o respeito ao coletivo, dando tratamento igual e digno a todos, o que se constrói por meio do espírito de solidariedade e da garantia de uma sobrevivência com a instituição de uma modalidade de seguro social que garanta renda mínima para todos, nos moldes já mundialmente defendidos desde a crise econômica global de 2008, como a proposta de uma Renda Básica Universal (RBU), de forma que não haja famílias desassistidas. Isso é apenas o começo.

Enfim, a Maçonaria brasileira não pode apenas divulgar manifestos de repúdio e deixar de agir, ficando à margem dessas discussões, notadamente por sua histórica característica progressista, o que a colocou sempre envolvida nos grandes temas de interesse da sociedade em geral, sem partidarismos e apegos a personalidades da hora e a ideologias que não a sua missão de tornar feliz a humanidade. Repúdio sem ação é mera insatisfação!

Com as luzes do G∴A∴D∴U∴, que essa pandemia nos ajude a desconectar do egoísmo e do ódio e a focar em ações mais construtivas.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Que mistérios tem a maçonaria?

Mistérios e enigmas que só os espiões mais sagazes irão conseguir ...

O título deste artigo encerra em si uma dualidade proposital. Por um lado, pode ser tomado como irônico, pois faz uma alusão à forma sensacionalista como a Maçonaria repetidamente é tratada por grande parte dos meios de comunicação de massa – como ‘misteriosa’, cheia de segredos e símbolos estranhos. Entretanto, a Maçonaria de fato encerra em sua filosofia antigos mistérios, revelados apenas aos seus membros.

Por incrível que pareça, em pleno ano de 2020 muita gente ainda não faz ideia do que é a Maçonaria, a despeito das toneladas de informação sobre essa instituição que circulam nas livrarias e, em maior volume ainda, na internet. Muitos acham que ela é uma sociedade secreta, embora funcione em prédios nas principais avenidas das cidades e tenha personalidade jurídica constituída normalmente, como qualquer outra organização. Outros acreditam em toda aquela bobagem de satanismo, gerada por uma combinação perigosa de falta de informação e intolerância. A Maçonaria segue então com seu estereótipo misterioso para a maioria da população, atmosfera reforçada notadamente pelo caráter privativo de suas reuniões, que acontecem literalmente à portas fechadas.

Mas que mistérios serão esses que a Maçonaria supostamente esconde das massas? Para entendermos melhor, faz-se mister uma compreensão mais profunda da palavra ‘mistérios’.  O dicionário Michaelis lista vários significados para este vocábulo. A maioria é relacionada com ‘segredo’ ou ‘algo de difícil compreensão’. Outras conotações surgem dentro do escopo religioso, especialmente o cristão. Mas a mera significação não é suficiente para entender a magnitude do conceito maçônico deste termo. Para isto, vamos pedir ajuda à Filosofia, em particular, à filosofia do mundo antigo, que é a origem de muitos dos conceitos usados e estudados na Maçonaria até hoje.

No antigo Egito e Grécia, sábios criavam centros de instrução onde candidatos que quisessem participar deveriam provar seu merecimento antes de serem admitidos. Este processo para o acesso chamava-se iniciação, e os centros chamavam-se escolas de mistérios. O faraó Akhenaton, que iniciou seu reinado no Egito por volta do ano 1.364 a.C., e Pitágoras, filósofo e matemático grego nascido em 570 a.C., foram exemplos de pensadores que fundaram tais escolas. Os ensinamentos eram repassados em um ambiente privativo, longe dos olhos e ouvidos das massas, e versavam sobre ciências (matemática, astronomia, etc), artes, música e ainda religião e espiritualidade. O próprio Cristo mantinha um círculo interno de discípulos – os doze apóstolos – a quem ensinava sua doutrina com maior profundidade. Quando falava para as massas, Jesus usava uma linguagem mais simples, em forma de parábolas, para facilitar o entendimento. Disse Ele: “Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas” (Mateus 7:6), em uma clara referência de que nem tudo é para todos.

Hoje em dia, muitos dos conhecimentos destes antigos grupos continuam sendo ensinados, mas os locais não são mais ocultos. A antiga sabedoria dos iniciados deu origem a muitas das disciplinas comumente ministradas nos colégios e universidades. Graças às escolas de mistérios, a ciência se desenvolveu, mesmo nos períodos mais negros da história, e chegou em um nível de complexidade que, certamente, para os antigos seria visto como, no mínimo, surpreendente – talvez até inimaginável.

Portanto, concluímos que os mistérios mencionados no simbolismo maçônico são um corpo de ensinamentos, repassados aos seus membros de forma tradicionalmente inspirada nos antigos métodos das escolas de mistérios. É certo que há uma corrente dentro da Maçonaria que defende que essas escolas eram, na verdade, a própria maçonaria em sua forma primitiva; entretanto, estas suposições carecem de comprovações históricas e a maioria dos autores modernos tende a concordar que a Maçonaria, na verdade, herdou o método antigo, tornando-se depositária de sua sabedoria.

Mas se a explicação da origem desses mistérios é simples assim, por que a Maçonaria não permite então que qualquer pessoa adentre seus templos e compartilhe desse conhecimento? Qual o sentido das portas fechadas, dos rituais e dos símbolos desenhados nas fachadas de seus prédios e vestes de seus membros? A resposta é, novamente, a tradição. Os maçons formam um grupo muito antigo, cuja origem histórica deu-se em uma época tumultuada e confusa da humanidade – a Idade Média. Nessa época, as monarquias, geralmente aliadas ao clero, não estavam dispostas a dividir seu poder de influência com mais ninguém. Assim, a perseguição a grupos considerados subversivos tornou-se uma obsessão, resultando no assassinato de centenas de milhares de pessoas. A chamada ‘caça às bruxas’ era um mecanismo de controle pelo medo, e a religião, através da manipulação dos conceitos das Sagradas Escrituras, exercia um domínio da sociedade extremamente eficaz. Some-se isso ao fato de a maioria do povo não saber ler nem escrever, e pronto: estava formado o panorama perfeito para a instalação de uma tirania. Os maçons e outros grupos de pensadores, como os rosacruzes, tiveram que ocultar seus conhecimentos e manter suas opiniões em segredo – nessa época, as ordens iniciáticas eram mesmo sociedades secretas, cuja sobrevivência dependia do grau de invisibilidade que eram capazes de manter na sociedade dominada pelo poder virtualmente ilimitado dos déspotas políticos e religiosos.

Hoje a Maçonaria não tem mais a necessidade de ocultar suas atividades. Aliás, na grande maioria dos países que substituíram os regimes absolutistas pela democracia, os maçons estavam entre as fileiras dos responsáveis por tais mudanças. Acontece que, sendo a ordem maçônica uma instituição que preza muito por sua própria história, mantém ainda sua tradição herdada das escolas de mistérios, onde o candidato a tornar-se maçom e ser recebido em uma loja deve provar ser merecedor de tal aceitação. Mas iniciação hoje adquiriu um caráter simbólico, e já não repete os penosos sacrifícios da antiguidade. Para se ter uma ideia, na já mencionada Escola Pitagórica, o recém-admitido não poderia proferir uma só palavra por cinco anos. Cinco anos no mais absoluto silêncio! Práticas como essa ficaram para trás, e a ordem nunca esteve tão aberta como atualmente. Praticamente toda loja maçônica conta com uma página na internet, onde divulga textos e fotos de suas atividades. Muitos maçons fazem questão de salientar sua condição, ostentando anéis, pingentes ou broches com emblemas. E aquele que demonstrar interesse em entrar, tem toda a liberdade de conversar com um maçom conhecido e declarar seu propósito de fazer parte da ordem. É válido ressaltar que, apesar de práticas mais radicais terem sido deixadas de lado, o processo de admissão ainda é bastante rigoroso, pelo simples fato de que, para a Maçonaria, o importante não é a quantidade de membros e sim a qualidade destes. Depois de uma conversa explicativa inicial, sindicâncias e entrevistas são conduzidas por maçons experientes, no intuito de avaliar o grau de interesse verdadeiro, bem como as qualidades de um ‘homem livre e de bons costumes’, além da crença em um Ser Supremo – prerrogativa obrigatória para a concretização da afiliação.

Tendo desenvolvido uma filosofia e  método próprios de instrução ao longo dos anos, a Maçonaria tem mantido seu caráter simbólico e iniciático através dos séculos. A beleza de ensinar e aprender através de alegorias é algo que, atualmente, só pode ser vivenciado no interior de uma loja maçônica. A história da ordem e sua sabedoria está encerrada em seus rituais e suas lendas, que são passadas de maçom para maçom, da maneira antiga – por via oral. No interior de templos ornados com símbolos arcanos, homens que se tratam uns aos outros como irmãos buscam lapidar seus espíritos. Os pedreiros de hoje erguem edifícios simbólicos, cujos tijolos são as virtudes humanas, solidificadas em nossas atitudes diárias com a argamassa do estudo diligente e da perseverança no trabalho.

Muita coisa já foi desvelada, em livros e revistas abertos ao público, até mesmo propositalmente, para permitir que o preconceito dê lugar à compreensão nas mentes das pessoas. Mesmo o interior dos templos pode ser visitado com certa frequência por não-membros nas sessões públicas. Mas ainda há verdades ocultas para serem vislumbradas. Porém, ao contrário do que o senso comum imagina, elas não estão escondidas por códigos, escritas em livros ou desenhadas em símbolos; a descoberta do verdadeiro segredo da Maçonaria acontece mesmo é no silêncio do coração de cada maçom, de acordo com sua própria evolução mental e espiritual, com desdobramentos que influenciam sua vida e as vidas das pessoas que o cercam – e isso é, verdadeiramente, o grande mistério da ordem.

Autor: Eduardo Neves

Fonte: Baú de Ossos

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Cowans: os pedreiros sem a palavra – Capítulo Final

A Concise History of Freemasonry

Os Cowans no ritual maçônico francês

Em geral, os rituais franceses geralmente não ecoam o tema dos cowans, pelo menos sob esse termo anglo-saxão definido, embora seja verdade que ele foi traduzido ou recriado, geralmente sob outros significados, como intruso, ou como espião ou simplesmente como profano.

Diante dessa situação paradigmática, o professor D. Stevenson vem ao nosso apoio, quando nos diz que toda essa trajetória pelas terras francesas é quando se nota que tal palavra desapareceu dos rituais atuais e “provavelmente porque houve poucos historiadores da maçonaria que examinaram a questão, bem como as áreas que ela cobre, e até os próprios maçons não sabem muito bem o que essa expressão significa[1], além das expressões canônicas em uso e encontradas em alguns tratados e em muitas páginas da web nas quais são repetidas como papagaios.

Localizados nos primeiros textos pré-rituais originários das heranças dos Modernos, e gerado em solo francês, como foi o ritual Luquet de 1745.  Isso nos diz que o Guarda do Templo (Tuileur) tem o senso e o dever de afastar os profanos:

P. Pourquoi vous armez-vous de glaive in vos L. ? (Por que estais armado com uma espada dentro da loja?).

R. C’est pour écarter les profs. (Para afastar os profanos).

Neste momento, não estamos mais diante de traduções, mas pelo contrário, diante de produções rituais típicas da prática maçônica francesa, que em sua fraseologia nos lembram vagamente o tema dos famosos cowans anglo-saxões, neste caso quem intervém é o Tuileur (Telhador) do Luquet, tratando de afastar os profanos, que parece dirigir-se a eles como os chamados cowans, que estariam interessados em obter esse acesso sem saber muito bem  para quê e, por outro lado, não parece fazer muito sentido afastar  aqueles que poderiam ser candidatos adequados para fazer parte da fraternidade maçônica.

É claro que, no subconsciente coletivo, atua sob pressão da constante presença de bisbilhoteiros no entorno das lojas para poder dar prazer ao público que exigia esse tipo de material, conforme mostra a extensa lista de divulgações e exposições que foram publicadas ao longo do século XVIII, tanto na Inglaterra quanto na França.

A exposér que vaza alguns anos após o Luquet, sob o título: Antimaçons (1748)comunica existência de pessoas indiscretas e dedicadas à espionagem, e serem malignas em suas pretensões.

On peut s’en rapporter aux sots pour remarquer tout ils n’ont que cela à faire. Ils sont espions par malignité, & indiscrets par besoin de conversation.”

Nesse sentido, estamos diante de uma definição mais exata da situação pela qual passava a Maçonaria, pois estarem todos os seus rituais sendo vazados para a opinião pública, evidentemente com a intenção de desacreditar, e cuja forma de obtenção como foi vista no Prichard de 1730 através de espionagem, daí a essencialidade do Guardião do Templo externo.

A Condenação do Régulateur sobre artesãos e Companheiros

Mas enquanto todas as exposições francesas vão se mover nesse mantra da bisbilhotice e a intrusão, será um ritual do final do século como o Régulateur du Maçon, que vai além ao definir uma diretriz muito alinhada com o associativismo terminológico que venho comentando, já que no ritual do grau de Aprendiz, ao detalhar as condições para admissão, ele explica:

“Raramente se admitirá um artesão, mesmo que ele seja um Mestre, especialmente em lugares onde as corporações e comunidades não estejam estabelecidas.”

Procurando explicações para esta citação, que não é mais sobre os cowans operativos sobre os quais foi insuflada uma certa penalidade em forma de maldição, mas que transfere essa pressão para o setor artesanal francês, realizando uma transmutação que havia sido realizada antes sobre os artesãos canteiros sem a palavra, ou seja, os cowans, embora obviamente a história dos dois grupos de cantaria, tanto ingleses quanto franceses sejam radicalmente diferentes.

Para entender em parte a razão dessas omissões no tratamento e estudo sobre os cowans e as condenações sobre os Companheiros nos rituais, nos voltamos para a figura de Pierre Nöel, que nos explica por que significados, autores como Guenón[2], Dat ou Guyot não expuseram a existência dessas incongruências, e a explicação vem do fato de que parte desses estudiosos nunca leram os rituais operativos da Worshipful Society e autores do outro lado do canal como Bothwell-Gose ou Debenham, pelo contrário, nunca leram o Régulateur du Maçon.

E, portanto, a questão da rejeição pode ser observada no que é exposto pelo ritual Luquet, que é, por sua vez, uma espécie de enxerto operativo de origem inglesa na ritualidade francesa; é evidente que nesta história não brilham muito os cowans que, geralmente, são semienterrados sob outros nomes, como se pode observar nas exposérs francesas, exatamente até que o Regulateur, de uma maneira muito discriminatória, volta a colocar no tapete as velhas essências inglesas de rejeição a alguns setores operativos do início do século XVIII.

Não deixa de parecer estranho que o “esquecimento” por parte dos historiadores e estudiosos franceses sempre tenha sido muito exigente e mais sobre o fato de que essa curiosa dissolução terminológica do cowan tenha ocorrido com base em várias traduções pelas quais outros termos mais tradicionais, ligados ao determinismo hexagonal foram incorporados, cujas adaptações surgiram com base em situações e realidades muito diferentes, que viriam a criar fortes distorções semânticas e de interpretação histórica.

Em 1801, quando o Régulateur du Maçon é publicado na França pela mão do Grande Oriente da França, que codifica a prática dos Modernos, mostra uma frase que vem complementar aquela já anteriormente exposta à forte rejeição dos artesãos, a frase termina com esta determinação:

“Jamais se admitirão os trabalhadores chamados Companheiros (Compagnons) nas artes e ofícios.”[3]

Conhecidos são os embates históricos do Companheirismo (Compagnons) na história das construções religiosas e sociais ao longo dos diferentes séculos, tanto de caráter religioso, sindical e social, que levaram os poderes civis a perseguir tais guildas, tidas como revoltosas, o que não deixa de ser paradoxal que a mente coletiva maçônica, pelo menos no âmbito castelhano, continue a propor paralelismos estranhos, acreditando que são os mesmos ou semelhantes construtores de catedrais e maçonaria e, portanto, continua a ser mitologizada como algo próprio da Maçonaria especulativa por herança, quando na realidade, no caso da França, é mais uma questão muito mais de guildas de Ofício e dos Companheiros.

Portanto, depois de ler o vade-mécum sobre o trabalho do Companheirismo na França[4] fica bastante claro que a censura feita pelo Régulateur não deixa de ser  é uma recriação do malditismo dos artesãos e, portanto, dos Companheiros, o que nos vem lembrar os velhos cowans anglo-saxõesapesar de sua história registrar grandes confrontos com seus irmãos de confraria, mas nesse outro contexto de torná-los alvo de invectivas e objetos de perseguição e zombaria, o que no contexto francês afetaria os Companheiros.

E é nesse contexto que se pode entender como lógica a condenação exposta no Régulateur, que se destaca dos usos terminológicos equívocos mais atuais, tais como profano ou intruso, para inclinar-se em direção às raízes operativas, transformando o dardo da marginalização desta vez sobre os Companheiros (Compagnons).

No entanto, um especialista em questões de Companheirismo, como é Jean-Michel Mathoniere, indica que essa referência aos Companheiros no Regulateur não se refere aos  Companheiros de Dever, mas aos “Companheiros do mesmo sistema corporativo e gremial dos operativos”. Essa acaba sendo uma opinião bastante estranha, pois desde os tempos antigos estamos diante de uma queixa quase permanente sobre a possível presença de artesãos, como cowans, cuja maldição está incluída no relato bíblico de Ezequiel 13.  10-15:

“Porque inclusive seduziram o meu povo, dizendo: Paz; não havendo paz; e um construiu um muro e eis que os outros o sujaram com lodo solto.”

Nas referências a seguir, eles são tratados ou assemelhados a intrusos, e de abomináveis,  fazendo-os passar continuamente, como “ouvintes intencionais” que desejam entrar nas lojas e, assim, obter a Palavra de Maçom, ou seja querer passar-se por, em todo caso querer passar-se por maçons, uma opinião encontrada em ambos os lados do Canal da Mancha, nessa sequência, primeiro como cowans e depois como espiões intrusos, embora seja necessário esclarecer que alguns seriam ouvintes involuntários (cowans) e outros seriam os ouvintes intencionais (espiões), a serem finalmente assemelhados aos Companheiros, que definitivamente serão classificados como indesejados.

Pessoalmente, estou inclinado a pensar que o Régulateur, em seu preâmbulo, quer abranger precisamente aqueles artesãos, qualificados em alguns setores como “vis, sem elevação e sem mérito”[5] e os Companheiros, como um reflexo do repúdio a esse estamento, dada sua história como guildas dentro da articulação do ofício na França.

Os maçons de Teoria e de Prática

Se isso era pouco dentro desse imbróglio terminológico da França do século XVIII, que relaciona os cowans ingleses a espiões e intrusos, etc., é perturbado pela chegada de outros significados e concepções controversos encontrados nos rituais franceses, que versam sobre os maçons de prática e de teoria.

Embora não deixe de ser certo que este assunto apresente muitos problemas ao lidar tanto com o conceito quando com a historiografia.

Um dos primeiros rituais que expõe a questão colocada é o ritual Luquet (1745). Em seu catecismo baseado na troca típica de perguntas e respostas, destaca-se a pergunta:

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos.

P. Quais são eles?

R. O M. de Teoria e o M. de Prática.

P. O que você aprende como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, para purificar nossas maneiras e nos tornar agradáveis a todos.

 P. O que é um M. de Prática?

R. Ele é um pedreiro, que trabalha a pedra e que levanta colunas sobre suas bases.

Aqui vemos, como um maçom de teoria se tornaria o virtuoso maçom especulativo com base no aceitação de bons elos cavalheiros, que formarão a associação da Grande Loja de Londres, em vez disso, o maçom de prática é apresentado como um simples e tosco pedreiro que não parece ter outro objetivo senão erguer colunas, ele não é um construtor, mas sua missão parece mais simples, como os antigos cowans, erguer pilares.

P. O que aprendeis como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, purificar nossos costumes, tornando-nos agradáveis a todo mundo. [novamente a presença dos cavalheiros ou gentis homens]

P. Quais são as principais qualidades de um M. de Teoria?

R. Ser um homem livre e discreto, igual aos príncipes reconhecidos por suas virtudes e amigo de Deus e do próximo.”

Eleva-se o elemento cavalheiro à categoria semidivina, ao contrário de como se expõe o artesão e o pedreiro, simplesmente um trabalhador da pedra, em que permanecerão pelo resto de suas vidas, pelo menos sob essa concepção medieval de estar sujeito ao ofício por toda a vida.

P. Que é o Maçom Prático?

R. Quem usa materiais nos edifícios.

P. Não pode ser tão virtuoso quanto nós?

R. Todo homem pode estar nesse estado; mas a grosseria e muitas vezes as razões mecânicas impedem praticamente que ele se una.

Essa discriminação é algo compartilhado por outra divulgação francesa do mesmo ano, a Sceau Rompu (1745) e que prossegue nessa mesma linha o Luquet em seus ditados, e onde essa exposição sobre a grosseria baseada na ruralidade como incapacidade de se projetar e ser portador de suficiente argamassa para que a Maçonaria lhe diga que

“não tem lugar para quem constrói suas paredes simbólicas sem o cimento do amor fraterno.”

Por outro lado, observar que na tradução apresentada pela editora Pardes esses dois termos foram traduzidos diretamente como “Maçons especulativos e Maçons Operativos”, conforme indicado na nota colocada no rodapé da página da tradução. O catecismo continua:

P. Quantas classes de maçons existem?

R. Maçons de teoria e Maçons de Prática.

P. O que aprendeis como M. de Teoria?

R. Uma boa moral, para purificar nossos costumes e nos tornar agradáveis a todos.

P. O que é um Maçom de Prática?

R. Um trabalhador de pedra que levanta perpendiculares (aprumadas) sobre suas bases.

Em relação ao exposto, insiste-se nesse erguer verticalmente de forma unânime, como aqueles que erguem muros e os Maçons de Teoria  seria o maçom especulativo que deve aprender, por sua condição, a obter uma boa moral, a purificar as maneiras e ser agradável a todos. Deverá observar o silêncio, o segredo, a prudência e a caridade, fugindo das calúnias e da intemperança, pois a Arte Real dos Maçons sempre teve o desejo de unir a prática da virtude e as artes liberais herdadas da antiguidade.

E esse objetivo é proposto à custa de rebaixar o pedreiro simples, maçom de prática, que lhes doou primeiro suas ferramentas e conhecimentos para com eles construir uma fraternidade, para depois despojá-lo de toda a sua ciência, de seu ser e estar no sítio da construção maçônica.

De qualquer forma, essa não é a novidade, mas que uma divulgação deixe tão claro que os maçons operativos não tinham nenhuma conotação espiritual ou esotérica e que obviamente não parecem ter eco na Maçonaria recém-criada por sua falta de empatia e amor fraterno, o que cria um paradoxo, já que tais afirmações vão contra a corrente mítica que elevou os maçons operativos como os grandes construtores das catedrais com toda a sua carga místico-esotérica.

Em textos como a Divulgação de 1745, ou a de 1748, Le Nouveau Catéchisme de Franc-maçons, ou os rituais do Marquês de Gages de 1763, ou mesmo nos rituais do Duque de Chartres de 1784, todos eles se alinham para deixar clara a razão diferencial entre Maçons Práticos e Teóricos (Operativos e Especulativos), e nessas apreciações não há grandes diferenças de conceito entre eles.

É mais um dos últimos rituais descritos como provenientes do ramo dos Modernos, e já terminando o século XVIII, como é o Corpo Completo da Maçonaria, adotado pela Grande Loja de França (1761 ou 1774) isso continua na mesma posição.

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos: Maçons de Teoria e os Maçons de Prática.

P. Quem são os Maçons de teoria?

R. São aqueles que aprendem uma forma de moral, purificam seus hábitos e se tornam agradáveis a todos.

P. Quem são os Maçons de Prática?

R. São os que talham a pedra e erguem a perpendicular (aprumada) sobre suas bases.

Essas definições na instrução do Segundo Grau do Regulateur (1786), voltam a reafirmar, com uma diferença entre uma e outra, mas rebaixando cada vez mais as funções do Maçom de Prática.

P. Quantos tipos de maçons existem?

R. Existem dois tipos, uns de Teoria e outros de Prática.

P. O que os aprendem os Maçons de Teoria?

R. Uma boa moral que serve para purificar nossos costumes e nos tornar agradáveis ​​a todos os homens.

P. O que é um Maçom de Prática?

R. É o trabalhador da construção.

Essa ideia da distinção entre ambos será mantida até o final do século XVIII, embora em parte vá se dissolvendo gradualmente, mas mesmo assim, surge alguma divulgação tardia que se afasta de tais paradigmas, como é o caso de Mahhabone (1766), que vai um pouco mais longe ao deixar para trás, pois assume o novo estado no qual o novo membro da loja deve ter tanto de cavalheiro quanto de pedreiro:

P. O que aprendestes ao se tornar Cavalheiro Maçom?

R. O Segredo, a Moral e a boa camaradagem.

P. O que aprendestes ao se tornar Maçom do Ofício?

R. A talhar a pedra em esquadro, dar forma à pedra, possuir o nível de habilidade com a perpendicular (prumada).

É evidente que a exposição Mahabone assume e adota as duas tipologias, é claro a dos cavalheiros como seu fundamento essencial, mas assumindo o elemento operativo como uma herança valiosa que o ajudará a elevar-se até o novo estado que propõem os cavalheiros, os quais

“trabalham de segunda a sábado, com giz, carvão de madeira e uma panela que significa Liberdade, Fervor e Zelo, essa é uma proposta um pouco diferente do futuro universo especulativo.”

A herança dos Antigos e dos Cowans um século depois

No entanto, dentro da corrente dos Modernos e no seio do continente, essa questão praticamente desaparece, exceto pela exceção do Régulateur, que eu já expus antes, por outro lado e a título de contraste, expor que a corrente dos Antigos recupera a antiga linha marcada pelos preconceitos.

É assim que a situação é apresentada em um texto do Catecismo de Instrução do REAA da Grande Loja da Espanha (GLE)[6].

P. Um maçom pode seguir sendo um Cowan?

R. Aquele homem que ingressa por mera curiosidade, para ganhar posição social ou vantagens nos negócios, o falso maçom é o verdadeiro cowan, uma fonte sutil de problemas dentro do corpo do Ofício, que certamente afetará a vida da Irmandade. se não se tiver cuidado.

A pergunta que poderíamos nos fazer é: Por que se segue recolhendo em diferentes textos do REAA a proposta de Anderson de 1738 em um documento de 2011 da Maçonaria de tradição espanhola?

A julgar pelo que alguns maçons anglo-saxões expõem, isso é relativamente fácil de entender, uma vez que os cowans são elementos exógenos das guildas da maçonaria especulativa, uma vez que são trabalhadores sem a palavra, que desejam ingressar em nossas fraternidades… e, portanto, esse termo tem sido o ideal para definir a situação.

Podemos verificar o mesmo no Duncans´Masonic Ritual and Monitor de 1866, e pertencente à herança Antiga:

P. Brother Tyler, your place in the Lodge. (Irmão Guarda do Templo Qual é vosso lugar em Loja?)

R. Without the inner door. (Fora da porta interna)

P. Your duty there? (Qual é o seu dever ali?)

R. To keep off all cowans and eavesdroppers, and not to pas o repas any but are duly qualified and have the Worshipful Master´s permission. (Manter afastados todos os profanos e bisbilhoteiros, e não deixe passar ninguém devidamente qualificado e sem a permissão do Venerável Mestre.)

Como já expliquei, no restante dos cadernos rituais franceses de raiz Moderna do século XIX, perde-se praticamente toda a referência à persistência nessas tessituras, exceto no Rito Francês Filosófico que retoma a questão, mas a partir de perspectivas novas e diferentes.

Conclusões

Com base no exposto sobre os famosos cowans, pode-se resumir o que segue:

  • Temos no início de toda essa história na região anglo-saxônica alguns pedreiros rurais (wallers ou construtores de muros) coexistindo no tempo e, circunstancialmente, nos mesmos lugares com os poderosos setores do Ofício (Craft) de caráter marcadamente urbano: guildas, confrarias, corporações, etc. .
  • Pedreiros rurais apontados pelas corporações de ofício como pedreiros marginais, ou mão de obra eventual, a quem designam em vários documentos como “Cowans”. (Canongate, Glasgow, Morher Kilwinning, York, Lodge Aitchison´s Haven).
  • Cowans, que, nas Old Charges, e em alguns outros regulamentos e documentos, são mencionados em relação ao exercício e regulamentação do Ofício, nos quais lhes são atribuídas uma certa especificidade profissional de natureza rural limitada à construção de muros e pequenas construções no meio rural e, portanto, a eles são reduzidos as áreas de trabalho e dedicação. (Estatutos de Shaw, manuscritos DumfriesWilkinson).
  • Termo que provém dos usos operativos da Escócia e que aparece em solo inglês e seus textos regulatórios no final do século XVII e início do século XVIII, estendendo esse termo em relação à Maçonaria a qualquer pessoa que não fosse um maçom especulativo.
  • Como tais trabalhadores da cantaria rural não estavam inseridos nos grupos das guildas urbanas do Ofício, ficando à margem da posse da Mason’s Word (Palavra do Maçom), que dava opção para mais benefícios de trabalho ou proteção.
  • Tais cowans aparecem no seio da ritualidade no início do período especulativo como tais cowans, mas também sob descrições: espiõesintrusos, etc., e sob o pretexto de entrar secretamente na Maçonaria, conforme apresentado em diversos textos. (Confissão de Maçons, Constituições de Anderson,)
  • São o resultado de campanhas de assédio e ridicularização, tanto nos rituais quanto por outros meios: canções e desenhos, nos quais são apresentadas como tal e conforme ocorre  no Ahiman Rezon, como imorais e abomináveis.
  • Na ritualidade francesa, o termo cowan vai adquirindo outros significados já comentados:  espiõesintrusos, e como profanos indignos, perdendo a raiz original, aparecendo certos problemas de tradução e interpretação ao perder a raiz.
  • A adaptação do termo cowan nos meios de comunicação de massa maçônicos franceses transformou sua presença como maçons de prática, como um ponto de ruptura e separação entre o mundo operativo e o mundo especulativo, que se apresenta como um simples obreiro que levanta colunas e sem atitudes, devido à sua grosseria.
  • Volta ao conceito de marginalização operativa, ou seja, considerando cowans certos setores do Ofício: os artesãos e os Companheiros(Régulateur du Maçon).
  • Desaparecimento prático, dentro da raiz dos Modernos no século XIX, de tais significados denegridores.
  • Presença dos velhos clichês operativos dentro da corrente dos Antigos e até o século XIX. ( Ritual e Monitor de Duncans)

Em geral, este estudo quis demonstrar como um termo que esteve presente por mais de um século em nossos rituais, como os cowans, foi sendo alterado em termos de definições, disseminação e desenvolvimento, em cujo setor do Ofício foi marcado com sangue e fogo sob alguns conceitos como pedreiros, artesãos ou companheiros, mas sob percepções ou tratamento pejorativos como espiões, intrusos, detestáveis ou abomináveis de quem a Maçonaria se serviu para denegrir e atribuir certas atitudes, quando, de fato, como diz Bob Walker da Grande Loja da Escócia, nunca esses [cowans] representaram um problema ou uma ameaça para Maçonaria[7].

No entanto, houve toda uma concomitância em querer apresentar os cowans sob diferentes denominações como pessoas que não são capazes de construir nada no seio da Maçonaria, porque lhes faltariam, como diz um maçom inglês “o cimento que supõe o amor fraternal”, recorrendo à mesma Bíblia em que o livro de Ezequiel 13:10-15 dedica um flagelo cruel a esses simples pedreiros rurais que constroem muros sem argamassa.

“Deste modo, destruirei o muro que vós cobristes com lodo solto, e o jogarei por terra, e sua fundação será descoberta e cairá, e sereis consumidos no meio dela; e sabereis que eu sou Jeová. Assim, cumprirei minha fúria no muro e naqueles que o cobriram com lodo solto; e eu vos direi: Não existe muro, nem quem o revestiu.”[8]

Não deixa de ser curioso que uma fraternidade como a maçônica, baseada no objetivo de “reunir os dispersos”, tenha mantido essa discriminação e denigração por tanto tempo.

Um termo como “cowans” que, se não fosse pela atenção ou estudo de autores como Mackey, Joseph Fort Newton, Henry Carr ou Sudarkis…, teria sido esquecido, perdendo toda a sua marca.

Estas são as investigações e reflexões que pude conceber para trazer à tona as velhas dúvidas maçônicas que desde a idade de aprendiz maçom eu vinha arrastando em relação a esses estranhos pedreiros rurais, os cowans.

FINIS

Autor: Victor Guerra
Tradução: José Filardo

Fonte: BIBLIOT3CA

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Publicado originalmente em: ritofrances.net/

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Notas

[1]Stevenson, David.Les Premiers Francs-Maçons. Les Loges Écossaises originelles et leursmembres. Éditions Ivoire-Clair. 2000.

[2]http://pierresvivantes.hautetfort.com/archive/2013/12/15/rene-guenon-et-les-origines-de-la-franc-maconnerie-les-limit-5247265.html#_ftn3, (René Guénon y los orígenes de la masonería: los límites de una mirada).

[3]Régulateur du Maçon. Editor Masonica. Es.

[4] – Berton, Hugues ; Imbert, Christelle. Les Enfants de Salomon. Approches historiques et rituelles sur le Compagnonnages et la franc-maçonnerie. Éditions Dervy. 2015.

[5] – Anatole de Maontaignon. Etat des ouvriers ramenés d’Italie par Charles VIII, 1497-8. Archives de L´Arte Français. T. 1. 1906.

[6]Lectura de Instrucción por preguntas y Respuestas, basadas en los catecismos y textos tradicionales del REAA. GLE. 2011.

[7] – Are there Cowans in our midst? http://www.themasonictrowel.com/Articles/General/other_files/are_there_cowans_in_our_midst.htm

[8] – Ezequiel 13. 14-15

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Selo Maçonaria - Otavio Silveira | Maçonaria, Simbolo maçonaria ...

1. Maçonaria é um lugar para passar tempo com bons homens que vão fazer você querer se tornar um homem melhor;

2. Maçonaria é um lugar onde a virtude moral é ensinada e respeitada como a pedra angular da vida;

3. Maçonaria é um lugar onde o crescimento espiritual de cada membro pode atingir o seu potencial máximo;

4. Maçonaria é um lugar para se tornar melhor preparado para auxiliar sua família, a sua igreja e sua comunidade;

5. Maçonaria é um lugar onde você pode fazer parte de uma grande fraternidade que acredita no Amor Fraternal, Auxílio e Verdade;

6. Maçonaria é um lugar onde você pode apoiar os outros e dar-lhes incentivo, bem como ser incentivado;

7. Maçonaria é um lugar onde pessoas excepcionais de diversos setores da sociedade que te cumprimentarão e irão lhe chamar de “Irmão”;

8. Maçonaria é um lugar para conhecer líderes da sua comunidade e participar ativamente nas ações realizadas no seu município;

9. Maçonaria é um lugar onde encontrará oportunidade ilimitada de adquirir experiência em liderança, auto-desenvolvimento e crescimento pessoal;

10. Maçonaria é um lugar onde você pode ter a certeza de que todos os homens são amigos verdadeiros e fraternos.

Autor: Robert L. D. Cooper
Tradução: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: página oficial do autor no Facebook

Robert Cooper é escritor, historiador, maçom, curador do Scottish Masonic Museum and Library, na Grande Loja da Escócia.

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