Maçonaria: História e Historiografia – Parte II

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Varnhagen: maçonaria e constitucionalismo

Dois temas interligados constroem o nexo explicativo das páginas de Francisco Adolfo de Varnhagen, visconde de Porto Seguro (1816-78), sobre o processo de emancipação política do Brasil:

  • maçonaria e conspiração revolucionária;
  • maçonaria e constitucionalismo.

Concluído três anos antes da morte de seu autor, porém publicado apenas em 1916, História da Independência do Brasil introduz o relato das ações conspirativas maçônicas logo à página 2 do primeiro capítulo dedicado à Revolução Constitucional do Porto e à questão do regresso de d. João VI a Portugal. Esta primeira menção à maçonaria aparece com uma naturalidade de estilo bastante reveladora de uma época em que o tema da maçonaria e da conspiração revolucionária já vinha há muito impregnando o imaginário social. “Intentou a Maçonaria em Portugal, no ano de 1817, uma primeira conspiração, para o aclamar rei constitucional…”[12].

O segundo tema, maçonaria e constitucionalismo, já se evidencia nesta menção introdutória à organização maçônica, em que fica clara a utopia de uma monarquia constitucionalista em lugar do antigo regime monárquico absolutista. De fato é esse tema que ganha relevo ao longo do livro de Varnhagen.

Segundo este autor, a Revolução Constitucionalista triunfante de 1820 marcava uma nova era para o Brasil. Havia duas opções políticas para esta colônia portuguesa: não apoiar os revolucionários portugueses, e desse modo tornar-se um Estado independente; ou então aderir a eles, e libertar-se duplamente do antigo regime absolutista e do “jugo humilhante do Estado colonial”, o que de resto já era um fato desde a vinda da corte para o Rio de Janeiro[13]. Ou seja, as duas opções que se abriam para o Brasil a partir de um acontecimento revolucionário d’além-mar – impulsionado desde os seus primórdios pelas ações maçônicas – marcavam a abertura da era da constitucionalidade. Fosse como país independente, ou como parte de um Reino Unido constitucional, o Brasil teria o caminho aberto para construir novas instituições políticas[14].

Como mostra Varnhagen, as novas instituições políticas do Brasil germinaram a partir dos planos constitucionalistas de líderes maçons congregados no Grande Oriente. De um lado, formulou-se a estratégia da conquista política do príncipe d. Pedro I, o qual após muitos apelos, queixas, pressões, conversações e homenagens acaba se assumindo duplamente como brasileiro e como irmão maçom. De outro lado, tratou-se de se organizar no Brasil um governo perpetuamente livre, o que significava não só obter a sua independência em relação a Portugal, como também fundar “uma Assembleia Geral de Representantes das Províncias do Brasil”[15].

É interessante notar como Varnhagen constrói a identidade maçônica dos personagens atuantes no processo de independência. Esses personagens, congregados em seus “clubes maçônicos”, por um lado pensam e agem imbuídos de sentimentos liberais e constitucionais e, por outro, expressam um profundo sentimento de brasilidade. A maçonaria aqui aparece como essencialmente brasileira, com impulsos nacionais próprios. Seus laços efetivos com irmãos maçons do outro lado do Atlântico parecem tênues e mesmo inexistentes a não ser pelo impulso revolucionário que lhes vem inicialmente de Portugal e pelo significado que aquelas mesmas ideias constitucionalistas adquirirão em solo brasileiro. Os desviantes desses sentimentos liberais e nacionais, como é o caso de José Bonifácio de Andrada e Silva, na visão de Varnhagen, agem movidos por objetivos privados, egocêntricos e despóticos. José Bonifácio, grão-mestre do Grande Oriente, desliga-se da maçonaria e, em meados de 1822, funda o Apostolado, sociedade rival “que veio a ocasionar tantos desgostos e chegou quase até já a pôr em risco a paz interna do Brasil, nos momentos solenes da proclamação da Independência”[16]. José Bonifácio é o único revolucionário brasileiro a ser despojado de sua identidade maçônica nas páginas de Varnhagen.

Oliveira Lima: maçonaria, republicanismo e “democracia coroada”

Ao tratar de um longo período da história do Brasil, que se estende desde as vésperas da Independência até o fim do regime monárquico, Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) distingue duas fases da história do Império brasileiro. A maçonaria que também aparece com relevo em sua abordagem atravessa igualmente essas duas fases. Ou seja, de 1824 a 1848, temos uma história de instabilidade política, sobressaltada constantemente por lutas civis. Nessa fase os maçons são revolucionários, anti-religiosos e republicanos. Abre-se em seguida um longo período de paz e ordem interna que se estende até 1889. Nessa fase os maçons já não são revolucionários e nem contrários à religião. Pelo contrário, eles se incorporam às instituições de Estado, desempenhando papéis de relevo no cenário político e tornando-se tão-somente “irreligiosos”. Quanto ao seu republicanismo, ele foi sacrificado diante da ameaça de anarquia visualizada nos bandos de negros e mulatos armados e nos “ódios de nacionalidades”. Em seu lugar pretenderam “republicanizar a Constituição Imperial, conservando muito embora a forma de governo”. Era o regime de “democracia coroada”[17].

É interessante notar aqui dois aspectos distintivos da abordagem de Oliveira Lima em relação à de Varnhagen. Em primeiro lugar, Oliveira Lima associa a maçonaria com a presença estrangeira no Brasil. Segundo ele, após a dissolução da Constituinte em 1823, o republicanismo que havia sido abafado à época da Independência alastrou-se rapidamente por várias províncias, sobretudo no nordeste. Neste movimento revolucionário a presença de “elementos de outras nacionalidades” era um atestado da atuação de sociedades secretas, isto é, de lojas maçônicas, cujas “ideias subversivas dos tronos” transmitiam-se rapidamente de um país a outro, de um continente a outro[18]. Em Varnhagen, como vimos, essas conexões internacionais não são tão evidentes, embora sejam reconhecidas implicitamente a partir da menção inicial à primeira tentativa de uma revolução constitucional durante a conspiração maçônica de 1817[19].

Em segundo lugar, Oliveira Lima estabelece uma equivalência nítida entre maçonaria e republicanismo. Como vimos acima, maçons estrangeiros espalhavam rapidamente ideias subversivas aos tronos, isto é, o ideal republicano, em vários países do mundo, o Brasil inclusive. Havia, além disso, um empenho dos “revolucionários de fora” em assegurar que o continente americano fosse inteiramente republicano[20]. Varnhagen, por seu turno, estabelece uma equivalência entre maçonaria e constitucionalismo. Embora ele faça menção “a alguns que se inclinavam à democracia e republicanismo”, sem esclarecer, porém, quem seria essa minoria, ele deixa claro que os maçons brasileiros defenderam a Independência combinada com a instituição da monarquia constitucional. Para isso o Grande Oriente tratou de conquistar o príncipe d. Pedro, instilando-lhe um sentimento de brasilidade e recebendo-o como irmão maçom[21].

Apesar de enfatizar as conexões internacionais da maçonaria, o conteúdo republicano de seus ideais e sua atuação revolucionária em várias províncias em meados da década de 1820, Oliveira Lima deixa claro que os fatores internos foram decisivos para as mudanças subsequentes do cenário político brasileiro. Para ele, mais do que “por quaisquer conluios locais, com revolucionários de fora em prol da integridade republicana do continente”, a continuidade da monarquia esteve ameaçada devido à rivalidade que se instaurou entre o Executivo, sustentado pelo soberano, e o Legislativo, sustentado pelo eleitorado. Os “excessos de autoridade”, de um lado, e “repúdios da vontade popular”, de outro, fizeram temer a muitos que, como Teófilo Ottoni, preferiram sacrificar seus ideais democráticos antes que o despotismo militar ou a anarquia se instaurassem. A opção final pela “democracia coroada”, isto é, a Constituição imperial republicanizada, assegurou portanto a união das províncias e a permanência do regime constitucional.

A despeito das diferenças de abordagem com relação à maçonaria e sua presença na vida política nacional, Oliveira Lima e Varnhagen convergem para ressaltar o empenho dos maçons brasileiros em defender a nação emergente, assegurando-lhe um regime de governo pautado prioritariamente pela Lei. Por isso podemos concluir afirmando que também em Oliveira Lima a identidade maçônica é preenchida com dois atributos básicos: nacionalismo e constitucionalismo.

Caio Prado Jr.: da maçonaria à brasilidade

Na comparação entre os primeiros historiadores brasileiros e os historiadores do presente podemos perceber, nos estudos destes últimos, a perda da identidade maçônica por vários personagens de destaque na história política do Brasil do século XIX. Como evidenciam as narrativas de dois ilustres historiadores do passado, analisados acima, muito do que se passava no campo da política era compreendido à luz daquilo que poderíamos denominar de cultura da maçonaria. Refiro-me com isso aos valores, simbologia, ideais e ao cotidiano das lojas, com seus rituais, banquetes, debates, cismas, enfim, o conjunto das utopias e redes de sociabilidade formadoras de uma identidade maçônica.

Nos estudos do presente, os mesmos personagens aparecem sem que por vezes sequer se mencione a sua filiação maçônica. Mas o mais comum é que este aspecto de sua vivência seja relegado ao campo dos detalhes obrigatórios da redação informada historiograficamente, porém sem significado em termos de conteúdo compreensivo. Assim, é frequente encontrarmos apostos do tipo: “congregados nas lojas maçônicas”, “Grão-Mestre do Grande Oriente”, “apoiado pela loja América”, etc. Embora pretendam acrescentar um dado a mais na explicação de determinados personagens, tais apostos são pouco elucidativos se não se fazem acompanhar da compreensão da cultura maçônica vivenciada por eles na época.

Podemos acompanhar o início dessa tendência de negação da identidade maçônica, presente atualmente nos estudos históricos produzidos no âmbito da universidade, na abordagem de Caio Prado Jr. É possível que nenhum outro autor contemporâneo tenha enfrentado mais diretamente a questão da maçonaria e seu significado no conjunto da história política e social do Brasil do século XIX[22].

As reflexões de Caio Prado Jr. sobre a presença maçônica em meio à chamada crise do sistema colonial expressam uma certa tensão entre o reconhecimento do papel político decisivo da maçonaria e a negação deste, visto que as transformações econômicas seguiriam o seu curso histórico inevitável. Segundo este autor, passados três séculos de existência e de ganhos significativos, o sistema de colonização adotado no Brasil pela metrópole portuguesa chegara ao seu ponto de “consumação”. As contradições do sistema colonial, tais como os conflitos interclasses (cisões entre proprietários), conflitos de classe (entre senhores e escravos) e conflitos étnicos, eram tão profundas que vários “reformadores” acenaram com projetos para a sua salvação em fins do século XVIII. Entretanto, as possibilidades do sistema colonial haviam se esgotado, sendo necessário substituí-lo por outro[23].

Em meio à crise geral do sistema colonial, a única organização que se orientava e se conduzia “com mais precisão e segurança” era a maçonaria. Caio Prado Jr. distancia-se das abordagens tradicionais que restringiam o seu enfoque de visão à atuação do Grande Oriente do Rio de Janeiro e ao Apostolado dos irmãos Andradas. Para ele, o papel da maçonaria era “muito mais amplo e profundo”, e sobretudo “orgânico, articulado dentro e fora da colônia, sistemático e consciente”. Isso significa chamar a atenção para o fato de que a política brasileira emergia, já em suas origens, articulada a “um movimento internacional de proporções muito mais vastas”[24].

Caio Prado Jr. não deixa dúvidas até aqui sobre o significado político da maçonaria no Brasil em fins do século XVIII e início do XIX. Os personagens de relevo no cenário político brasileiro, em sua maioria, são maçons e atuam a partir de lojas espalhadas pelos principais centros da colônia, articuladas entre si e também com as da Europa, dos Estados Unidos e demais colônias americanas. Mais do que qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos é a ação da maçonaria que controla, nos bastidores, os acontecimentos da história brasileira[25].

Entretanto, neste momento Prado Jr. inicia um ponto de inflexão distinto em sua análise sobre o papel da maçonaria na solução da crise do sistema colonial. A despeito de sua importância em termos organizativos, a maçonaria não acrescentará e nem tirará nada de substancial dos acontecimentos brasileiros, “como aliás seria absurdo imaginar”. À maçonaria interessava apenas atingir mais um reduto do absolutismo europeu, isto é, a monarquia portuguesa. Já aos maçons que agiam dentro do Brasil interessava a solução das questões internas colocadas pela crise do sistema colonial. A maçonaria servia-lhes tão somente como “estimulante” na medida em que lhes proporcionava uma organização, isto é, “a possibilidade de uma maior unidade de vistas e de ação conjunta”. Na verdade os maçons brasileiros agiam antes como brasileiros do que como maçons; na falta da maçonaria, teriam agido do mesmo modo, porém de forma mais desorientada; ou teriam “recorrido a outra organização semelhante, feita sob encomenda e que a teria substituído”[26)].

Podemos inferir desta abordagem de Prado Jr. dois tipos de dissociação analítica. Primeiramente temos a valorização da ação política em nível nacional – o brasileiro estimulado pela maçonaria internacional, perseguindo porém objetivos estritamente nacionais – em detrimento da ação política articulada internacionalmente.

Em segundo lugar, podemos perceber a dissociação operada entre política e economia. A ação política da maçonaria era fundamental para desestabilizar a tirania dentro e fora da colônia; porém o sentido desta mesma ação política já estava dado pelos fatos objetivos da economia colonial. Com ou sem maçonaria, na falta de qualquer organização, ou contando com outra qualquer, os revolucionários brasileiros agiam movidos pela necessidade de reformas na infra-estrutura econômica, o verdadeiro “fio condutor” da análise deste autor, nas suas próprias palavras[27]. Os brasileiros e todos aqueles com interesses diretos na colônia sabiam da necessidade de reformas e “encontraram na maçonaria um instrumento ideal”.

Em conclusão, podemos identificar em Prado Jr. o início da tendência de negação de uma identidade maçônica aos personagens atuantes no processo de emancipação política do Brasil. Há mais uma troca de favores entre maçonaria e brasileiros do que uma simbiose entre eles. Os brasileiros tomaram a maçonaria apenas como um instrumento para facilitar as reformas necessárias. Já a maçonaria servia-se dos brasileiros para derrubar o absolutismo português. Nas palavras de Prado Jr., “[…] a maçonaria não poderia torcer os fatos da nossa história. Limitou-se a tirar partido deles para os seus fins, como os primeiros [os brasileiros] tirariam dela para os próprios”[28].

A história da maçonaria no Brasil não teria passado, portanto, na visão de Prado Jr., de uma relação instrumental, de importância momentânea e – por que não explicitar? – secundária. Nossos maçons não foram na sua essência maçons, mas sim brasileiros, e ao final das contas a importância da sua ação política parece residir precisamente neste fato[29].

Margaret C. Jacob: novos rumos da historiografia ocidental

O desinteresse no âmbito da universidade com respeito à história da maçonaria não é um fato a ser assinalado somente para a historiografia brasileira. Nos países de língua inglesa, e mesmo na França, onde os historiadores da chamada Escola dos “Annales” têm se destacado pela descoberta de novos temas e objetos, pouco se pesquisou e escreveu sobre a maçonaria[30].

As razões para um tal descaso foram assinaladas por Margaret C. Jacob, cujas pesquisas contribuem para a redescoberta do tema da maçonaria. Primeiramente é preciso lembrar o impacto do mito da conspiração maçônico-judaica que perpassou o imaginário europeu desde o início da década de 1930. Outra razão é que o tópico da maçonaria tem sido dominado pelos próprios maçons e seus oponentes, nenhum deles muito cuidadosos em seu uso das evidências históricas. O caráter secreto da maçonaria também tem contribuído para um certo preconceito em relação a ela, na medida em que muitos a consideram por isso como irracional e, em decorrência, como “coisa de lunáticos”. Além disso, em países como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, as lojas maçônicas deixaram há muito de ser enclaves de liberais e progressistas como acontecia no século XIX[31].

Este silêncio em torno da história da maçonaria, imperante no mundo acadêmico desde meados dos anos 1940, ficou evidente durante o Congresso Internacional do Bicentenário  da Revolução Francesa, realizado em julho de 1989 na Universidade de Sorbonne. Entre as mais de duzentas comunicações apresentadas durante o evento, não houve uma sequer sobre a maçonaria francesa[32].

Entretanto tem sido grande o interesse pela história social do Iluminismo, o que se revela em tentativas recentes de transpor os limites tradicionais da história intelectual com enfoque preferencial nos grandes filósofos e seus escritos. Como resultado do impacto das proposições inovadoras da Escola dos “Annales”, temos atualmente a visão de dois Iluminismos se desenrolando ao longo do século XVIII. De um lado o Iluminismo intelectual dos grandes filósofos, até o momento o mais trabalhado pela historiografia, e, de outro, o Iluminismo popular, não-intelectual, ainda pouco pesquisado, mas de veio muito promissor[33].

Para Jacob, o problema que se coloca agora para a historiografia é encontrar a ponte entre estes dois Iluminismos, o Iluminismo dos filósofos e o Iluminismo popular. Em busca destas ligações, historiadores da Escola dos “Annales” têm se voltado para a pesquisa das academias provinciais da França e nelas encontrado redutos importantes de debate e difusão da racionalização iluminista.

Mas Jacob acredita que as lojas maçônicas representaram um papel muito mais abrangente na construção de pontes entre os dois Iluminismos. Primeiramente é preciso lembrar que, ao contrário das academias provinciais da França, as lojas maçônicas não foram uma criação do Estado e nem mantiveram ligações íntimas com ele. Podiam identificar-se eventualmente com reis e aristocratas, mas ocupavam sempre um espaço intermediário entre o oficial e o oficialmente suspeito.

Além disso as lojas maçônicas não se restringiam a nenhum limite regional ou nacional, mantendo ligações organizativas e culturais permanentes com lojas-irmãs de outros países. As lojas maçônicas significavam, portanto, não só a possibilidade cotidianamente renovada de construção de pontes entre os dois Iluminismos, como também de transmissão cultural da ideologia da Razão em nível internacional[34].

Desse modo, para Jacob, redescobrir o tema da maçonaria significa sobretudo contribuir para a história social do Iluminismo. Isso porque ao mesmo tempo que as lojas refletiam as tensões sociais do Antigo Regime, com seu apreço aos símbolos tradicionais de status e hierarquia, elas ofereciam a alternativa inerente à nova cultura política e secular iluminista: um foro público em que os indivíduos disputavam o poder, votavam, elegiam representantes e encontravam identidade em um organismo separado da identidade comunitária proporcionada pelo parentesco Igreja e Estado[35].

Além de servirem como escolas práticas de governo, nas quais se aprendia a debater e competir dentro de regras constitucionais e representativas, as lojas maçônicas construíam uma rede de caridade sistemática, prevendo auxílios diretos aos irmãos necessitados, abrigo aos viajantes maçons de outras paragens, escolas para crianças pobres e orfanatos para filhos e viúvas desamparadas. Buscava-se desse modo concretizar a utopia da fraternidade maçônica universal[36].

A vontade de agir fraternalmente não excluía porém o reconhecimento das distinções sociais dentro das lojas. Entre os tipos de auxílio aos irmãos pobres, havia em lojas holandesas do século XVIII a prática de se distribuir dinheiro na passagem de ano entre os maçons-servos, isto é, servos em lares de filiados, admitidos nas lojas como irmãos, porém com a atribuição de servir aos outros irmãos durante os seus rituais[37].

Este último aspecto evidencia com nitidez o encontro entre os dois mundos – o Antigo Regime e o mundo moderno emergente – tal como enfatizado por Jacob. No cotidiano das lojas maçônicas misturavam-se as culturas desses dois mundos: valores tradicionais patriarcalistas associavam-se à nova linguagem do constitucionalismo; e antigas tradições de caridade e amizade, herdadas das guildas medievais, permeavam organizações voluntárias de apoio mútuo.

Mas a percepção do encontro desses dois mundos no interior das lojas não nos deve levar a imaginar que se houvesse alcançado um ponto estático de convivência entre eles. A prática do constitucionalismo significava a possibilidade de novas mediações a cada nova decisão tomada pelos filiados reunidos nas lojas. Essas novas mediações, porém, nem sempre eram alcançadas harmoniosamente, como se pode  perceber ao longo da história de conflitos e cisões em lojas maçônicas. Nesse sentido a maçonaria pode ser visualizada como uma espécie de microcosmo da sociedade moderna emergente, em que leis e sociedades são entendidas como instituições humanas, sempre sujeitas a alterações por vontade da maioria[38].

Maçonaria e Nova História

Os novos rumos da história da maçonaria assinalados acima nos convidam a repensar a história da sociedade brasileira em seu primeiro século de independência política. A história da maçonaria em sua dimensão social e cultural, tanto no plano interno quanto no seu entrelaçamento com lojas maçônicas de diversos países, traz a possibilidade de ultrapassarmos os esquemas empobrecedores que ora enfatizam os movimentos reflexos da sociedade brasileira em relação à economia internacional e às ideias políticas e filosóficas “importadas”, e ora realçam de tal modo a vida interna do país a ponto de sua história perder qualquer vínculo com movimentos históricos internacionais.

Se quisermos alcançar uma melhor compreensão da sociedade brasileira no século XIX, será preciso começar resgatando a maçonaria do seu atual estágio de invisibilidade. Como ponto de partida para compreendermos o significado histórico da maçonaria no Brasil, devemos formular novas questões às fontes de pesquisa, a começar pelas razões por que tantos dos nossos mais conhecidos personagens filiavam-se a lojas maçônicas. O que significava ser maçom? O que se almejava com isso? Que espécie de utopias se projetavam em seus rituais? O que se alcançava através dos laços de sociabilidade maçônica? Enfim, por que ser maçom tornou-se uma espécie de lugar-comum de quase todos aqueles que se empenhavam em fazer parte de uma elite ilustrada, fossem eles nascidos em famílias abastadas, como o visconde do Rio Branco, ou de origem humilde, como o ex-escravo Luís Gama? A busca de respostas para essas questões aponta, portanto, para a necessidade de se pesquisar a história social e cultural da maçonaria. Ao mesmo tempo, ao expandirmos o campo de visibilidade da maçonaria a partir da sua compreensão dentro de uma história abrangente da sociedade, tanto na sua vida interna quanto nas suas conexões internacionais, estaremos também contribuindo para se repensar a história política do Brasil.

Autora: Celia M. Marinho de Azevedo

Fonte: Revista USP

Célia é é graduada em jornalismo (1974) e em ciências sociais (1983), ambos pela Universidade de São Paulo; mestre em história (1985) pela Universidade Estadual de Campinas; M. Phil. (1991) e PhD em história (1993), ambos pela Columbia University, New York, Estados Unidos. É professora doutora aposentada da UNICAMP.

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Notas

[12] – Francisco Adolfo de Varnhagen, História da Independência do Brasil (publicado conjuntamente com História Geral do Brasil, 3 vols.), vol. 3, tomo 5, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1981.

[13] – Idem, ibidem, p. 23.

[14] – iVarnhagen acreditava que esse caminho seria de resto facilitado pelo fato de que d. João VI era “talhado de molde para um bom rei constitucional” (idem, ibidem, p. 18).

[15] – Idem, ibidem, pp. 85-6, 118- 9, 127, 129. As palavras entre aspas são de Joaquim Gonçalves Ledo, membro do Grande Oriente, em requerimento ao príncipe d. Pedro. Ledo havia sido eleito dois dias antes para o Conselho de Procuradores, cujo caráter consultivo e aristocrático desagradava aos políticos liberais, entre eles os filiados ao Grande Oriente do Brasil.

[16] – Idem, ibidem, pp. 123-4, 158-60.

[17] – Manuel de Oliveira Lima, O Império Brasileiro (1821-1889), Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1989; a primeira edição é de 1927; pp. 15, 19-20, 123-4.

[18] – Idem, ibidem, p. 19.

[19] – Varnhagen, op. cit., p. 18

[20] – Oliveira Lima, op. cit., p. 19.

[21] – Varnhagen, op. cit., pp. 77, 129. D. Pedro recebeu o nome de Guatimozin, e logo em seguida tornou-se grão-mestre do Grande Oriente.

[22] –  É interessante observar aqui que outro importante historiador contemporâneo, Sérgio Buarque de Holanda, limitou-se a registrar em algumas linhas o declínio da maçonaria numa suposta substituição desta pelo movimento positivista. Não oferece, no entanto, explicações e evidências para esta tese apenas acenada no início de um capítulo significativamente intitulado “Da Maçonaria ao Positivismo”. Haveria aqui implicitamente uma vontade de encerrar definitivamente o assunto maçonaria na história do Brasil? Ver: O Brasil Monárquico – Do Império à República, tomo 2, vol. 5, São Paulo, Difel, 1985, pp. 289-305.

[23] – Caio Prado Jr., Formação do Brasil Contemporâneo, São Paulo, Brasiliense, 1973; a primeira edição é de 1942; pp. 358-69.

[24] – Idem, ibidem, pp. 370-1.

[25] – Idem, ibidem, pp. 372-3.

[26] – Idem, ibidem, pp. 373-4.

[27] – Idem, ibidem, pp. 358-9.

[28] – Idem, ibidem, pp. 372-3.

[29] – De um modo geral a historiografia tem incorporado esta tese de Prado Jr. através de breves menções à maçonaria, ou mesmo permitindo-se silenciar totalmente em relação a ela. Prado Jr. também está presente na análise de Barreto (op. cit.), em seu capítulo sobre as sociedades secretas. Há porém três teses acadêmicas sobre a maçonaria no Brasil que levam em consideração a identidade maçônica de seus personagens e sua participação na história do Brasil: David Gueiros Vieira, O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil, Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 1980; Jamil Almansur Haddad, O Romantismo Brasileiro e as Sociedades Secretas do Tempo, tese para a Cadeira de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, 1945; e Sister Mary Crescentia Thornton, The Church and Freemansory in Brazil, 1872-1875: a Study in Regalism, Washington, D. C., The Catholic University of America Press, 1948. A tese de Thornton, embora amparada em vasta pesquisa, poderia entretanto ser classificada entre a literatura de cunho partidário, tal a defesa que ela faz da Igreja Católica na luta contra a maçonaria. Mais recentemente percebe-se uma renovação de interesse em compreender a história da maçonaria em termos de sua cultura e redes de sociabilidade, bem como suas contribuições para a constituição de uma identidade política nacional. Importante contribuição nesse sentido é a de Alexandre Mansur Barata, “Luzes e Sombras: a Ação dos Pedreiros Livres Brasileiros (1870-1910)” (dissertação de mestrado, Universidade Federal Fluminense, 1992). Partes desta dissertação podem ser conhecidas em dois artigos: “A Maçonaria e a Ilustração Brasileira”, in História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 1, n. 1, Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz, julho/outubro 1994, pp. 78-99; “Os Maçons e o Movimento Republicano (1879-1910)”, in Locus, Revista de História, vol. 1, n. 1, Juiz de Fora, NHR/EDUFJF, 1995, pp. 125-41.

[30] – É preciso, entretanto, mencionar um importante estudo sobre a sociabilidade meridional francesa – incluindo-se aqui um capítulo sobre a maçonaria – publicado na França em 1968: Maurice Agulhon, Pénitents et Francs-Maçons de l’Ancienne Provence – Essai sur la Sociabilité Méridionale, Fayard, 1984. A noção de sociabilidade, introduzida por ele no vocabulário dos historiadores dos “Annales”, tem adquirido crescente relevo na história social e cultural dos últimos anos. Sem essa noção dificilmente compreenderíamos a história da maçonaria. Entretanto, conforme sugere Jacob, Agulhon não teve muitos seguidores na França no tocante à pesquisa da história da maçonaria propriamente dita.

[31] – Jacob, op. cit., pp. 221-2.

[32] – Idem, ibidem, p. 17; Jacob chama a atenção para o fato de este congresso ter sido organizado por marxistas franceses.

[33] – Idem, ibidem, p. 222.

[34] – Idem, ibidem, p. 222-4.

[35] – Idem, ibidem, p. 179, 204.

[36] – Idem, ibidem, pp. 48, 165-7, 210-1.

[37] – Idem, ibidem, p. 165.

[38] – Idem, ibidem, p. 47.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, nº 273, jurisdicionada à GLMMG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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